Breaking Bad S05E07

(Spoilers, scumbag. It’s the universal symbol for spoilers.)

Foi bom conhecê-lo, Mike Ehrmantraut – e isto é uma surpresa quando constatamos que você era um assassino profissional, um homem capaz de eliminar um ser humano sem pensar duas vezes sobre o assunto, mesmo que se tratasse de uma mulher cuja filha encontrava-se no aposento ao lado (e se não a matou neste caso específico, foi por julgar que ela poderia ser uma vantagem estratégica e financeira). Sempre que você surgia em cena, podíamos esperar duas coisas: falas impactantes cujo humor ou dureza seriam aproveitados ao máximo graças ao timing de seu intérprete, Jonathan Banks, e um ar de perigo constante exalado sem qualquer tipo de exagero. Ao contrário, suas pálpebras caídas, a boca retorcida de desgosto ou cansaço constante e a voz grave poderiam pertencer a um velhinho inofensivo, mas de alguma maneira você transformava estes elementos em uma sentença de morte.

Ao longo de toda a sua brilhante participação em Breaking Bad, você enfrentou alguns obstáculos temerosos: participou de um tiroteio no deserto (encontrando tempo para salvar Jesse, que congelou em meio às balas), abriu caminho para seu chefe Fring e (novamente) para Jesse na mansão de um traficante poderoso, derrotou os agentes do DEA sem precisar erguer um braço, escapou de um assassino usando um brinquedo de criança para despistá-lo, conseguiu sustentar as famílias de seus antigos subalternos que se encontram na prisão e, de quebra, cuidou do futuro de sua neta. Quis o destino (e a mente cruel de Vince Gilligan), porém, que você fosse morto num ato covarde por um canalha orgulhoso que não aceita se ver diminuído por quem quer que seja.

E que esse canalha covarde seja o protagonista da série é apenas um detalhe.

Iniciando com uma sequência eficiente que já demonstra o controle que Walter exerce sobre seus sócios, quando surge praticamente usando-os como seu chofer particular e, segundos depois, como guarda-costas, o episódio ilustrou o orgulho crescente que o sujeito sente por seu alter-ego Heisenberg ao trazê-lo obrigando um perigoso bandido a reconhecer sua importância e dizer seu nome – e a maneira com que o roteirista/diretor Thomas Schnauz conduz a cena é impecável, fechando os quadros gradualmente em Walter até finalmente trazê-lo em primeiríssimo plano nos momentos finais, quando ele diz com arrogância ao ouvir seu “nome”: “You’re goddamn right!”.

A partir daí, o que temos é a insistência fracassada de Walter de manter Jesse sob seu domínio: atirando todo tipo de estratégia de manipulação em sua conversa com o rapaz, dos elogios falsos à agressividade gratuita, passando pela chantagem descarada, o químico denuncia sua dependência crescente do antigo parceiro, o que é curioso – afinal, Walter poderia treinar qualquer um para substituir Jesse (e, aliás, é o que acaba fazendo), e, portanto, sua necessidade de mantê-lo por perto não é profissional, mas puramente pessoal. Jesse é a única ligação que Walter ainda mantém com o passado e com sua quase extinta humanidade, representando também uma pequena plateia para seu poder crescente, já que não pode compartilhar a importância de “Heisenberg” com mais ninguém. Assim, ser abandonado pelo companheiro representa a solidão final que Walter vem tentando evitar desde o início da série e que agora surge inevitável.

No entanto, por mais que a trajetória do protagonista seja, claro, o centro de Breaking Bad, este penúltimo episódio antes do hiato de um ano que enfrentaremos a seguir serve principalmente como desfecho da participação marcante de Mike na série. Sentindo-se finalmente acuado depois de descobrir ter sido traído pelo advogado que usava para pagar as contas de seus ex-subalternos, o sujeito manifesta insegurança, confusão e desespero pela primeira vez desde que o conhecemos – e justamente por estarmos tão habituados a vê-lo sempre no controle da situação que sentimos o impacto de sua fragilidade subitamente revelada e percebemos a dor que o atravessa ao ter que abandonar a neta que tanto ama. Além disso, a decisão de enquadrá-lo encurralado por uma árvore é especialmente eficaz por ressaltar sua situação e como o mundo parece estar se fechando sobre ele (e se o quadro fechado em Walt, no início do episódio, expunha seu delírio de grandeza, aqui tem o efeito de aumentar a claustrofobia experimentada por Mike).

O que nos traz ao desfecho atordoante do episódio: depois de tentar forçar Mike a revelar os nomes daqueles que poderiam denunciá-lo, Walter novamente expõe seu orgulho ferido ao irritar-se por não receber um simples “obrigado” do outro – que, como se não bastasse, faz questão de apontá-lo como o responsável pelo situação na qual todos se encontram agora, já que não aceitou “permanecer em seu lugar” e deixar que Fring cuidasse de tudo (a sugestão é óbvia: Fring, sim, seria um líder nato; Walter é apenas uma marionete que insiste em tentar manipular desajeitadamente as próprias cordas). E é aqui que Thomas Schnauz toma sua melhor decisão como diretor ao enfocar os homens se afastando e o protagonista deixando o campo por alguns segundos, apenas para entregar-se ao próprio impulso destrutivo e à raiva a fim de eliminar o último homem que realmente temia, voltando a atravessar o quadro com decisão e ódio.

Pois esta é a triste verdade por trás da ação de Walter: depois de ter se encontrado várias vezes na mira da arma de Mike, que jamais demonstrou respeito ou receio diante dele, o antes acovardado professor parece agir mais com o impulso de provar-se do que por qualquer outra coisa. E não é à toa que, depois de disparar contra Mike, Walt exibe pela primeira vez em muito tempo a antiga expressão de medo que sempre mantinha no rosto: a partir dali se torna impossível, para ele, julgar-se um bom homem enfrentando circunstâncias extraordinárias; é, agora, um bandido tão impiedoso e cruel quanto Fring ou o Tuco cuja psicopatia o assustara tanto na primeira temporada.

Ao matar Mike a sangue frio, Walter White não pode justificar a ação alegando tratar-se de autodefesa – algo que, em maior ou menor grau, motivara todos os assassinatos que cometera até agora. Não, a morte de Mike foi fruto de seu orgulho, de sua maldade crescente e de sua necessidade de ser o macho alfa em seu próprio universo. Antes, ele fingia ser Heisenberg; agora, precisa sê-lo.

E se Walter caminhou da inocência à psicopatia absoluta, Mike de certa forma fez o percurso inverso: surgiu como um ser ameaçador que justificava o fato de ter que matar Jesse como questão de negócios, aprendendo a amar o rapaz e revelando, no processo, que só seria capaz de puxar o gatilho quando isto fosse absolutamente necessário. Mike Ehrmantraut não mataria um homem por impulso ou por orgulho – e é por isto que mereceu morrer em paz ao lado de um rio em um belo dia de sol ao passo que Walter White se aproxima cada vez mais de um fim deprimente, cinza e humilhante.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê