Festival do Rio 2012 – Dia 03

Abraços aos leitores Antônio, João Pedro e Natália e aos alunos Marcelo, Vítor, Rodrigo e Victor, que foram tão carinhosos nos últimos dois dias de festival ao me abordarem entre as sessões. (Esqueci os nomes dos dois leitores que me cumprimentaram no Vivo Gávea e da leitora que me ofereceu um bombom no Sesc Botafogo e peço perdão por isso).

Sobre os filmes…

12)    Noor (Idem, Paquistão/França, 2012). Dirigido por Guillaume Giovanetti e Cagla Zencirci. Com: Noor, Uzma Ali, Baba Hussain, Gunga Sain, Mithu Sain.

Narrativas documentais que envolvem recriações da realidade com personagens reais não são algo novo: de Nanook do Norte ao brasileiro O Céu Sobre os Ombros, passando por obras como Camelos Também Choram e Tulpan, este tipo de produção fascina pelo realismo, mas também por oferecer uma dramatização claramente arquitetada, permitindo que a câmera capture a ação de maneira estudada sem, com isso, perder a aura de autenticidade. E é exatamente isto que torna o paquistanês Noor tão instigante. Isto e, claro, a natureza repleta de ambiguidade do protagonista.

Encarnando a si mesmo (ou, ao menos, uma versão de si mesmo), Noor é um jovem que, no passado, travestia-se para ganhar a vida com danças exóticas, mas que agora trabalha numa garagem de ônibus e sonha em se casar com a namorada, insistindo em ser tratado como “ele” (por isso usei “mesmo”, não “mesma”, logo acima). No entanto, sua aparência andrógina – e que o filme só explicará nos últimos minutos – dificulta seu cotidiano e sua aceitação pela família da namorada, levando a momentos dolorosos no qual o rapaz, sozinho em seu quarto miserável, sofre ao perceber a frieza e a rejeição do outro lado do telefone (e o fato de apenas ouvirmos a voz da garota a tornam ainda mais distante e inatingível). Finalmente, depois de ser quase violentado, Noor rouba um caminhão e inicia uma jornada rumo a um lago que, ele acredita, será capaz de realizar seus desejos.

Adotando então a estrutura de road movie, o longa nos apresenta a uma galeria de personagens interessantes que, de maneira direta ou indireta, influenciam a busca do protagonista por sua própria identidade, desde um percussionista surdo a uma jovem abandonada pelo marido e pelo filho. Além disso, as belas locações são magistralmente exploradas pela fotografia fabulosa de Jacques Ballard, ao passo que o expressivo Noor oferece uma performance comovente e multifacetada.

“Fiz o que se espera que um homem faça, mas não encontrei o que buscava”, diz, em certo momento, um sujeito à beira do rio para o personagem-título – que, em seu jeito simples, mas honesto, sofre justamente por ir no caminho oposto: desafiar o esperado em busca de sua própria identidade. (4 estrelas em 5)

 

13)    Out in the Dark (Idem, Israel/EUA, 2012). Dirigido por Michael Mayer. Com: Nicholas Jacob, Michael Aloni, Jamil Khoury, Maysa Daw, Khawlah Hag-Debsy.

De certa forma, Out in the Dark é uma história de amor proibido na qual Montéquios e Capuletos são substituídos por israelenses e palestinos. No entanto, além de enfrentarem a hostilidade das duas sociedades em conflito que os cercam, os amantes aqui vistos ainda devem lidar com o preconceito, já que vivem um romance homossexual.

Dirigido por Michael Mayer ao lado de Yael Shafrir, o filme nos apresenta ao jovem estudante de psicologia Nimr (Jacob), que consegue uma licença para cruzar a fronteira com Israel a fim de frequentar uma aula de pós-graduação em Tel Aviv. É lá que ele conhece o advogado Roy (Aloni) e logo os dois rapazes se apaixonam. Porém, quando a inteligência israelense descobre que o irmão mais velho de Nimr está envolvido com uma célula do Hamas, o protagonista tem a licença revogada e sua homossexualidade revelada para a família, gerando uma situação que põe em xeque seu namoro.

Sensível ao retratar o envolvimento entre os dois rapazes, Out in the Dark cria uma atmosfera de respeito, amor e completa aceitação ao enfocá-los juntos, usando a fotografia para acentuar um tom harmonioso que é quebrado pela frieza das cenas que trazem os “guerrilheiros” de ambos os lados. Além disso, Nicholas Jacob e Michael Aloni, além de talentosos ao evocar os sentimentos de seus personagens e o dilema que passam a viver, criam também uma química evidente em cena, o que é fundamental para que nos importemos ainda mais com o destino dos dois.

Assim, é triste quando o roteiro tropeça ao plantar pistas evidentes (“Qualquer coisa, me procure.”, diz um mafioso no primeiro ato) e especialmente ao não conseguir deixar de lado uma postura que se revela bem mais pró-Israel do que pró-Palestina, abandonando qualquer possibilidade de equilíbrio e imparcialidade – e não é à toa que os judeus vistos ao longo da projeção se mostram bem mais generosos, sofisticados e intelectualizados do que os estúpidos, frios e preconceituosos palestinos retratados pela história.

De todo modo, o longa funciona naquilo que importa de fato: o romance do casal principal e sua luta contra o preconceito e a perseguição política – e o plano que traz Nimr correndo amedrontado e sozinho, à noite, é, por si só, uma metáfora perfeita da condição do homossexual em boa parte das sociedades modernas em plenos século 21. (4 estrelas em 5)

 

14)    Histórias que Contamos – Minha Família (Stories We Tell, Canadá, 2012). Dirigido por Sarah Polley.

A canadense Sarah Polley tem apenas 33 anos de idade, mas filma como uma pessoa bem mais velha. E quando digo isso, não quero sugerir que seu estilo é ultrapassado ou rançoso, mas que a moça enxerga o mundo como alguém que já viu muito, refletiu, digeriu, reanalisou as próprias conclusões e tem maturidade o bastante para apresentá-las com objetividade, segurança e sensibilidade. Estas características, aliás, estavam presentes já em seu filme de estreia, o belo Longe Dela, embora eu considere seu trabalho seguinte, Take This Waltz, tristemente artificial e tolo. Ainda assim, qualquer dúvida que eu pudesse ter sobre Polley como cineasta é dissipada com este Histórias que Contamos, que se revela não apenas seu melhor filme, como também um documentário instigante, desafiador e, acima de tudo, doce.

Desta vez, a diretora volta seu olhar para a própria família, entrevistando seus vários irmãos, o pai idoso, amigos e conhecidos da família para tentar traçar um retrato de sua mãe, falecida precocemente em 1990, quando Polley tinha apenas 11 anos. Interessada nas contradições presentes nos relatos de todas aquelas pessoas, a cineasta usa o filme não só como uma investigação profundamente pessoal, mas também como forma de analisar a subjetividade da memória e, claro, a relatividade daquilo que consideramos como “verdade” – e, neste sentido, certos jogos narrativos feitos aqui me lembraram bastante do Verdades e Mentiras realizado por Orson Welles em 1973, especialmente na abundância de imagens de arquivo empregadas ao longo da projeção.

Igualmente relevante, aliás, é perceber como o próprio fazer do documentário se torna parte da discussão, mas jamais de uma maneira egocêntrica como nos trabalhos de Morgan Spurlock ou mesmo de Michael Moore. Em vez disso, Polley tenta analisar suas próprias razões inconscientes para expor a família daquela maneira, especialmente considerando um detalhe particularmente complicado da biografia de sua mãe e que diz respeito à história da própria diretora – e que, nos minutos finais, culmina num momento de sublime generosidade protagonizado pelo pai da moça, que, na narração por ele escrita e que dá esqueleto ao filme, faz uma das mais belas e altruístas declarações de amor que já testemunhei.

Histórias que Contamos é, sem dúvida, um dos melhores longas exibidos no Festival do Rio de 2012. (5 estrelas em 5)

 

15)    Cor da Pele: Mel (Couleur de peau: Miel, Bélgica, 2012). Dirigido por Laurent Boileau e Jung.

Uma das mais de duzentas mil órfãos sul-coreanos adotados por casais espalhados por todo o mundo, o cartunista Jung passou a maior parte de sua vida na Bélgica depois de ser acolhido por uma família que já contava com quatro crianças (um número que chegaria a seis quando, anos depois, mais uma pequena órfã se uniu aos demais). Autor de uma graphic novel na qual discutiu sua história, Jung retorna à Coréia do Sul pela primeira vez desde que deixou o país aos 5 anos de idade – e, neste documentário co-dirigido ao lado de Laurent Boileau, vemos parte de sua busca por suas origens e também recriações em animação de seus primeiros anos na Bélgica.

Ciente de ser um felizardo por ter se tornado parte de uma família que o ama e respeita, Jung teve, apesar disso, uma infância relativamente sofrida – mas como poderia ser diferente naquelas circunstâncias? Capaz de estabelecer uma relação bastante íntima com os irmãos (mesmo nutrindo sentimentos ambíguos em relação à irmã Coralie), o garoto logo se torna um problema na escola, o que o leva a ser frequentemente punido pelos pais. Neste sentido, a decisão de usar a animação para contar a história do protagonista se revela um recurso acertado não só por refletir o talento para o desenho que tornaria sua existência mais fácil, conferindo-lhe norte, mas também por permitir representações expressivas de seu estado de espírito diante de situações difíceis, como ao ouvir de sua mãe adotiva que era uma “maçã podre”.

Sua relação com a mãe, aliás, acaba se apresentando como o núcleo narrativo de Cor da Pele: Mel: mulher fria por natureza, ela é também uma pessoa essencialmente boa que encontra claras dificuldades ao lidar com as inquietações do filho adotivo, levando a uma epifania por parte do protagonista-narrador no clímax do filme que traz este belo documentário a um desfecho que emociona sem jamais cair no melodrama. (5 estrelas em 5)

16)    Unidos pela Raiva: A História da Act-Up (United in Anger: A History of ACT UP, EUA, 2012). Dirigido por Jim Hubbard.

Quando a AIDS passou a aterrorizar o mundo, no meio da década de 80, a expectativa de vida pós-diagnóstico era de apenas dois anos para cerca de 80% dos pacientes. Inspirando pânico a ponto de mais da metade da população norte-americana defender que os doentes deveriam ser colocados em quarentena, identificados ou tatuados, a AIDS sequer era mencionada por nome pelo então presidente Reagan – e quando uma importante revista realizou uma matéria sobre a epidemia, afirmou sem hesitações que as mulheres não contraíam a doença por vias sexuais. Para complicar ainda mais o quadro, o FDA, órgão responsável por testar e liberar as drogas usadas para tratar a síndrome, demorava um longo tempo para realizar seu trabalho, o que apenas dificultava ainda mais o tratamento de pacientes que eram obrigados a gastar mais de dez mil dólares por ano apenas com o AZT.

Foi neste contexto conturbado que surgiu o ACT UP, grupo ativista que, ao longo dos anos seguintes, orquestraria uma série de ações fundamentais para facilitar a vida das vítimas da síndrome e para esclarecer o restante da população a respeito da AIDS – e é a trajetória desta organização que o diretor Jim Hubbard conta neste documentário beneficiado pelo fato de que a ACT UP, ciente do poder da mídia ao manipular informações, se encarregava de registrar todas as suas ações em vídeo, distribuindo cópias em VHS para grupos de todo o país.

Combatendo a igreja em sua visão sempre machista, obtusa e perigosa sobre a sexualidade alheia, o ACT UP ainda se mostrou um parceiro importante para grupos defensores dos direitos das mulheres, já que várias de suas causas eram similares, o que culminou em uma ação memorável contra um cardeal de Nova York que combatia o uso da camisinha e sugeria que a AIDS era um castigo divino. Além disso, através de suas estratégias publicitárias, o ACT UP viria a influenciar diversas outras ONGs ao longo das décadas, o que o tornou seminal também neste aspecto.

Não há, portanto, qualquer dúvida sobre a relevância do grupo, que conseguiu acelerar o processo de liberação de drogas pelo FDA, forçou uma mudança na definição da AIDS para que esta não incluísse apenas homossexuais como “grupos de risco” (expressão depois alterada para “atividade de risco”) e, consequentemente, ampliou consideravelmente a sobrevida dos pacientes. Infelizmente, o documentário, embora exponha todos estes fatos, revela-se aborrecido em sua abordagem excessivamente convencional, exagerando na quantidade de entrevistas, que, inclusive, se tornam repetitivas ao trazerem basicamente dezenas de pessoas dizendo as mesmas coisas. Da mesma forma, ainda que as imagens de arquivo sejam importantes para honrar a memória dos vários ativistas já mortos pela síndrome, o excesso de discursos exibidos ao longo da projeção acaba tornando a experiência maçante.

Que o ACT UP foi essencial ao desmistificar a AIDS e melhorar as condições de suas vítimas é algo inquestionável. Mas Unidos pela Raiva não precisava repetir isso por 90 minutos para provar o argumento. (2 estrelas para 5)

17)    Uma Super-Simplificação de Sua Beleza (An Oversimplification of Her Beauty, EUA, 2011). Dirigido por Terence Nance.

Não é fácil lidar com a rejeição. Em um momento ou outro, todos já passaram por isso, pelo desejo profundo por uma pessoa que não julgava a reciprocidade daquele sentimento algo particularmente tentador. Foi por estar romanticamente ferido, aliás, que o jovem nova-iorquino Terence Nance realizou, em 2006, o curta Como Você se Sentiria?, que acabou incorporando ao início deste longa e que de maneira inventiva leva o espectador a experimentar a frustração que ele mesmo sentiu ao se preparar para uma visita da garota que amava apenas para ser avisado na última hora que ela não iria mais à sua casa.

Infelizmente, este também é o melhor momento de Uma Super-Simplificação de Sua Beleza, que o diretor realizou ao longo dos anos seguintes com o objetivo de ilustrar as razões por trás de sua fascinação por Namik Minter, empregando várias técnicas de animação e um roteiro que usa a narração em off ininterruptamente, o que se torna cansativo de maneira rápida mesmo que, aqui e ali, ele diga algo interessante, divertido ou revelador.

Por outro lado, é curioso notar como parte da duração excessiva do filme diz respeito ao próprio desejo de Terence Nance de prolongar o projeto, como se isto mantivesse sua amada ainda nas proximidades e acessível de certa maneira. E não deixa de ser triste (e, sim, divertido) perceber como o rapaz, depois de ter falhado ao produzir um curta para convencê-la a amá-lo, encarou a rejeição apenas como motivação para expandir a estratégia para um longa, como se o problema fosse a duração, não o desinteresse românico de Namik.

Neste sentido, este filme/carta de amor revela-se doce e tocante em sua sinceridade ingênua… e obsessiva – e se eu fosse a garota, começaria a temer por minha própria segurança. (3 estrelas em 5)

 

18)    Fucking Different XXX (Idem, Alemanha, 2011). Dirigido por Maria Beatty, Jürgen Brüning, Émilie Jouvet, Manuela Kay, Bruce La Bruce, Kristian Petersen, Courtney Trouble, Todd Verow.

Gravei um videocast sobre o filme que pode ser visto aqui. (1 estrela em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos