Festival do Rio 2012 – Dia 04

Abraços aos leitores Railer, Vítor e Bruno, que vieram se apresentar nos intervalos entre as sessões. (Aliás, abraço também para Otávio Ugá, André Navarro e, claro, Renata Melo, alunos tão queridos.)

E os filmes? Ah, sim, os filmes.

19)    Killer Joe – Matador de Aluguel (Killer Joe, EUA, 2012). Dirigido por William Friedkin. Com: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon.

É sempre um prazer ver cineastas veteranos que haviam se perdido no meio do caminho resgatando o brilho e o frescor de suas trajetórias – e William Friedkin, cuja década de 90 foi jogada no lixo, finalmente parece ter recuperado a inspiração ao estabelecer uma parceria com o dramaturgo Tracy Letts, adaptando a peça Possuídos em 2006 e agora este excelente Killer Joe – Matador de Aluguel, que atira o espectador num mundo deprimente de miséria, amoralidade e estupidez até atingir um clímax absolutamente insano que conduz o filme do fascinante ao sublime.

Adaptado pelo próprio Letts, o roteiro acompanha a pavorosa família Smith: perseguido por traficantes locais depois que sua própria mãe roubou a cocaína que ele deveria vender, o jovem Chris (Hirsch) tenta recorrer ao pai para levantar o dinheiro necessário para se manter vivo, mas o ignorante Ansel (Church), ao ouvir o desespero do filho, sugere apenas que ele saia “correndo da cidade”. É então que Chris revela que a mãe fez um seguro de vida no valor de 50 mil dólares e cuja beneficiária é sua jovem irmã Dottie (Temple), convencendo Ansel a contratar um assassino para que possam receber o dinheiro. É aí que entra em cena o policial Joe Cooper (McConaughey), que, irritado ao descobrir que os Smith não têm o dinheiro necessário para o adiantamento da tarefa, propõe que Dottie lhe seja entregue como “caução”.

Estabelecendo a atmosfera opressiva da narrativa desde o primeiro plano, que surge mergulhado na escuridão e na chuva, sendo pontuado também pelo latido insistente de um cão, Friedkin parece se divertir imensamente com a família que dá centro ao filme e que rivaliza com os parentes de Leatherface em O Massacre da Serra Elétrica (cuja “parte 4” trazia Matthew McConaughey no elenco, vale apontar). Já nos primeiros minutos do longa descobrimos que Ansel costuma comprar maconha do próprio filho (protestando com relação à qualidade da erva), que Chris já fora expulso da casa da mãe algumas vezes por agredi-la e que Dottie, que a madrasta do rapaz (vivida por Gershon) vai para a cama com qualquer um e que Dottie, a única criatura ainda inocente naquele inferno, parece ter encontrado alguma fuga no sonambulismo e num quase autismo que a impede de se relacionar apropriadamente com o que a cerca. Neste sentido, o elenco jamais desaponta: Hirsch surge como um pequeno marginal, Gershon exibe um ar sempre calculista e vulgar, Church cria o mais passivo e estúpido dos personagens e Temple transforma Dottie numa jovem adorável, pura, mas claramente instável.

Porém, o destaque inquestionável fica mesmo por conta de McConaughey, um ator que admiro há anos e que elogiei fartamente até em produções esquemáticas (mesmo que eficientes) como a comédia Como Perder um Homem em Dez Dias: desperdiçando a maior parte da última década com besteiras como Armações do Amor, Um Amor de Tesouro e Minhas Adoráveis Ex-Namoradas, o sujeito parece ter voltado a se interessar pela interpretação no último ano, quando estrelou o ótimo O Poder e a Lei e criou um personagem excelente em Bernie. Nada, porém, poderia preparar o espectador para o que o ator oferece aqui: encarnando Joe como um sujeito cuja aparente polidez na fala oculta uma natureza volátil e perigosa, McConaughey vai revelando aos poucos a loucura do sujeito – e, assim, quando finalmente vemos o personagem-título sem qualquer máscara social no impactante terceiro ato, percebemos como é ameaçador e também a dimensão de sua psicopatia.

Construindo uma atmosfera noir eficaz, Killer Joe ainda conta com um senso de humor mórbido que complementa perfeitamente os aspectos mais cruéis da narrativa, desde pequenos instantes como aquele envolvendo um fio solto no terno de Ansel até absurdos que despertam um riso chocado graças ao incômodo que provocam no público (três palavras: “coxa de galinha”). Aliás, todo o ato final do longa é uma longa escalada rumo à insanidade, iniciando com uma conversa de crescente tensão até culminar numa celebração inesperada e estranhíssima.

E é bastante possível que, depois do fade final, o espectador saia do cinema rindo sozinho, mas também sentindo uma vontade irrefreável de tomar um banho e deixar toda aquela sujeira para trás. (5 estrelas em 5)

 

20)    Jerry Lewis – Loucura e Método (Method to the Madness of Jerry Lewis, EUA, 2011). Dirigido por Gregg Barson.

Meu amor pelo Cinema (e, consequentemente, a semente da carreira que comecei há 18 anos) vem de duas paixões da infância: os filmes dos Trapalhões e de Jerry Lewis. Gênio absoluto da comédia, Lewis protagonizou uma das trajetórias comerciais mais espetaculares de Hollywood entre 1946 e 1956, nos longas estrelados ao lado do parceiro Dean Martin, e entre 1960 e 1965, quando produziu, roteirizou, estrelou e dirigiu sucessos consecutivos com absoluta liberdade para a Paramount. Raramente levado a sério por boa parte da crítica norte-americana, o comediante encontrou este respeito na França – embora hoje sua influência sobre humoristas e cineastas em seu próprio país seja inquestionável.

Isto, aliás, fica bastante evidente através dos nomes que surgem neste documentário para elogiar a carreira de Lewis: de Seinfeld a Eddie Murphy, passando por Billy Crystal, Carl Reiner, Chevy Chase, Woody Harrelson e Carol Burnett (além de cineastas como Spielberg, Tarantino e John Landis), são muitos aqueles que atribuem ao ator/roteirista/diretor uma série de inovações não só no gênero comédia, mas na própria maneira de filmar estas produções, já que, entre outras coisas, ele foi o responsável por inventar uma das ferramentas mais importantes para os cineastas contemporâneos: o video-assist.

Porém, nada disso é novidade – e o que o título do longa parece prometer, uma análise sobre o método criativo de Jerry Lewis, representaria este novo olhar sobre sua trajetória. Infelizmente, a promessa não sai do título, já que o filme parece satisfeito ao se ater aos reiterados elogios feitos por todos ao biografado (que, por sua vez, tampouco jamais demonstrou timidez ao reconhecer os próprios méritos). Ora, é claro que um sujeito com 80 anos de carreira (66 dos quais vividos no estrelato absoluto) sabe o que está fazendo, mas como este sucesso foi alcançado? E por que Martin e Lewis decidiram se separar no auge? Estas perguntas, respondidas na ótima autobiografia de Lewis, aqui permanecem sem resposta, o que é no mínimo frustrante – especialmente para quem não conhece sua jornada em detalhes.

Por outro lado, o próprio Jerry Lewis resgata o filme através das inúmeras cenas extraídas de seus filmes e que, por si só, revelam sua genialidade como ator, roteirista e diretor, sendo surpreendente observar, por exemplo, sua sofisticação na utilização do som como recurso cômico e também sua coragem ao transformar seu primeiro projeto na direção em um veículo no qual, como ator, ele só abre a boca no último minuto de projeção (ecos de Chaplin em O Grande Ditador). Além disso, o documentário traz preciosas imagens de arquivo, desde momentos dos programas de tevê estrelados por Martin e Lewis (incluindo a participação do pai deste último) até cenas de bastidores de suas produções, que revelam sua preocupação em manter o set sempre descontraído.

Amarrando a estrutura da narrativa através da tour realizada recentemente pelo comediante (e que não parece ser particularmente inspirada, infelizmente), Método e Loucura afirma, em certo momento, ser difícil “entender quem é Jerry Lewis”. Talvez isto seja verdade, mas o fato é que o filme nem sequer tenta fazê-lo. (3 estrelas em 5)

 

21)    Pietá (Idem, Coréia do Sul, 2012). Dirigido por Kim Ki-duk. Com: Lee Jung-jin, Jo Min-soo.

Em certo momento de Pietá, novo filme do sul-coreano Kim Ki-duk, um coelho que havia sido confiscado pelo protagonista como pagamento de uma dívida é libertado por uma personagem antes que acabe sendo abatido para consumo. Saltando alegre rumo à liberdade, o animal atravessa a rua diante do apartamento no qual era mantido preso e é triturado pelas rodas de um carro antes de alcançar o outro lado. Este é um instante que resume todo o longa, que não encontra espaço para fuga ou redenção em sua narrativa enquanto esta discorre sobre a natureza da vingança e a implacabilidade do capitalismo nas sociedades modernas.

Com roteiro do próprio diretor, Pietá gira em torno de Gang-Do (Jung-jin), que trabalha como coletor de dívidas para um agiota local. Atuando em sua vizinhança miserável povoada por pequenos comerciantes e operários soterrados em dívidas, o sujeito frequentemente contorna a falta de dinheiro dos devedores através de um método cruel, aleijando-os para coletar o seguro que ele mesmo providenciara para suas vítimas. Certo dia, porém, a rotina solitária do protagonista muda quando a sofrida Mi-Son (Min-soo) se apresenta como a mãe que o abandonou ainda bebê, levando-o a aceitá-la através de sua patológica insistência. No entanto, não demora até que o passado violento de Gang-Do decida cobrar também suas dívidas.

Sem fazer qualquer esforço para suavizar a natureza de seu personagem, Lee Jung-jin encarna o violento rapaz com uma frieza assustadora: em certo instante, por exemplo, um de seus devedores tenta evitar que sua idosa mãe o veja sendo agredido pelo bandido, que, então, faz a mais absoluta questão de esbofeteá-lo repetidas vezes diante dos olhos da velhinha. Da mesma maneira, é sintomático que Gong-Do faça questão de comprar animais vivos para só então abatê-los no banheiro de seu pequeno apartamento antes de cozinhá-los, como se precisasse sempre manter algum grau de destruição em seu cotidiano. Em contrapartida, Jo Min-soo acertadamente vai no caminho oposto ao retratar a mulher que entra na vida do protagonista, conferindo um estoicismo que beira o mais puro masoquismo, como se ela quisesse ser punida por seus erros – e, de certa forma, a dinâmica estabelecida pela dupla parece permitir que um se alimente da doença do outro.

Isto, claro, até que Ki-duk altere a lógica daquela relação, infantilizando o protagonista, que subitamente parece depositar toda a sua carência na mãe recém-descoberta, como se esta fosse finalmente capaz de conduzi-lo à redenção que ele nem sabia desejar (e o segundo ato certamente perturba ao aparentemente ilustrar os extremos que a mulher parece disposta a atingir para confortar o rapaz). Assim, quando o cineasta novamente move a narrativa, apresentando finalmente seus propósitos temáticos com clareza, Pietá encontra o foco que parecia lhe faltar até então, embora também acabe soando absurdo demais para funcionar completamente.

Da mesma maneira, fica patente que, além de contar uma história de vingança, Ki-duk tenta utilizar o projeto para transmitir alguma mensagem crítica sobre ganância e capitalismo – e não é à toa que as vítimas de Gang-Do são destruídas pelas próprias máquinas nas quais labutavam sem jamais deixar a miséria. Porém, ainda que um monólogo mais óbvio sobre a transformação inevitável da cidade pelos arranha-céus seja apresentado sem muita sutileza pelo filme, este subtexto temático permanece difuso demais para realmente provocar impacto ou inspirar reflexões mais profundas.

Com isso, o que resta no desfecho de Pietá é a angústia absoluta originada pela constatação de que a felicidade é impossível naquele universo – algo que a natureza da mancha deixada pelo caminhão no plano final expõe de forma impiedosa ao mesmo tempo que tenta criar a metáfora derradeira de um discurso frágil como manifestação política, mas suficientemente eficiente como drama para impressionar o espectador. (4 estrelas em 5)

 

22)    Post Tenebras Lux (Idem, México, 2012). Dirigido por Carlos Reygadas. Com: Adolfo Jiménez Castro, Nathalia Acevedo, Willebaldo Torres, Rut Reygadas, Eleazar Reygadas.

A cena inicial de Post Tenebras Lux é hipnotizante e surge como a promessa de um filme intrigante: com filtros que tiram o foco das laterais do campo reduzido à razão de aspecto de 1.33:1, o diretor Carlos Reygadas mantém a câmera na altura dos olhos de uma garotinha de 2 ou 3 anos de idade enquanto esta caminha por um descampado no qual cavalos e vacas passeiam lentamente. Somada à fotografia que salienta o roxo do céu no anoitecer, esta abordagem cria uma forte atmosfera de sonho (ou pesadelo), estabelecendo o tom onírico que dominará boa parte da projeção. Assim, é decepcionante quando percebemos que, com exceção dos experimentos estéticos e narrativos, o cineasta não parece ter muito de relevante a dizer.

Investindo num tom fantástico ainda no primeiro ato ao trazer uma figura demoníaca percorrendo uma casa e entrando no quarto dos pais de um garotinho que o observa atentamente, Post Tenebras Lux tem, claro, um centro temático na ideia de tentações e impulsos destrutivos que corrompem o espírito humano – algo manifestado, por exemplo, na natureza agressiva do pai vivido por Adolfo Jiménez Castro, que espanca um cão por um motivo trivial e mais tarde testemunha a esposa sendo possuída por estranhos numa casa de swing (o que, convenhamos, soa um bocado moralista por parte de Reygadas).

Sem se preocupar com qualquer indício de trama (o que, por si só, não é problema algum), o longa salta de uma cena a outra sem estabelecer qualquer ligação formal entre estas, que se mostram desconexas cronológica e espacialmente, procurando funcionar de forma independente ao retratarem conflitos, inseguranças, desentendimentos ou mesmo pequenas alegrias dos personagens. Neste sentido, Post Tenebras Lux é um filme sobre o “agora”, sobre sentimentos imediatos, o que permite que o espectador ria feliz diante das gracinhas feitas pelos filhos pequenos do casal principal (vividos pelos filhos do próprio diretor) apenas para se angustiar mais tarde quando a bela Natália (Acevedo) vai às lágrimas graças à melancolia provocada pela canção que ela mesma executa desafinadamente ao piano.

No entanto, estes momentos, por mais que sejam eficientes ao estabelecerem uma atmosfera imediata, jamais se somam, resultando numa experiência difusa, vazia e frustrante. Se em A Árvore da Vida Terrence Malick adotava uma estratégia relativamente similar para discutir a experiência humana e nossa pequenez diante do cosmos, aqui Reygadas faz sua própria versão daquela maravilha, mas colocando-se como centro do Universo. Como artista, isto é algo natural e compreensível – o que não quer dizer que gere uma obra particularmente interessante ou relevante. (3 estrelas em 5)

 

23)    Pablo (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Richard Goldgewicht.

Não foram muitos os idealizadores de créditos iniciais que conquistavam o direito de incluir os próprios nomes nas introduções que criavam. Porém, se Saul Bass é o primeiro que nos vem à mente quando pensamos nestes artistas, o cubano Pablo Ferro vem em segundo lugar por apenas alguns milésimos de segundo (empatado com Maurice Binder, talvez?), sendo o responsável por criar não só os créditos, mas a tipografia marcante de obras como Dr. Fantástico, Laranja Mecânica, Los Angeles – Cidade Proibida, Homens de Preto, Os Fantasmas Se Divertem, Bullitt, Perdidos na Noite, entre vários outros. Por esta razão, é admirável que o brasileiro (radicado em Los Angeles) Richard Goldgewicht tenha decidido homenagear um artista tão importante – e desconhecido do grande público – com este documentário.

Utilizando a animação para retratar boa parte da trajetória do personagem-título (um recurso narrativo recorrente nesta edição do Festival do Rio, estando presente também em Cor da Pele: Mel e Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso), o longa resgata as contribuições marcantes de Ferro na idealização de comerciais para a televisão e de trailers, trazendo depoimentos de personalidades como Stan Lee (que o contratou como desenhista no início da carreira), Andy Garcia, Beau Bridges, Anjelica Huston, Jon Voight, Jonathan Demme e Norman Jewison, que pintam o retrato de um homem divertido, extremamente criativo, incapaz de lidar com dinheiro e também de fazer inimigos. Além disso, sua marcante amizade (e também sua parceria profissional) com o cineasta Hal Ashby ocupa parte importante da narrativa, como não poderia deixar de ser.

Assim, é triste perceber como, depois de décadas de uma carreira invejável, Pablo Ferro é obrigado a viver nos fundos da casa do filho enquanto luta para encontrar novos trabalhos que paguem suas dívidas – e igualmente decepcionante é perceber como este documentário sobre sua vida, embora informativo, revela-se bem mais longo do que o ideal e também excessivamente repetitivo, além de jamais conseguir exibir qualquer grau da inventividade que tanto marcou a vida artística do homem que busca homenagear. (2 estrelas em 5)

 

24)    Maníaco (Maniac, EUA/França, 2012). Dirigido por Franck Khalfoun. Com: Elijah Wood, Nora Arnezeder, America Olivo, Liane Balaban, Sammi  Rotibi, Genevieve Alexandra, Morgane Slemp.

Para ver o videocast que gravei sobre o filme, clique aqui. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos