Séries de tevê

Lost s05e07

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 38 comentários

(Spoilers.)

Vejam só que interessante: ao longo das últimas três temporadas, Benjamin Linus forneceu ao espectador mil motivos para que desconfiássemos de suas intenções. E, ainda assim, sempre que ele parece agir com bons motivos, sentimos a tentação de confiar no sujeito – apenas para sermos novamente surpreendidos quando ele revela pela enésima vez ter mentido (embora já devêssemos esperar por isso). Esta fascinação inspirada pelo personagem, o melhor da série, deve-se muito à caracterização ambígua de Michael Emerson, claro, mas também aos roteiros da série. Mas o mais curioso é perceber que mesmo que agora tenhamos motivos reais para concluir que Ben é um crápula, já que testemunhamos um ato de indizível crueldade e sangue frio por ele praticado, ainda assim tendemos a pensar que talvez haja alguma razão por trás de suas ações; algo nobre, digno de aplausos.

Claramente um episódio criado para preencher as lacunas deixadas ao longo desta e da última temporada, esta sétima "hora" da quinta temporada ainda assim trouxe informações importantes sobre Widmore e a missão enviada por este à ilha e também pareceu responder um dos mistérios mais antigos da série: por que Christian, pai de Jack, desapareceu de seu caixão e fez estranhas aparições em tantas ocasiões.

Como Locke, ele provavelmente foi trazido de volta à vida. E possivelmente morreu também em uma missão para a ilha, já que parece saber tanto sobre ela. Quem sabe John não foi apenas o segundo "cadáver" enviado para trazer Jack de volta?

Ricky Nostradamus Gervais

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos, Séries de tevê | 11 comentários

A série "Extras" foi uma das melhores coisas que vi nos últimos anos. Pena que as tevês britânicas criam temporadas tão curtas para suas séries cômicas e logo as tiram do ar, na maior parte dos casos (com "The Office" foi a mesma coisa). Ora, imaginem quantos eventos futuros o criador e protagonista Ricky Gervais teria antecipado caso ela tivesse durado cem episódios ou mais:

Lost S05E05

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 37 comentários

(Spoilers, claro.)

Ok, é oficial: não há como Danielle Rosseau ter se esquecido do coreano que a avisou sobre o monstro, tentou ajudar a salvar seus amigos, desapareceu no ar e depois ressurgiu no exato instante em que ela matava o pai de sua filha. Impossível. 

Dito isso, foi um episódio bastante eficiente ao trazer os flashes ocorrendo com freqüência cada vez maior, num lembrete constante de que o tempo está acabando, e ao incluir um discurso raivoso de Ben Linus sobre seus esforços para manter os Oceanic Six e os sobreviventes na ilha vivos durante os últimos três anos – e a prova de Michael Emerson é um ator formidável reside no fato de que, mesmo mentindo constantemente, ainda continuamos a acreditar na sinceridade de Linus quando este se mostra enfático (e rimos, divertidos, quando alguém pergunta desde quando ouvir Ben é algo proveitoso – justamente por reconhecermos a propriedade destas palavras). 

Em contrapartida, a confissão de Charlotte sobre ter crescido na ilha soou artificial e expositiva, culminando no pior diálogo do episódio: "Eu me tornei antropóloga para encontrar esta ilha novamente" – uma fala que poderia ter saído de uma novela barata, não de "Lost". (Já a revelação "Acho que aquele homem era você!" faz jus à série.) Da mesma forma, é tocante constatar como Sawyer cresceu como personagem (e Josh Holloway, como intéprete)ao percebermos sua alegria ao rever Jin ou seu desespero ao se dar conta de que Locke desapareceu na terra (Terry O'Quinn, por sinal, já era um grande ator quando a série começou e continua a impressionar, como ao retratar a resignação sentida de Locke ao aceitar o próprio sacrifício).

Acima de tudo, é sempre um prazer rever o monstro de fumaça, já que isto nos remete nostalgicamente ao mistério dos primeiros episódios, quando ainda estávamos descobrindo o prazer de assistir a "Lost" à medida que testemunhávamos as árvores sendo subitamente arrancadas dos solos e os sobreviventes fugindo apavorados sem saberem do quê.

Em poucas palavras: o melhor episódio da temporada até agora.

Lost S05E04

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 45 comentários

(Spoilers como de hábito.)

Um excelente episódio que, embora pouco tenha movido a trama adiante, ao menos inspira uma série de possibilidades curiosas que poderiam explicar vários antigos mistérios da série, como os "fantasmas" e os sussurros. Embora tenhamos descoberto que Ben é o autor do processo contra Kate (algo que visa obrigá-la a aceitar partir para a ilha e garantir que Aaron fará o mesmo) e que a mãe de Claire tem o mesmo advogado do líder dos Outros (espero que isto não seja uma coincidência, pois seria ridículo), as cenas na ilha se limitaram basicamente a mostrar os sobreviventes mais uma vez testemunhando antigos acontecimentos da série. Ora, embora sintamos um pequeno prazer em relembrar de incidentes marcantes, a verdade é que revê-los não é muito diferente do que acompanhar um daqueles episódios tão comuns em sitcoms que, de tempos em tempos, fazem um apanhado das melhores cenas num "especial" amarrado por algum personagem relembrando de velhas gags – e desde que o "disco" da ilha começou a arranhar era perfeitamente previsível que eventualmente reencontraríamos Danielle, jovem ou não.

Agora eu pergunto: que diferença isso faz para a série? Por que tratar o encontro de Jin (alguém ainda acreditava que ele havia realmente morrido?) com a francesa como um grande acontecimento? Ora, logo, logo ele vai desaparecer no ar e deixá-la para trás, não é mesmo? Mais interessante é tentar imaginar de quem era aquela canoa de madeira ou quem estava perseguindo os sobreviventes – ou seja: Lost apresenta mais perguntas, como de costume (algo que não me incomoda, diga-se de passagem, pois gosto dos mistérios da série). Já a teoria de que aqueles que estiveram na ilha há mais tempo são os primeiros a serem afetados pelas viagens temporais é algo intrigante, mas que de certa forma complica a teoria de que Miles é filho de Marvin Candle – a não ser que tenha nascido fora da ilha e ido para lá depois de alguns anos. Por quê? Pensemos:

Miles é obviamente mais velho do que Charlotte, mas esta começou a sangrar primeiro. Portanto, esteve na ilha antes do outro. Assim, Miles não poderia ter nascido na ilha. Já Juliet ter sido a próxima é algo mais fácil de compreender. Os próximos, obviamente, deverão ser Sawyer e Locke, com Faraday vindo por último.

Mas voltando aos fantasmas e sussurros: seria possível que estes tenham sido originados pelos sobreviventes em suas viagens no tempo? Hum… mas como isso explicaria as aparições de Christian (pai de Jack), do velho companheiro de hospício de Hurley (se bem que este tem visões atípicas mesmo fora da ilha) ou mesmo daquele cavalo negro acariciado por Kate? (Não me lembro se aquilo foi explicado.) Além disso, os "sussurros" sempre pareceram ter uma qualidade sobrenatural, como se viessem de todos os lugares ao mesmo tempo, e não de uma fonte de carne-e-osso. Mas é uma possibilidade interessante. (Claro, desde que também descubramos por que os sobreviventes fariam estas aparições e sussurrariam para seus velhos companheiros do – e no – passado.)

Finalmente, uma pergunta: Jin e Danielle já haviam se encontrado na série, não é mesmo? Não me lembro exatamente da(s) cena(s), já que já são quatro anos e cerca de 100 episódios, mas se isto de fato aconteceu (e Jin obviamente reconheceu a francesa), como ela não se lembrava do oriental que cruzou seu caminho na noite do naufrágio, desaparecendo misteriosamente pouco depois?

E, já que falamos do naufrágio, espero que nenhum fã venha dizer que o episódio "revelou" a história de Danielle ou como ela foi parar na ilha, já que isto não aconteceu. O que vimos foi o óbvio – ou alguém achava que ela chegara voando?

De modo geral, um ótimo episódio com algumas pequenas redundâncias de roteiro no que diz respeito ao arco geral da série.

Lost S05E03

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 43 comentários

Não estou muito no clima para escrever sobre Lost (ver post anterior), mas devo dizer que foi um bom episódio. Os roteiristas da série até agora têm explorado bem o conceito das viagens no tempo, entrelaçando a trama de maneira complexa, mas lógica, ao permitirem que informações fornecidas em outras temporadas ganhem novos contornos – como, por exemplo, a visita de Richard Alpert ao pequeno Locke. Outra coisa que me encanta em Lost é a capacidade da série em reinventar sua estrutura narrativa: se os flashbacks já envolviam um conceito interessante, a introdução dos flashforwards trouxe vida nova à série – e, nesta quinta temporada, os roteiristas adotam uma nova e fascinante lógica através da oscilação da ilha no tempo, o que não apenas cria um bom suspense como ainda permite que eles preencham lacunas do arco geral da série de maneira orgânica e surpreendente (como na revelação da identidade do jovem e explosivo Outro). Que continue assim.

Lost S05E01-E02

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 31 comentários

(Sempre comento alguns spoilers. Avisados.)

Sou fascinado por histórias que envolvem viagem no tempo. Portanto, é claro que fiquei bastante satisfeito com este aspecto da trama apresentada no início desta quinta temporada. Além disso, é sempre um prazer reencontrar personagens familiares depois de tanto tempo de ausência e, assim, o fator nostalgia deve ser levado em conta na apreciação dos dois episódios.

Dito isso, confesso que fiquei decepcionado. A prisão de Hurley é obviamente mera encheção de linguiça, já que sabemos que eles eventualmente se reunirão para retornar à ilha – e achei que este retorno seria o ponto principal da quinta temporada, não a reunião dos "Oceanic Six", que todos sabem ser certa. 

Mas o que realmente me incomodou (mais: irritou) foi o fato dos roteiristas e dos diretores Stephen Williams e Jack Bender insistirem em tratar como "grande surpresa" a revelação dos rostos de tantos personagens: vejam, é Marvin Candle com o bebê! Olhem só: Daniel Faraday na caverna! Oh, Deus, não acredito que era Sun no hotel! E o atirador de facas era Locke? E quem é aquele segurando a tocha na mat… oh! Richard! E a senhora com o capuz é aquela…

Sim, eu disse "senhora com capuz". O episódio chegou ao ponto de cobrir a cabeça de Fionnula Flanagan com um capuz para impedir que víssemos seus cabelos brancos. Mais ridículo, impossível.

Em vez de buscar o choque barato, por que Lost não aposta mais em seu roteiro? Afinal, a trama envolvendo viagens dos sobreviventes no tempo é suficientemente interessante para prender nossa atenção.

Mas que Ben Linus é sempre fascinante… ah, isso é.

Diálogos expositivos

postado em by Pablo Villaça em Curso, Séries de tevê | 20 comentários

Uma das coisas que discuto em meu curso, na aula sobre Roteiro, é a questão dos diálogos expositivos: aqueles através dos quais dois ou mais personagens repetem informações que todos ali conhecem. Por que fazem isso? Porque não estão dizendo aquelas coisas uns para os outros, mas sim para o espectador. É um recurso feio, deselegante e que indica preguiça por parte dos roteiristas. Há formas de se escrever diálogos expositivos sem que estes pareçam exercer esta função (algo que também abordo no curso), mas, infelizmente, poucos roteiristas sabem fazê-lo bem.

Lembrei-me disso ao assistir ao quarto episódio da sétima temporada de 24. Em certo momento, a Presidente (vivida por Cherry Jones) e o Secretário de Estado (Bob Gunton) mantêm a seguinte conversa:

PRESIDENTE
Quanto tempo isso (o fracasso do FBI) nos deixa?

SECRETÁRIO
Menos de duas horas. A exigência de Dubaku é a
de que nossas tropas se retirem para além do 23o
meridiano dentro de 24 horas.
Para que cumpramos este prazo, as tropas devem
começar a retirada até… às 13 horas, no máximo.

Detalhe: isso já havia sido discutido no episódio anterior, quando o Secretário de Defesa estabeleceu a necessidade de iniciar a retirada até às 13 horas diante da Presidente e do Secretário. Como a série se passa em tempo real, isto quer dizer que a informação já havia sido discutida diante destes dois personagens menos de meia hora antes. (E o detalhe do Secretário raciocinar um pouco antes de falar "13 horas, no máximo" é particularmente ridículo, como se ele estivesse determinando aquele limite naquele momento.) Mas o absurdo continua:

PRESIDENTE
Isto efetivamente encerraria nossa missão
na África e condenaria outros 100 mil
sangaleses a uma morte certa e brutal.

SECRETÁRIO
Por outro lado, se autorizar a invasão, Dubaku
certamente utilizará o aparelho CIP.

Mais uma vez, ambos se limitam a repetir o que já sabiam e haviam discutido pouquíssimo tempo antes. A exposição da situação, portanto, é feita não para benefício dos personagens, mas do espectador que talvez não se lembrasse do que ocorreu no episódio anterior.

Ainda assim, isso não justifica a péssima utilização dos diálogos expositivos.

Dexter S03E11-E12

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê | 47 comentários

“Você pode dizer muita coisa sobre uma pessoa a partir dos amigos que ela tem. E ele era o meu melhor amigo.” – Dexter, sobre Miguel Prado.

São diálogos como este que, simples em sua construção mas rico de significados, me fazem permanecer como fã incondicional de Dexter.

“Uma situação tão familiar. Uma perspectiva nem tanto.” – Dexter, sobre… vejam o episódio.

São diálogos como este que, apontando o óbvio de forma tão elegante, me fazem permanecer como fã incondicional de Dexter

Alguns podem reclamar que o fato de não ter havido derramamento de sangue no episódio final da terceira temporada foi algo decepcionante. Eu, particularmente, achei formidável. A subtrama envolvendo Miguel Prado já havia sido encerrada no episódio 11 e não havia motivo para continuá-la artificialmente – e os confrontos de Dexter com Ramon e George King serviram para ilustrar a complexidade do protagonista e também sua intensidade animal quando isto é necessário.

Além disso, até as conversas com Harry, que me incomodavam no início, passaram a soar orgânicas e até mesmo necessárias – e a última troca de diálogos entre os dois foi comovente e ainda serviu para que percebêssemos uma mudança importante na forma com que Dexter encara o mundo agora que será pai.

E Michael C. Hall… que ator excepcional. Desde sua mudança de olhar quando Ramon o enfrenta ao lado da ambulância (de piedade, seus olhos passam a transmitir raiva e perigo, quando o outro se afasta) até a já citada conversa com Harry, Hall manteve-se sempre no controle absoluto de sua interpretação, entregando-se até mesmo à expressão monstruosa que um assassino como Dexter exibiria no momento de seus crimes.

Uma excepcional terceira temporada, enfim. Irregular em alguns episódios, é fato, mas recuperando-se brilhantemente nos dois últimos. Que venha a quarta.

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