Breaking Bad S05E05

(Aqui tem spoilers, BI-ATCH!)

Walter White não pensa mais como um gênio da Química, como um homem da razão, mas como um traficante barato. Sim, se alguém apontar o caminho, ele retoma o pensamento lógico, mas seu impulso agora o leva constantemente à direção da violência. Neste quinto episódio da quinta temporada, ele inicialmente não só concorda em executar Lydia, mas eventualmente indica até mesmo estar disposto a matar dois homens inocentes a fim de concretizar o roubo do trem – e é preciso que Jesse, sempre compassivo, ofereça uma solução alternativa para que seu mentor aceite contornar o assassinato. Neste sentido, vale apontar que até mesmo o impiedoso Mike manifesta ressalvas com relação à morte dos maquinistas do trem, evidenciando não sua bondade, mas ao menos uma tendência a evitar a violência a menos que a julgue incontornável.

Não é à toa que Jesse, antigamente o drogado estúpido, imprevisível e imaturo, vem se tornando a bússola moral de Breaking Bad: defendendo Lydia e buscando alternativas que evitem um massacre, o rapaz tem sua posição como humano ainda decente (considerando, claro, o que isto significa no universo corrompido da série) ressaltada visualmente através da contraposição na posição das câmeras: se Walt e Mike são vistos a partir de ângulos inferiores, o que demonstra a ameaça que representam, Jesse surge na mesma altura da objetiva, estabelecendo-o como par do espectador.

Mas não é só: no momento em que Jesse tem a ideia do roubo, o diretor George Mastras (estreante na função) aposta numa mise-en-scène que cria uma rima visual elegante com o primeiro episódio desta temporada, quando o rapaz sugeriu, em outro arroubo criativo, que usassem um imã gigante para destruir as imagens no laptop de Gus Fring – e mesmo que Mastras exagere aqui e ali em sua decupagem, criando planos que parecem apenas querer demonstrar que o episódio tem um diretor (algo raro em Breaking Bad e que aqui acontece na sequência inicial, do garoto na moto, e também na câmera na mão que acompanha o trio medindo os trilhos), ele acerta brilhantemente ao trazer Jesse iluminado em meio aos perigosos Walter e Mike, que se encontram apropriadamente mergulhados em sombras.

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O roubo do trem, aliás, é conduzido com segurança pelo diretor em uma longa e tensa sequência que, claro, traz os obstáculos habituais de última hora, sendo uma referência bacana o fato de Hank convidar Jr. para assistir a Fogo Contra Fogo justamente no episódio que traz um “assalto” planejado com tamanha audácia.

E já que mencionei Hank, a temporada parece oferecer um leve indício de tragédias futuras ao trazê-lo manifestando um claro desejo de ficar definitivamente com a sobrinha – o que poderia se concretizar no caso de uma infelicidade que levasse os pais do bebê. Além disso, o detalhe de finalmente parecer notar os gastos excessivos do concunhado sugere um caminho provável rumo à descoberta da faceta criminosa de Walter – e o fato de ambos se encontrarem em lados opostos da Lei é ilustrado pela direção de arte, que traz os dois homens separados por uma mesa sobre a qual se encontra um monitor que exibe aquilo que os distancia: um distintivo representando a autoridade de Hank.

Esta cena, vale apontar, indica a sociopatia e o calculismo crescentes de Walter, que não apenas usa sua relação com Skyler e com Hank para manipular este último (sabendo que este se afastará momentaneamente ao ficar diante de uma situação embaraçosa) como ainda simula um sofrimento que pode até ter algum fundo de verdade, mas que é evocado com intenções puramente criminosas. Neste aspecto, é importante notar como as cenas que se passam na residência dos White agora parecem constantemente tomadas pela escuridão, não trazendo qualquer indício de felicidade num lar que antes surgia iluminado e alegre – e basta comparar o que vemos neste episódio com a fotografia do piloto para constatarmos a transformação daquele ambiente.


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É sintomático, também, que a pergunta de Skyler sobre Walter estar “enterrando corpos” acabe se revelando premonitória, indicando que a mulher está certa ao prever um fim desastroso e trágico para sua família – isto para não ignorarmos o fato de que mais uma vez White quase compromete sua própria segurança e a de seus comparsas em função da ganância,  levando de forma indireta à morte do garoto (houvesse ele atendido aos apelos de Mike e encerrado o roubo antes, teriam concluído tudo sem que o menino testemunhasse o desfecho da ação).

E é esta morte, afinal, que provavelmente conduzirá a um arco importante e determinante na série ao impactar Jesse o bastante a ponto de enfim levá-lo a perceber que o Mr. White que tanto respeita já não é mais o mesmo homem de antes (e não é à toa que o figurino do garoto morto, amarelo, remete às roupas usadas pelo próprio Jesse durante tanto tempo em Breaking Bad). Neste sentido, é bastante possível que o rapaz acabe refletindo a imagem final deste episódio ao perceber que suas tentativas de conter a natureza cruel do mentor (a tarântula no vidro) resultará apenas em sua própria destruição.

A menos que faça algo a respeito.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê