Amor por uma mulher inalcançável

Annie Hall foi o sexto filme dirigido por Woody Allen – e, entre suas comédias, a melhor (considerando os dramas, fico entre Manhattan e Memórias, embora tenha grande afeto por vários outros). Revendo o filme nesta madrugada após perder o sono, fiquei fascinado por como Allen não economiza absolutamente nada como cineasta: usa telas divididas, legendas, rompe a quarta parede, emprega cenas de animação, investe em cenas fantasiosas, cria uma cronologia completamente quebrada (mas jamais confusa), abusa da metalinguagem e não hesita em combinar tudo isso ao seu humor físico impecável.

É um dos grandes longas da história do Cinema.

Mas se quisesse escrever uma crítica sobre Annie Hall, estaria publicando este texto no Cinema em Cena, não no blog. Porque o que quero expressar aqui é meu amor por uma mulher.

Aliás, se o filme de Woody funciona tão bem, isto se deve não apenas à sua narrativa ambiciosa, como já descrito acima, mas também à sua sensibilidade. Assistir a Annie Hall é recordar-se de grandes amores, de corações partidos e de desejos impossíveis. É relembrar a mágica contida em uma nova pessoa, quando estamos aprendendo a reconhecê-la como alguém que caminha para se tornar importante em nossa vida. É reviver os momentos que antecedem um primeiro beijo nervoso e hesitante – e suspirar ao perceber como aquele ato tão simples abre uma porta colossal que pode nos levar à felicidade absoluta ou à mais intensa das dores (frequentemente ambas). Há pura magia no processo de conhecer uma nova paixão, de ouvir histórias de seu passado e aprender a identificar as cicatrizes por este deixadas. Há ternura no desejo de cuidar destas cicatrizes, de fechar as feridas, de proteger a nova amada contra outros machucados. É milagroso aprender como o seu humor funciona; o que a faz rir ou a deixa melancólica. É prazeroso constatar como nos tornamos capazes de ler seus olhos e enxergar o que há por trás destes. E é doloroso ter que atirar todo este aprendizado fora quando tudo chega ao fim.

Até que, claro, o ciclo se reinicia com outro amor.

Annie Hall é sobre isso; sobre amores que marcam para o bem e para o mal (frequentemente ambos). Neste sentido, é universal. Alvy Singer é um humorista judeu neurótico de meia-idade, mas poderia ser um crítico de cinema brasileiro pedante de… quase meia-idade. Ou um jovem de 21 anos. Ou…

No entanto, eu disse que este post era sobre meu amor por uma mulher. Um amor recorrente, relativamente antigo e incurável. Sim, eu posso esquecê-la por algum tempo, mas basta revê-la que tudo retorna com intensidade e experimento a velha melancolia por saber que jamais poderei tê-la.

Annie Hall.

Não, não Diane Keaton (embora Hall seja seu sobrenome de fato e o filme se inspire muito em sua relação com Allen), mas sua personagem naquele que ganhou no Brasil o título de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.

Seu riso nervoso, sua timidez, seus olhos imensos, suas roupas cheias de personalidade, sua insegurança, seu senso de humor, sua juventude tocante, sua inteligência, sua alegria e também sua tristeza. Annie Hall é, de certa forma, o grande amor da minha vida. Infelizmente, nasci vinte anos tarde demais, no país errado e na realidade – e, para tê-la, de bom grado eu aceitaria me tornar um baby boomer norte-americano da ficção.

E gosto de acreditar que Annie leria a frase acima e sorriria embaraçada, reconhecendo em seu absurdo uma irresistível declaração de amor.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Clássicos, Variados