Festival do Rio 2012 – Dias 12 e 13

Abraço grande aos leitores Lucas e Igor, que vieram me cumprimentar no Espaço Sesc (mas, Igor, você não precisava me humilhar ao dizer que me lê desde os 10 anos de idade).

Quanto aos filmes:

44)    Roman Polanski: Memórias (Roman Polanski: A Film Memoir, Inglaterra, 2011). Dirigido por Laurent Bouzereau.

Assim como o documentário West of Memphis se revela uma releitura desnecessária da trilogia Paradise Lost, este Roman Polanski: Memórias tinha tudo para se tornar descartável, já que, há apenas quatro anos, a diretora Marina Zenovich cobriu toda a vida do cineasta no excelente Wanted and Desired. Assim, durante a maior parte deste novo longa, apenas revisitamos as mesmas passagens já narradas com eficiência naquele projeto – e nada de novo é acrescentado ao que já sabíamos. A diferença, porém, é que desta vez ouvimos as histórias da boca do próprio Polanski, o que, por si só, já justifica a existência deste Memórias.

Dirigido por Laurent Bouzereau, mais conhecidos por realizar extras para DVDs, o documentário se resume a uma longa entrevista com o diretor, que reconta sua vida atribulada – desde a infância na Polônia, quando sua família foi enviada para os campos de concentração, até sua recente prisão na Suíça, passando pelo assassinato de sua esposa grávida, a atriz Sharon Tate, e de sua prisão por ir pra cama com uma garota menor de idade. Emocionando-se visivelmente ao relembrar determinadas passagens que, inclusive, viriam a ser utilizadas como fonte de inspiração em vários de seus filmes, Polanski é um narrador articulador e envolvente – e o fato de sua jornada conter tantos capítulos trágicos certamente torna o que ele tem a contar digno de nota.

É uma pena, portanto, que Bouzereau tenha escalado o produtor Andrew Braunsberg, velho amigo de Polanski, para entrevistá-lo, já que o sujeito, além de só fazer perguntas óbvias, tem o péssimo hábito de interromper o entrevistado para fazer comentários dispensáveis, além de constantemente sobrepor as falas do outro com tiques orais como “Sim”, “Certo”, “Hum-hum” e por aí afora. Além disso, “Andy” (como é tratado pelo entrevistado) chega a cometer o erro crucial de descrever certas passagens por Polanski, além de impedi-lo de descrever detalhes que ele próprio já conhecia (em certo momento, por exemplo, o biografado começa a explicar como construiu um rádio improvisado apenas para ser interrompido pelo colega, que diz apenas: “É, eu construí um também!”). Como se não bastasse, o entrevistador chega ao cúmulo do egocentrismo ao tomar tempo de tela do personagem-título ao insistir em descrever onde ele, Andrew Braunsberg, se encontrava ao descobrir que Sharon Tate fora morta.

Comprimindo certas passagens da vida de Polanski através de letreiros que preenchem as lacunas deixadas na narração, Memórias acaba impressionando, apesar da estrutura formulaica, das câmeras lentas ridículas e do entrevistador medíocre, por permitir que o cineasta relembre com franqueza os momentos mais difíceis de sua vida – e é notável como o sujeito faz isso sem se render ao drama ou à auto-piedade, chegando a fazer questão de notar que também viveu ótimos momentos e que, apesar de tudo, é “um otimista”.

E se ele consegue se dizer otimista mesmo depois de perder a mãe num campo de concentração e a esposa grávida sob a faca de Charles Manson e também depois de passar décadas sendo perseguido pela mídia e pela polícia norte-americana mesmo tendo cumprido tudo que lhe foi exigido na época de sua prisão, no mínimo é preciso admirar sua resistência como indivíduo. Além, claro, de seu belo Cinema. (4 estrelas em 5)

 

45)    Marina Abramovic: Artista Presente (Marina Abramovic: The Artist Is Present, EUA, 2012). Dirigido por Matthew Akers e Jeff Dupre.

A arte performática é frequentemente enxergada com escárnio por boa parte das pessoas. Basicamente consistindo em empregar o próprio corpo como meio de expressão artística, estas performances costumam ser vistas como atividades de excêntricos ou tolos em busca de atenção, quando, na realidade, exibem imenso potencial para revelar minúcias da natureza humana justamente pelo choque ou pela simples observação da ação do artista. Neste aspecto, é impossível ignorar, neste campo específico, a influência da iugoslava Marina Abramović, que ao longo de quatro décadas criou performances celebradas tanto ao atuar sozinha quanto em parceria com o alemão Ulay, seu companheiro por 12 anos.

A primeira metade deste ótimo documentário, aliás, se dedica justamente a revisitar a carreira da biografada e algumas de suas criações inesquecíveis – como aquela intitulada “Rhythm 0”, de 1974, durante a qual permaneceu passiva por seis horas enquanto o público tinha permissão para empregar 72 objetos que se encontravam sobre uma mesa para acariciá-la ou torturá-la (e o fato de gradualmente os atos de violência terem se tornado mais intensos revela muito sobre o comportamento de massa). Da mesma maneira, o filme reconta o romance entre Marina e Ulay, quando chegaram a viver numa van por não terem qualquer dinheiro e por desejarem se dedicar exclusivamente à Arte – e o reencontro do casal, depois de 23 anos de separação, representa um dos instantes mais emocionantes do longa.

Ainda assim, Artista Presente realmente ganha vida quando passa a enfocar os três meses que o Museu de Arte Moderna de Nova York dedicou a uma retrospectiva de Marina Abramović, incluindo a recriação de cinco de suas performances mais famosas (e agora protagonizadas por jovens artistas) e culminando numa nova criação que, dando título ao filme, consistia em duas cadeiras separadas por uma mesa: ocupando um dos assentos por todo o tempo em que o museu permaneceu aberto, ao longo daqueles três meses, Marina permanecia em silêncio enquanto integrantes do público sentavam-se diante dela.

Pode parecer um conceito simples e tolo, mas o efeito magnético da presença de Abramović, bela e intensa aos 63 anos de idade, é estupendo: ao dirigir seus olhos para a pessoa à sua frente, a artista despertava as mais diversas reações – e aos poucos, filas enormes passaram a se formar já durante as madrugadas diante do Museu à medida que mais e mais pessoas disputavam alguns minutos diante da iugoslava (e um sujeito chega a revelar, orgulhoso, que ao longo daquele período conseguiu ocupar a cadeira nada menos do que 21 vezes).

Demonstrando inquestionavelmente que a boa e desafiadora Arte pode se apresentar de diversas formas, Marina Abramović se consolida, ao longo do filme, como uma profissional absurdamente dedicada às suas criações, às suas ideias e ao seu trabalho – e mesmo o mais cético dos espectadores provavelmente perceberá ser difícil sair da sala de projeção ainda acreditando que a arte performática é algo menor, risível ou apenas uma brincadeira de desocupados. (4 estrelas em 5)

 

46)    Atrás da Porta (The Door, Hungria, 2012). Dirigido por István Szabó. Com: Helen Mirren, Martina Gedeck, Károly Eperjes, Gábor Koncz, Ági Szirtes, Erika Marozsán.

É decepcionante testemunhar um cineasta tão experiente quanto o húngaro István Szabó realizando uma obra com tons tão amadores quanto este Atrás da Porta. Inspirado em livro de Magda Szabó (não, não são parentes) e roteirizado pelo diretor ao lado de Andrea Vészits, o filme se resume a um apanhado de momentos desconexos que buscam criar algum tipo de dinâmica entre duas mulheres enquanto se estabelece como um estudo de personagem voltado para a mais velha delas, mas acaba falhando em todos os aspectos.

Vivida pela bela alemã Martina Gedeck, a escritora Magda se muda com o marido Tibor (Eperjes) para a Hungria na década de 60 e, decidindo dedicar todo o tempo possível ao seu livro, decide contratar a rabugenta Emerenc (Mirren) para arrumar sua casa e preparar suas refeições – trabalho que esta só aceita depois de pedir as referências da futura patroa. Agressiva, mal-humorada, instável e desrespeitosa, Emerenc, claro, se revela a empregada dos sonhos, embora o longa jamais se preocupe em explicar por que Magda não a demite depois de levar inúmeras patadas gratuitas.

Mantendo a câmera sempre estática e desenvolvendo a narrativa através de cenas auto-contidas que soam mais como vinhetas independentes, tamanha a falta de coesão do roteiro, Szabó cria composições constantemente deselegantes que nada acrescentam ao projeto, saltando desajeitadamente de um momento a outro através de fades constantes que tornam a história irritantemente episódica – e a montagem é tão amadora que, em certo momento, saltamos de uma cena na neve para outra sob intenso sol enquanto um letreiro informa que – juro! – “alguns meses” se passaram (duh!). Para piorar, o filme não cria qualquer organicidade no desenvolvimento da trama e, assim, subitamente Emerenc passa a narrar passagens de seu passado sem que esta confissão pareça ter qualquer motivação, ao passo que, em outro momento, várias pessoas decidem oferecer informações sobre a mulher sem que isto pareça ter sido solicitado por Magda.

Com uma mise en scène teatral e prejudicado pela inexplicável dublagem em inglês de boa parte dos atores, Atrás da Porta constantemente se entrega a filosofadas baratas que, atiradas sobre o espectador sem qualquer contexto, parecem apenas querer conferir algum peso existencial a uma obra vazia de conteúdo (“Tudo que temos são as palavras”, diz o marido de Magda, vivido pelo péssimo Károlyn Eperjes, em certo instante). Como se não bastasse, as atitudes da escritora diante da empregada jamais demonstram qualquer lógica ou coerência: em um instante, mostra-se fascinada pela outra, substituindo esta atitude aleatoriamente por desprezo, raiva, desconfiança, carinho, dedicação e preocupação dependendo da exigência imediata do roteiro.

Prejudicado ainda por diálogos realmente atrozes (“O único jeito de salvá-la é traí-la”), o filme também se revela óbvio no mistério central que lhe dá título – e quando alguém diz, sem qualquer razão, que “ninguém jamais foi convidado para entrar no quarto de Emerenc”, já sabemos exatamente o que acontecerá dentro da próxima hora. Ainda assim, a revelação é tão estúpida e vazia que melhor seria termos ficado de fora daquele aposento. Ou da sala de projeção, quem sabe. (1 estrela em 5)

 

47)    Uma Família Respeitável (Yek Khanévadéh-e Mohtaram, Irã, 2012). Dirigido por Massoud Bakhshi. Com: Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian, Mehran Ahmadi, Behnaz Jafari.

É difícil compreender exatamente qual o propósito do diretor e roteirista Massoud Bakhshi com este seu Uma Família Respeitável: ao contrapor dois momentos da história recente do Irã, o momento atual sob o louco Ahmadinejad e a revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini (bem como a guerra Irã-Iraque), o filme parece tentar traçar paralelos e contrapontos políticos relevantes; porém, ao concentrar-se na trajetória de uma família disfuncional em particular, a trama troca a ambição pelo suspense e pelo drama, perdendo o foco da narrativa e criando uma experiência frágil e difusa.

Girando em torno do professor universitário Arash (Hamidian), que retorna ao Irã depois de 22 anos na França para ministrar um curso de um semestre, o longa tem início com uma sequência inexplicavelmente rodada através de câmera subjetiva apenas para saltar abruptamente para alguns dias no passado, quando vemos as dificuldades enfrentadas pelo protagonista para conseguir resgatar o passaporte que lhe permitirá voltar para Paris. Irmão de um jovem morto na guerra contra o Iraque e cujo “martírio” permitiu que seu ganancioso pai construísse um império através de uma fundação dedicada ao rapaz, Arash recebe a visita do filho de seu meio-irmão, que solicitando ajuda ao tio para viajar para a Europa, conta ter brigado com o pai inescrupuloso e se oferece para ajudá-lo a recuperar o passaporte. A partir daí, intrigas familiares se desenvolvem enquanto descobrimos um jogo repleto de traições em busca dos bilhões amealhados pelo clã ao longo dos anos.

Assim, ao mesmo tempo em que tenta desenvolver suspense através das artimanhas da família, o filme mergulha em constantes flashbacks que parecem se preocupar mais em oferecer contexto histórico ao Irã contemporâneo – e o que isso tem a ver com a censura aos artigos de Arash, que são tomados dos alunos pelos funcionários da universidade, é algo que a narrativa jamais explica. Da mesma maneira, o longa investe um longo tempo para estabelecer o transtorno obsessivo-compulsivo da cunhada do protagonista, usando sua obsessão por limpeza como comentário sobre sua religiosidade excessiva e também como metáfora da corrupção dos ideais islâmicos por um governo totalitário e fundamentalista – mas, mais uma vez, estes símbolos são atirados quase que ao acaso ao longo da projeção, o que é lamentável.

Frustrante em seu desfecho covarde e preguiçoso, Uma Família Respeitável é uma decepção do início ao fim. (2 estrelas em 5)

 

48)    O Arrependido (El taaib, Argélia, 2012). Dirigido por Merzak Allouache. Com: Nabil Asli, Adila Bendimerad, Khaled Benaissa.

Qual é a verdadeira natureza do arrependimento, na maior parte das vezes? Normalmente, quando nos dizemos “arrependidos” de algo, isto se deve ao fracasso das expectativas geradas por alguma ação – e, assim, o sentimento surge não como fruto do remorso ou de alguma visão altruísta, mas de um impulso egoísta por nos vermos prejudicados por nossas próprias atitudes. Em contrapartida, é perfeitamente possível (embora não seja o mais frequente) que nos arrependamos puramente graças ao amadurecimento e ao fortalecimento de nosso caráter, quando, então, constatamos entristecidos que agimos mal com o próximo – mesmo que isto tenha nos beneficiado.

Pois um dos elementos mais intrigantes desta produção argelina reside no fato de jamais podermos ter certeza da natureza exata do “arrependimento” manifestado pelo protagonista: integrante de um grupo terrorista islâmico, Rachid (Asli) decide aproveitar a lei da “concórdia civil”, que promete perdão a qualquer um que manifeste arrependimento e entregue suas armas à polícia, para poder voltar a ter uma vida normal. Porém, por que o rapaz toma esta decisão: por julgar erradas as suas ações terroristas ou por ter se cansado de viver em fuga?

Atacado pelos moradores de sua pequena vila, que se lembram bem de sua participação em episódios que resultaram na morte até mesmo de crianças, Rachid viaja para Argel a fim de fazer sua confissão de culpa para um delegado, que, então, o ajuda a encontrar emprego em um bar local. Certo dia, no entanto, o rapaz aborda um deprimido farmacêutico da vizinhança, que, alcóolatra e solitário, reage de forma intensa ao que lhe é dito pelo desconhecido, decidindo solicitar que sua ex-esposa retorne à cidade para ouvir aquela revelação.

Embora a princípio não esclareça exatamente o que Rachid tem a dizer ao casal, O Arrependido é hábil ao deixar claro o efeito de tudo aquilo sobre os demais personagens – e, aos poucos, à medida que deduzimos a natureza do segredo, somos levados a indagar se o protagonista merece o perdão que a lei lhe promete.

E é então que, quando estamos realmente mergulhando nos questionamentos propostos pelo filme, o roteiro decide encerrar a narrativa de maneira abrupta, artificial e aparentemente aleatória, sugerindo ter simplesmente se cansado da ambição demonstrada até então e optando pelo choque em vez de investir numa discussão adulta e relevante, o que, claro, é profundamente decepcionante. (3 estrelas em 5)

 

49)    Pushwagner: A Ira do Artista (Pushwagner, Noruega, 2011). Dirigido por Even Benestad, August B. Hanssen.

Respeitado em sua Noruega natal, o artista plástico Hariton Pushwagner é um sujeito talentoso e excêntrico que recentemente se viu obrigado a ir à justiça de seu país para recuperar os direitos de exploração comercial sobre sua própria obra, que, por um descuido contratual, haviam caído nas mãos de um antigo colaborador. Enfocando parte do julgamento enquanto traz entrevistas com o biografado em vários locais escolhidos aparentemente ao acaso, os diretores Even Benestad e August B. Hanssen criam um filme desconjuntado e aborrecido que, mesmo provocando um ou outro riso em função das bobagens ditas pelo personagem-título, nada revela sobre o artista, seu processo criativo ou sua obra.

Aparentemente obcecado em criar imagens compostas por multidões dispostas em fileiras que, por sua vez, acabam criando figuras abstratas que simbolizam a desumanização provocada pela sociedade industrial contemporânea, Pushwagner surge como um senhor de rosto marcado por rugas profundas, de bochechas encovadas e sem dentes que, obviamente alcóolatra, resmunga extensamente sobre todo tipo de assunto enquanto tenta dar ordens aos diretores que registram sua vida.

Rodado em preto-e-branco apenas porque os cineastas parecem achar que isto confere alguma personalidade ao projeto, o documentário traz uma trilha sonora irritante e letreiros inexplicavelmente saídos de um monitor monocromático verde da década de 90, contando ainda com uma montagem caótica que torna tudo aborrecido e incompreensível.

Não que houvesse alguma chance de que realmente pudéssemos compreender o que está sendo dito ao longo da projeção, já que, sempre embriagado, Pushwagner é articulado como um paciente de Alzheimer vitimado por AVC. E se você acha interessante escutar um sujeito alcoolizado discursando por 80 minutos, este filme é a escolha certa para seu Natal. Embora, convenhamos, Papo de Bêbado fosse um título bem mais apropriado para o projeto. (1 estrela em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos