Quem eu era, quem eu sou

Uma das coisas lindas que a Arte proporciona é a auto reflexão. Às vezes, estamos assistindo a um filme, lendo um livro, analisando uma pintura e bum!, voltamos no tempo e reavaliamos nossas ações, lembramos de velhos amigos ou simplesmente constatamos que o tempo passou. Isso aconteceu comigo esta madrugada enquanto assistia ao novo episódio da melhor série da atualidade, Louie, criada, escrita, montada e dirigida pelo comediante Louis C.K. (sim, a considero melhor que Breaking Bad). Em certo momento, ao ligar a televisão, Louie se depara com imagens de uma performance gravada em sua juventude e compara o rapaz que foi ao homem de meia idade que agora vê através da webcam de seu laptop.

Bum!, mergulhei em mim mesmo.

Lembrei-me de Silvia, Alessandra, Renata e Grace, paixões de minha adolescência que jamais se concretizaram em romance. Lembrei-me de Charles, Thiago e Ricardinho Neves, meus grandes amigos do ensino médio. Lembrei-me de que fui expulso do Santo Agostinho 3 na oitava série por indisciplina. Lembrei-me de quando pegava o ônibus para… ir a qualquer lugar.

Revisitei o jovem Pablo, que não sabia o que queria ser quando crescesse. E que um dia, em 1990, assistiu a Tempo de Despertar e percebeu que a Medicina era a mais linda das profissões (ainda acredito nisso). Voltei ainda mais e me revi aos 8 anos, agarrado a um caderninho de pauta e escrevendo um “livro” intitulado O Mistério do Haraquiri, sobre um homem encontrado morto sem que houvesse indícios da causa (depois de ler o verbete “harakiri” na enciclopédia, deduzi – erroneamente, claro -, que o suicídio era provocado por um golpe que não deixava marcas no abdômen). Recordei a resposta que oferecia sempre que alguém perguntava o que eu seria quando fosse grande: “Escritor”.

Hoje vivo da escrita. Hoje sei o que é haraquiri. Cursei e abandonei a Medicina no oitavo período. Amei muitas mulheres e por elas fui amado. Amei tantas outras que não me amaram de volta ou deixaram de fazê-lo. Cresci, aprendi, vivi. Adoeci. Estive perto da morte e me recuperei. Envelheci.

Sou um homem diferente da criança que fui. E também sou aquela criança. Sou cínico, o que não era; acredito na Humanidade, o que não mudou. Sou mais amargo, o que não era; rio da desgraça e sempre ri.

Amo e sempre amei. A vida de nada vale sem paixões.

O velho temperamento explosivo amaciou – mas não o suficiente para que eu me sinta plenamente confiante com relação às minhas reações em situações extremas.

Escrevo melhor e isso é um prazer.

Não temo mais a morte como sempre temi. Se vier, veio. Não a recebo com boas vindas, mas a reconheço inevitável.

Sou um ser humano melhor do que era. Há muitos melhores do que eu; há também piores. Sou grato por ser capaz de admirar os primeiros e ignorar os últimos.

Fiz amigos e também os perdi. Construí uma boa carreira. Destruí relações promissoras. Falhei e venci. Ri e chorei. Tenho admiradores e detratores. Estouro, brigo e faço rir. Ensino e aprendo. Não sou feliz e não acredito na felicidade, mas sinto-me completo ao ouvir a risada de meus filhos. A alegria deles me basta. Sou um bom pai e isso também me basta.

Eu poderia ter me saído pior. E procuro evitar pensar que também poderia ter me saído melhor.

E aguardo o amanhã com curiosidade.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano