Festival do Rio 2012 – Dia 05

Abraços para a leitora Sabrina, que me cumprimentou depois da sessão de El Último Elvis, e também para a querida Graziela Inês (e seu namorado Felipe, que conheci ontem).

Ah, os filmes?

 25)    Hotel Mekong (Mekong Hotel, Tailândia, 2012). Dirigido por Apichatpong Weerasethakul. Com: Jenjira Pongpas, Maiyatan Techapam, Sakda Kaewbuadee, Apichatpong Weerasethakul.

Graças ao diretor Apichatpong Weerasethakul, me ocorreu a existência de um gênero que batizo aqui de “filme-aquário”: são obras que compõem o ambiente, mas não são essenciais a este; você pode olhar para a tela ou não; ler as legendas ou não; sair da sala e retornar a qualquer momento e ele continuará lá sem que você tenha perdido algo importante; é perfeitamente natural contemplá-lo por um longo tempo enquanto pensamos em qualquer outra coisa; e, finalmente, você pode discuti-lo após observá-lo ou não, já que isto não fará qualquer diferença e nada de realmente relevante surgiria da conversa.

Hotel Mekong é um belo filme-aquário.

Composto a partir de planos sempre estáticos e longos que acompanham os personagens enquanto estes basicamente contemplam o rio Mekong durante discussões triviais sobre suas vidas, sobre o país ou sobre entidades sobrenaturais, o filme de “Joe” (como é conhecido por quem quer mostrar ser íntimo de sua obra) tenta sugerir profundidade a partir da inespecificidade – e se o cineasta coloca algo na tela (como uma mulher-fantasma devorando o intestino da filha), isto certamente deve representar algo importante: uma nação que explora seus cidadãos, dúvidas existenciais que nos correm ou, sei lá, a natureza canibalesca da Arte.

Ora, é fácil projetar uma aura de sofisticação narrativa quando todos parecem dispostos a conferir importância até mesmo às limitações do filme – e Weerasethakul exibe, em Hotel Mekong, uma autoindulgência ainda mais alarmante do que aquela vista em seu Tio Boonmee, já que aqui não há nem mesmo como justificar o longa a partir de decisões estéticas. Em certo momento deste projeto, por exemplo, surge um plano no qual um personagem observa a ação da mulher-fantasma-canibal-vampira escondendo-se atrás do batente de uma porta – e a composição e a mise en scène são tão amadoras que chegam a irritar.

Incluindo uma ponta do próprio diretor logo no início, quando vemos o músico que acompanhará toda a ação (e realmente quero dizer “toda”) ensaiando o tema no violão, Hotel Mekong é o tipo de besteira que confere má fama à expressão “filme de Arte” (um “gênero” que, aliás, julgo nem existir), mas que faz sucesso em festivais e com certo tipo de crítico.

Já eu, confesso, continuo a encarar “Joe” apenas como um trapaceiro convincente. (2 estrelas em 5)

 

26)    Verão em Red Hook (Red Hook Summer, EUA, 2012). Dirigido por Spike Lee. Com: Jules Brown, Clarke Peters, Toni Lysaith, Alicia Simms, Heather Simms, De’Adre Aziza, Thomas Jefferson Byrd, Spike Lee, Colman Domingo, Nate Parker.

2012 está sendo um ótimo ano para Spike Lee: além de comandar o eficiente documentário sobre o álbum Bad (sobre o qual falarei em breve), o cineasta retorna, neste Verão em Red Hook, ao tipo de Cinema que o lançou, concentrando-se numa vizinhança de Nova York enquanto explora a interação entre os habitantes para criar um complexo painel sobre suas vidas, filosofias, políticas e crenças, demonstrando certo grau de respeito até mesmo para com os mais desprezíveis ou cruéis de seus personagens.

Escrito por Lee e James McBride, o filme se passa nas férias de verão do jovem Flik (Brown), que, morando em Atlanta (terra natal do diretor), é levado pela mãe para passar um tempo com o avô no bairro Red Hook, em Nova York (terra adotada pelo cineasta). Bispo de uma humilde paróquia local, o avô do menino é um sujeito que parece pensar apenas em sua religião, que logo tenta forçar sobre o neto. Enfrentando dificuldades financeiras para manter a igreja funcionando, o bispo Enoch (Peters) é assessorado pelo amalucado diácono Zee (Byrd), um sujeito beberrão e obcecado pela bolsa de valores, e mantém uma relação respeitosa de interesse com uma das gestoras do local, a “irmã” Sharon (Simms). À medida que o verão passa, Flik se torna próximo da filha de Sharon, a irreverente Chazz (Lysaith), e conhece as figuras da região – incluindo o entregador de pizza Mookie, que Lee viveu em Faça a Coisa Certa e que aqui surge rapidamente em duas ocasiões.

Dividindo com aquela obra do diretor também o calor que massacra os personagens, Verão em Red Hook é hábil ao apresentá-los de maneira rápida e econômica já no primeiro ato através de um longo plano no qual Lee, percorrendo as ruas do bloco habitacional no qual o bispo reside, encena os encontros deste com vários fiéis cujas personalidades já ficam claras a partir de suas breves conversas. Porém, por mais interessantes que estas figuras secundárias sejam, não há dúvidas de que o centro narrativo do filme é mesmo o religioso retratado por Clarke Peters de maneira espetacular (digna de prêmios, eu acrescentaria): seguro de sua fé a ponto de se tornar desrespeitoso ao tentar forçá-la sobre todos aqueles que o cercam, o bispo Enoch é dono de um senso de espetáculo importante em sua profissão, surgindo como um orador divertido, hipnotizante e cuja retórica certamente poderia convencer qualquer um que se atentasse apenas à superfície do que está sendo dito (“Especialistas construíram o Titanic; amadores construíram a Arca”, ele aponta em certo momento, esquecendo-se, porém, de dizer que uma destas embarcações era fictícia, o que facilita bastante a vida de qualquer engenheiro).

Aliás, o carisma do bispo é tamanho que, durante boa parte do longa, fiquei sinceramente na dúvida se a pregação era do personagem ou do filme – até que, numa cena intimista que traz uma conversa entre Sharon e Enoch, a primeira confessa que, depois de perder a filha mais velha, decidiu que, em vez de deixar as coisas “nas mãos de Deus”, está orientando a garota. “Não vou pregar, mas ensinar”, ela explica, acrescentando que o neto do bispo “não precisa de Deus, mas do avô”. Neste momento, as preocupações temáticas de Verão em Red Hook se tornam patentes e compreendemos que a fotografia superexposta adotada no interior da Igreja aconchegante, que por vezes parece trazer um brilho emanado do pastor, reflete não a posição do filme, mas a visão subjetiva do bispo sobre si mesmo.

E é então que Spike Lee puxa de vez o tapete sob os pés do espectador através de uma revelação no terceiro ato, alterando drasticamente a dinâmica entre os personagens e do próprio filme, expondo cicatrizes há muito ocultas, levantando questões complexas sobre a natureza da fé e obrigando o público a indagar se seria justo tornar inválidas as boas ações de alguém em função de erros graves cometidos no passado e dos quais o indivíduo claramente se arrepende.

Trazendo um dos melhores planos do ano (aquele que começa num close do bispo, revelando cruzes luminosas refletidas em seus olhos), Verão em Red Hook é um olhar franco sobre a religião, analisando-a (e seus “pastores”) sem jamais ser desrespeitoso ou cruel. E assim, quando um pequeno distribuidor de drogas local pergunta ao bispo “quem é o verdadeiro traficante”, é impossível não se deter diante da relevância e da inteligência da indagação. (4 estrelas em 5)

 

27)    Bad 25 (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Spike Lee.

Quando comentei brevemente o documentário This is It durante a cobertura da Mostra de São Paulo de 2009, observei que o filme teria feito muito bem à abalada reputação de Michael Jackson, já que o apresentava como um sujeito com imensa ética profissional, gentil na relação com os colegas e como uma alma torturada (acusações de pedofilia à parte, claro). Pois Bad 25 exerce função similar ao analisar o álbum que o cantor lançou em 1987, dissecando a história por trás de cada música e entrevistando os responsáveis pela produção do disco e dos vídeos criados para divulgar as canções.

Iniciando com o sucesso descomunal alcançado por Thriller e estabelecendo o desejo de Jackson de superar os recordes obtidos por aquele trabalho, o documentário dirigido por Spike Lee traz imagens de bastidores das produções dos clipes, de vídeos caseiros rodados pelo próprio músico e momentos da longa turnê Bad. Assim, podemos acompanhar depoimentos de figuras como Martin Scorsese, que, responsável pela direção do icônico videoclipe que dá título ao álbum, relembra detalhes do projeto e ri, por exemplo, ao relatar seu espanto com o hábito do cantor de agarrar a própria virilha durante a coreografia.

A dança, por sinal, é um assunto central do longa, como não poderia deixar de ser – e quando vemos Jackson em ação, é sempre difícil conter a admiração por seu talento. No entanto, as coreografias que o sujeito parecia tornar tão simples exigiam, obviamente, imensa preparação, o que Lee expõe aqui ao detalhar os ensaios, a lógica por trás de movimentos específicos e ao trazer, inclusive, anotações particulares do astro relativas ao seu processo criativo. Da mesma maneira, detalhes técnicos das gravações são oferecidos pela equipe montada pelo lendário Quincy Jones, sendo fascinante, por exemplo, descobrir como um engenheiro de som decidiu um usar um microfone usado para narrações por julgar (acertadamente) que a qualidade daquele áudio específico beneficiaria o timbre particular de Jackson. E se as anotações do artista são elementos curiosos de seu processo, ouvir gravações de seus exercícios vocais é algo que comprova seu cuidado com seu principal instrumento e – mais uma vez – todo o imenso trabalho que permitia seu alcance de voz.

Com isso, à medida que Bad 25 avança, percebemos como nada foi deixado ao acaso na produção do álbum: cada faixa tinha um propósito específico e uma história particular e digna de discussão, culminando, claro, naquela que se tornaria o hino informal de sua morte, Man in the Mirror – e ver praticamente todos os entrevistados derramando lágrimas ao discutirem a morte súbita de Michael Jackson, três anos após sua partida, é algo que apenas reafirma a impressão deixada por This is It: a de que, mesmo com seus demônios pessoais inquestionáveis, o sujeito definitivamente conquistava aqueles ao seu redor. (4 estrelas em 5)

 

28)    Tabu (Idem, Portugal, 2012). Dirigido por Miguel Gomes. Com: Laura Soveral, Teresa Madruga, Isabel Muñoz Cardoso, Ana Moreira, Henrique Espírito Santo, Carloto Cotta, Ivo Müller, Manuel Mesquita.

Responsável por aquele que considerei como sendo o melhor filme exibido na Mostra de São Paulo de 2008, Aquele Querido Mês de Agosto, o diretor português Miguel Gomes não decepciona neste seu novo trabalho, Tabu, que traz alguns dos elementos já presentes naquele projeto, como o humor e a estrutura atípica, além de explorar facetas novas de sua produção, como o diálogo elegante, muitíssimo bem acabado, e a capacidade de flertar com o melodrama sem tornar-se apelativo ou excessivamente açucarado.

Dividido em duas partes, o longa, escrito por Gomes ao lado de Mariana Ricardo, tem início ao nos apresentar à triste Pilar (Madruga), que, solitária, se preocupa imensamente com o bem estar de sua idosa vizinha Aurora (Soveral). Porém, depois que esta adoece e pede que a amiga busque um velho conhecido, Pilar descobre sua história da juventude, quando, casada e grávida, se apaixonou por outro homem.

Basicamente desenvolvido através da contínua narração em off, Tabu tem nos diálogos uma de suas grandes virtudes – e é esteticamente prazeroso ouvir o narrador explicando que certo personagem brincava de roleta russa apenas para concluir que este “morreria mais tarde em função deste seu hábito”. Aliás, neste aspecto a obra de Gomes é curiosa, já que poderia ser simultaneamente descrita como um filme mudo e também intensamente sonoro: por um lado, há, claro, a trilha e a já mencionada narração; por outro, jamais ouvimos os personagens vistos na segunda parte falando, já que suas ações em cena conduzem a história, sendo apenas comentadas pelo off.

Com uma fotografia em preto-e-branco belíssima que ressalta a tristeza da narrativa, Tabu é uma história de amor trágica e tocante, mas, ao seu próprio modo, também um exercício narrativo corajoso e ambicioso que volta a apresentar seu diretor como um dos nomes mais interessantes do Cinema contemporâneo. (4 estrelas em 5)

 

29)    César Deve Morrer (Cesare deve morire, Itália, 2012). Dirigido por Paolo e Vittorio Taviani. Com: Salvatore Striano, Cosimo Rega, Giovanni Arcuri, Antonio Frasca, Juan Dario Bonetti, Vincenzo Gallo, Rosario Majorana, Fabio Cavalli.

Assim como Histórias que Contamos e Uma Super-Simplificação de Sua Beleza, dois outros documentários exibidos no Festival do Rio de 2012, este brilhante César Deve Morrer, retorno dos veteranos irmãos Taviani ao Cinema depois de cinco anos de ausência, funciona não só como um registro parcialmente falsificado da realidade como ainda acaba atuando como um reflexo metalinguístico sobre sua própria realização. No processo, o longa estabelece um olhar sensível sobre a natureza libertadora da Arte e se apresenta como uma releitura perfeitamente respeitável do clássico Júlio César.

Rodado ao longo de seis meses em uma prisão italiana de segurança máxima, o filme acompanha a produção do espetáculo teatral montado anualmente com o objetivo de oferecer uma atividade criativa e terapêutica para os prisioneiros, desde os testes feitos com os interessados até a apresentação para familiares numa pequena noite de gala, passando pelos ensaios, conflitos do elenco e autoquestionamentos artísticos. Para isso, os cineastas iniciam César Deve Morrer com o desfecho da performance “pública”, registrada em cores e testemunhada pelos convidados no auditório da prisão – e é então que, findos os aplausos, vemos o elenco extasiado ser escoltado para fora do palco pelos carcereiros e retornando para os bastidores que se resumem a celas no lugar de camarins. A partir daí, retornamos um semestre no tempo e acompanhamos os preparativos para aquela apresentação única e claramente tão especial para os envolvidos.

Em um primeiro instante, claro, o documentário encanta ao revelar o talento insuspeito daquelas figuras ameaçadoras e que, em cena, se mostram capazes de evocar dores e conflitos que os levam às lágrimas no momento dramático mais apropriado; aos poucos, contudo, percebemos que por trás deste talento há um esforço descomunal, já que, contando com todo o tempo do mundo, os atores reanalisam continuamente seus diálogos e movimentos em cena, encontrando espaço até mesmo para confissões pessoais despertadas pelo texto de Shakespeare.

E é aqui que a estratégia dos Taviani se revela especialmente intrigante, já que percebemos que a maior parte do que testemunhamos envolve uma encenação cuidadosa, desde as brigas entre integrantes do elenco até comentários feitos pelos carcereiros que os observam – e mesmo que estas passagens sejam inspiradas por fatos reais (e acredito que sejam), não há dúvidas de que ao longo da projeção são orquestradas em detalhes pelos diretores, que, assim, podem ilustrar até mesmo os comentários jocosos feitos pelos prisioneiros que não participam da produção e enxergam o grupo com hostilidade e desprezo.

Por outro lado, não há como questionar a natureza violenta daqueles homens, que, mesmo se abrindo em cena, são criminosos condenados por envolvimento em homicídios, com a máfia e com o narcotráfico – o que apenas ressalta a transformação em cena, quando, para citar apenas um deles, o obviamente perigoso Juan Dario Bonetti encarna Decio com olhos tremendamente bondosos. Neste aspecto, vale apontar, o filme não só registra uma produção de Júlio César como se transforma numa eficiente releitura da peça de Shakespeare, comprovando sua universalidade ao transformar o povo romano, por exemplo, em presidiários que escutam o inesquecível discurso de Marco Antônio através das barras das janelas de suas celas (e a utilização dos espaços do presídio é inspirada, como na cena que transforma o senado de Roma em um pequeno galpão vazio e empoeirado).

Empolgados com o projeto e demonstrando uma dedicação que expõe o potencial redentor da Arte, os criminosos vistos em César Deve Morrer certamente enxergam a atividade como uma forma de escaparem temporariamente de suas vidas limitadas pelos muros e barras da penitenciária – e, assim, quando finalmente agradecem os aplausos do público e são devolvidos, com postura triste e derrotada, às suas celas, percebemos que o que se encerrou ali foi mais do que um exercício artístico; foi uma breve e legal fuga de sua deprimente realidade. (5 estrelas em 5)

 

30)    Dossiê Jango (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle.

Para assistir ao videocast que gravei sobre o filme, clique aqui. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos