Breaking Bad S05E08

(Spoilers. Bleh.)

Pela secura do aviso de spoilers acima, que nem se preocupa em brincar com as falas icônicas de Breaking Bad, talvez você já tenha percebido o óbvio: este final de meia temporada foi profundamente decepcionante. Esquemático, implausível e artificial, conseguiu a proeza de, em pouco mais de 40 minutos, desfazer o arco dramático que a série vinha construindo há nada menos do que cinco anos.

Isto não foi um episódio; foi uma tentativa de assassinar Breaking Bad. Uma tentativa, temo, que não será facilmente contornada.

Estou sendo excessivamente dramático? Não creio. Em primeiro lugar, vale observar que este foi provavelmente o episódio menos fluido de toda a série, empurrando avanços bruscos na cronologia da trama sem se preocupar com sua plausibilidade. Se já era raríssimo ver a série investindo em elipses (basta dizer que, em cinco anos de produção, a trama havia avançado apenas 12 meses até então), neste episódio tivemos não apenas uma, mas duas passagens de tempo: vimos os negócios de Walter saltarem de distribuição local para internacional em questão de três meses, numa sequência de dois minutos (e mesmo as transições e os raccords elegantes não a tornaram menos incômoda), e, mais tarde, vimos Walter subitamente voltar à sua persona de Mr. Holland, adorável professor.

E este, para mim, foi o equívoco absolutamente imperdoável de Vince Gilligan. Ao longo de cinco anos, vimos Walter White se transformar num monstro – e neste episódio, quando Hank faz um desabafo, a falta de empatia do concunhado torna-se patente; ele parece desprezar a fraqueza do parente policial. Da mesma maneira, sua insistência em encontrar-se com Lydia usando a versão completa de sua persona Heisenberg é significativa. Walter já não era mais um vilão por necessidade, mas por opção – e a excepcional sequência que ocorre no primeiro ato deste episódio e traz a eliminação de todas as testemunhas representou, ao seu próprio modo, um paralelo com a eliminação dos inimigos da família Corleone ao fim de O Poderoso Chefão. Naquele instante, Walter tornou-se definitivamente Heisenberg.

Só que não.

Não, não, não. Aparentemente, Vince Gilligan quer que lamentemos a tragédia que eventualmente destruirá Walter em vez de lamentarmos a trajetória que o levou até ali. Quer que sintamos seu fim e esqueçamos que, na realidade, Walter White deixou de existir no momento em que produziu o primeiro grama de cristal.

E ver o protagonista de Breaking Bad subitamente voltar a sorrir e a conviver com a família num ambiente repleto de luz e cores alegres (nem mesmo o roxo tradicional de Marie teve permissão de entrar na cena) foi algo… doloroso de se ver. Primeiro, porque traiu a construção do personagem ao longo, especialmente, das duas últimas temporadas; e segundo porque foi completamente inverossímil.

Mas não tão inverossímil, vale apontar, quanto os segundos finais – que não apenas representaram um dos incidentes mais tolos de toda a série, dependendo de uma coincidência absurda e até mesmo de um flashback (outro recurso raro na obra), como ainda sugeriram uma estupidez descomunal por parte de Walter ao não apenas manter consigo uma evidência de seu envolvimento com Gale, mas também por deixá-la em público. Walter White pode ter mil defeitos, mas a burrice não é um deles.

É triste constatar isso, mas Breaking Bad, que vinha se transformando num belíssimo e complexo edifício, hoje teve suas fundações implodidas por seus criadores. E temo ser difícil evitar que desmorone de vez em seus oito episódios finais.

Update: É possível que Walter tenha mentido para Skyler e que não tenha realmente deixado o mundo das drogas? Claro que sim. Não seria a primeira vez que ele faz isso; seria apenas a primeira vez em que fomos enganados ao lado da sra. White. Seria uma trapaça narrativa por alterar a maneira com que a série lidava com sua abordagem dos acontecimentos (sabemos o que Walter sabe), mas algo… perdoável. Menos  perdoável, no entanto, seria perceber que a mentira não teria sido apenas por parte de Walter, mas também dos realizadores, que empregam uma fotografia obviamente mais alegre, descartam cores tristes (Marie também está tentando nos enganar?) e tornam a abordagem mais leve como um todo na cena final na casa do protagonista. De um modo ou de outro, seria profundamente decepcionante.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê