Festival do Rio 2012 – Dia 02

Abraço à leitora que me cumprimentou ao fim da sessão de Cor da Pele: Mel, mas que fugiu antes que eu tivesse a chance de perguntar seu nome.

Quanto aos filmes:

7)    Argo (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Ben Affleck. Com: Ben Affleck, Alan Arkin, John Goodman, Bryan Cranston, Clea DuVall, Kyle Chandler, Zeljko Ivanek, Tate Donovan, Victor Garber, Bob Gunton, Chris Messina, Philip Baker Hall, Michael Parks, Richard Kind.

Hollywood corroeu tanto a própria credibilidade ao produzir obras “inspiradas em fatos reais” que nada têm a ver com a realidade que, ao final deste Argo, o diretor Ben Affleck sente uma clara necessidade de exibir na tela parte do material de pesquisa utilizado para recriar os incidentes narrados em seu filme a fim de convencer o espectador de que tomou o menor número possível de liberdades criativas – e até mesmo um áudio do ex-presidente Jimmy Carter discutindo os acontecimentos é incluído pelo cineasta.

É compreensível. Além da já citada tendência do Cinema ao exagero (um eufemismo para “mentira”), a história recontada pelo roteiro de Chris Terrio a partir de um artigo de Joshuah Bearman traz elementos absurdos demais para que não duvidemos de sua veracidade: ambientado em 1979, quando manifestantes iranianos invadiram a embaixada norte-americana em Teerã (o que torna o longa atualíssimo, considerando os eventos recentes na Líbia), Argo acompanha os esforços do agente da CIA Tony Mendez (Affleck) para resgatar seis funcionários que escaparam durante os ataques, escondendo-se na casa do embaixador canadense Ken Taylor (Garber). Ciente de que será apenas uma questão de tempo até que a inteligência iraniana descubra onde os foragidos se encontram, Mendez tem aquela que seria descrita como a “melhor má ideia” para resolver a situação, empregando a ajuda do maquiador John Chambers (Goodman) e do produtor Lester Siegel (Arkin) para simular a existência de uma produção de ficção científica interessada em usar o Irã como locação, o que justificaria sua entrada no país e a posterior fuga com os seis norte-americanos, que assumiriam os papéis de integrantes do projeto cinematográficos. O nome da tal produção? Argo.

Esforçando-se para evitar uma postura ufanista tão comum em produções do tipo (lembrem-se do repulsivo Falcão Negro em Perigo), o filme contextualiza a invasão à embaixada ao explicar o papel fundamental desempenhado pelos Estados Unidos na queda do presidente Mohammad Mosaddeq e sua substituição pelo sádico xá Reza Pahlevi, que prendia e torturava dissidentes e levou o país à miséria enquanto esnobava sua opulência – e o roteiro chega a exagerar ao trazer funcionários da CIA fazendo uma improvável autocrítica com relação às ações no Irã. A partir daí, o filme salta de Teerã a Los Angeles com fluidez enquanto acompanha os preparativos do protagonista, que ainda é obrigado a enfrentar não apenas disputas internas em sua própria agência, mas também a natureza implacável de Hollywood.

Neste sentido, Argo parece se dividir em dois filmes com atmosferas radicalmente diferentes: de um lado, há a urgência e a tensão das sequências no Irã, que lidam com as dúvidas e receios dos foragidos; de outro, a leveza e as piadas envolvendo as passagens em Los Angeles (uma diferença ressaltada pela boa fotografia de Rodrigo Prieto, que oscila entre a paleta dessaturada e fria de Teerã e as cores quentes e intensas da Califórnia). Aliás, é admirável observar a segurança com que Ben Affleck conduz a narrativa, continuando a se solidificar como um diretor excepcionalmente talentoso ao mesmo tempo em que expande seu universo, que até então se limitava a histórias ambientadas em sua Boston natal. Por outro lado, é inevitável que o longa perca um pouco de seu peso dramático em função do humor presente nas cenas em Hollywood, o que é uma pena.

Contando com um elenco coeso (e carregado de figuras vindas da televisão, como Bryan Cranston, Tate Donovan e Kyle Chandler, entre outros) que Affleck explora com eficiência, Argo cria uma narrativa ambiciosa e complexa ao lidar com um grande número de personagens sem criar muita confusão na mente do espectador – e é lamentável, portanto, que algumas ideias acabem sendo mal exploradas, como o óbvio alcoolismo do protagonista ou a relação entre os personagens de Goodman e Arkin, que parecem apenas oferecer alívio cômico ao filme (algo que fazem admiravelmente bem).

Eventualmente se entregando aos exageros dramáticos que parece tão ansioso para negar, Argo tropeça também na artificialidade do clímax, que atira uma série de obstáculos improváveis no caminho do herói apenas para acentuar a tensão, mas quando isto ocorre, o filme já ofereceu tantos bons momentos que se torna fácil perdoar o equívoco de seu cada vez mais promissor realizador. (4 estrelas em 5)

 

8)    Poluindo o Paraíso (Der Müll im Garten Eden, Alemanha, 2012). Dirigido por Fatih Akin.

Rodado ao longo de cinco anos, entre 2007 e 2012, Poluindo o Paraíso acompanha a luta de um pequeno vilarejo da Turquia para evitar que o local seja destruído pela implantação de um lixão que concentrará os refugos gerados por diversas outras comunidades, enfocando as baixas estratégias empregadas pelo governo para forçar a decisão sobre os pobres cidadãos da até então paradisíaca Çamburnu.

E “paradisíaca” realmente é o adjetivo mais apropriado, como o cineasta Fatih Akin ilustra nos minutos inicias da projeção ao nos apresentar a um ambiente até então intocado e cujos velhos habitantes parecem se confundir com a paisagem. Assim, quando os caminhões começam a despejar toneladas de lixo na região, é com tristeza que percebemos a violação daquele modo de vida, que agora traz uma cratera cinza no meio do verde e transforma o gesto de cobrir o nariz e a boca em um tique comum a todos.

Incluindo entrevista com ativistas, políticos, engenheiros e ambientalistas, Poluindo o Paraíso acaba soando um pouco repetitivo em seu esforço para denunciar aquela tragédia, funcionando muito melhor quando emprega apenas imagens para ilustrar o que ali ocorre – como no instante chocante no qual vemos crianças nadando no mar que banha a cidade e percebemos, flutuando ao redor, seringas usadas. E embora o cineasta peque ainda pela autoindulgência (há um interlúdio musical inexplicável no qual acompanhamos um show de rock), ao menos sua paciência ao acompanhar a história por cinco anos acaba traçando um retrato amplo da situação, que, como numa terrível comédia de erros, parece se tornar cada vez pior à medida que os governantes tentam consertá-la atrapalhadamente.

Mas o momento mais revelador do longa talvez seja aquele no qual o engenheiro responsável pelo lixão, ao ser pressionado por uma criança do lugarejo com relação às emissões poluentes da instalação, acaba respondendo um inacreditável “A Terra resolve isso” – quando o que ele queria dizer de fato era “estarei morto quando a coisa estourar. Resolvam vocês o problema”.

Triste herança, a que estamos deixando para nossos filhos. E ao apontar isso, Poluindo o Paraíso pode não estar transmitindo a mais original ou surpreendente das notícias, mas isto não o torna menos relevante. (3 estrelas em 5)

 

9)    Senhoras & Senhores: Corte Final (Final Cut – Hölgyeim És Uraim, Hungria, 2012). Dirigido por György Pálfi.

A historinha narrada ao longo dos 84 minutos de Final Cut é extremamente simples: um homem conhece uma garota e, depois de alguns tropeços, eles se apaixonam e se casam. O tempo passa, o cotidiano interfere na felicidade do casal e, quando ela descobre estar grávida, um mal entendido parece destruir o relacionamento, levando o sujeito à bebida e a moça à depressão. Trata-se de uma trama boba, antiquada e moralista.

E que pouco importa, já que resulta num exercício narrativo absolutamente magnífico, já que, para contar esta história, o diretor György Pálfi usa apenas imagens, diálogos, sons e temas musicais de centenas de filmes produzidos em dezenas de países ao longo dos mais de cem anos de existência do Cinema. É uma ideia inacreditavelmente ambiciosa e bem realizada – e basta dizer que, logo nos primeiros minutos, quando acompanhamos o Homem despertando, lavando o rosto, barbeando-se e saindo para trabalhar, mais de dúzias de longas já pipocaram na tela enquanto o sujeito exibe os rostos de Kirk Douglas, Choi Min-sik, John Travolta e Woody Allen, entre outros (e em outro momento, a inesquecível cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem desperta um sorriso excitado de Anthony Perkins em Psicose, que, por sua vez, recebe uma piscada marota da Mulher – que agora tem o rosto de Brigitte Helm em Metrópolis).

Supercut dos supercuts, Senhoras & Senhores se revela, assim, uma história de amor contada através do amor pelo próprio Cinema – e ao longo da projeção, conseguimos não apenas acompanhar a trama como ainda fazemos o divertido e inevitável exercício de identificar os filmes empregados por Pálfi. Não que toda transição seja facilmente observável, já que o trabalho de montagem realizado a oito mãos é incrivelmente eficiente – e em vários momentos os ótimos raccords descobertos/criados pela equipe tornam quase impossível a constatação de que de repente o estranho Klaus Kinski se transformou magicamente no charmoso Marcello Mastroianni, além de constantemente recontextualizarem figuras emblemáticas (e Yoda, por exemplo, é visto aqui tanto como um colega de trabalho do protagonista quanto como a avó da mocinha). Da mesma maneira, o fabuloso design de som auxilia enormemente na manutenção da consistência do universo diegético criado pelo filme, permitindo que cada obra assuma novos contornos apenas através dos efeitos sonoros e da mixagem.

Porém, longe de ser apenas um exercício narrativo, Final Cut ainda encanta por sua universalidade – e o fato do casal ser vivido por figuras de tantas raças, etnias, culturas e épocas acentua a força daquele romance, levando o espectador a se entristecer com o sofrimento de um amálgama de homens e mulheres. Afinal, não importa se o Marido tem o rosto de Gene Kelly, Orson Welles ou Sylvester Stallone ou se a Esposa é uma versão de Morticia Adams, Satine ou Amélie Poulain: todos queremos amar e ser amados e, assim, a colagem de identidades aqui é uma maneira que o filme encontra de representar dores e alegrias de qualquer público.

Mas, acima de tudo, o fantástico trabalho de pesquisa visto em Final Cut é a constatação inequívoca daquilo que qualquer cinéfilo já sabe: que, apesar de encarada como uma Arte menor ainda hoje, o Cinema é um depósito infindável de imagens absolutamente maravilhosas e inesquecíveis.  (5 estrelas em 5)

 

10)    Woody Allen: Um Documentário (Woody Allen: A Documentary, EUA, 2012). Dirigido por Robert B. Weide.

Woody Allen está em atividade há tanto tempo e é um diretor tão prolífico que tornou-se tendência ignorar o brilhantismo de sua carreira – e não me refiro aqui apenas aos seus incríveis dez primeiros anos de atividade no Cinema, que vão de Um Assaltante Bem Trapalhão a Manhattan (sim, estou ignorando O Que Há, Tigresa?), mas também todo o resto. Afinal, como ignorar obras como A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, Crimes e Pecados, Descontruindo Harry, Match Point e tantas outras que realizou nos últimos 43 anos e que qualquer cineasta são daria um dos braços para ter assinado?

Assim, é agradável poder acompanhar a trajetória de Allen através deste documentário tão bem organizado por Robert Weide, que, partindo da produção do fraco Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, permite que o espectador tenha acesso ao modo de trabalho do realizador, que aqui exibe suas já célebres folhas contendo ideias anotadas ao longo dos anos e a máquina de escrever na qual datilografa todos os seus textos desde que a comprou aos 16 anos de idade (e é divertidíssimo notar como o sujeito emprega sua própria versão do CTRL+C+CTRL+V utilizando o velho método da tesoura-e-cola).

Empregando cenas da filmografia de Allen como ilustrações de passagens de sua vida, o documentário adota uma estrutura tradicional ao apresentar a biografia do cineasta em ordem cronológica, começando em sua infância e passando por sua entrada no show business, incluindo detalhes sobre a criação de seu pseudônimo e a escolha de seus tradicionais óculos. Além disso, o filme traz imagens reveladoras do arquivo pessoal do diretor, destacando-se entre estas uma entrevista com sua mãe feita pelo próprio Allen e durante a qual ela diz, ao discutir a infância do filho: “Você era criança demais para mim”.

Trazendo também imagens raras do início da carreira de Woody Allen, como apresentações de stand up feitas em 1963, o projeto não deixa de investir em entrevistas mais tradicionais que buscam traçar a influência do biografado sobre figuras como Larry David – e ninguém menos do que Scorsese se encarrega de analisar brevemente a evolução do colega por trás das câmeras, desde as narrativas difusas que se concentravam em gags isoladas até as farsas repletas de simbolismos e os densos dramas existenciais que viria a comandar sob a inspiração de seus ídolos Fellini e Bergman.

No entanto, o grande chamariz do documentário é mesmo Allen, que surge estranhamente à vontade para um sujeito notoriamente tímido, chegando a rir ao narrar certas passagens de sua vida e soltando pérolas que qualquer fã facilmente identifica como típicas de seu senso de humor (ao revisitar a casa na qual nasceu, ele diz: “Não parece grande coisa, mas não era mesmo”). E ainda que – compreensivelmente – não traga depoimentos de Mia Farrow ou dos filhos que esta teve com Allen, o filme não se furta de abordar, mesmo que brevemente, o escândalo envolvendo o casamento da dupla e o romance do diretor com a enteada Soon-yi (com a qual, vale apontar, é casado desde então).

Eventualmente adotando a batida estratégia de discutir a obra do cineasta quase que filme por filme, em ordem cronológica (até que o tempo começa a ficar escasso e o diretor Robert B. Weide decide saltar vários deles), o documentário pode ser até decepcionantemente burocrático em sua abordagem, mas ao menos isso permite que sua estrela principal brilhe sem precisar concorrer com eventuais firulas narrativas. E, convenhamos, Woody Allen é interessante e divertido o bastante para dispensar a ajuda de seu próprio documentário. (3 estrelas em 5)

 

11)    A Casa Elétrica (Idem, Brasil/Argentina, 2011). Dirigido por Gustavo Fogaça. Com: Nicola Siri, Morgana Kretzmann, Helga Kern, Leonardo Machado, André Felipe, Gilberto Perín.

Teoricamente, A Casa Elétrica deveria contar a história de como o primeiro tango argentino foi gravado não em Buenos Aires ou em estúdios europeus, mas numa pequena empresa em Buenos Aires (que também seria a responsável por registrar em disco o primeiro samba), mas o espectador só consegue vislumbrar levemente esta intenção em função da primeira cena do longa, que traz uma discussão sobre o tema, e dos abundantes letreiros finais, que trazem os atores sorrindo pateticamente para a câmera, num registro teatral anacrônico, enquanto os destinos de seus personagens são revelados. Entre estas pontas, no entanto, o público é trucidado por uma produção tecnicamente incompetente que só não se transforma em tortura absoluta graças aos risos involuntários que provoca.

Novelesco em sua traminha boba que traz revelações absurdas (como um sujeito que só descobre o verdadeiro nome da mulher com a qual vai pra cama depois de meses ou anos), coincidências ridículas (como o sujeito que vai pra cama com a musa perdida de um amigo) e diálogos que oscilam entre o atroz e o acidentalmente hilário (“Ana Beatriz é uma mulher de temperamento difícil, intempestivo, indomável!” e “Mas o que eu vou fazer na Itália?”), A Casa Elétrica ainda conta com uma direção que, com muito boa vontade, poderia ser descrita apenas como “amadora”. Mantendo a câmera em travellings lentos e constantes aparentemente sem razão alguma, o diretor Gustavo Fogaça aborda cada cena de maneira similar, introduzindo-as com um desajeitado plano aberto, cortando para horrorosos quadros sobre os ombros (que recortam o rosto do observador em ângulos pavoroso) e retornando para os planos conjuntos ao finalizá-las teatralmente enquanto todos saem de campo.

Mas não é só: artificial ao extremo, a mise en scène obriga os atores a conversarem em semicírculos enquanto a câmera adota uma posição fixa diante deles como uma espectadora presa na plateia (o que ao menos é melhor do que os momentos em que Fogaça e seu diretor de fotografia saltam o eixo ao enfocarem seus atores). E é preciso ver a cena na qual o protagonista beija a amante em primeiro plano enquanto o marido desta se encontra distraído ao fundo para acreditar no absurdo da encenação criada pelos realizadores.

Prejudicado por cenários que jamais soam convincentes e uma fotografia digital lavada e sem personalidade, A Casa Elétrica ainda traz uma montagem que investe em cortes ridículos (como aquele que enfoca um casal transando apenas para mostrar, em seguida, o retrato de uma senhora) e que emprega um número maior de fades do que o de linhas neste texto.

Empurrando sobre o público um dos protagonistas mais repulsivos que um romance poderia oferecer, o longa parece acreditar que o caso de amor que narra é realmente tocante, ignorando a natureza machista, racista e antissemita do “herói”, que chega ao ponto de transar com a cunhada e – juro! – em seguida acusar o irmão traído de abandoná-lo.

Por outro lado, sempre poderei rir ao me lembrar do bigode falso usado pelo pobre Moyses neste filme – e só por isso já me recordarei de A Casa Elétrica com certo carinho. (1 estrela em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos