O crítico, profissional em extinção

Sou um dinossauro. Ou talvez seja mais correto dizer que pertenço a uma profissão jurássica e que, como tipógrafos, ascensoristas e telegrafistas, estou fadado à extinção.

Não, não creio estar exagerando. Nos últimos dias, dois incidentes particulares me levaram a refletir sobre a natureza do que faço e seu prazo de validade enquanto atividade profissional: o primeiro foi o breve e desconfortável debate entre o colunista David Carr e seu colega de New York Times, o crítico de cinema A.O. Scott; o segundo, o anúncio da demissão (e extinção do cargo) da crítica Stephanie Zacharek, que escrevia para o site Movieline. Curiosamente, conheço os três pessoalmente, tendo conversado brevemente com Carr e mais extensamente com Scott e Zacharek quando participei do seminário de crítica promovido pelo NYT em 2007, mas não creio que o impacto destes acontecimentos tenha a ver com qualquer grau de pessoalidade originado desta coincidência, mas sim com o triste estado da curiosidade intelectual que venho observando nos últimos anos.

Esta não é uma discussão nova, claro. Já em 2001, quando tinha apenas sete anos de profissão, escrevi dois artigos que buscavam esclarecer a função e a formação do crítico cinematográfico de acordo com a visão que tinha (e tenho) sobre meu papel profissional: “Pra que serve o crítico, afinal?” e “Formando um crítico de cinema“. Anos depois, voltei ao tema em posts como “Pra que serve a crítica?” e “Crepúsculo, Pevere, Rosembaum, Kael, Rossmeier, Atkinson” – e, sinceramente, hoje percebo a futilidade do esforço. Quem compreende o papel da crítica não precisa de maiores esclarecimentos; aqueles que a encaram como “questão de opinião” já interromperam a leitura no segundo parágrafo.

Considerem este post, portanto, como uma reflexão interna publicada como forma de terapia, como uma forma de negociar internamente meu valor e meu destino, representando, assim, o terceiro passo rumo à aceitação de meu fim profissional, tendo já passado pela negação e pela raiva (e mal posso esperar para chegar à “depressão”).

De imediato, o óbvio: não existo como árbitro do que é “bom” ou “ruim”. Nunca acreditei no papel do crítico como guia de consumo, como alguém que existe para dizer o que o leitor deve consumir culturalmente ou não. Escrevi várias vezes (e insisto no ponto) que, num mundo ideal, todos deveriam ver todos os filmes – incluindo aqueles que desprezo, já que, no mínimo, a bagagem adquirida passaria a funcionar como base de comparações futuras (além de sempre podermos aprender através de contra-exemplos). Assim, quando leio comentários em meu videocast sobre Prometheus que “alertam” os demais leitores para que não deixem de ver o filme “por causa deste imbecil”, sinto vontade de perguntar em que momento, em minha fala, sugeri que o filme fosse boicotado. Nunca sugeri boicote e jamais o faria – e apontar o crítico como alguém que se julga no direito de ditar o gosto alheio é uma das grandes falácias daqueles que detestam nossa profissão.

Mas o contrário também é verdadeiro: vira e mexe, alguém me envia um email ou tweet com o claro propósito de me elogiar e dizendo que sou seu “crítico favorito, já que sempre concordamos”. Sinto dizer (e aprecio a gentileza do gesto), mas isto não é um elogio. O que a afirmação implica é que meu valor está associado à minha capacidade de prever a reação do leitor e de passar a mão sobre sua cabeça, aprovando seus gostos. Aliás, acredito exatamente no oposto: o bom crítico é aquele que desafia seus leitores. Não como alguém “do contra”, mas como um profissional que estudou a Arte, viu mais filmes e, portanto, pode apontar elementos que passaram despercebidos ao espectador.

E a palavra-chave, na frase anterior, é “estudou”.

É extremamente comum ouvir, como resposta a uma crítica, que esta representa “apenas uma opinião”, sugerindo, com isso, que todas as “opiniões têm mesmo valor”. Este, claro, é o reduto do medíocre: em vez de apresentar argumentos que embasem suas posições, julga mais simples e confortável apenas afirmar que sua posição é tão válida quanto a de qualquer um apenas porque… ora, porque ele a sentiu ou intuiu. Há, ainda, quem apele para o lugar-comum do “é uma questão de gosto”, o que, em seu centro, é apenas uma variação menos elaborada (se é que isto é possível) do “toda opinião é igualmente válida”.

O que estas pessoas não percebem é que estão falando de algo diferente: da reação a uma obra de arte. Um filme pode provocar o choro em um e o riso em outro – e o crítico que tentar desmerecer a reação do espectador em vez de buscar analisar como a obra a provocou estará cometendo um erro básico (e é por esta razão que não acredito que o bom crítico se deixa influenciar pela reação da plateia ao seu lado; seu foco deve estar naquilo que se encontra na tela, não no público que a contempla). Assim, quando alguém que despreza a crítica acusa a profissão de “ser do contra”, de “sempre diferir do gosto popular”, está reagindo não contra a argumentação do texto, mas à ideia (que não vem do crítico, mas dele mesmo, espectador inseguro) de que ele seria estúpido por ter tido reação diferente. Quanto a esta questão, meu amigo (e crítico fabuloso) Jim Emerson escreveu:

“A Crítica é mais do que a afirmação de um gosto pessoal. (…) Filmes são experiências emocionais (entre outras coisas) e as pessoas respondem a eles emocionalmente. Espera-se dos críticos, porém, que mergulhem mais fundo, que analisem, expliquem e interpretem.”

Ao contrário do que muitos parecem pensar (“esse cara adora falar mal de tudo!”), não encaro a crítica como um exercício de masoquismo, como a oportunidade de me torturar ao ver e escrever sobre filmes que sei que detestarei. Antes de ser crítico, sou um profundo apaixonado pelo Cinema (todo bom crítico o é) – e quando entro numa sala de projeção, preparo-me para ser encantado pela obra que verei. Se posteriormente publico uma crítica negativa, não o faço por prazer, mas por obrigação profissional de articular racionalmente algo que me desagradou ou desapontou – e o inverso é igualmente verdadeiro: a crítica positiva é a manifestação racional do amor experimentado diante da Arte.

E desta vez a palavra-chave é “racional”. Sim, claro que “sinto” ao ver um filme. Choro feito um bebê com frequência no cinema (para imenso constrangimento de meu filho), rio alto de boas tiradas e me contorço na poltrona diante de uma cena tensa. No entanto, se ao escrever sobre o que vi acabar me limitando a descrever o que senti (“Chorei muito!”, “É emocionante!”, “Que filme divertido!”, “Dá muito medo!”), terei escrito um texto que valerá para uma única pessoa: eu mesmo. Descrever sentimentos é a opção populista do crítico sem embasamento teórico; o bom profissional irá além: explicitará como os realizadores dispararam aquelas emoções em seu público ou por que falharam ao tentar fazê-lo.

Daí a importância do estudo e da bagagem. Ninguém daria ouvidos a um especialista em economia que jamais houvesse estudado o assunto ou a um correspondente de guerra que jamais houvesse saído do estúdio. Da mesma forma, o que diferencia o crítico do espectador “médio” (um termo que uso não de forma pejorativa, como muitos parecem querer acreditar, mas como descrição objetiva de alguém que encara o cinema como passatempo descartável e não tem interesse em enriquecer sua experiência como cinéfilo) é o conhecimento sobre teoria, linguagem e história cinematográficas.

E só isto já desqualifica a posição de que “toda opinião é igual”, já que o que realmente importa são os argumentos que embasam cada opinião. Dizer que a fotografia de um filme “é boa” ou que este é “bem montado” nada significa; é uma afirmação vazia que não diz nada – e é por isso que o bom crítico empregará exemplos retirados do próprio longa para justificar suas posições, frequentemente usando as observações disparadas pelo lançamento da semana para discutir elementos que dizem respeito ao Cinema de modo geral.

(Aliás, se comentei antes que dizer que sou um bom crítico “porque sempre concordo com sua opinião” é um elogio vazio, devo reconhecer que sempre fico lisonjeado quando vejo alguém tuitar ou “facebookar” que irá ler algumas de minhas críticas antigas apenas pelo prazer de visitá-las. “Confesso que não tenho curiosidade de ver todo filme que entra em cartaz, mas adoro ler todas as críticas que você publica, mesmo sem ter visto o longa em questão”, escreveu um leitor outro dia, naquele que provavelmente é o maior elogio que já recebi justamente por apontar que o texto tem valor como análise cinematográfica em si, não como guia prático de consumo.)

Porém, em vez de aproveitarem o conhecimento do crítico para talvez aprenderem um pouco mais sobre a Arte, há muitos que preferem apenas vê-lo como alguém “arrogante”, como um “pseudo-intelectual” (a “ofensa” que é marca registrada daquele inseguro quanto ao próprio intelecto ou à própria cultura); é mais fácil acreditar, por exemplo, que fingi ter apreciado A Árvore da Vida do que reconhecer o próprio comodismo ao sequer tentar entender o filme de Malick. Quanto à “arrogância”, retorno a palavra a Jim Emerson:

“(É necessária) uma certa forma de arrogância para se fazer um filme, para se apresentar em público ou diante da câmera e para escrever uma crítica. (…) Dizer que alguém do showbiz (e isto inclui as pessoas que escrevem sobre ele) está exibindo ‘arrogância’ é como dizer que um bombeiro está exibindo ‘coragem’ ao entrar em um prédio em chamas. Você não poderia desempenhar seu trabalho sem ela. Mas não basta a arrogância. Preparo e experiência também são necessários.”

E é exatamente por isso que jamais me defendi da acusação de “arrogância”: desacompanhada de estudo, é reprovável; embasada por argumentos, é o que me permite ter a “audácia” de publicar o que escrevo para consumo alheio.

Nada disso interessará por muito mais tempo, porém. A ideia de que “na internet, todo mundo é crítico” é o que parece dominar – mesmo que, como discuti acima, o estudo, a bagagem e a experiência sejam fundamentais ao definir o autêntico “crítico”. Infelizmente, como escrevi no twitter, hoje o que importa é o hype, não o pensamento crítico.

A crítica cinematográfica desaparecerá ao lado dos filmes legendados. Morreremos afogados nos braços um do outro, como expressões ultrapassadas do amor e do respeito incondicionais pela Sétima Arte.

————————————————-

P.S.: Se você leu este post na íntegra, não precisava ser convencido(a) do valor da crítica; está habituado(a) a ler e aprecia a discussão racional – e mesmo que tenha discordado de tudo que escrevi, certamente terá capacidade de articular esta discordância. O problema reside naqueles que pararam no título ou no segundo parágrafo, deram um “page down” para ver o tamanho do texto, ficaram com preguiça e abandonaram a página. E como estes representam a maioria, a crítica permanecerá condenada por mais que a defendamos. 

P.P.S.: Se você leu este “P.S.” ao finalizar o rápido “page down”, vestiu a carapuça e decidiu comentar negativamente apenas para fingir que leu tudo, a fragilidade dos seus argumentos te denunciará. Nem tente.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Discussões