Viagens

Celebrid… oh, wait.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Viagens | 10 comentários

Na sala de embarque do JFK, em Nova York, um rapaz se aproxima:

– Com licença… você é o Pablo Villaça, não é? Tudo bem? Sou seu leitor há uns cinco anos. Eu sabia que você estava nos Estados Unidos, mas não esperava a coincidência de encontrá-lo aqui!

Explico que deveria ter voltado no dia anterior para o Brasil, mas que havia perdido o voo por causa da chuva em Chicago. Pergunto se ele estava ali a passeio, falamos por mais alguns minutos e ele pergunta se poderia tirar uma foto comigo. Enquanto sua namorada opera a câmera, percebo uma garota nos observando e, quando o jovem se afasta (voltaríamos a nos encontrar no voo. Grande abraço e obrigado pelo carinho, Geovane!), a moça se aproxima.

– Ei… tudo bem? Você… se importa se eu tirar uma foto com você também?

Sentindo-me uma celebridade, digo que sim. Assim que a imagem é registrada, porém, ela se vira timidamente para mim e diz:

– Posso te fazer uma pergunta?

E antes que ela abrisse a boca, eu já sabia o que viria a seguir:

– Quem é você?

Da fama ao anonimato em três segundos.

Meu amigo Omer

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados, Viagens | 17 comentários

As pessoas adoram falar mal do Brasil. Qualquer tropeço em qualquer área e já soltam um “é este o país que quer sediar uma Copa?” ou um “só no Brasil, mesmo!”. (Já escrevi sobre isso aqui.) No entanto, basta vir aos EUA, por exemplo, para constatar que não apenas vários dos erros cometidos no nosso país são repetidos na terra de Obama como ainda temos uma vantagem imensa em relação aos norte-americanos: a educação. Porque é impressionante como os atendentes aqui costumam ser grosseiros. Eu já havia notado isso em visitas anteriores, quando, por exemplo, os funcionários da FAO Schwarz praticamente empurraram os clientes para fora da loja ao fim do expediente, mas hoje vivenciei algo que… bateu o recorde.

Estava com voo marcado para Nova York hoje à noite, saindo do aeroporto O’Hare, em Chicago. A ideia (que já havia sido executada ano passado sem problemas) era passar a noite na casa do meu amigo Josh, pegar algumas coisas que havia deixado lá antes de ir para o Ebertfest e embarcar para o Brasil na manhã seguinte, às 9:25.

Eu não contava com a chuva, os relâmpagos e o granizo.

Marcado para as 19h50, o voo começou a ser adiado em saltos de meia hora. Ninguém nos informava absolutamente nada sobre as condições meteorológicas ou do aeroporto e pareciam sugerir que, apesar do atraso, o voo aconteceria. No entanto, comecei a notar algo: sempre que alguém procurava os atendentes da American Airlines para fazer alguma pergunta, era recebido com uma resposta ríspida. Finalmente, depois de duas horas de atraso, me dirigi ao balcão e perguntei se iríamos mesmo para Nova York ou se o voo seria cancelado. A resposta do atendente?

– Sir, you’re wasting my time and your time with these questions.

Fiquei boquiaberto. Olhei fixamente para o sujeito e pensei seriamente em mandar um “Fuck you” caprichado, mas então me ocorreu que, caso o voo fosse mesmo cancelado, eu perderia a passagem para o Brasil e não poderia encontrar minha família amanhã. Como se não bastasse, onde eu ficaria esta noite? Mais deprimido do que irritado, afastei-me.

Minutos depois, o anúncio do cancelamento era ouvido. Imediatamente, uma fila imensa formou-se para a remarcação das passagens e, mesmo conseguindo ficar entre os primeiros no atendimento, só consegui um voo para a tarde da sexta. Aborrecido, perguntei se a American Airlines ajudaria os passageiros que não moram em Chicago a encontrar um lugar para dormir e a resposta, mais uma vez, beirou a provocação:

– Sir, the passengers have to take care of themselves. Next!

O “sir” é que me irritou mais.

Liguei para o hotel no qual havia me hospedado em Chicago e fui informado de que estava lotado. Mais cinco ou seis tentativas e nada. Eu teria que passar a noite no aeroporto. No desespero, decidi ligar para meu amigo Omer Mozaffar.

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Omer é um gênio.

Eu sei que esta palavra se tornou corriqueira no twitter, sendo usada para descrever absolutamente qualquer coisa, mas eu a estou empregando em seu sentido mais puro: Omer Mozaffar é dono de uma inteligência e de uma cultura impressionantes. Professor universitário de Humanas, Artes e Ciências, Omer é um professor amado pelos alunos e chegou a receber o prêmio de “Excelência no Ensino” em 2011. Oferecendo várias disciplinas relacionadas à cultura islâmica (começando por “Introdução ao Corão”), Omer me deixou ainda mais fascinado pelo brilhante A Separação, por exemplo, ao explicar nuances existentes no filme com relação ao choque entre a cultura persa e a árabe – e não me espantei quando descobri que ele entendia o persa falado pelos personagens apesar de ter nascido em Chicago (sua ascendência é paquistanesa). Por outro lado, eu fiquei surpreso quando, durante a exibição de Patang no Ebertfest, um problema na formatação da tela ocultou as legendas e Omer, sentado ao meu lado, imediatamente começou a traduzir o que aquelas pessoas diziam em hindu.

– Quantas línguas você fala?! – perguntei, fascinado.

– Seis.

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Em seu perfil no twitter, Omer se apresenta apenas com a frase “I solve problems” – e eu descobriria ser esta a pura verdade ao ligar para ele e informá-lo dos contratempos que enfrentara no aeroporto. Sem pensar duas vezes, ele sugeriu que eu pegasse o metrô para a cidade enquanto tentaria encontrar um lugar para eu dormir (ele mora ao sudeste de Chicago; o aeroporto fica a noroeste. Uma distância de 40 km. Quando cheguei à cidade, ele me buscou de carro (às 23h30!), me levou para comprar algumas coisas básicas (escova de dentes, desodorante – minha mala ficou presa no aeroporto) e então me conduziu até a casa de um aluno, Nader Ismail, que gentilmente me ofereceu um quarto em seu apartamento – que fica bem mais perto do O’Hare.

E aqui estou. (A TAM aproveitou para cobrar uma pequena fortuna pela remarcação do meu voo para o Brasil.)

Duas conclusões: os atendentes dos EUA são péssimos. E ter amigos é um troço muito bom. Especialmente quando estes são como meu querido Omer Mozaffar.

Ebertfest 2012

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos, Viagens, Vídeos | Comente  

Acompanhem aqui a cobertura do evento!

Mas já adianto que hoje, por volta de 22h30 (horário de Brasília), estarei no palco do Virginia Theater conversando com o diretor de fotografia indicado ao Oscar Stephen Goldblatt. Já amanhã, por volta de 12h30 (também horário de Brasília), participarei do debate “O que há de novo no Cinema ao redor do mundo?” ao lado de críticos de vários países. Confiram o debate com Stephen Goldblatt logo abaixo:


Já na sexta de manhã, darei uma master class sobre “Film Studies” para os alunos da Universidade de Illinois. Infelizmente, não será transmitida online.

Postarei aqui ao longo do festival. 🙂

Ebert e eu

postado em by Pablo Villaça em Fotos, Variados, Viagens | 9 comentários

O post passado me fez lembrar desta foto – uma de minhas favoritas do EbertFest (embora o fotógrafo do evento tenha deformado todas as imagens da recepção ao estupidamente decidir usar uma grande angular “olho de peixe” para registrá-las): este é o momento exato no qual me encontrei com Ebert pela primeira vez e que descrevi neste post.

Sonho realizado

postado em by Pablo Villaça em Fotos, Variados, Viagens | 22 comentários

Como muitos devem saber, este ano fui honrado pela oportunidade de me tornar não apenas colaborador profissional do mestre, ídolo e inspiração Roger Ebert como também de estabelecer uma amizade com este que tanto moldou minha visão da crítica há mais de duas décadas, quando comecei a estudar a Sétima Arte. Pois bem: em maio, participei ao seu convite do EbertFest, em Illinois, chegando a participar de um debate sobre crítica internacional e outro com o diretor e a estrela do longa sul-africano Life, Above All após a exibição do filme, no palco do Virginia Theater.

Já no último dia da viagem, durante um brunch na casa de Roger e de sua adorável esposa Chaz, tomei coragem e o presenteei com meu livro “O Cinema Além das Montanhas” – mesmo sabendo que ele não compreenderia o texto em português. Sempre conversando através de anotações (ele perdeu a voz há alguns anos), Ebert escreveu, depois de follheá-lo:

“Um livro fisicamente bonito.”

E foi aí que, reunindo toda a força do mundo para expressar minha admiração por sua carreira e também sua importância na minha, agradeci pela oportunidade de participar do evento. Sua resposta me pegou de surpresa e, emocionado e profundamente honrado, pedi para guardar a folha na qual ela havia sido escrita, pedido ao qual ele atendeu com generosidade:

“Estou tão orgulhoso de ter seus textos em meu site – mesmo que os leitores digam que você é melhor do que eu!”

Este momento, que considero como um dos pontos altos da minha carreira (talvez o mais alto), agora me acompanha não só na memória, mas neste porta-retratos que mantenho ao lado de meu notebook no escritório:

Preto Velho, modelo temperamental

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Fotos, Variados, Viagens | 49 comentários

Sempre que venho a Salvador, vou ao Pelourinho – e como tenho parentes por aqui, isto ocorre com certa freqüência. No entanto, jamais me canso daquele espaço histórico, maravilhoso, colorido, que combina a imponência dos séculos e a miséria absoluta. Faz parte da experiência de ir ao Pelourinho olhar para um lado e perder o fôlego diante da beleza castigada da região apenas para olhar na direção oposta e perder o fôlego diante da tristeza de ver um “sacizeiro” (como são chamadas aqui as crianças viciadas em crack) tentando descolar trocados para comprar mais uma pedra que contribuirá para mandá-lo jovem para debaixo da terra. É um espetáculo trágico ambientado num palco de cores belas.

Mas divago.

O fato é que todas as vezes que vou ao Pelourinho, sou atraído pela figura marcante de um senhor que, sempre sentado na mesma posição do lado de dentro de uma janela, parece observar a vida com uma indiferença (ou cansaço) curiosa, sem jamais se esforçar para vender o rapé que a placa diante de si anuncia com tamanha pompa. E considerando a insistência de todos os representantes do comércio local, só isto já seria o bastante para torná-lo ímpar. Mas há mais: sua própria figura parece exalar uma autoridade antiga de quem viu muito e sabe muito, transformando sua indiferença não em apatia, mas em uma espécie de exaustão vinda de alguém que já sabe há décadas que não há solução para a natureza humana.

Ou talvez eu esteja romantizando tudo e a simples verdade seja a de que ele tem um rosto muito bacana.

De todo modo, sempre que o via ali, sentia vontade de fotografá-lo. Em 2009, quando ainda tinha uma câmera fraquinha, arrisquei-me até a registrá-lo de longe, mas a qualidade da imagem, claro, era terrível. Assim, desta vez não pensei muito antes de me dirigir à ruela na qual sempre o encontrei – e à medida que me aproximava, senti o coração disparar com medo de não encontrá-lo mais ali. Talvez ainda não tivesse chegado. Talvez tivesse mudado de lugar. Talvez tivesse morrido.

Ele estava na mesma janela de sempre. E em sua aparentemente estatuesca posição. Respirei aliviado.

Comecei a pensar em como fotografá-lo. De modo geral, não gosto muito de fotografar pessoas, mas quando alguém me interessa, tento fazer um registro sem que o “modelo” perceba, já que detesto fotografias nas quais o retratado olha para a câmera de forma artificial. É o movimento natural do cotidiano que me atrai, fotógrafo amador que sou. Posteriormente, posso até me aproximar da pessoa e perguntar inocentemente se ela se importa que eu a fotografe (algo que raramente é negado, o que acho curioso) – e já com a autorização, simplesmente bato uma foto para atirá-la na lixeira digital, já que a imagem que me interessava já havia sido capturada.

Com isso em mente, entrei na loja em frente à janela do senhor, que se identificava na placa como “Preto Velho”, para tentar fotografá-lo sem que visse. Expliquei minha intenção para a vendedora, que me alertou:

– Então tome cuidado mesmo para que ele não veja, porque ele fica bravo quando tiram foto dele.

Era o que eu não queria ouvir. Porque agora, sabendo que ele não gostava de ser fotografado, eu não me sentia mais à vontade para tirar a foto sem permissão. A saída seria obter uma.

Aproximei-me do Preto Velho:

– Tudo bom com o senhor?

– Tudo.

– Bacana, a loja do senhor.

– …

– O senhor vende só rapé?

– E cigarro.

– Ah. Hum. (…) Vejo sempre o senhor por aqui. Está aqui há muito tempo, né?

– 95 anos.

E aí soltei uma expressão tipicamente mineira que, em retrospecto, foi um erro grotesco:

– Mentira!

– Por que eu iria mentir que tenho 95 anos? – respondeu ele, já irritado.

– Não… não foi isso… eu… não, não. É que… o que eu quis dizer é que o senhor não parece ter 95 anos. Eu… não daria mais de 70 para o senhor! É isso!

– …

– Meu nome é Pablo. – falei, estendendo a mão. Ele a apertou com preguiça.

– Meu nome é Domingos.

– Prazer em conhecê-lo, seu Domingos.

– …

– Então. O senhor… é… quanto é o rapé?

– 25 reais. – informou ele, pegando um vidrinho minúsculo. Por este preço, imaginei que o rapé fosse de ouro.

– 25 reais?

– É, mas isso aqui cura tudo.

Ele despejou o pó na palma da mão direita e, com dois dedos da mão esquerda, pegou um punhado do farelo e enfiou nas narinas. Em seguida, apanhou mais um bocado e estendeu a mão para enfiar o rapé no meu nariz. Pego de surpresa, recuei num susto.

Ele me olhou com indiferença.

– Eu… agradeço muito, seu Domingos, mas não cheiro rapé. Eu não cheiro nada, na verdade. Quer dizer… bom… nada, nada, não. Claro que cheiro outras coisas. Quero dizer… perfume, essas coisas. Eu tenho olfato, é o que eu quero dizer. Mas… hum.. rapé eu não… (suspiro exausto)

Desastre. Eu havia me transformado num idiota incoerente. Ele devia estar perdendo a fé nas gerações mais jovens num ritmo exponencial, agora.

Decidi me arriscar.

– Posso tirar uma foto do senhor?

– Não.

– (…) Por que, seu Domingos?

– Só se você comprar rapé. Aí eu te deixo tirar uma foto.

– Mas, seu Domingos, eu não cheiro rapé.

– Então sem foto.

– O senhor não tem nada mais barato aí, não?

– Não. Só rapé.

Pensei em desistir. Mas… 95 anos de idade. Eu não podia.

– E se eu pagar… não sei… dez reais para o senhor só para tirar uma foto?

Sem olhar na minha direção, ele respondeu imediatamente:

Uma foto.

Vitória.

– Errr… o senhor tem troco para vinte?

Ele me encarou com olhar assassino, mas me entregou uma nota de dez.

Afastei-me da janela tenso. Tentei encontrar a melhor posição, o melhor quadro, o melhor tudo rapidamente, antes que ele mudasse de idéia. Turistas e locais atravessavam na minha frente dificultando o trabalho. Ajustei a luz, a exposição, o quadro e disparei. Sem pensar, fiz o que qualquer um na minha posição faria automaticamente e me preparei para uma segunda foto.

– Não!

– Hein?

– Você já tirou a foto. Era uma só.

– Mas seu Domingos…

Mas ele já havia coberto o rosto com a mão e virado na outra direção. Sem se virar para mim, acenou um “vá embora”.

Derrotado e finalmente descobrindo como os fotógrafos que tentam trabalhar com Naomi Campbell se sentem, enfiei a câmera na bolsa e me afastei.

E descobri que, curiosamente, agora amava um pouco aquele velhinho.

Passagem por Fortaleza – Parte 2/2

postado em by Pablo Villaça em Curso, Viagens | 4 comentários

Outro restaurante que conheci graças ao Daniel Herculano foi o "Char Mô", que me encantou profundamente. Criado pelo casal Charles e Morena (ele, inglês; ela, paulista), este foi um dos pontos altos da visita a Fortaleza – e não só em função da comida deliciosa, mas dos anfitriões adoráveis. Depois de se conhecerem há dez anos enquanto trabalhavam na cozinha luxuosa de um hotel londrino, os dois se casaram e moraram na Alemanha e na Áustria antes de finalmente se aquietarem em Fortaleza. Lembrando um Ralph Fiennes mais ingênuo (rindo timidamente o tempo inteiro), Charles não só nos apresentou à sua (quente) cozinha como ainda preparou meu prato (um filé com queijo gorgonzola delicioso) diante de meus olhos admirados. Sempre quis aprender a cozinhar, mas vendo aquele sujeito alto se deslocando rápida e elegantemente pela cozinha me fez perceber que é preciso mais do que vontade para isso; é preciso também talento.
 
Morena, enquanto isso, dividiu histórias do passado do casal e alguns dos projetos que têm em mente para o restaurante, além de demonstrar um orgulho imenso pelo marido, cuja especialidade, segundo ela, é a confeitaria, que ele encara como Arte. 
 
E da forma como ele a produz, certamente é.
 
Foi uma noite magnífica coroada pela simpatia e generosidade do casal, já que Charles e Morena tratam os clientes com a intimidade de alguém que conduz um restaurante familiar. Resultado: me conquistaram completamente. Mais do que isso: me fizeram torcer pelo sucesso deste fantástico, aconchegante e delicioso restaurante.

Passagem por Fortaleza – Parte 1/2

postado em by Pablo Villaça em Curso, Viagens | 18 comentários

Em um dos posts anteriores, um leitor comentou que em função das constantes viagens feitas graças ao curso de Teoria, Linguagem e Crítica, eu poderia escrever uma espécie de "guia de turismo" sobre as cidades visitadas. Infelizmente, o tempo que passo em cada cidade é curto demais para permitir que eu realmente as conheça, mas sem dúvida alguma posso publicar aqui algo sobre minha experiência pessoal em cada uma delas – algo que de certo modo já faço no twitter ao publicar as fotos que tiro durante as visitas. Não é bem um guia, claro, mas mais um relato em primeira pessoa, mas, ei!, afinal este blog atende pelo nome de Diário de Bordo, certo?
 
Durante os nove dias que passei em Fortaleza, contei, claro, com um guia fantástico: meu amigo Daniel Herculano (que também assina a coluna Listas em Cena no Cinema em Cena). Ao lado de sua bela esposa, a dra. Kellen, Daniel me levou por uma jornada através de alguns dos restaurantes mais fantásticos que conheci desde que comecei a viajar com o curso – e foi graças à sua parceira de assessoria, Marisa Quixadá, que conheci o requintado "L'Ô", que conta com um ambiente agradável, uma decoração calorosa e pratos fantásticos criados pela chef Marie Anne, que conheci brevemente.
 
Só não recomendo sentar às mesas do lado de fora durante a noite, já que há chatos pernilongos (ou, em cearês, "muriçocas") rondando por ali, mas assim que nos mudamos para o interior do restaurante (algo facilitado pela ajuda dos ótimos garçons), a experiência se tornou irretocável.
 
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Já no dia seguinte ao "L'Ô", fomos ao "Croco Beach", que, com suas duas piscinas (com escorregador) à beira da praia, deixou meus filhos enlouquecidos (claro que levei os filhotes para Fortaleza, ora). Quando já estávamos lá há algum tempo, Daniel me contou que fora naquela barraca que ocorrera a confusão com o turista italiano há alguns meses, quando, depois de beijar a filha na boca, o sujeito acabou sendo preso graças aos protestos de algum imbecil.
 
E é claro que imediatamente fiz questão de beijar não só Nina, mas também Luca, na boca. Às vezes, meu lado encrenquinha gosta de dar as caras.
 
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Para finalizar esta primeira parte do post, link para uma matéria publicada no Diário do Nordeste sobre como enxergo a profissão de crítico. Escrita pelo simpático Fábio Freire, a matéria me deixou feliz e orgulhoso – isto é, até que vi a foto usada para ilustrá-la. Talvez em função do ângulo baixo e da grande angular, fiquei imenso, o que é uma terrível injustiça, já que no mesmo dia, durante uma leve chuva que caiu sobre a Fortaleza, tirei a camisa e a seguinte foto foi tirada de mim (só excluí o rosto porque… hum… estava com uma espinha na ponta do nariz e não quis estragar o retrato): 
 
 

Visita à Disney Animation

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Infilm, Viagens | 5 comentários

(O texto abaixo faz parte do Diário de Bordo que escrevi durante o programa Como Filmes e Programas de TV São Realmente Feitos, que comandei no InFilm em setembro de 2009.)

Comentei anteriormente que certas
empresas visitadas pelo grupo do InFilm normalmente
não recebem visitas de cinéfilos ou mesmo profissionais interessados apenas
em conhecer seu espaço de trabalho; pois com a Disney Animation é diferente:
ela nunca abre seu prédio a
visitantes. Caso você não seja um artista trabalhando em algum projeto
diretamente relacionado à companhia ou não tenha interesses comerciais ligados
ao estúdio, a entrada é inevitavelmente barrada – e por isso percorrer aqueles
corredores representou uma experiência ainda mais fascinante.

Preparando-se
para o lançamento da animação A Princesa
e o Sapo
, a Disney Animation praticamente redecorou a maior parte de seu
interior com elementos relacionados ao filme, desde o lobby (que trazia partituras com trechos da trilha, células
originais da animação e uma tevê exibindo seqüências finalizadas do filme) até
aposentos inteiros que recriavam o French Quarter de New Orleans, onde a
história se passa. Primeira animação tradicional, em 2D, produzida desde que
John Lasseter assumiu o posto de chefão da Disney, A Princesa e o Sapo também traz a primeira princesa negra da
história do estúdio, além de marcar também a estréia do compositor Randy Newman
no departamento 2D depois de colaborar por mais de uma década com Lasseter nos
projetos da Pixar.

Caminhando
pelo prédio da Disney Animation, aliás, fomos surpreendidos pela quantidade de
desenhos expostos em praticamente toda a extensão das paredes – e logo fomos
informados de que boa parte daquelas magníficas pinturas, que poderiam
facilmente ser emolduradas e penduradas em qualquer sala, havia sido produzida
por estagiários do estúdio, que
sempre recebem a tarefa de conceber peças de naturezas diferentes para que os
supervisores de animação possam avaliar quais são os pontos fortes e fracos de
cada artista da empresa. Além disso, storyboards
de várias produções Disney e artes conceituais dos projetos mais recentes
dividiam aquele espaço igualmente com as obras dos iniciantes, numa atitude
admirável por parte dos diretores da empresa.

Aliás,
ao assumir a Disney Animation, Lasseter levou para o estúdio a mesma filosofia
que adotou na Pixar e, assim, uma de suas primeiras providências foi demolir
todas as paredes das salas dos executivos no centro do prédio, criando uma
imensa área aberta que passou a servir de espaço de convivência dos
funcionários, contando com uma lanchonete (na qual tudo é gratuito), uma mesa
de reunião, confortáveis e coloridas poltronas e um jukebox. Da mesma maneira, cada novo projeto da Disney Animation
ganhou seu próprio centro de produção em um canto do edifício, sendo
completamente decorado com os temas principais da obra: assim, ao atravessarmos
um arco contendo as palavras “New Orleans”, mergulhamos num ambiente repleto de
pinturas, objetos de decoração e desenhos relacionados a A Princesa e o Sapo – e, mais tarde, ao atravessarmos outro
“portal”, chegamos a uma área dominada por elementos que remetiam ao projeto
seguinte da companhia, Rapunzel.

Incluindo
artes conceituais originais desenhadas
pela lendária Mary Blair para Cinderela,
de 1950 – pinturas que certamente arrecadariam (no mínimo) alguns milhares de
dezenas de dólares em qualquer leilão.

E
por falar em Rapunzel, pudemos
apreciar vários estudos feitos para o filme que a Disney lançará no final de
2010, desde diferentes versões criadas para a personagem-título até esculturas
que servirão de referência para os animadores na criação deste que será o
primeiro musical em 3D do Cinema, além de ser também uma animação tradicional
em 2D apresentada em 3D, outra inovação do estúdio (já as músicas serão
compostas por Alan Menken, figura tradicional da Disney). De acordo com Jessica
Hallock, relações-públicas da empresa, a Rapunzel vista no longa (e que terá a
voz de Mandy Moore) será bastante diferente da heroína tradicional da fábula,
surgindo como uma jovem independente e forte que não hesita em partir para a
ação quando julga necessário, surpreendendo até mesmo o príncipe dublado por
Zachary Levi (da série Chuck).

Depois
de sairmos da “ala Rapunzel”, fomos
levados a uma pequena sala que trazia um quadro imenso com as datas previstas
de lançamento de A Princesa e o Sapo
em dezenas de países, bem como os nomes dos principais parceiros comerciais que
o estúdio havia estabelecido nestes mercados, mas nossa atenção foi logo
deslocada para o imenso monitor no qual assistimos a uma das seqüências do
longa: um número musical protagonizado pelo vilão, Dr. Facilier (voz de Keith
David), pelo mocinho (o brasileiro Bruno Campos) e pelo melhor amigo deste,
cujo visual foi claramente inspirado nas feições do ator Timothy Spall, embora
não seja dublado por este. Embora trouxesse um ou outro plano ainda não
finalizado, a seqüência se mostrou inventiva e divertida, indicando que
Facilier talvez se torne mais um vilão memorável da galeria Disney.

Para finalizar o passeio,
visitamos a sala que pertenceu a Roy Disney, sobrinho de Walt que abandonou a
empresa em 2003: localizada no interior do imenso chapéu de mago usado por
Mickey em Fantasia (e que enfeita a
fachada do prédio), a sala tem, claro, paredes inclinadas e uma pintura que,
composta por faixas verticais, logo passou a provocar vertigens nos integrantes
do grupo – e foi aí que Hallock explicou que a sala, inicialmente usada para
reuniões, foi logo abandonada justamente por gerar desconforto nos ocupantes,
transformando-se quase numa espécie de pequeno museu. Um museu que ninguém se
atreve a visitar sem tomar remédios para labirintite.

Toy Stories, Píer Santa Mônica e Saudades

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Luca & Nina, Viagens | 19 comentários

Fundado em 1926, o El Capitan é um cinema importante não só na história
de Los Angeles, mas também na da Sétima Arte de modo geral: foi lá, por
exemplo, que Orson Welles promoveu a première mundial de Cidadão Kane quando
nenhum outro exibidor aceitou o risco de provocar a fúria do magnata da
mídia William Randolph Hearst, com quem o cineasta vinha travando uma
batalha pública desde que o outro se dera conta de que Kane nada mais
era do que uma ficcionalização de sua própria vida.
 
Assim, quando entrei no cinema no sábado pela manhã para assistir à sessão dupla de Toy Story e Toy Story 2
em 3D, não estava ali apenas para conferir a nova versão dos belíssimos
filmes de John Lasseter, mas também para respirar um pouco da História
do Cinema. Onde teria sentado Orson Welles naquela noite específica?
Será que ele tinha alguma idéia de que estava lançando um clássico que
se tornaria referência absoluta nas décadas seguintes? O que teriam
dito os espectadores enquanto se encontravam no hall, após a sessão?
 

 
Logo, porém, tive que abandonar estes exercícios de imaginação pois a cortina vermelha havia sido aberta e You've Got a Friend In Me,
de Randy Newman, começara a tocar. A platéia, repleta de adultos e
crianças (muitas caracterizadas como seus personagens favoritos, desde
Woody e Buzz até a cowygirl Jesse e – para minha surpresa – os pequenos
aliens verdes que se submetem ao "Garra"), começou a aplaudir enquanto,
no palco, versões de "carne-e-osso" de Woody, Buzz e Jesse dançavam
desajeitada e alegremente. A coreografia, claro, logo descambou para
aquele clichê musical norte-americano dos braços dados e pernas
atiradas para o alto, culminando numa chuva de papel picado sobre a
platéia, mas a energia das crianças, que vibravam com tudo, tornou
aquele momento particularmente memorável – e senti uma dor quase física
por não ter meus pequenos ao meu lado naquele instante. 
 

Encerrada a dança, a tela se iluminou e vimos o trailer de Toy Story 3
– e em 10 segundos, ao ver Andy indo para a faculdade e os brinquedos
sendo abandonados, percebi que estava chorando. Sim, talvez eu esteja
excessivamente sensível em função da saudade que estou sentindo das
crianças, mas é igualmente possível que a Pixar tenha acertado em cheio
mais uma vez com a premissa do filme, não?
 
Seja como for, a sessão foi um sucesso:
despertando risos e aplausos durante toda a projeção, o El Capitan
exibiu jogos de perguntas e respostas na tela durante os 10 minutos de
intervalo – e fiquei impressionado ao perceber que Tim Allen e Joan
Cusack emprestaram suas vozes para as pequenas vinhetas que serão
exibidas apenas durante estas sessões especiais dos longas. Quanto à
tridimensionalização dos filmes, só posso dizer que foram muito bem
sucedidas, despertando minha curiosidade para as possibilidades deste
tipo de renovação. E se isto se tornar uma nova tendência? E se grandes
clássicos forem submetidos a este tratamento? Sim, parte de mim se
arrepia só de pensar nisso, mas outra parte, confesso, tem certa
curiosidade em conferir os resultados de versões 3D de obras como 2001, Fantasia e, por que não, O Poderoso Chefão.
(E isto partindo de alguém que sente profundo desprezo por modificações
como colorização de filmes em preto-e-branco e a conversão de obras em
widescreen para o formato 4:3.)

Após a sessão, claro, a saída levava diretamente à
loja da Disney, que também administra o El Capitan há vários anos
(quando não está exibindo os novos projetos do estúdio, o cinema
programa clássicos; na semana passada, por exemplo, Branca de Neve estava em cartaz). Ali, as crianças enlouquecidas pressionavam seus pais para que comprassem algum dos diversos produtos Toy Story estrategicamente espalhados pelo salão. 
 
E como eu queria ter enfrentado esse tipo de pressão naquele momento. 

Já no domingo, resolvi fazer um passeio de improviso e fui até o píer
de Santa Monica para assistir a um outro tipo de espetáculo: o
pôr-do-sol. Eu já vira o Sol se por ao lado do letreiro de Hollywood
duas vezes ao visitar o Observatório Griffith: uma levado por Ana Maria
Bahiana, em agosto, e a mais recente na semana passada, ao assumir o
posto de guia turístico diante de minha colega de InFilm Luisa, que se
encontrava em Los Angeles pela primeira vez. Porém, aquela visão,
maravilhosa como era, empalideceu diante do que vi no domingo.
 
  
 
Em primeiro lugar, é preciso descrever o choque
térmico que senti ao chegar ao píer. Los Angeles tem se revelado uma
cidade absurdamente quente nestas minhas duas estadas – e, assim, desta
vez nem mesmo incluí um agasalho em minha bagagem. Ao chegar ao píer de
Santa Monica, porém, o vento cortante e gelado me fez tremer, me
obrigando a comprar uma blusa de frio numa lojinha estrategicamente
localizada ao lado do parque ali instalado (e a julgar pelo número de
pessoas que usavam agasalhos idênticos ao meu, suponho que muitos
outros foram surpreendidos pelo vento). 
 
Caminhando sobre as tábuas do píer, imediatamente
notei a estranha proximidade das gaivotas: assim como os esquilos do
Central Park, em Nova York, que se aproximavam dos humanos sem o menor
receio justamente por estarem habituados a serem alimentados por estes,
as aves do píer chegavam ao ponto de bicarem alimentos estendidos pelos
turistas – e o mais incrível: enquanto aparentemente flutuavam no ar.
Sim, flutuavam: como o vento ali é fortíssimo, os pássaros conseguem
ficar praticamente parados em um mesmo ponto apenas com um levíssimo
bater de asas disparado contra a direção do fluxo do ar, como um
beija-flor. Assim, descem lentamente até os visitantes enquanto bicam
as guloseimas, o que resulta numa imagem estranha e bela.
 
 
 
Mas por que perder tempo com descrições se as
imagens podem falar por si mesmas? Peço perdão apenas pela baixa
resolução das fotos, já que o iPhone é conhecido por ter uma
camerazinha bem chulé (todas as imagens deste post podem ser ampliadas
com um clique).

 

Mas, mais uma vez, embora tenha achado a experiência
incrivelmente agradável, não consegui curtir como gostaria aquele
passeio: sim, queria Luca e Nina ao meu lado ali, vendo o Sol e pedindo
para que eu comprasse ingressos para a montanha-russa e a roda-gigante.
E, com isso, cheguei a uma conclusão importante: depois que me tornei
pai, deixei de ser um indivíduo. Agora sou composto por três partes – e
quando uma ou mais destas partes estão distantes, tudo se torna
inevitavelmente incompleto; o que normalmente despertaria alegria e
prazer fica abafado pela saudade e pelo sentimento de que pedaços
importantes de mim não estão ali para curtir tudo aquilo.

Quando estou longe dos meus filhos, sinto como se parte da minha alma tivesse sido amputada.

E se você já ouviu falar de "dor fantasma", sabe que, mesmo ausentes, aqueles membros amputados continuam a doer terrivelmente.