Breaking Bad S05E04

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Walter White é um canalha. Um bandido. Em algum momento nos últimos doze meses, ele foi de herói a anti-herói a vilão. Antes pai amoroso e marido dedicado, sua cordialidade familiar agora vem acompanhada de uma atmosfera de falsidade inquestionável: quando ri e brinca com o filho, parece estar apenas se entregando a um simulacro do antigo Walt – e sua relação com Skyler já não é mais de companheiro, mas carcereiro. Assim, não é surpresa que desde o segundo episódio desta quinta temporada White seja frequentemente enfocado no mesmo quadro no qual a esposa se encontra, mas com o rosto fora de campo, ressaltando, assim, a ameaça que representa para esta (tememos mais o que não vemos).

Não há, aliás, mais qualquer sinal de carinho entre ambos – e mesmo as tentativas de Walter (e inclino-me a chamá-lo assim em vez de “Walt”, já que não o considero digno de um apelido carinhoso) de parecer gentil surgem como elementos estudados, como se ele se preocupasse mais com as aparências de um casamento amoroso do que com o sentimento real. Até o episódio deste domingo, vale apontar, ele jamais havia se permitido agir como Heisenberg ao lidar com a esposa. Sim, ele mostrara sua faceta perigosa, mas deixando claro que representava uma ameaça aos outros, não a ela – mas basta acompanhar a mise-en-scène criada para acompanhar a discussão do casal no quarto para perceber que ela agora é também vítima da persona maligna do marido: tentando  desesperadamente pensar em uma saída, Skyler caminha pelo quarto apenas para ser continuamente encurralada, física e intelectualmente, até cair na cama enquanto a figura imponente e cruel do antigo companheiro se projeta sobre ela, levando-a a uma expressão de absoluto terror. E se ao comentar o episódio s05e02 lembrei-me do instante em que Kay dissera a Michael Corleone que tinha “pavor” deste, a interação ocorrida neste quarto episódio me lembrou de um momento de O Poderoso Chefão Parte 2: aquele no qual a esposa de Michael diz que este se tornou “seu horror”, anunciando a seguir que iria tirar seus filhos de seu convívio (e a resposta do filho de Don Vito é basicamente a mesma que Walter oferece aqui: “Você acha que eu permitiria isso?”). Desta maneira, é fácil compreender seu mergulho na piscina, que não só é uma estratégia para obrigar Marie a levar os sobrinhos para casa, mas também um gesto simbólico que remete a uma patética e desesperada tentativa de purificação.

Não é à toa que, logo no início do episódio, Walter surge com Jr. buscando o antigo carro na oficina, já tão maltratado ao longo da série, e decide se livrar do veículo, sendo sintomático que o responsável pelo conserto aponte a dificuldade em repintá-lo com a cor original: o verde que marcava os figurinos do protagonista no início de Breaking Bad, antes que se entregasse de vez à profissão de fabricante de drogas. Ao livrar-se do carro, Walt está abandonando conscientemente qualquer traço de sua antiga personalidade – e do ponto de vista psicológico, é fascinante que antes de abrir mão do automóvel ele busque ali dentro (e de si) o que lhe interessa: o chapéu que o estabelece como Heisenberg, cujo caráter deformado é representado por seu reflexo distorcido no espelho retrovisor.

Aliás, o talento de Breaking Bad para representar graficamente o estado de espírito de seus personagens, descartando diálogos expositivos, é algo encantador: além do reflexo de Heisenberg, o episódio evoca a confusão mental de Lydia apenas ao mostrar que calçou sapatos errados (algo que também servirá de pista a Hank) e também expõe o nervosismo crescente de Skyler através de um rápido plano-detalhe do fio dental que corta a circulação de seus dedos. Além disso, ao preparar o bacon no prato do marido, na manhã de seu aniversário (e confirmando, com isso, o tempo decorrido deste o início da série – algo que eu já havia apontado semana passada), a pobre mulher atira o “1” de qualquer forma, criando um desequilíbrio no algarismo que reflete a instabilidade da vida que agora levam.

Não que esta instabilidade possa deter o mergulho de Walter: cada vez mais cego pelo poder, ele agora se presenteia com carros caros (ignorando a discrição que tentava manter no passado), busca se convencer de que Skyler voltará a enxergá-lo com bons olhos e se entrega a uma arrogância que certamente lhe custará muito – e é curioso que em dois instantes deste episódio vejamos a figura de uma abelha (além do “B”, bee, no latão), já que, como estes insetos, que se condenam à morte ao ferroarem as vítimas, Walter aparentemente não percebe que sua agressividade provocará sua própria destruição.

Uma destruição – já antecipada pelo angustiante tique do relógio presenteado por Jesse – que será antecedida por um longo período de solidão cada vez maior.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê