Festival do Rio 2012 – Dia 14

Ao longo dos 14 dias do Festival do Rio, assisti a 54 filmes (um a mais do que em 2011) e escrevi um total de 25.583 palavras, somando 48 páginas de texto. Concluo, aqui, esta cobertura.

50)    A Quinta Estação (La cinquième saison, Bélgica/Holanda/França, 2012). Dirigido por Peter Brosens e Jessica Woodworth. Com: Aurélia Poirier, Django Schrevens, Sam Louwyck, Gill Vacompernolle, Peter Van Den Begin, Bruno Georis, Nathalia Laroche, Veronique Tappert, Robert Colinet.

Em uma pequena vila belga, os cidadãos se reúnem ao fim do inverno para uma cerimônia tradicional na qual queimarão um boneco de palha para marcar o fim da estação. No entanto, quando inexplicavelmente a fogueira se recusa a acender, o lugarejo se vê preso no frio – e à medida que as sementes deixam de germinar, as vacas cessam a produção de leite, as abelhas morrem e as árvores despencam com suas raízes abandonando o solo, aquelas pessoas se transformam radicalmente, abandonando qualquer sinal da cordialidade que antes marcava suas relações.

Escrito e dirigido por Peter Brosens e Jessica Woodworth, A Quinta Estação busca, assim, funcionar como uma alegoria que analisa a natureza humana em condições extremas, mas o fato é que, desde o princípio, os personagens criados pela dupla já não soavam particularmente críveis ou razoáveis, sabotando o propósito principal da narrativa. Além disso, os diálogos muitas vezes impenetráveis em sua pretensão (“É preciso muito caos interior para dar à luz uma estrela que dança”) tornam a experiência frustrante e mesmo entediante.

Por outro lado, a bela fotografia de Hans Bruch Jr. consegue evocar a frieza pós-apocalíptica daquele universo sem, com isso, tornar-se óbvia, ao passo que os planos constantemente centralizados criados pelos diretores se revelam elegantes na maior parte do tempo. Enquanto isso, a decisão de utilizar planos que em sua duração média certamente ultrapassam os 60 segundos apresenta-se certeira por auxiliar na tarefa de sugerir uma lenta e impiedosa passagem do tempo.

Infelizmente, os bons elementos técnicos e as locações marcantes são desperdiçados pelo roteiro tolo, que, no máximo, investe em extremos para tentar criar um contraste que transmita a mensagem pretendida pelos cineastas: se no início vemos um homem tentando levar seu galo a cantar, mais tarde o mesmo quadro é repetido, mas com o galo morto; se a princípio os jovens vividos por Poirier e Schrevens dividem um primeiro beijo casto, posteriormente ela se vende por comida enquanto ele parte ressentido – e tudo isso soa maniqueísta e artificial demais para provocar algum impacto sobre o público.

No meio de tudo, porém, resta a participação menor de Sam Louwyck, que, mesmo preso aos diálogos atrozes, consegue criar um personagem simpático e espontâneo em meio à unidimensionalidade que o cerca, sugerindo um carinho pelo filho deficiente que termina por desempenhar a única âncora emocional de todo o projeto. (2 estrelas em 5)

 

51)    Aí Vem o Diabo (Ahí va el diablo, México, 2012). Dirigido por Adrián García Bogliano. Com: Laura Caro, Francisco Barreiro, Michele Garcia, Alan Martinez, David Arturo Cabezud, Enrique Saint-Martin, Giancarlo Ruiz.

(Zoom rápido em minhas mãos enquanto começo a digitar este texto.)

O diretor e roteirista espanhol Adrián García Bogliano precisa resolver suas questões sexuais em intensas sessões de terapia antes de realizar outro filme. Sim, faz parte da temática recorrente do gênero terror adotar uma visão muitas vezes moralista sobre sexo (não é à toa que a mocinha virgem/recatada costuma sobreviver), mas o que Bogliano faz neste Aí Vem o Diabo ultrapassa qualquer limite ao constantemente associar o sexo ou o desejo sexual à perversão, à tortura, à violência e à morte (isto para não mencionar que também ao diabo).

(Zoom rápido no diabo.)

Contando a história de um casal que, durante uma viagem, permite que os filhos se aventurem sozinhos numa pequena colina apenas para se desesperarem quando as crianças desaparecem, o filme passa a plagi… homenagear Vampiros de Almas quando os jovens Adolfo e Sara retornam diferentes da noite passada na montanha. Aos poucos, seus pais passam a desconfiar de um trauma sexual, resultando num ato violento de vingança que… bom, nada tem a ver com a trama principal do filme e que é incluída apenas para adicionar mais algum gore à produção. Finalmente, a mãe dos jovens decide investigar o que realmente aconteceu naquela noite e faz uma descoberta chocante.

(Zoom rápido no choque da mãe.)

Obcecado em se estabelecer como um Nicolas Roeg latino ao incluir uma cena de sexo entre o casal vivido por Barreiro e Caro (mas que, ao contrário do que ocorria em Inverno de Sangue em Veneza, é absurda, mal encenada e dispensável, ocorrendo num carro parado em um estacionamento aberto em plena luz do dia), o diretor Adrián García Bogliano logo usa a primeira menstruação da adolescente Sara como desculpa não só para o voyeurismo pedófilo de um excêntrico local, mas também como subtexto para sua possessão demoníaca – que, não à toa, ocorre depois que as crianças entram numa caverna de contornos… vaginescos, digamos.

(Zoom rápido na vagina de pedra.)

Plagian… homenageando A Aldeia dos Amaldiçoados em certas composições que trazem as crianças em primeiríssimo plano enquanto parte da ação é vista ao fundo através de grandes profundidades de campo, Aí Vem o Diabo flerta narrativamente com o trash e esteticamente com as produções do gênero terror produzidas durante a década de 70, mas esta “homenagem” é tão extrema que recai no patético – e poucas vezes vi um diretor gostar tanto de empregar o zoom rápido em qualquer situação, seja esta de impacto ou não.

(Zoom rápido no zoom rápido. E na calcinha ensanguentada de Sara. E na mão da garota ao abraçar a mãe. E na montanha. E no carro. E na cama. E no…)

Uma besteira que, de tão medíocre, impede até que possamos rir de suas tolices.

(Zoom rápido nas tolices.) (2 estrelas em 5)

 

52)    Brincadeiras de Criança (Juego de niños, México, 2012). Dirigido por Makinov. Com: Ebon Moss-Bachrach, Vinessa Shaw, Daniel Giménez Cacho.

Refilmagem bastante fiel do espanhol Quem Consegue Matar uma Criança?, de 1976, Brincadeiras de Criança é uma produção mexicana que, como o original, surge como uma cópia disfarçada de A Noite dos Mortos Vivos que, apesar da premissa furtada, consegue criar um clima de tensão crescente muito eficiente.

Produzido, fotografado, montado, sonorizado, roteirizado e dirigido por Makinov (é, eu sei), Brincadeiras de Criança gira em torno do harmonioso casal Francis (Moss-Bachrach) e Beth (Shaw), que, em viagem de férias ao México, decidem visitar uma pequena ilha. Lá chegando, porém, encontram o lugar abandonado até que, estranhamente, começam a perceber que apenas as crianças da vila permanecem ali. O motivo: possuídas por alguma força estranha, elas passaram a matar todos os adultos que pisam na região.

Trazendo boas interpretações da dupla central (em especial de Ebon Moss-Bachrach, que se mostra carismático e jamais apela para reações exageradas), o longa revela suas influências especialmente através dos créditos em estilo retrô e de algumas opções estéticas mais óbvias feitas pelo diretor – que, embora competente na maior parte do tempo, às vezes tropeça tanto na decupagem quanto na montagem ao criar sequências confusas nas quais personagens simplesmente parecem desaparecer subitamente (como no instante em que Beth e Francis veem um velhinho ser abatido a golpes de bengala e o protagonista corre para salvá-lo, ao passo que sua esposa simplesmente some da cena).

Incômodo justamente por trazer crianças como vilãs (e o título do filme original aqui é citado por um homem local quando este tenta explicar por que ninguém reagiu aos ataques), esta refilmagem é no mínimo uma boa oportunidade para que uma nova geração redescubra uma pequena obra cult que acabou sendo esquecida ao longo das décadas. (4 estrelas em 5)

 

53)    Somos uma Multidão: A História dos Hacktivistas (We Are Legion: The Story of the Hacktivists, EUA, 2012). Dirigido por Brian Knappenberger.

Quando a maioria das pessoas ouve a palavra “hacker”, a primeira ideia que vem à mente é a de uma força destrutiva, de criminosos extremamente versados em complexos códigos de programação que, com suas máquinas avançadíssimas e conhecimentos de criptografia, são capazes de invadir qualquer computador de qualquer empresa, roubando desde senhas de sites de relacionamento a milhões e milhões de dólares. A realidade, porém, não é tão simples: não só a atividade dos hackers pode desempenhar um papel importante em causas nobres como boa parte dos indivíduos que se envolvem em ataques do tipo se resume a leigos em informática que, usando programas ou instruções de fácil entendimento, colaboram em ações importantes na Internet.

Um dos grupos mais conhecidos do cyberativismo, o “Anonymous” tornou-se famoso, nos últimos anos, por comandar ataques célebres a instituições como Visa, Mastercard, Amazon, PayPal e a Igreja da Cientologia – sempre em defesa de indivíduos ou causas que certamente despertariam a simpatia de muita gente. Assim, ao longo dos 93 minutos deste documentário, o diretor Brian Knappenberger relembra a história desta estranha coletividade, entrevistando vários de seus membros iniciais e mais importantes.

Originado no fórum “b” do infame site 4Chan, o “Anonymous”, em sua raiz, pouco mais era do que um grupo dedicado a publicar imagens ofensivas e a criar (ou popularizar) memes como os LoLCatz, “All your base are belong to us” e o RickRolling e a divulgar virais como “Chocolate Rain” (e sugiro uma consulta ao Google, caso não saiba do que estou falando – mas prepare-se para perder horas e horas logo em seguida). Empregando tempo e energia também na trollagem (algo que particularmente abomino, especialmente em suas manifestações mais extremas), o Anonymous finalmente pareceu ter encontrado seu caminho quando um de seus membros passou a ser atacado por um podcaster neo-nazista, o que unificou uma comunidade anárquica por natureza em torno de um objetivo comum: atormentar o sujeito. (E como um dos entrevistados revela, o fato de ele ser um supremacista branco foi mera coincidência; o fator chave da equação residia na proximidade da vítima com o 4Chan.)

A partir daí, o grupo passou a se envolver em causas cada vez mais ambiciosas, vindo a atacar a Igreja da Cientologia (quando, então, saiu da Internet e alcançou as ruas, encabeçando manifestações em todo o mundo) e a atuar de forma decisiva durante a Primavera Árabe, quando ajudou até mesmo os ativistas egípcios a recuperarem acesso à web quando o governo a derrubou em todo o país. Porém, foi mesmo com a decisão de apoiar o WikiLeaks que o Anonymous alcançou seu auge, derrubando os sites do PayPal, VISA e Mastercard depois que estas empresas decidiram interromper as utilização de seus serviços para doações feitas à organização de Julian Assange.

Bastante didático ao explicar as diversas estratégias de atuação dos hacktivistas, que vão desde a invasão de computadores particulares e sites institucionais até o famigerado DDoS (basicamente, um piquete virtual que impede acesso aos alvos através do envio de milhares de pacotes de requisição simultâneos), Somos uma Multidão claramente enxerga o Anonymous de maneira bastante positiva, o que não impede o filme de apontar que, por ser uma coletividade e não ter líderes, muitos integrantes do grupo desenvolvem atividades paralelas que assumem uma natureza que beira o repulsivo – como quando hackearam sites sobre epilepsia, instalando imagens que pulsavam com o objetivo de provocar convulsões no público-alvo destas páginas.

Por outro lado, não há como negar que boa parte dos alvos do Anonymous acabam se revelando merecedores dos ataques – e é impossível não rir quando um “expert em segurança” anuncia publicamente ter infiltrado o grupo, revelando os nomes de vários de seus integrantes, apenas para ter sua vida arruinada nos meses seguintes. “Ao ver um vespeiro à sua frente, ele teve a brilhante ideia de enfiar seu pênis naquilo”, explica o comediante Stephen Colbert, num trecho de seu Colbert Report incluído no longa.

Encerrando a narrativa com breves discussões sobre a dissidência LulzSec (voltada basicamente à trollagem) e à traição cometida por um dos mais respeitados membros do Anonymous, o hacker Sabu, Somos uma Multidão é convincente ao estabelecer que, longe de representar uma cultura de submundo repreensiva e irresponsável, o hacktivismo pode perfeitamente se estabelecer como uma força democrática, construtiva e que traz de volta às mãos do cidadão comum armas que podem torná-lo uma ameaça real para os poderosos tão acostumados a ignorar aqueles que deveriam representar. (3 estrelas em 5)

 

54)    A Guerra Invisível (The Invisible War, EUA, 2012). Dirigido por Kirby Dick.

Imagine uma sociedade na qual as mulheres, quando estupradas, se deparam com o fato de que 33% dos indivíduos aos quais deveriam relatar o crime são amigos dos estupradores. Assustador? Agora imagine o que ocorreria se outros 25% dos responsáveis em receber a denúncia fossem os próprios criminosos.

Pois esta “sociedade” existe e se chama “exército dos Estados Unidos”.

Dirigido por Kirby Dick, que aqui assume um projeto bem mais sério do que seu divertido This Film Is Not Yet Rated e ainda mais enervante do que seu último trabalho, Outrage, este A Guerra Invisível se concentra nos casos de violência sexual ocorridos em unidades militares norte-americanas ao redor do mundo – um crime que, segundo as estatísticas oficiais, resultou em mais de 500 mil vítimas apenas desde 1991. Trazendo depoimentos de várias mulheres que se viram violentadas pelos próprios colegas enquanto serviam o país, o documentário pinta um retrato enlouquecedor de um sistema aparentemente voltado para incentivar e proteger estupradores, já que estes não apenas raramente são punidos como ainda veem suas carreiras avançando sem qualquer problema mesmo depois de denunciados, ao passo que suas vítimas, acreditem ou não, na maior parte das vezes acabam sendo obrigadas a deixar o serviço militar. Ou, no caso de algumas delas, processadas pelo exército em função de (juro) “adultério” – já que seus estupradores eram homens casados.

Resultando em casos de estresse pós-traumático que se revelam mais intensos do que aqueles vivenciados por militares que estiveram em combate, o estupro sistemático no exército ocorre não apenas em zonas de guerra nos recantos mais afastados do planeta, mas também em unidades situadas a dois quilômetros da Casa Branca e que, segundo a própria Marinha, reúne apenas os “melhores” cadetes em serviço ativo. Infelizmente, em vez de punirem os criminosos, os altos oficiais preferem ignorar as denúncias, já que isto pintaria um retrato negativo da instituição – e, para isso, frequentemente culpam as próprias vítimas, insistindo em questioná-las sobre “o que vestiam”, “o que disseram” e impedindo que outras mulheres assumam o controle das investigações, já que estas poderiam se mostrar “parciais demais”.

Criando uma situação infernal na qual as mulheres se encontram prisioneiras de seus algozes, estes estupros (que, é bom apontar, também vitimam homens) ainda se tornam mais desesperadores quando consideramos que, ao contrário do que ocorre na vida civil, no meio militar todo o sistema é controlado pelos oficiais, que são responsáveis por investigar, processar e julgar o caso, criando condições ideais para o acobertamento sistemático dos abusos. Como se não bastasse, em muitos casos o exército se recusa a pagar até mesmos os custos médicos das vítimas – e no caso de uma das personagens de A Guerra Invisível, a deformidade no maxilar provocada pelo oficial que a agrediu (e que provoca dores crônicas) não pode ser corrigida porque os militares alegam que ela largou o serviço dois meses antes do previsto. Por ter sido atacada.

Deixando bastante claro que os fatos narrados ao longo da projeção não são novos, não representam incidentes isolados e são de pleno conhecimento dos responsáveis do auto escalão, A Guerra Invisível é uma contrapropaganda eficaz da vida militar – e não há como justificar que aqueles homens representem a defesa de seu país quando, no nível mais básico de convivência, não têm caráter suficiente nem mesmo para respeitar suas companheiras de farda. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos