SP – Dia 12

Antes de passarmos aos filmes vistos neste domingo, vamos à minha programação para o último dia da Mostra, quinta-feira, 30 de outubro:

14h30 – Um Conto de Natal
17h30 – Vicky Cristina Barcelona
19h30 – Max Payne
21h50 – Depois da Escola

O quê? Nada de Che? E por que, Deus do Céu, escolhi Max Payne? Simples: haverá uma cabine dos filmes de Soderbergh e Max Payne foi o único que encaixou no intervalo entre Vicky Cristina Barcelona e Depois da Escola – e prefiro vê-lo (já que terei mesmo que escrever sobre ele no futuro) do que ficar parado neste meio-tempo.

Dito isso…



47)    
Rio
Congelado (Frozen River, EUA, 2008).
Dirigido por Courtney Hunt. Com: Melissa Leo, Misty Upham, Charlie McDermott, Mark
Boone Junior, Michael O’Keefe, James Reilly. 

Vencedor do
grande prêmio do júri no último Festival de Sundance, Rio Congelado é um filme inofensivo que se mantém dentro de uma
folgada margem de segurança para não ofender ou deprimir demais seus
espectadores, criando, para isso, situações potencialmente trágicas que se
resolvem sem grandes conseqüências para os personagens e transformando-se,
assim, num passatempo que manda o público para fora da sala de projeção com a
sensação de ter assistido a um filme “sério” quando, na realidade, viu um
draminha que poderia ter sido produzido para a televisão. 

Dirigido pela
estreante Courtney Hunt (também autora do roteiro), o longa acompanha as
dificuldades de Ray Eddy (Leo), uma mulher cujo marido fugiu com o dinheiro
destinado ao pagamento de uma nova “casa” (um trailer maior, na realidade) possivelmente para gastá-lo com
jogatina. Mãe de dois filhos, Ray acaba se envolvendo com a mohawk Lila (Upham), que usa a reserva
indígena para facilitar a entrada de imigrantes ilegais nos Estados Unidos
através da fronteira com o Canadá – atividade com a qual a protagonista se
envolve para tentar acertar sua terrível situação financeira. 

Embora, como
já dito, Rio Congelado jamais tenha a
coragem de se arriscar numa narrativa mais densa (até um tiro disparado à
queima-roupa nada mais faz do que arranhar a orelha de um personagem), o filme
merece créditos por desenvolver bem seus personagens – especialmente Ray, cujos
dilemas soam particularmente reais graças à excelente atuação da sempre
subestimada Melissa Leo (21 Gramas). Exibindo
as marcas da idade com uma franqueza absoluta, a atriz retrata com
sensibilidade os esforços de sua limitada personagem para agradar os filhos,
manter a família unida e comprar alimentos que não se restrinjam à pipoca e ao
suco que vem sendo obrigada a preparar em todas as refeições para as crianças
(na verdade, um adolescente de 15 anos e um menino de cinco – e é tocante, o
carinho e o cuidado dispensados pelo irmão mais velho ao caçula). 

De modo geral,
porém, Rio Congelado peca pelas saídas
fáceis e que só não soam mais artificiais graças à sua protagonista. E se este é
o tipo de produção que vem ganhando os prêmios principais de Sundance, então não
há mais mesmo como contestar a pasteurização sofrida por um festival que, no
passado, se notabilizou por divulgar trabalhos que não hesitavam em se
arriscar, mas que, agora, parece se contentar com o lugar-comum. (3 estrelas em 5)

 

48)    
 Loki – Arnaldo Baptista (Idem, Brasil, 2008). Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle. 

A trajetória
do músico Arnaldo Baptista, um dos fundadores (e, de acordo com este documentário,
líder inconteste) dos Mutantes, é cinematográfica: juntando-se a alguns amigos
para formar uma banda que seguisse os passos dos adorados Beatles, Baptista deu
início ao autêntico rock brasileiro, combinando as sensibilidades e raízes de
nossa cultura ao ritmo internacional para se tornar um dos principais expoentes
do nascente Tropicalismo. Com sua separação de Rita Lee e a saída desta do
grupo, porém, o músico mergulhou numa longa crise depressiva que provocou
internações e uma tentativa de suicídio que o jogou no coma por dois meses. Recuperado,
mas com seqüelas, Baptista seguiu com suas tentativas de voltar ao cenário
musical nacional e hoje é considerado por muitos como um artista
verdadeiramente genial. 

Dirigido por
Paulo Henrique Fontenelle, Loki (título
do celebrado álbum solo de Baptista) não só é um resgate-homenagem importantíssimo
de um homem constantemente subestimado como também um exercício contagiante de
nostalgia. Contando com maravilhosas imagens de arquivo (fotos, trechos de
shows, passagens dos grandes festivais de música da década de 60 e
entrevistas), o filme estabelece a importância de Baptista e dos Mutantes como
força de mudança durante o negro período da Ditadura Militar, quando eram
considerados, por parte do movimento estudantil, como artistas alienados que não
se preocupam com a situação política do país (quando, na realidade, a própria
postura de livre anarquia do grupo funcionava, ao seu próprio modo, como um
tapa no conservadorismo vigente). 

Figura
encantadora graças à maneira doce e quase infantil com que se expressa (algo
que se deve, em parte, ao “acidente” sofrido, mas que também pode ser observado
em suas entrevistas no início da carreira), Arnaldo Baptista exibe uma doçura
tocante ao manifestar suas doídas lembranças e seus esperançosos sonhos: ao
falar de sua separação de Rita Lee, por exemplo, ele diz que não compreendia
por que ela “o havia abandonado” (o tom triste, magoado, com que ele usa a
expressão é revelador); já ao comentar o show que fará em Londres com os “novos”
Mutantes (em 2007), ele confessa com a euforia de uma criança: “Estou com uma
esperança enorme de acontecer alguma coisa boa comigo aqui”. Como não se deixar
conquistar por alguém assim? 

Infelizmente,
porém, Loki exibe uma lacuna que se
faz sentir durante toda a projeção: a própria Rita Lee, que aparentemente se
recusa a falar sobre seu tempo nos Mutantes e seu casamento com Baptista. Com
isso, o filme pode apenas especular o que de fato ocorreu entre os dois: por um
lado, é óbvio que o protagonista se sente – como ele mesmo diz – “abandonado”. Por
outro, algo muito sério deve ter ocorrido para gerar tanta mágoa em sua
ex-esposa – e como, no confessional Loki,
Baptista pede “desculpas” a ela, é justo supor que, de fato, ele desempenhou
algum papel grave no processo. Mas a ausência de Rita Lee impede que o filme se
debruce nesta questão, que, mais do que uma simples “fofoca” sobre astros, se
apresenta como um incidente crucial para que compreendamos a decadência do
protagonista nas décadas seguintes. De todo modo, culpar o longa por isso pode
ser injusto, já que não havia muito a ser feito diante das negativas de Rita –
e, devo salientar, Fontenelle faz o melhor que pode ao cobrir aquele obscuro
período com depoimentos de várias outras testemunhas da época. 

Prejudicado
também pelo uso de drogas (especialmente LSD), Baptista é, ao mesmo tempo, um gênio
com trajetória admirável e um talento desperdiçado, já que certamente poderia
ter produzido muito mais caso seus problemas psíquicos e físicos não tivessem
lhe cobrado um preço tão alto. Resta o consolo de saber que, com este
excepcional documentário, há a esperança de que ele possa ser (re)descoberto
pelas novas e velhas gerações. 

E todos sairíamos
ganhando com isso. (5 estrelas em 5)

 

49)    
 Fogo da Paz (Peacefire, Irlanda, 2008). Dirigido por Macdara Vallely. Com: John Travers, Sean Roberts, Gerard Jordan, Conor MacNeill, Terry O’Neill,
Pauline Goldsmith. 

Escrito e
dirigido pelo estreante irlandês Macdara Vallely, Fogo da Paz é um drama frouxo que, visando expor os abusos do IRA e
dos órgãos da Lei que se opõem a este na Irlanda do Norte, traz o adolescente
Colin (Travers) em um fogo cruzado entre estas duas forças. Companheiro de dois
outros jovens inconseqüentes que se dedicam a roubar e queimar carros, Colin é
preso e obrigado a se tornar informante da polícia – o que pode custar-lhe a
vida caso os ex-companheiros de seu pai (um membro do IRA morto há vários anos)
descubram o que vem fazendo. 

Embora traga
alguns momentos de maior energia e exemplos isolados de um bom humor particular
(como a cena que envolve um jogo entre Irlanda e Itália transmitido pela televisão),
Fogo da Paz é, de modo geral,
dirigido de maneira burocrática por Vallely, que também emprega um preocupante
maniqueísmo em sua forma de retratar Patsy (O’Neill), o principal representante
local do IRA, e o policial Moorcroft (Doherty), que são vistos praticamente
como dois lados da mesma moeda, ambos reprimindo os pobres “civis” que se
encontram em seu caminho. 

Com um
desfecho que comprova apenas a estupidez do protagonista (nunca um bom sinal
para um filme como este), Fogo da Paz
jamais consegue provocar o impacto que, aparentemente, julga alcançar. (2 estrelas em 5)

 

50)    
 Perda (Nereikalingi
zmones
ou Loss, Lituânia, 2008).
Dirigido por Maris Martinsons. Com: Valda Bickute, Kostas Smoriginas, Dalia Micheleviciute,
 Andrius Mamontovas, Daiva Tamosiunaite, Gelmis
Naujikas. 

De modo geral,
eu gosto de filmes com múltiplas narrativas cujos vários personagens vão se
entrecruzando organicamente ao longo da projeção (Magnólia, Short Cuts, Questão de Vida, etc.) – e, assim, tinha
grandes expectativas com relação a este Perda,
que, além de adotar esta estrutura, ainda foi o selecionado por seu país, a
Lituânia, para representá-lo na disputa a uma vaga ao Oscar de Melhor Filme
Estrangeiro em 2009. 

Que decepção.
Revelando-se óbvio desde o princípio, quando traz uma epígrafe completamente
dispensável sobre os notórios “seis graus de separação” que ligam todos os
habitantes do planeta, o filme parece acreditar que sua cronologia fragmentada,
que traz seus personagens em pontos diferentes no tempo, é suficientemente
interessante para encobrir seus tropeços de roteiro – mas não é. Embora a
montagem do próprio diretor Martin Martinsons seja elegante em suas belas cortinas
que tornam as passagens de tempo mais fluidas, Perda se revela excessivamente dependente de coincidências absurdas
para justificar as ligações entre os personagens, o que enfraquece sua
premissa. 

Ainda assim, o
estreante Martinsons faz um bom trabalho na direção, criando uma certa tensão
com sua câmera inquieta, embora, aqui e ali, recaia na obviedade (como ao
enquadrar o colarinho do padre para lembrar o espectador – como se isto fosse
necessário – de que o personagem não deveria estar olhando para o corpo da
faxineira da Igreja). 

Não creio que ouviremos
o nome da Lituânia no dia em que os indicados ao Oscar 2009 forem anunciados.  (2
estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Novos filmes