Festival do Rio 2012 – Dias 06-11

Muitos filmes para comentar. Vamos direto a eles:

31)    Nós e Eu (The We and the I, EUA, 2012). Dirigido por Michel Gondry. Com: Michael Brodie, Teresa Lynn, Laidychen Carrasco, Chenkon Carrasco, Jonathan Ortiz, Jonathan Scott Worrell, Alex Barrios, Meghan Murphy, Kenneth Quinones.

Michel Gondry é um diretor extremamente inventivo – e um dos prazeres em acompanhar seus projetos reside justamente na expectativa de testemunhar suas firulas visuais. Assim, ao limitar-se a uma história desenvolvida quase completamente no interior de um ônibus em movimento, o cineasta praticamente elimina da equação sua maior força como realizador, sendo obrigado a depender ainda mais do roteiro. Que, neste caso, não passa de mediano.

Acompanhando o trajeto do veículo enquanto este transporta cerca de duas dúzias de alunos que, no último dia de aula antes das férias, voltam para suas casas, Gondry e os co-roteiristas Paul Proch e Jeffrey Grimshaw tentam estabelecer algum tipo de análise social a partir daquele microcosmo envolvendo bullies, músicos, flertes hetero e homossexuais, conflitos, agressões e por aí afora, mas falham pela visão simplista que, no máximo, se aventura a apontar que, sob a influência de amigos, um sujeito de bom caráter pode se tornar um imbecil.

Este esforço para soar socialmente relevante é ressaltado pelo velho recurso de trazer atores amadores vivendo versões semi-ficcionais de si mesmos e que são batizadas com seus verdadeiros nomes, mas isto apenas fortalece a impressão de que talvez o longa devesse ser mais sutil e complexo nestes retratos, que, na maior parte das vezes, surgem quase como caricaturas, o que é decepcionante.

Conseguindo algum tipo de energia através de flashbacks que permitem que Gondry ganhe certa liberdade (e culminando numa eficiente sequência em que três histórias são narradas simultaneamente), Nós e Eu demonstra o que já sabíamos: que seu diretor é talentoso e capaz de imprimir ritmo e certa criatividade mesmo confinado em um ônibus. Isto, porém, não é o bastante para que o longa faça jus a obras como Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças ou mesmo Natureza Quase Humana e Rebobine, Por Favor. Aparentemente, tem faltado a Michel Gondry uma ambição proporcional ao seu talento. (3 estrelas em 5)

32)    West of Memphis (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Amy Berg.

A trilogia Paradise Lost, realizada por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky ao longo de 15 anos, é um documento impactante e abrangente sobre um caso apavorante ocorrido em Memphis no início da década de 90, quando três adolescente foram presos e acusados do assassinato bárbaro de três crianças simplesmente porque eram pobres, “estranhos” e supostamente satanistas (o “líder” do grupo, Damien Echols, gostava de se vestir de preto e ouvir heavy metal, o que o qualificava como adorador do Diabo, aparentemente). A falta de provas não importava e dois deles foram condenados à prisão perpétua, ao passo que Echols foi enviado ao corredor da morte – e tudo teria terminado por aí caso os dois documentaristas não houvessem revirado o caso e realizado o primeiro filme, que, em 1996, chamou a atenção do público e da mídia para os absurdos daquela história.

Ao longo dos anos seguintes, Berlinger e Sinofsky retornaram aos “West Memphis Three” mais duas vezes e não só expandiram as evidências que apontavam para a inocência do trio através de testes e análises permitidos por novas tecnologias, como ainda apontaram a possibilidade palpável de que o culpado real fosse Terry Hobbs, o padrasto de uma das crianças.

Ainda assim, Echols,  Jessie Misskelley Jr e Jason Baldwin permaneceram presos até 2011, quando um acordo estranhíssimo foi feito com a justiça de Memphis para que eles se declarassem culpados (ainda que alegando inocência) e fossem libertados imediatamente – algo retratado em Paradise Lost: Purgatory, que acabou sendo indicado ao Oscar.

No entanto, o propósito deste texto é discutir o documentário West of Memphis, dirigido por Amy Berg (do ótimo Deliver Us From Evil) e que aborda todos estes fatos descritos acima – e é justamente por pouco oferecer de novo que o filme se mostra, em última análise, dispensável. Ora, somados, os três filmes Paradise Lost totalizavam 400 minutos de entrevistas, evidências e argumentos – e, assim, é natural que, com “apenas” 147 minutos, Berg não teria tempo para criar um retrato tão amplo deste complexo caso. E, de fato, não cria: os espectadores dos originais facilmente reconhecerão todos os principais personagens e pontos aqui (re)apresentados, pouco restando de novo à diretora. Para piorar, o que ela traz de novo soa, na maior parte do tempo, como bajulação e tapinhas nas próprias costas dados por alguns dos envolvidos na defesa dos prisioneiros.

Aliás, trazendo os nomes de Fran Walsh (esposa de Peter Jackson), Lorri Davis (esposa de Damien Echols) e do próprio Echols na produção, West of Memphis basicamente transforma o rapaz em protagonista inquestionável do projeto, pouco oferecendo dos pontos de vista de seus colegas de cárcere (que, por sua vez, parecem estar envolvidos num projeto paralelo que revisitará mais uma vez toda a história). Como se não bastasse, aqui somos obrigados a acompanhar depoimentos de Peter Jackson, Davis e Eddie Vedder discutindo, acreditem ou não, o valor de seus próprios empenhos na luta pela libertação dos rapazes, chegando ao cúmulo de incluir trechos de e-mails trocados por Walsh e Davis nos quais estas buscam oferecer apoio uma a outra.

No entanto, se há um motivo para aplaudir este projeto, é o fato de que, partindo dos achados de Paradise Lost, Amy Berg fortalece o caso contra Terry Hobbs, praticamente cimentando sua culpa – mesmo que, além das evidências, recorra a depoimentos que nada mais são do que diz-que-me-diz-que (algo que, sem perceber a ironia, o filme condena quando dirigido a Echols).

Com exceção desta relativamente curta passagem, porém, West Memphis é basicamente uma versão reduzida (e, consequentemente, inferior) de Paradise Lost – e se a trilogia lutava para provar a inocência de três jovens pobres que, até então, eram meros desconhecidos, infelizmente este novo projeto parece apenas celebrar aqueles que se dedicaram a salvá-los quando já eram minicelebridades. (3 estrelas em 5)

 33)    Uma Noite (Una Noche, Cuba/EUA, 2012). Dirigido por Lucy Mulloy. Com: Dariel Arrechaga, Anailín de la Rúa de la Torre, Javier Núñez Florián, María Adelaida Méndez Bonet, Greisy del Valle.

Longa de estreia da diretora e roteirista norte-americana Lucy Mulloy, Uma Noite é um filme repleto de energia sobre três jovens cubanos que decidem se arriscar numa viagem sobre uma jangada improvisada rumo a Miami. Mais do que a história de emigrantes ilegais desiludidos e trágicos, porém, o longa é hábil ao estabelecer uma dinâmica intrigante entre os personagens, usando a sexualidade nascente dos adolescentes como motor de uma trama que explora com sensualidade (e tristeza) a realidade de Cuba.

Rodado em Havana com a permissão do governo (que também liberaria os três atores para uma visita aos Estados Unidos para o lançamento do filme, sendo surpreendido pelo sumiço de dois deles justamente em Miami), Uma Noite percorre as ruas da cidade com liberdade absoluta, indo além dos pontos turísticos e retratando também o lado miserável daquela sociedade – e é tocante ver a casa dos irmãos gêmeos Lila e Elio (de la Torre e Florían), cuja condição é invejada pelo amigo Raul (Arrechaga), já que as paredes descascadas e os colchões compostos por espuma furada estão longe de indicar o conforto que o outro tanto admira. Da mesma maneira, a difícil vida de Raul, que luta para conseguir medicamentos para o tratamento da AIDS que corrói sua mãe prostituta, é de certa forma o centro da narrativa, já que, impetuoso, impulsivo e repleto de mágoas, o rapaz move direta e indiretamente os companheiros: Elio, por amá-lo secretamente; Lila, por querer ficar com o irmão e também por demonstrar certo fascínio pelo amigo deste.

Contando com uma fotografia apropriadamente crua que explora o calor de Cuba sem jamais perder os elementos atraentes da cidade ou mesmo romantizá-los, o filme traz imagens emblemáticas como aquela que mostra Raul sentado no parapeito de um prédio com Havana sob seus pés e, claro, todo o terceiro ato, que se passa em alto mar e substitui o equilíbrio entre humor e drama pela tensão absoluta à medida que os jovens percebem o perigo da situação na qual se envolveram.

Com um desfecho corajoso e marcante, Uma Noite é também franco ao lidar com os sentimentos homossexuais de Elio e com a natureza hormonal dos interesses de Raul, utilizando estes elementos como algo orgânico à narrativa em vez de tentar pregar ou fazer drama barato. E mesmo que a narração em off seja dispensável e busque conferir uma estrutura artificial ao filme, isto não impede que a obra marque pela honestidade e sensibilidade com que lida com seus difíceis temas sociais, culturais e políticos. (4 estrelas em 5)

 

34)    Elefante Branco (Elefante blanco, Argentina, 2012). Dirigido por Pablo Trapero. Com: Ricardo Darín, Jérémie Renier, Martina Gusman, Federico Barga, Pablo Gatti, Raul Ramos.

É fascinante acompanhar o crescimento do cineasta argentino Pablo Trapero a cada novo filme. Sem jamais ter realizado uma obra que pudesse ser classificada como menos do que “ótima” (embora o pavoroso desfecho de Nascido e Criado tenha chegado perto disso), o diretor vem se mostrando gradualmente mais ambicioso, saltando de tramas que lidavam basicamente com questões pessoais para outras que, além disso, abordam também aspectos sociais costurados com elegância às histórias que conta. Foi o caso do excepcional Leonera, do ótimo Abutres e agora, em escala ainda maior, deste brilhante Elefante Branco.

Voltando à ótima parceria com o sempre fabuloso Ricardo Darín estabelecida em seu filme anterior, Abutres, Trapero aqui ambienta sua narrativa em uma imensa favela de Buenos Aires na qual o padre Julián (Darín) tenta desenvolver um trabalho social que ao mesmo tempo afaste os jovens da droga e do tráfico e também permita a construção de novas casas populares para os habitantes da região. Enfrentando dificuldades com a falta crônica de verbas, já que a Arquidiocese se preocupa mais com política do que com a população, Julián vive com seus companheiros de paróquia na imensa construção abandonada daquele que deveria ter se tornado o maior hospital da América Latina e que, iniciada em 1937, é chamada de Elefante Branco pelos moradores da favela justamente por representar, com sua carcaça horrorosa, o descaso do governo e da sociedade para com os miseráveis da cidade. É então que o padre convida um jovem sacerdote, o francês Nicolás (Renier), para juntar-se a ele naquele trabalho – mas, traumatizado pelo fim trágico de sua última missão na Amazônia, o rapaz se vê cada vez mais afastado da Igreja e começa a demonstrar interesse romântico pela assistente social Luciana (Gusman, esposa de Trapero e sua colaboradora habitual).

Inspirado pelo assassinato do padre Carlos Mugica em 1974, o roteiro escrito a oito mãos por Trapero, Martín Mauregui, Alejandro Fadel e Santiago Mitre (todos parceiros antigos do diretor) é hábil ao saltar das lutas de Julián, que se vê constantemente pressionado a ajudar todos ao seu redor, para as incertezas de Nicolás – e a óbvia dedicação deste aos trabalhos comunitários, quando contraposta ao seu sofrimento por amar Luciana, aponta a estupidez do celibato exigido pela Igreja sem que um discurso tenha que ser feito pelo filme neste sentido. Aliás, Elefante Branco é hábil ao estabelecer vários argumentos impactantes sem a necessidade de diálogos expositivos – como na sequência que traz três sacerdotes rezando o terço enquanto Trapero e seus dois outros montadores cortam para planos que expõem a miséria ao redor dos homens, apontando ao mesmo tempo para o desespero dos padres diante da tarefa que têm à frente e, claro, a inutilidade de suas orações.

Mais uma vez demonstrando seu apreço por (e seu talento para) planos-sequência, o diretor cria, ao longo da projeção, alguns momentos cinematograficamente memoráveis sem jamais parecer estar querendo apenas se exibir, já que as decisões se revelam orgânicas à narrativa – começando pelo plano que começa no interior do hospital e acompanha os personagens até a capela, passando por várias ruas e nos apresentados aos moradores e à rotina local sem qualquer corte, permitindo que nos sintamos realmente como parte daquele universo. Já em outro instante, é o desenho de som que merece destaque ao introduzir a trilha de Michael Nyman de forma quase inaudível apenas para gradualmente evidenciá-la à medida que a lógica da cena exige o acompanhamento musical. Para completar, Trapero confere urgência e realismo à dura sequência da invasão da polícia à favela, rodando a ação como algo que poderia ter saído diretamente de um noticiário para a televisão.

Beneficiado por um elenco admirável, Elefante Branco representa, também, um novo momento na carreira de Jérémie Renier, que, cada vez mais distante dos tipos criados nos filmes dos irmãos Dardenne (especialmente A Criança, que o lançou no mercado internacional), vive aqui seu personagem mais humanista e doce, conferindo também peso dramático ao torturado Nicolás. E se Martina Gusman desta vez pouco tem a fazer (embora consiga ilustrar bem o cansaço gradual de Luciana), o destaque, como de hábito, fica por conta de Ricardo Darín, que encarna o padre Julián como um homem completamente dedicado à sua causa e à comunidade, exibindo uma alegria tocante ao receber uma dúzia de fiéis em sua diminuta paróquia e ao batizar novos convertidos – e o espectador chega a se sentir exausto ao acompanhar a rotina do sujeito, cuja presença parece ser exigida por todos ao mesmo tempo. Assim, quando Julián finalmente se mostra cansado e desabafa ter medo de vir a “acabar odiando todo mundo”, sentimos sua dor e sofremos por ele.

Seco e brutal em seu terceiro ato, Elefante Branco não faz concessões ao abordar um material que exige estas características, confirmando a ascensão de Pablo Trapero à elite do Cinema mundial. (5 estrelas em 5)

35)    Lore (Idem, Alemanha, 2012). Dirigido por Cate Shortland. Com: Saskia Rosendahl, Nele Trebs, André Frid, Mika Seidel, Kai-Peter Malina.

Selecionado pela Austrália como representante do país na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Lore conta a história de uma jovem alemã que, após a derrota do Terceiro Reich, perde a companhia do pai, oficial nazista, e da mãe, colaboradora do Partido, sendo obrigada a conduzir os quatro irmãos menores numa jornada de centenas de quilômetros até Hamburgo a fim de encontrarem a avó.

Escrito pela diretora Cate Shortland e por Robin Mukherjee a partir de um livro de Rachel Seiffert, o longa assume, portanto, a estrutura de um road movie que enfocará o choque de realidade experimentado pela jovem protagonista, que, de adolescente segura dos ideais inquestionáveis de Hitler, é obrigada a confrontar a barbárie promovida pelos nazistas durante a guerra. Vivida pela excelente Saskia Rosendahl, que não tenta suavizar as crenças repulsivas da personagem e sua agressividade diante do mundo, Lore demonstra carregar o peso do mundo nas costas – e não é para menos, já que se vê, de um dia para o outro, responsável por quatro crianças, incluindo um recém-nascido, em um país destruído pela guerra e no qual a fome e a falta de serviços de infra-estrutura básicos eram cotidianas.

Ainda assim, a ótima fotografia de Adam Arkapaw é inteligente ao explorar a beleza das locações percorridas pelas crianças sem, com isso, ressaltar o isolamento e a dificuldade enfrentados pelos jovens – e é particularmente eficiente o momento em que, durante uma brincadeira em um bosque de intenso verde, Lore e a irmã percebem a chuva das cinzas oriundas da destruição de documentos e fotos comprometedores por parte dos nazistas. A partir daí, o longa acompanha a degradação física dos irmãos, que, cobertos por picadas de insetos e consumidos pela desnutrição, dependem da caridade de estranhos, formando uma aliança inesperada com um jovem que, portando documentos que o identificam como judeu, se torna fundamental para a sobrevivência da família.

O interessante na abordagem de Shortland, porém, é sua insistência em enxergar o mundo sempre a partir do ponto de vista de Lore – que, claro, vê os soldados norte-americanos como criminosos dispostos a matar seus irmãos e Thomas (Malina), o jovem judeu, como um traidor em potencial que quer apenas usar o bebê para inspirar a simpatia de estranhos. Além disso, em vez de simplesmente seguir o caminho mais óbvio e ilustrar a mudança gradual da protagonista, a cineasta opta por retratar a perda da inocência (política e sexual) experimentada pela garota, que, mesmo jamais renegando claramente o Führer, parece compreender, ao final do filme, que seu mundo não era tão preto-e-branco quanto imaginava.

E, neste aspecto, Lore funciona ao usar a moça como um retrato de toda uma geração de alemães que, no pós-guerra, finalmente percebe que seu líder estava longe de ser o anjo que julgavam e que, afinal, estavam do lado errado do conflito. É só lamentável que, para isso, o filme tenha que se mostrar tão repetitivo e prolixo em sua abordagem. (4 estrelas em 5)

 

36)    Chamada a Cobrar (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Anna Muylaert. Com: Bete Drogam, Pierre Santos, Cida Almeida, Maria Manoella, Tatiana Thomé, Lourenço Mutarelli.

Antes do início da sessão de Chamada a Cobrar no Festival do Rio de 2012, a diretora Anna Muylaert explicou, orgulhosa, que finalmente fizera aqui algo que gostaria de ter tentado há muito tempo: assinou o roteiro ao lado de seu elenco, que teve liberdade completa para improvisar todos os diálogos durante as filmagens. Infelizmente, a cineasta deveria ter se lembrado de que há um motivo muito bom para que filmes sejam realizados a partir de roteiros e para que atores se concentrem naquilo que fazem de melhor (atuar) em vez de na elaboração de suas próprias falas – e este motivo é a alta probabilidade de que o resultado final não seja dos melhores caso estes papéis sejam confundidos. Como acontece, claro, em Chamada a Cobrar.

Partindo de uma história “real” (basicamente, os falsos sequestros anunciados por telefone e que contam com o pânico momentâneo da pessoa do outro da linha para obrigá-la a comprar cartões telefônicos e a fornecer os dados de seus cartões de crédito para os “sequestradores”), o filme tem início acompanhando a manhã de Clara (Drogam), uma mulher de meia-idade que, gentil e carente da atenção das filhas, aparentemente depende da empregada (Almeida) para tudo. É então que ela recebe a ligação do título e, tola já ao fornecer todas as informações necessárias para a pessoa com quem conversa, é informada de que sua filha caçula encontra-se em poder de sequestradores.

O que vem a seguir incomoda pela estupidez: depois de atender a todas as exigências feitas pelo homem que ligou (Santos), Clara aceita se dirigir de São Paulo ao Rio de Janeiro em seu carro para levar dezenas de tênis e ursinhos de pelúcia para os “sequestradores” – e nem mesmo uma mensagem de texto enviada por uma de suas filhas a leva a duvidar de que esteja sendo vítima de um trote.

Há, claro, a possibilidade de que realmente existam pessoas estúpidas a este ponto na vida real – mas isto não quer dizer que algo assim funcionaria no Cinema, já que, em Chamada a Cobrar, a credulidade implausível de Clara soa apenas como recurso de um roteiro preguiçoso para permitir que a história caminhe. O resultado é que se torna difícil, para o espectador, sentir qualquer grau de simpatia ou identificação com relação à protagonista, o que basicamente nos obriga a dividir um carro por 72 minutos com uma figura insuportável.

Neste sentido, os diálogos improvisados não ajudam em nada. Sobrepondo-se confusamente uns aos outros à medida que os atores em cena tentam gritar suas falas, interrompendo-se mutuamente, faltam a eles qualquer estrutura, elegância, graça, peso ou mesmo a capacidade básica de moverem a trama e/ou desenvolverem os personagens. Em certos momentos, aliás, torna-se perfeitamente possível perceber o elenco tropeçando nas palavras enquanto busca formar as ideias que pretende vociferar – e a única exceção fica por conta da participação breve, mas hilária, de Lourenço Mutarelli como um delegado (e não creio ser coincidência o fato de Mutarelli ser escritor e roteirista).

Prejudicado por uma mixagem de som absolutamente atroz que não consegue sequer diferenciar a tonalidade da voz que sai do telefone, sugerindo a presença do “sequestrador” no mesmo ambiente no qual Clara se encontra, Chamada a Cobrar é uma comédia sem graça, um drama sem peso e um road movie sem ponto de chegada. E se não se torna absolutamente descartável é apenas porque, tola como se revela, a personagem de Bete Drogam ao menos revela a doçura de uma mãe que, enquanto tiver as filhas por perto, estará satisfeita e feliz. (2 estrelas em 5)

 

37)    Lay the Favorite (Idem, EUA/Inglaterra, 2012). Dirigido por Stephen Frears. Com: Rebecca Hall, Bruce Willis, Catherine Zeta-Jones, Joshua Jackson, Vince Vaughn, Laura Prepon, Joel Murray, Frank Grillo, John Carroll Lynch.

Stephen Frears é um diretor competente demais para dirigir uma bobagem como este Lay the Favorite. Como é possível que o responsável por obras complexas como Os Imorais, Ligações Perigosas e Coisas Belas e Sujas e também por comédias e estudos de personagem eficazes como Alta Fidelidade, A Rainha e Sra. Henderson Apresenta subitamente decida realizar um longa que, apaixonado por sua galeria de personagens, jamais pareça perceber que não há uma história ou mesmo um tema que justifique o tempo investido nestes?

Inspirado na autobiografia de Beth Raymer, o primeiro roteiro de D.V. DeVincentis parece indicar que o sujeito representou um peso morto para seus colegas co-roteiristas de Matador em Conflito e Alta Fidelidade, já que não se mostra capaz nem mesmo de conceber uma estrutura básica ou mesmo um conflito que mova a história. (Aliás, é difícil enxergar até mesmo os atos da trama.) Assim, depois de apresentar rapidamente a protagonista (Hall), uma stripper que se encontra cansada de seu cotidiano arriscado, Lay the Favorite a transporta até Las Vegas, onde a moça pretende construir uma carreira como garçonete nos cassinos. Lá, contudo, ela conhece o apostador profissional Dink (Willis), que ganha dinheiro fazendo dezenas de apostas simultâneas em todo tipo de jogo, manipulando as probabilidades das casas de apostas espalhadas por todo o mundo. Por alguma razão, ele decide que Beth será uma adição útil ao seu negócio, o que inspira ciúmes em sua esposa Tulip (Zeta-Jones). Eventualmente envolvendo-se com o jornalista Jeremy (Jackson), a garota decide trabalhar para o irresponsável Rosie (Vaughn), o que talvez a coloque sob a mira do FBI.

Resumida a trama, o fato é que Lay the Favorite não tem ideia do que filme que pretende ser: a ideia é retratar o mundo das apostas profissionais? Ou é a de estabelecer a evolução de Beth como pessoa, saltando de uma profissão que considera degradante a outra na qual tem controle absoluto sobre tudo? E onde a relação entre Dink e Tulip entraria nesta equação? Ou mesmo a relação entre Beth e Jeremy, que parece surgir de mero interesse sexual e pouco convence como algo mais do que isso, mesmo que as palavras certas saiam da boca da moça?

Falhando até mesmo em explicar por que Beth é vista com tanto interesse por Dink (“Eu sou boa com números” parece ser a única justificativa, embora jamais a vejamos realmente operando-os de maneira significativa), o longa demonstra falta de coesão até mesmo no tom das atuações: enquanto Joshua Jackson e Bruce Willis apostam em abordagens contidas, tendendo ao realismo, Catherine Zeta-Jones e Vince Vaughn partem para a caricatura descarada, ao passo que Rebecca Hall se posiciona entre os dois extremos, oferecendo uma bela atuação mesmo que sua personagem jamais se torne complexa ou envolvente como o filme pretende.

Sem oferecer conflitos reais que movam a trama e sem parecer ter ideia do gênero no qual deseja investir, Lay the Favorite se apresenta no máximo como um passatempo tolo e esquecível. Algo que não poderíamos esperar de seu experiente diretor. (2 estrelas em 5)

 

38)    A Beleza (Nosilatiaj. La Belleza, Argentina, 2012). Dirigido por Daniela Seggiaro. Com: Rosmeri Segundo, Ximena Banus, Camila Romagnolo, Victor Hugo Carrizo, Sasa Sharet Isabel Mendoza.

O modus operandi do homem branco é simples e imutável: somos criaturas que merecem privilégios e os exigimos de todas as demais criaturas com quem dividimos o planeta, sejam estas compostas pela população negra, indígena ou asiática ou pelos animais e plantas que compõem nosso ecossistema. Queremos o que é nosso por direito divino e simplesmente tomamos o que erroneamente encontra-se nas mãos das minorias ou de grupos enfraquecidos. Com o tempo, claro, tornamo-nos mais razoáveis e até exibimos algum sinal de culpa, buscando retribuir um pouco tudo que obtivemos e auxiliar aqueles que prejudicamos, mas sempre de maneira discreta – e que ainda encontra resistência por parte de muitos que julgam que ajudar as minorias seria – acreditem! – racismo reverso ou injusto para com os pobres caucasianos.

Tudo isso vem à tona de maneira simbólica no argentino A Beleza, que conta a história simples de uma família que, morando numa pequena vila, emprega uma nativa wichi como doméstica. Ainda adolescente, Yola (Segundo) passa os dias trabalhando para Sara (Banus), que ressente a ausência frequente do marido (Carrizo) enquanto planeja uma ambiciosa festa de 15 anos para a filha Antonella (Romagnolo). Às vésperas do festejo, Sara leva Yola a um salão de beleza e é lá que os longos cabelos negros da menina, que jamais haviam sido cortados em função da tradição de seu povo, é retalhado, o que representa um choque que a leva a ficar doente por alguns dias.

Escrito e dirigido pela estreante Daniela Seggiaro, o filme é inteligente ao jamais demonizar a família de Sara: na maior parte do tempo, aliás, a patroa e sua filha se mostram carinhosas e atenciosas para com Yola, compreendendo, inclusive, a reação da garota diante da perda de suas longas tranças. Porém, o fato é que, como criatura habituada aos privilégios (mesmo humildes), Sara não parece perceber que pequenas atitudes corroem a alegria e a dignidade da jovem empregada – e o próprio aviso que a família exibe na porta de casa, se apresentando como católica e estabelecendo que “não aceita outras doutrinas”, solicitando o “respeito” de todos, expõe sua incapacidade de realmente aceitar as crenças e a cultura wichi de Yola, que também é obrigada a almoçar solitariamente e a aceitar pequenas humilhações por parte de Antonella (e o fato de as garotas terem a mesma idade ressalta os privilégios da segunda em contraste com a opressão da primeira).

Menos bem sucedida, por outro lado, é a estratégia da cineasta para homenagear a cultura wichi através de flashbacks que interrompem o ritmo da narrativa para ilustrar passagens da infância de Yola e – ainda pior – as inserções de pequenos interlúdios que trazem narrações na língua original da protagonista sobre paisagens desfocadas, algo que pouco acrescenta ao filme, servindo apenas para torná-lo mais longo e difuso.

Ainda assim, ao trazer uma pequena revelação no último e rápido plano do filme (tão rápido, aliás, que muitos espectadores poderão não se dar conta do que viram e do que isto significa), A Beleza fecha seu tema com propriedade, demonstrando que, mesmo bem intencionados na superfície, o homem branco ainda tem a tendência inquestionável de tomar o que não lhe pertence. Afinal, que mal isto faria? (3 estrelas em 5)

 

39)    El Último Elvis (Idem, Argentina, 2012). Dirigido por Armando Bo. Com: John McInerny, Griselda Siciliani, Margarita Lopez.

Carlos Gutiérrez (McInerny) é um homem de meia-idade acima do peso, divorciado, que trabalha como operário em uma linha de produção e pouco vê a filha pré-adolescente. Um fracassado, em outras palavras. Ou não, já que durante a noite ele tem a oportunidade de fazer aquilo que realmente gosta: vestir figurinos clássicos que o transformam em Elvis Presley e se apresentar como cover do rei em festas por toda Buenos Aires. Aliás, para Gutiérrez isto é menos um hobby e mais seu propósito na vida, já que ser Elvis é algo que o define, chegando ao ponto de, para receber um pagamento, explicar que seu nome “figura como Carlos Gutiérrez” na lista, como se este fosse seu pseudônimo de fato.

Uma das várias virtudes do belo roteiro escrito pelo diretor Armando Bo ao lado de Nicolás Giacobone, vale apontar, é a maneira com que permite que percebamos gradualmente a dimensão da obsessão do protagonista através de pequenos indícios: o nome de sua filha (Lisa) e sua insistência em tratar a esposa como “Priscila” – e torna-se fácil deduzir até mesmo as razões que a levaram a se divorciar, já que, ainda exibindo os cabelos ruivos da esposa de Presley e uma tatuagem que traz a frase “Love me Tender” no braço (algo que ela tenta ocultar ao usar roupas com mangas longas), Alejandra claramente se apaixonou pelo talento de Carlos na juventude, encantando-se por ele até perceber que o talento havia se transformado em algo patológico.

E se uso a palavra “talento”, é com justificativa de sobra, pois o sujeito é realmente um cantor talentoso que evoca com eficiência o timbre e voz do ídolo – e eu não ficaria espantado caso descobrisse que o ator estreante John McInerny realmente ganha a vida como cover de Elvis. Porém, se este era seu ganha-pão anteriormente, ele agora pode tranquilamente investir numa carreira no Cinema, já que, além dos aspectos musicais, McInerny confere imenso peso dramático a Carlos, evocando todas as suas dúvidas, suas angústias e seus sonhos de grandeza.

Divertido ao explorar a insanidade relativa de seu herói, El último Elvis provoca risos também ao retratar o universo particular dos sósias/covers argentinos, trazendo figurantes que remetem a John Lennon e Barbra Streisand (uma travesti, claro) enquanto se encarrega de ressaltar a diferença de Carlos com relação aos colegas, já que, ao contrário destes, ele realmente considera o que faz como uma espécie de “dom divino”, já que “Deus lhe deu a voz de Elvis Presley”.

O que nos traz ao ato final do longa e no qual o diretor Armando Bo altera completamente a dinâmica e a lógica da narrativa ao acompanhar o protagonista em sua viagem a Memphis e a Graceland, levando a um desfecho que, corajoso, apresenta-se também inquestionável em sua lógica.

Num mundo ideal, John McInerny ganharia alguns prêmios importantes por seu desempenho nesta obra engraçada e surpreendentemente tocante. (4 estrelas em 5)

 

40) In the Land of Blood and Honey (Idem, EUA, 2012). Dirigido por Angelina Jolie. Com: Goran Kostic, Zana Marjanovic, Rade Serbedzija, Nikola Djuricko, Boris Ler, Alma Terzic, Vanesa Glodjo.

Eu admiro as convicções políticas de Angelina Jolie. Como estrela de Hollywood, seria muito fácil, para a atriz, doar fortunas para organizações e instituições beneficentes e encerrar por aí seu ativismo. Em vez disso, porém, Jolie frequentemente viaja para regiões miseráveis que enfrentam dificuldades climáticas ou provocadas por humanos (leia-se: guerras) a fim de sujar as mãos na poeira local com o objetivo de atrair a atenção do mundo para os problemas ali enfrentados. Assim, é compreensível que, ao estrear como roteirista e diretora, a moça tenha escolhido ambientar seu filme em um período e uma região que testemunhou atrocidades diversas; por outro lado, é difícil negar que sua abordagem artística alcança resultados apenas medianos.

Iniciando a projeção com letreiros que explicam o contexto histórico que levou às ações do exército sérvio durante a guerra na Bósnia, entre 1992 e 1995, In the Land of Blood and Honey logo nos apresenta à pintora muçulmana Ajla (Marjanovic) e ao policial sérvio e cristão Danijel (Kostic), que se conhecem num bar, certa noite, e claramente se interessam um pelo outro – até que uma explosão destrói tudo ao redor do casal, indicando o início do conflito. Meses depois, quando Danijel já assumiu a posição de oficial do exército, Ajla é trazida a um centro de detenção/campo de concentração ao lado de dezenas de outras mulheres que passam a ser estupradas – e a garota acaba sendo salva pelo ex-interesse românico, que passa a protegê-la enquanto um namoro atípico tem início.

Já de imediato, Jolie merece créditos por evitar a muleta que a maioria de seus conterrâneos empregaria, introduzindo um personagem norte-americano na história para estabelecer alguma identificação maior com o público. Em vez disso, ela busca transformar a dinâmica entre o casal principal no foco da narrativa, buscando revelar a natureza generosa de Danijel e a culpa que Ajla passa a sentir por literalmente dormir com o inimigo. Da mesma maneira, Jolie, ciente de que a maior parte do público desconhecerá os pormenores do conflito, emprega o general vivido por Rade Serbedzija para oferecer algum contexto através de um monólogo que explica a atuação dos sérvios ao longo dos séculos e a maneira com que estes foram tratados pelos mesmos muçulmanos que agora massacram – uma justificativa absurda, claro, mas que ao menos funciona para evitar que vejamos aqueles indivíduos como meros demônios sedentos de sangue.

Não que consigamos evitar esta impressão, já que Jolie não hesita em retratar o genocídio promovido pelos sérvios de maneira chocante, gráfica e impiedosa, já que, além de promover o estupro sistemático das muçulmanas, os sérvios parecem encarar qualquer civil como alvo, disparando contra qualquer um que saia nas ruas e utilizando mulheres como escudos humanos (e o destino de um bebê se mostra particularmente pavoroso). A diretora, diga-se de passagem, conduz estas sequências de violência e guerra com segurança admirável, sendo auxiliada pela fotografia cinzenta e melancólica de Dean Semler.

É uma pena, portanto, que In the Land of Blood and Honey se perca justamente ao tentar trazer alguma dimensão humana para a trama, já que, para isso, se concentra excessivamente na tola historinha de amor que tenta contar – e um dos problemas reside no fato de que jamais acreditamos verdadeiramente nos sentimentos do casal: Danijel parece frio demais e, além disso, claramente usa sua posição de poder para eventualmente levar a parceira para a cama (mesmo que ele não chegue a obrigá-la, que alternativa ela teria? Ser entregue aos oficiais estupradores?), ao passo que Ajla não parece se importar de fato com o destino do amante. Infelizmente, são estes dois que dominam a projeção em seus encontros e desencontros que tendem à repetição.

Ao final, Jolie parece acreditar que a angústia de Danijel diante de seus crimes será o bastante para transmitir algum tipo de mensagem política sobre a desumanização provocada pela guerra, mas isto, claro, é algo que faz parte da própria natureza de conflitos bélicos. E, assim, ficamos com a impressão de que a diretora estreante, em seu desejo de criar um filme-denúncia, se esqueceu de seria recomendável investir em uma história eficaz que o fizesse funcionar como narrativa. (3 estrelas em 5)

 

41) Qual é o Nome do Bebê? (Le prénom, França, 2012). Dirigido por Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte. Com: Patrick Bruel, Valérie Benguigui, Charles Berling, Guillaume de Tonquedec, Judith El Zein e Françoise Fabian.

O franco-belga Qual é o Nome do Bebê? é o filme que Deus da Carnificina queria ter sido. Ambos inspirados em espetáculos teatrais e limitados a uma discussão em tempo real ocorrido em um único espaço, os longas partem de conflitos familiares pontuais para desenvolver análises sobre a natureza humana enquanto saltam das risadas às lágrimas. Porém, onde o filme de Roman Polanski afundava, raramente convencendo na dinâmica entre aqueles personagens (numa situação real, os personagens vividos por Christoph Waltz e Kate Winslet teriam deixado o apartamento dos Longstreet já nos primeiros muntos) ou no humor empregado, aqui os cineastas Alexandre de La Patellière e Matthieu Delaporte (autor da peça original) alcançam um sucesso inquestionável, já que o longa provoca o riso do início ao fim e estabelece figuras críveis, complexas e humanas.

Apresentando rapidamente os personagens através de uma inspirada narração em off, a comédia logo estabelece a situação principal que moverá a história: o casal Pierre (Berling) e Élisabeth (Benguigui) está oferecendo um jantar em seu confortável apartamento para Claude (de Tonquedec, versão europeia e jovem de Jack Lemmon), Vincent e Anna (El Zein). Claude, melhor amigo de Élisabeth, é trombonista e aparentemente um solteirão convicto, ao passo que Vincent, bem sucedido agente imobiliário, está prestes a se tornar pai do filho de Anna, com quem mora há dois anos. É então que, indagado sobre o nome que dará à criança, o sujeito responde “Adolf” e os conflitos tomam conta da noite.

Repleto de diálogos divertidíssimos que extraem graça das mais simples argumentações, Qual é o Nome do Bebê? é dono de um senso de humor sofisticado, mas jamais inacessível. Sim, Pierre pode ser um acadêmico esnobe que apresenta todo tipo de argumento histórico (e mesmo literário) para protestar contra a escolha do cunhado, mas sua revolta é tão patente que se torna difícil não rir justamente de sua intelectualidade orgulhosa. Da mesma maneira, a irreverência de Vincent, que se recusa a levar qualquer coisa a sério, abre o caminho para que nos surpreendamos quando ele finalmente parece ser afetado por algo – o que se contrapõe à natureza generosa de sua irmã, que oscila entre as tentativas de contemporização e à frustração por jamais ser levada a sério pelos demais.

Conseguindo a proeza de manter um ritmo eficaz e de jamais soar excessivamente teatral mesmo dependendo exclusivamente dos diálogos para mover a narrativa, o filme é hábil ao saltar de uma discussão a outra de maneira fluida, respeitando a lógica dos personagens, mas também se preocupando em evitar a mesmice. Com isso, a lavação de roupa suja promovida por aquelas figuras se apresenta orgânica e jamais como uma imposição dramática do roteiro (algo que ocorria em Deus da Carnificina), levando a revelações que, por sua vez, inspiram novas confissões, novos conflitos e novas risadas.

Ao final, porém, o segredo da eficácia de Qual é o Nome do Bebê? reside no fato de que jamais duvidamos de que aqueles personagens se amam e se respeitam, o que torna os conflitos ainda mais importantes sem que, com isso, se tornem cruéis a ponto de afastar o público. Apesar do epílogo dispensável, esta é uma comédia que certamente enviará o espectador feliz para fora da sala de projeção. (4 estrelas em 5)

 

42) A Saga Comic-Con: O Sonho de um Fã (Comic-Con Episode IV: A Fan’s Hope, EUA, 2012). Dirigido por Morgan Spurlock.

Criada em 1970 e atraindo apenas algumas centenas de pessoas, a Comic-Con se tornou, ao longo das décadas, um evento de proporções megalomaníacas que perdeu o foco de servir como encontro de fãs de quadrinhos para se transformar num festival de publicidade para todo tipo de produto, de filmes a games, passando por brinquedos e, apenas perifericamente, de HQs.

Trazendo nomes como Harry Knowles, Joss Whedon e Stan Lee na função de produtores executivos do projeto (e, não coincidentemente, também como entrevistados), o documentário acompanha seis indivíduos ao longo dos três dias da convenção: uma garota que, residente de uma cidade “na qual as pessoas só param para ir ao banheiro”, cria fantasias e bonecos animatrônicos ambiciosos; um jovem geek que conheceu a namorada no evento do ano anterior e agora planeja pedi-la em casamento durante uma palestra de Kevin Smith; o veterano dono de uma loja de quadrinhos que, financeiramente comprometido, decidiu vender uma edição raríssima (“Red Raven #01”) por 500 mil dólares; um colecionador de brinquedos que pretende comprar a edição limitada de um boneco do Magneto; e dois desenhistas que sonham em conseguir trabalho em alguma editora. A partir destes personagens, Spurlock retrata os diversos interesses despertados pela feira e os sonhos dos fãs que chegam aos milhares a San Diego para aquela que se tornou uma verdadeira tradição anual.

A grande virtude de A Saga de um Fã, vale apontar, é o respeito com que Morgan Spurlock trata aquelas pessoas: sim, é difícil não rir ao perceber a seriedade com que o colecionador de bonecos lida com suas posses, usando até mesmo um cofre para guardar os itens mais valiosos (muitos dos quais, ele explica, serão valiosos no futuro, embora ainda não o sejam) ou não ficar um pouco embaraçado ao perceber como quarto de um dos aspirantes a ilustrador parece pertencer a uma criança, mas estes julgamentos partem do espectador, não do cineasta. Além disso, o diretor permite que aqueles indivíduos expliquem a natureza de suas obsessões com total liberdade, levando-nos a perceber que, para muitos deles, a atividade de “fã” surge como um necessário escape temporário dos problemas do cotidiano ou mesmo como a possibilidade (mesmo que ínfima) de um futuro profissional associado ao objeto de adoração.

Trazendo depoimentos divertidos de Kevin Smith (que agora parece se vestir como uma caricatura de… Kevin Smith), Seth Rogen e Seth Green, além de falas de fãs comuns, o documentário também perde tempo com algumas falas dispensáveis que parecem ter sido incluídas apenas por virem de figuras conhecidas, como aquelas do repugnante e doente Eli Roth, de Joss Whedon (que tenta fazer piadas, mas sem sucesso) e de Harry Knowles. Em contrapartida, uma das maiores risadas provocadas pelo longa surge de um comentário do comerciante de HQs, que diz: “Se sua mulher te mandar jogar sua coleção de quadrinhos fora, é hora de trocar de mulher. Há três bilhões de mulheres no mundo, mas apenas algumas dezenas de bons quadrinhos” – e sua lógica particular, sobrepondo a obsessão de fã ao envolvimento romântico, resume bem a visão de muitos dos personagens vistos ao longo da projeção.

Interessante também ao falar (mesmo que tangencialmente) do universo cosplay, A Saga de um Fã é o primeiro trabalho de Morgan Spurlock a realmente funcionar – e não duvido de que isto se deva ao fato de que também é seu primeiro filme a não conter um segundo de Morgan Spurlock na tela. Que ele mantenha a tática. (4 estrelas em 5)

 

43) Depois de Lúcia (Después de Lucía, México, 2012). Dirigido por Michel Franco. Com: Tessa Ia, Hermàn Mendoza.

Depois de Lúcia é o melhor filhote do Novo Cinema romeno… a ser produzido fora da Romênia. Adotando a estratégia da maior parte daquelas obras ao manter a câmera sempre estática e ao desenvolver sua narrativa a partir de longos planos que praticamente incluem cenas inteiras antes de cada corte, o filme de Michel Franco acabou sendo selecionado para representar o México na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, como tal, se apresenta um fortíssimo concorrente desde já.

Concentrando-se na história da adolescente Alejandra (Ia) e de seu pai Roberto (Mendoza), a narrativa acompanha a dupla enquanto esta decide se mudar de Puerto Vallarta para a cidade do México após a morte da mãe da garota em um acidente de carro. Adaptando-se bem à nova escola enquanto o pai assume o posto de chef num restaurante renomado, Alejandra acaba cometendo um erro estúpido ao transar com um colega de sala em uma festa, permitindo que ele filme tudo – e quando o vídeo é visto por todo o colégio, ela passa a sofrer bullying sistemático por parte de todos.

Bullying, aliás, que aqui assume contornos de psicopatia coletiva, já que as humilhações sofridas pela menina ultrapassam em muito as já suficientemente abusivas agressões verbais, passando para torturas físicas que gradualmente se aproximam do insuportável e que são retratadas pela câmera impiedosa de Michel Franco como atos sempre realistas e sem qualquer dose de sensacionalismo – e os já citados planos extensos empregados pelo cineasta tornam a experiência torturante para o espectador, que é obrigado a testemunhar aquelas atrocidades na total passividade forçada pela existência da quarta parede, impedindo que façamos aquilo que nossos impulsos ditam, que é confortar Alejandra, alertar seu pai para os abusos e castigar os bullies.

E é aí que se encontra a inteligência narrativa de Depois de Lúcia: como o próprio título indica, tudo que ocorre durante a projeção acaba sendo fruto direto ou indireto da morte da mãe da protagonista, que, por não querer atormentar ainda mais o já deprimido Roberto, mantém em segredo tudo que vem sofrendo na escola, exibindo uma aparência de normalidade absolutamente convincente em suas interações com o sujeito. Este, por sua vez, se revela um pai compreensivo e amoroso – e confrontado com a revelação de que a filha fumara maconha, por exemplo, ele opta por uma conversa franca e madura em vez de por uma punição precoce. Por outro lado, à medida que a narrativa se desenvolve, torna-se claro que Roberto encontra-se num processo profundo de depressão: guardar os utensílios de cozinha dispara choros convulsivos e, aqui e ali, ele se entrega a pequenas explosões que se tornam cada vez mais intensas, iniciando com um pedido de demissão impensado, passando por uma briga no trânsito e culminando numa ação, durante o terceiro ato, que indica a dimensão da raiva que reprimiu desde que perdeu a esposa.

O que nos traz, claro, ao impiedoso plano que encerra a narrativa e que, deixando o espectador em suspenso (embora as consequências do que vimos sejam óbvias e nada auspiciosas), conclui um estudo de personagem complexo e corajoso, retratando uma questão cada vez mais relevante, comum e preocupante (o bullying escolar) através de nosso envolvimento com os multifacetados personagens – uma costura que, por exemplo, Angelina Jolie fracassou ao tentar realizar no recente In the Land of Blood and Honey, também exibido no Festival do Rio de 2012.

Depois de Lúcia se torna, assim, não apenas um drama delicado e eficaz, mas também um filme contemporâneo e essencial. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos