Festival do Rio 2012 – Dia 01

Abraços aos leitores Thiago, que me cumprimentou já em duas ocasiões (stalker?), e Vanderson, que quase me matou do coração ao saltar sobre mim no meio da rua.

Ao trabalho (com atraso):

1)    Moonrise Kingdom (Idem, EUA, 2012) – Ler crítica no site.

2)    Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais, França, 2012). Dirigido por Christian Vincent. Com: Catherine Frot, Jean d’Ormesson, Hippolyte Girardot, Arthur Dupont, Jean-Marc Roulot, Arly Jover, Joe Sheridan.

Quando um filme traz os letreiros “Baseado em fatos reais”, isto normalmente quer dizer apenas que em algum momento da história da humanidade algo relativamente similar aos acontecimentos narrados ali aconteceram realmente – assim, quando no início de Os Sabores do Palácio li as palavras “Livremente inspirado na vida de Danièle Delpeuch”, deduzi que, com exceção do nome da ex-chef do ex-presidente francês François Miterrand, nada do que veria na tela havia acontecido de fato.

Pois talvez eu tenha me enganado, já que os incidentes retratados pelo longa de Christian Vincent são tão banais que provavelmente jamais teriam saído apenas de sua mente e sido jogados no roteiro co-escrito com Etienne Comar – e é razoável imaginar que, no mínimo, a dupla teria adicionado algum conflito ou drama (ambos inexistentes aqui) à história da cozinheira. Em vez disso, o projeto se limita a acompanhar Hortense (Frot) ao longo de 95 minutos enquanto esta lida com briguinhas triviais com seus colegas do palácio presidencial e estabelece uma relação cordial com o presidente (d’Ormesson), usando a passagem da chef por uma base de pesquisas na Antártica para conferir alguma estrutura à narrativa.

Não que o filme não tenha seus atrativos – e a paixão pela culinária demonstrada por Hortense (vivida com simpatia e naturalidade pela veterana Catherine Frot) é certamente sua principal virtude. Encarando seu trabalho como verdadeira arte, a cozinheira ressente ter que lidar com protocolos e com a burocracia ao preparar seus pratos, estabelecendo uma dinâmica divertida e empolgada com seu único assistente. Assim, vê-la preparar os pratos para as refeições presidenciais torna-se fascinante por si só, bem como acompanhar suas discussões acerca do banquete que deverá preparar para a família do chefe, buscando estabelecer uma verdadeira estratégia na evolução do almoço, da entrada à sobremesa. Da mesma maneira, quando Hortense analisa uma torta feita pelos rivais e afirma que esta não tem “assinatura” ou personalidade, compreendemos exatamente o que quer dizer, o que é uma proeza do próprio filme.

Esforçando-se para idealizar a figura sábia de ancião do presidente (algo que Jean d’Ormesson ajuda o longa a fazer sem grande esforço com sua ótima atuação), Os Sabores do Palácio peca também ao forçar uma relação pessoal entre este e Hortense numa tentativa de criar algum drama através de seu afastamento da função – como se isto equivalesse a um golpe de Estado ou algo parecido, quando, na realidade, apenas ilustra a incapacidade da cozinheira de lidar com as exigências de um trabalho tão específico.

Desinteressante do ponto de vista estético, já que o máximo que faz neste sentido é tentar criar algum contraste entre a fotografia fria das sequências na Antártica e o calor aconchegante dos momentos ambientados no palácio presidencial, o filme acaba cometendo o mesmo erro dos cozinheiros tão criticados por Hortense: é superficialmente eficaz, mas sem personalidade ou ponto de vista que o justifiquem plenamente como obra. (3 estrelas em 5)

 

3)    As Sessões (The Sessions, EUA, 2012). Dirigido por Ben Lewin. Com: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Adam Arkin, Ming Lo, Rhea Perlman.

Graças às religiões, a mais natural, comum e necessária atividade envolvendo adultos que se sentem atraídos um pelo outro se tornou um tabu pavoroso. Basta observar que um filme pode conter pessoas sendo dilaceradas por balas e executadas a sangue frio para receber uma classificação indicativa “16 anos”; inclua um pênis em cena ou uma franca simulação de sexo, porém, e apenas maiores de 18 anos poderão entrar no cinema. A lógica deturpada parece ser a de que é mais aceitável provocar dor do que prazer em outro ser humano.

Isto nos traz a este As Sessões e à história (real) do poeta Mark O’Brien (Hawkes): vitimado pela poliomielite e preso a um pulmão de ferro por décadas, o sujeito levava uma existência miserável e solitária por natureza, observando o mundo sempre de lado a partir de sua maca enquanto datilografava seus textos com o auxílio de assistentes ou de um pedaço de madeira preso pelos dentes. Sem jamais ter experimentado o sexo, O’Brien finalmente decidiu que poderia fazer algo a respeito quando se viu chegando aos 40 anos de idade e percebeu que seu “prazo de expiração” se aproximava – mas mesmo então (ao menos, segundo o belo roteiro do diretor Ben Lewin) precisou primeiro lidar com sua própria culpa católica antes de permitir que seu debilitado corpo sentisse algum prazer.

Envergonhado por perceber o próprio tesão, o sujeito inicia sua trajetória escrevendo um artigo sobre deficientes físicos que encontraram maneiras de explorar as possibilidades sexuais que muitos julgavam fora de seu alcance, sendo admirável a maneira franca e adulta com que o filme lida com estas questões, evitando o sensacionalismo sem, contudo, fugir da realidade de seus personagens (chegando a incluir deficientes reais na narrativa, o que é admirável por fugir da tendência de Hollywood de maquiar as histórias que aborda através da fantasia).

Assim, quando Mark procura o padre local para pedir permissão para suas “aventuras”, é comovente reparar como o pároco coloca sua humanidade à frente do dogma, buscando oferecer conselhos que realmente ajudem o rapaz em vez de confundi-lo ainda mais através da culpa ditada pelo credo. Vivido com imensa sensibilidade por William H. Macy, o padre Brendan é um homem essencialmente bondoso que se vê numa situação difícil: por um lado, não quer proibir Mark de pagar pelo sexo; por outro, sente que a religião que professa não poderia permitir tal “pecado” – e sua resposta é tocante justamente por representar um sacrifício tão patente diante de sua formação e de suas crenças.

Enquanto isso, John Hawkes, tão habituado a viver tipos ameaçadores ou simplesmente bizarros, aqui compõe um personagem absolutamente frágil e vulnerável: sibilando ao respirar, conversando com a voz sempre sufocada e mantendo o corpo imóvel em uma posição arqueada de paralisia, o ator evoca com talento a insegurança, o medo, o desejo e a curiosidade de Mark, estabelecendo uma química eficiente com Helen Hunt, que aqui vive a “terapeuta sexual” Cheryl Cohen. Hunt, aliás, demonstra coragem e entrega em um papel que exige sua nudez bela e madura, sendo notável como sua postura em cena, repleta de segurança e carinho, afasta do espectador qualquer impressão equivocada de que sua personagem seja uma prostituta mesmo sendo paga para fazer sexo com um cliente.

E é motivo de alegria perceber como um homem como Mark O’Brien conseguiu explorar a própria sexualidade mesmo enfrentando a mais brutal e cruel das amarras: não sua doença, mas a crença religiosa. (4 estrelas em 5)

4)    Termas Romanas (Terumae romae, Japão, 2012). Dirigido por Hideki Takeuchi. Com: Hiroshi Abe, Aya Ueto, Kazuki Kitamura, Masachika Ichimura, Kai Shishido, Walter Roberts.

Termas Romanas parece determinado a levar a expressão “humor de banheiro” às últimas consequências, já que a maior parte de suas piadas (perdão: “piadas”) parece se concentrar na obsessão do protagonista por vasos sanitários, chuveiros e banheiras. E se isto não soa engraçado, a razão é simples: é porque não é.

Inspirado num mangá de sucesso escrito por Mari Yamazaki, o roteiro de Shôgo Mutô se passa na Roma Antiga e gira em torno do arquiteto Lucius Modestus (Abe), especialista em construção de termas e que, frustrado por não conseguir ter novas ideias para seus projetos, certo dia se vê transportado para os dias atuais. Impressionado com os avanços tecnológicos das termas modernas, ele cria versões primitivas destas últimas assim que volta para seu tempo, tornando-se um profissional de sucesso e atraindo a atenção do imperador Hadrianus. A partir daí, Lucius se envolve em armações políticas, faz diversas outras viagens para o futuro – sempre esbarrando na aspirante a autora de mangás Mami (Ueto) – e se torna cada vez mais famoso em Roma, embora se sinta culpado por ter plagiado todos os seus grandes trabalhos.

Preso a um protagonista burro, plagiador e nada curioso, Termas Romanas é um longa frustrante: embora pudesse criar diversas situações potencialmente divertidas através do choque experimentado por Lucius, o filme se prende a uma estrutura repetitiva que se limita a mostrá-lo recebendo novas encomendas, manifestando insegurança profissional e viajando no tempo, quando então encontra Mami, vê alguma invenção que o ajudará e retorna dois milênios a fim de implementá-la em sua própria época. Como se não bastasse, a desenhista vivida por Aya Ueto é uma criatura insuportavelmente aborrecida cujo fascínio por Lucius jamais é justificado, nascendo como mera imposição do roteiro.

Carregado de narrações em off que soam claramente como resultado de uma adaptação preguiçosa dos quadrinhos, o filme ainda se mostra tecnicamente limitado, já que seus cenários jamais surgem convincentes e a direção de Hideki Takeuchi irrita pela insistência em gags tolas e ineficazes (o que inclui uma piada recorrente ao estilo Austin Powers na qual a nudez do protagonista é ocultada por diversos objetos estrategicamente espalhados pelo quadro).

Prejudicado ainda por atuações caricaturais, Termas Romanas ainda se apresenta longo em suas quase duas horas de duração, investindo num terceiro ato que se julga urgente quando, de fato, é apenas dispensável como praticamente tudo que o antecedera. (2 estrelas em 5)

 

5)    Homens Livres (Les hommes libres, França, 2011). Dirigido por Ismaël Ferroukhi. Com: Tahar Rahim, Michael Lonsdale, Mahmud Shalaby, Lubna Azabal, Christopher Buchholz, Farid Larbi.

Baseado em fatos reais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial, Homens Livres aborda a participação de grupos muçulmanos na Resistência Francesa à ocupação nazista, quando mesquitas em Paris serviram de abrigo aos perseguidos pelos alemães numa demonstração de solidariedade entre os mesmos árabes e judeus que, infelizmente, hoje protagonizam um deprimente espetáculo na disputa por um pedaço de terra.

Roteirizado por Alain-Michel Blanc e Ismaël Ferroukhi, o filme se concentra na trajetória do jovem Younes (Rahim), que, argelino vivendo temporariamente na França, vive de pequenos contrabandos enquanto tenta ignorar os convites feitos pelo primo Ali para se juntar à Resistência. Certo dia, porém, o rapaz é preso e, em troca da liberdade, se compromete a espionar uma grande mesquita local para a polícia. Aos poucos, Younes se vê envolvido pelas ações de compatriotas determinados a enfrentar os nazistas e se apaixona pela guerrilheira Warba (Azabal), tornando-se amigo também do cantor judeu Salim Halali (Shalaby).

Encarnado por Tahar Rahim (de O Profeta) como um jovem inocente de olhar infantil e não muito ambicioso ou esclarecido, Younes é um protagonista interessante justamente por relutar tanto em fazer o que é certo mesmo sendo claramente um indivíduo de bom coração – e é interessante perceber, por exemplo, como em certo momento ele se torna um agente duplo sem ter intenção nem inteligência para tanto. Porém, se a evolução do rapaz é a base da estrutura narrativa de Homens Livres, igualmente tocante é acompanhar a performance do veterano Michael Lonsdale que, curiosamente, aqui vive um imame depois de ter interpretado justamente um monge vitimado por muçulmanos fundamentalistas no tocante Homens e Deuses (também inspirado em fatos reais). Exalando bondade e serenidade, Lonsdale surge como a bússola moral do longa, que também traz uma boa participação de Mahmud Shalaby como o torturado cantor Salim.

Fazendo um belo trabalho de recriação de época através de um design de produção relativamente simples, o filme constrói uma narrativa de tensão crescente e que, além disso, não demonstra medo de levantar discussões complexas que funcionam quase como subtexto – e é importante, por exemplo, notar como a maior parte dos heróis aqui tem origem argelina, já que, defendendo a liberdade da França, eles mesmos teriam que lutar contra os franceses pela independência de seu país. Por outro lado, é lamentável que o roteiro atire sem cuidado na projeção uma subtrama envolvendo a homossexualidade de certo personagem, já que a usa mais para gerar choque do que para desenvolvê-la organicamente.

Tropeçando no desfecho abrupto e, de certa forma, anticlimático, Homens Livres ainda assim é um trabalho sólido e importante que, por já reconhecer a bravura dos homens e mulheres que retrata, não se vê obrigado a apelar para recursos que engrandeçam seus personagens de maneira artificial – o que, por si só, já é digno de aplausos. (4 estrelas em 5)

 

6)    Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso (A Liar’s Autobiography – The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman, Reino Unido, 2012). Dirigido por Bill Jones, Jeff Simpson, Ben Timlett. Com as vozes de Graham Chapman, John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Michael Palin, Carol Cleveland e Cameron Diaz.

A ideia por trás de A Autobiografia de um Mentiroso é genial e deveria levar qualquer fã do Monty Python à loucura: usar as gravações feitas pelo falecido Graham “Brian” Chapman a partir de sua autobiografia como narração de um documentário sobre sua vida construído com animações, o que teoricamente permitiria a fluidez e a irreverência típicas do humor do grupo ao mesmo tempo em que tornaria possível a criação de símbolos e metáforas visuais para as mais diversas passagens da trajetória do comediante. Infelizmente, nem sempre boas ideias geram bons resultados – e o que temos aqui é um desastre interminável que, longo, aborrecidíssimo e sem a menor graça, representa apenas uma incrível oportunidade perdida.

Por alguns minutos, no entanto, o filme parece estar no caminho certo: contando com um título inspirado e anunciando uma “participação especial gratuita de Cameron Diaz como Sigmund Freud”, o projeto exibe a promessa de uma inventividade digna dos criadores do esquete do papagaio morto, mas esta logo se revela falsa quando percebemos que os três diretores parecem se focar nos aspectos menos inspirados da narração de Chapman apenas para que possam criar passagens protagonizadas por macacos segurando bananas e investir em gags que se concentram nas mais óbvias tiradas sexuais.

Investindo em diferentes estilos de animação que se fundem através de transições mais ou menos inspiradas dependendo do momento, o projeto ainda traz a maior parte dos ex-Python criando quase todas as vozes ouvidas ao longo da projeção (o único ausente é Eric Idle) – e por mais que seja uma boa sacada escalar Terry Jones como a mãe de Chapman (já que ele também viveu a mãe do colega em A Vida de Brian), na maior parte do tempo a presença dos comediantes vale como curiosidade para os fãs e só, já que os talentosos intérpretes encontram-se presos a diálogos tolos e sem a menor graça.

Aliás, é sintomático que os únicos momentos realmente engraçados sejam aqueles que trazem imagens de arquivo de quadros do Monty Python, entrevistas com Chapman ou a elegia feita por John Cleese no velório do amigo, já que todo o resto configura a mais absoluta tortura. Graham Chapman não merecia esta “homenagem”. (1 estrela em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos