A função do crítico – parte 2

Nos comentários do post anterior, o leitor Oz (um dos mais antigos do site e do blog, creio) contestou algumas das idéias publicadas ali – e, ao respondê-lo, percebi que estava praticamente escrevendo um novo post. Por esta razão, transfiro-o para cá, por achar que isto pode estimular a discussão.

Escreveu Oz: "Eu acredito que nenhuma (crítica) é capaz de explicar com exatidão alguma coisa;
desvendar uma obra por completo. Mas (…) eu
gosto da mágica. E se houvesse como fazer uma análise sem erros… a
crítica seria uma ciência exata. Fria. Dessa forma, a crítica pra mim é
a mesma coisa que um filme: pode ser boa ou ruim, cara-de-pau,
maquineísta, honesta, corajosa, marketeira… no final das contas os
leitores são os críticos da crítica, né?"

Na realidade, ele está propondo duas questões: em primeiro lugar, contrapõe a crítica de cinema à magia da experiência sensorial, sem o filtro da razão, como se, ao tentarmos entender como algo funciona, a magia se quebrasse. O fogo era mágico para os selvagens porque estes não compreendiam o mecanismo da geração de calor pelo atrito. De certo modo, Oz tem razão: podemos chorar copiosamente com o encontro de um casal ao fim de uma comédia romântica, mas se percebermos que esta emoção foi provocada por uma combinação da trilha sonora carregada de violinos, a fotografia quente e aconchegante e, claro, por uma lágrima estrategicamente libertada pela atriz, talvez o impacto fosse diminuído pelo registro racional de todo aquele mecanismo.

Não é à toa que, como digo sempre em meu curso de crítica (olha o jabá!), compreender melhor a linguagem do Cinema inevitavelmente fará com que o espectador "goste" de menos filmes. Este é o aspecto negativo. O positivo – e que, ao meu ver, faz tudo valer a pena – é que, quando gostamos de um filme, a intensidade e a natureza deste "gostar" se tornam exponencialmente maiores e mais agradáveis. Eu acho impossível apenas "gostar" de obras como O Poderoso Chefão ou Ônibus 174 – eu as amo intensamente. Em contrapartida, quando não gosto de um longa, tenho a capacidade e os instrumentos para realmente detestá-lo – e, acreditem, há uma paradoxal satisfação neste sentimento.

Mas é claro que há pessoas que não querem compreender este mecanismo, que preferem experimentar o Cinema como algo puramente sensorial. Elas são, como Ebert descreveu, "depósitos de estímulos". Há algum "mal" nesta passividade? Não. Porém, não é algo que me atraia ou pareça minimamente satisfatório. Eu aprecio o desafio intelectual de tentar decifrar o mecanismo usado pelo diretor para me emocionar, fazer rir ou sentir medo. E isto não impede que eu me emocione, ria ou me apavore – apenas torna estas reações mais difíceis, já que o maniqueísmo deixa de funcionar a partir do instante em que o reconhecemos como tal. Se alguém quer realmente se manter aberto a qualquer estímulo, por mais simplista que este seja, a leitura contínua da crítica cinematográfica não é, de fato, algo recomendado. A (boa) crítica é dirigida para quem quer pensar a respeito da Arte. Ninguém, em sã consciência, lê uma crítica para simplesmente voltar a sentir aquilo que experimentou durante o filme.

Já a segunda questão levantada por Oz relaciona-se à crítica como exercício intelectual falho por natureza. Na impossibilidade da análise encontrar respostas definitivas para o objeto de estudo, qual seria o sentido de se tentar defender a crítica como um processo válido?

Ora, o objetivo do post anterior não foi o de defender a crítica (e os críticos) como algo infalível. Ao contrário, o próposito da crítica não é oferecer respostas exatas, mas (como eu já disse tantas vezes) simplesmente estimular a discussão. Volto a Ebert: "Não há respostas corretas, apenas o processo correto". E que processo seria esse? Fazer perguntas e buscar respondê-las de maneira intelectualmente honesta, na esperança de que estas respostas gerem outras perguntas e o debate se inicie.

Sei que muitos me consideram um crítico arrogante (recentemente, um amigo querido disse que, como crítico, eu exibia uma arrogância que ele não via em mim como pessoa – ou algo no gênero), mas esta "arrogância" é puro reflexo da natureza combativa da crítica: quando apresento meus argumentos sobre um filme, exibo a certeza de quem pensou muito sobre aquilo e tem a convicção de ter encontrado uma resposta satisfatória. No entanto (e é isso que muitos leitores talvez não percebam), isto não implica que desconsidero automaticamente as demais respostas possíveis. O que é tomado como "arrogância" talvez seja uma simples resposta, por parte do leitor, diante de uma opinião contraditória à sua própria. "Eu gostei do filme! Quem é esse imbecil para dizer que estou errado? Ele está sugerindo que sou estúpido por ter opinião diferente?".

De forma alguma. Porém, não posso iniciar cada frase de meus textos com a expressão "Posso estar errado, mas eu acho que…". Escrevo com a confiança de que o leitor compreenderá que, subentendido no texto, reside o fato de que aquela é minha visão sobre o filme. A sua é divergente? Maravilha; agora explique por quê. Se minha crítica fizer com que você se sinta tentado a confrontá-la ou absorvê-la como bagagem para que possa discutir outros longas no futuro, ela já terá cumprido sua função, mesmo que não seja definitiva ou "exata".

E estamos, afinal de contas, discutindo a função do crítico, não sua (inexistente) aspiração à infabilidade.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Curso