Que a humanidade se defina pelo que tem de melhor

Hoje pousamos um caminhão em Marte.

Vou repetir isso, pois parece uma sentença saída de uma obra de ficção científica: hoje, 6 de agosto de 2012, enviamos um equipamento exploratório do tamanho de um caminhão a outro planeta, pousando com precisão absoluta para que conseguisse já enviar imagens da superfície marciana imediatamente. “Curiosidade” é o nome da nave, que custou 2,6 bilhões de dólares e conseguirá não só registrar tudo através de fotos e vídeos, mas também é capaz de extrair rochas, analisar sua composição e enviar o resultado para casa – uma viagem que a informação leva 14 minutos para completar.

“Curiosidade”. Isto é o que impulsiona a humanidade. O desejo de saber mais, de se reconhecer ignorante, mas jamais limitado por esta ignorância, usando-a como alavanca para o saber. Esta é a diferença entre o cientista, o pensador, que faz perguntas para as quais não tem indícios de resposta, e outros que oferecem a mesma resposta para todas as perguntas. Um cientista não tem “fé”, mas incertezas. E se formula hipóteses que acabam sendo contraditas por fatos, repensa suas premissas em vez de tentar ajustar a realidade à sua visão preconcebida do mundo.

Ao contrário do que afirmam alguns, não há arrogância na Ciência. Se houvesse, esta não evoluiria.

Em 2012, enxergamos a menor das partículas, cuja existência havia sido teorizada há 50 anos, e enviamos um caminhão a Marte. Vimos o anúncio dos cientistas do CERN e o pouso ao vivo (embora este último com o atraso provocado pela distância) através de nossos computadores em vídeo transmitido por satélites e cabos para todo o mundo simultaneamente. Enquanto testemunhávamos a vitória da inteligência humana, podíamos acessar também imagens das Olimpíadas, que nos ofereciam um olhar sobre a vitória do empenho físico e do melhor que podemos fazer apenas com nossos corpos: um homem corre 100 metros em 9,63 segundos; uma jovem chinesa nada 400 metros medley em 4.28:43; uma mulher de 53 quilos ergue 131.

Mas não somos perfeitos, claro. Enquanto centenas de mentes se unem para demonstrar como o universo surgiu, um moleque invade um cinema e tira a vida de doze pessoas e um outro protozoário entra em um templo e elimina outras seis. Milhares de pessoas decidem prestigiar uma cadeia de restaurante cujo presidente classificara os homossexuais como aberração, usando suas carteiras e estômagos como suporte para a intolerância. No Brasil, figuras como Silas Malafaia, Bolsonaro e Reinaldo Azevedo diminuem o Q.I. coletivo apenas por respirarem, desperdício de carbono que são. Misoginia, homofobia e diversos outros tipos de intolerância são vendidos a milhões de pessoas sob a desculpa de que “Deus desaprova” esse ou aquele tipo de comportamento – como se Deus, caso existisse, não só rejeitasse suas próprias criações como ainda fosse estúpido a ponto de comunicar suas vontades através dos vermes que se apresentam como seus porta-vozes.

Isto pode nos desanimar. Angustiar. É difícil celebrar nosso avanço intelectual se este é combatido por grupos cada vez mais poderosos que trazem a ignorância não só como objeto de orgulho, mas como principal arma.

Mas aí me lembro de que um equipamento construído pela humanidade encontra-se agora a 250 milhões de quilômetros da Terra. E me lembro de que “enxergamos” uma partícula cuja meia-vida é de 1 zeptosegundo. E me lembro de que um sul-africano nadou 100 metros na modalidade peito em 58.46 segundos.

E concluo que, apesar de tudo, é uma época linda, esta na qual vivemos.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões