Mostra de São Paulo 2012 – Dia 01

Abraço aos alunos Fernando, Rafael e Bruno, que vieram me cumprimentar durante a correria inicial.

A Mostra, aliás, começou problemática. Já a primeira sessão da sexta-feira, Parviz, foi interrompida aos 10 minutos por problemas na legenda em português, já que não havia eletricidade na sala que permitisse o funcionamento da legendagem eletrônica. Depois de quase 20 minutos, a sessão foi reiniciada, mas apenas com legendas em espanhol, o que espantou muitos espectadores (o que foi uma pena, já que o filme é ótimo). Mais tarde, a sessão de Dente por Dente teve a imagem congelada por cerca de um minuto enquanto a péssima cópia (do péssimo longa) travava por algum motivo inexplicável. Mas o cúmulo aconteceu mesmo na última sessão da noite: iniciada já com atraso de 15 minutos, a projeção de No trazia apenas legendas em inglês e, assim, depois de 15 minutos foi interrompida para que pudesse ser corrigida.

Vinte minutos depois, recebemos a informação de que a cópia digital não trazia legendas e que o projecionista havia montado rapidamente o rolo da versão em película para projetá-la. Ao ouvir isso, imediatamente pensei em duas coisas: 1) Montou “rapidamente”? Vai dar merda; e 2) Se eles já estavam com os rolos no cinema, por que não os montaram com antecedência, optando, como seria o correto, por projetar a película em vez do digital?

Seja como for, eventualmente a projeção reiniciou – e, uma hora depois, Gael García Bernal surgiu subitamente de cabeça para baixo na tela. “Claro.”, murmurei imediatamente. Mais uma vez a sessão foi interrompida para que o rolo pudesse ser remontado, obrigando o público a esperar por cerca de 40 minutos para retornar à história. Ao final, boa parte do público foi embora – e os que ficaram saíram do Reserva Cultural às 2 da manhã, quando o horário previsto para o término do filme era 00h30.

Mas falarei sobre No, Parviz Dente por Dente amanhã. Por enquanto…

1)    Mosquita e Mari (Mosquita y Mari, EUA, 2012). Dirigido por Aurora Guerrero. Com: Fenessa Pineda, Venecia Troncoso, Joaquín Garrido, Laura Patalano, Dulce Maria Solis, Marisela Uscanga, Melissa Uscanga.

Projeto de cunho claramente pessoalmente para a roteirista e diretora estreante Aurora Guerrero, Mosquita e Mari é um filme que merece pontos pela delicadeza com que retrata a relação entre as duas personagens-título, embora perca vários outros pela falta de foco da narrativa e pela dinâmica muitas vezes artificial estabelecida pelas fracas atrizes.

Ambientado numa vizinhança latina de Los Angeles, o longa traz diálogos que saltam fluidamente entre o inglês e o espanhol, o que colabora para retratar a importância das raízes culturais para aquelas pessoas, que, mesmo migrando em busca de uma vida melhor, mantêm seus países de origem na mente não apenas como lembrança do passado difícil que tiveram, mas também – e, de certa forma, paradoxalmente – como motivo de orgulho, como algo digno de ser preservado. Assim, quando a jovem Yolanda (Pineda), aluna exemplar, começa a tirar notas um pouco menores (“pouco” mesmo: de 100%, ela cai para 92%), um verdadeiro alerta vermelho soa nas mentes de seus pais, que enxergam na formação acadêmica a possibilidade definitiva de um futuro melhor para a filha.

Imaginando que a queda de rendimento se deve a uma paixonite por algum rapaz da escola, os pais de Yolanda sequer vislumbram a possibilidade real: depois de formar uma sólida amizade com a nova vizinha e colega de sala, Mari (Troncoso), Yolanda (apelidada de “Mosquita” pela outra) começa a desenvolver sentimentos ainda mais fortes pela amiga – e a confusão eventual que ambas experimentam diante desta descoberta é ilustrada com sensibilidade por Guerrero. Por outro lado, até que cheguemos a este ponto, Mosquita e Mari mergulha numa estrutura frouxa e repetitiva que consiste em trazer briguinhas entre as moças que são eventualmente resolvidas apenas para cederem lugar a novos desentendimentos. Para piorar, a fragilidade técnica de Fenessa Pineda e Venecia Troncoso não encontra compensação na espontaneidade que a falta de experiência poderia trazer para suas performances – e, assim, o filme sofre especialmente em sua primeira metade, quando as garotas ainda estão se aproximando uma da outra.

Pontuando a projeção com imagens recorrentes do céu da vizinhança (com suas várias torres de iluminação em contraluz) mergulhado em cores intensas que oscilam entre o laranja e o azul, a obra parece querer dizer muito sobre a história daquelas pessoas, mas falha pela maneira difusa com que a aborda. Assim, embora percebamos certa melancolia por parte dos pais de Yolanda (especialmente num belo plano no qual eles aparecem refletidos na tevê desligada), o roteiro não se preocupa em investir na questão, criando a base de uma possibilidade dramática que jamais se realiza de fato.

De todo modo, se há um aspecto no qual Mosquita e Mari se revela eficiente é na forma com que retrata a afeição entre as moças a partir da segunda metade da projeção, quando, então, elas criam um elo que, infelizmente, só se mostra possível em amizades forjadas na juventude, quando tudo parece eterno e inquebrável. E por sabermos que nenhuma destas duas características se revelará verdadeira, o filme evoca uma nostalgia melancólica que se revela seu principal (mesmo que pequeno) triunfo. (2 estrelas em 5)

 

2)    Aqui e Ali (Aquí y allá, México, 2012). Dirigido por Antonio Méndez Esparza. Com: Pedro De los Santos, Teresa Ramírez Aguirre, Lorena Guadalupe Pantaleón Vázquez, Heidi Laura Solano Espinoza.

O Novo Cinema romeno tem influenciado claramente os realizadores latinos nos últimos anos: construindo suas narrativas através da observação cuidadosa do cotidiano de seus protagonistas ao empregar planos longos e estáticos que praticamente compõem cada nova cena, estes filmes se limitam aos sons diegéticos enquanto contam histórias profundamente humanas que se revelam complexos estudos de personagens. Assim, A Morte do Sr. Lazarescu e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias podem, de certa maneira, ser considerados tios de obras como os excelentes Depois de Lúcia e este Aqui e Ali.

Trabalho de estreia de Antonio Méndez Esparza na direção e roteirização de longas, o filme tem início com o rosto ansioso de Teresa (Aguirre), que aguarda a chegada do marido Pedro (De los Santos) depois de anos de distância enquanto este residiu em Nova York para juntar algum dinheiro para a família. Enfrentando certa frieza inicial por parte das duas filhas, que o tratam quase como um estranho, Pedro aos poucos vai reconstruindo sua vida na comunidade enquanto tenta emplacar uma banda com o irmão e alguns amigos, já que investiu, para isso, em caros instrumentos. Mas uma nova gravidez e as dificuldades do cotidiano em uma sociedade miserável cobram seu preço.

Como já é fácil constatar apenas pela observação de que os atores vivem personagens que trazem seus nomes reais, Aqui e Ali é uma produção que flerta intimamente com o documental – e até ler os nomes completos dos atores nos créditos finais, confesso ter imaginado que aquela se tratava de uma família real (o que, claro, é mérito da naturalidade com que a dinâmica entre os atores é construída). Além disso, o elenco secundário, povoado por rostos comuns e não-atores, confere verossimilhança inegável à narrativa, sugerindo até mesmo que várias das interações vistas ao longo da projeção resultam de improvisos inspirados por incidentes verídicos – como no momento, por exemplo, em que Pedro visita a mãe de um amigo que morreu quando residia ilegalmente nos Estados Unidos.

Aproximando o espectador daquelas pessoas justamente pela abordagem simplista que não teme em criar planos extensos e que incluem demorados momentos de silêncio que revelam a incapacidade dos personagens de verbalizarem o que sentem, o filme é inteligente também ao adotar uma estratégia intrigante na longa e angustiante sequência envolvendo a passagem de Teresa por um hospital: vistos sempre de costas, os funcionários da instituição surgem como figuras impessoais que expõem, assim, a impotência do protagonista diante da sociedade. Da mesma forma, a montagem final, que traz diversos pontos do lugarejo ao som de uma canção executada por Pedro, apresenta-se tocante por ressaltar a ausência dolorosa do sujeito.

No entanto, o que torna Aqui e Ali realmente especial é sua eficiência ao retratar aquela humilde família, que, mesmo enfrentando inúmeras dificuldades, revela a mais sincera e pura alegria nos instantes em que todos se encontram juntos à mesa do jantar ou sentados na sala enquanto Pedro toca uma canção para as filhas. Além disso, a dura realidade do sujeito e seus esforços contínuos para manter a família comovem pela perseverança que o protagonista demonstra – e seu tom de voz tranquilo e amoroso comunica mais do que as palavras que saem de sua boca. Com isso, o sacrifício extremo de ter que abandonar a família para salvá-la é algo que, ao final da projeção, sentimos claramente, compreendendo a dor, a coragem e o amor de homens e mulheres que arriscam tudo por um pouco que, para eles, pode fazer toda a diferença do mundo. (5 estrelas em 5)

 

3)    Por Enquanto (Meanwhile, EUA, 2011). Dirigido por Hal Hartley. Com: D.J. Mendel, Danielle Meyer, Chelsea Crowe, Miho Nikaido, James Rich, Hoji Fortuna, Scott Shepherd, Christine Holt, Stephen Ellis, Anais Borck, Soraya Soi.

Primeiro filme do cineasta norte-americano Hal Hartley desde seu Fay Grim, de 2006, Por Enquanto é uma breve experiência que, ao longo de apenas 58 minutos, nos apresenta a um personagem fascinante e a 24 horas incrivelmente atarefadas de sua vida. Capturado em digital nas ruas de Nova York, o trabalho traz D.J. Mendel, colaborador habitual do cineasta, como o intrigante Joseph, que já na primeira cena surge consertando um encanamento enquanto abandona o apartamento que dividia com uma belíssima jovem. A partir daí, o sujeito percorre a cidade enquanto faz teste para ser o baterista de uma banda, discute um ambicioso plano de negócios com um banqueiro, tenta descongelar sua conta bancária e ajuda meia dúzia de estranhos pelo caminho.

Sim, pois Joseph, além de cineasta, escritor, baterista e aspirante a empresário, é um faz-tudo capaz de consertar qualquer máquina, possuindo um temperamento que o leva a estar sempre disponível para auxiliar o próximo. Dono de uma ética particular curiosa, ele é incapaz de aceitar pagamento pelos serviços que presta – e mesmo quando se vê tentado a cometer algum erro, como saltar a roleta do metrô ou pegar 40 dólares na bolsa de uma ex-namorada rica, acaba seguindo a própria consciência, evitando ou confessando o delito imediatamente.

Vivido com imenso carisma por Mendel, o protagonista é, em suma, um homem engajado com o mundo ao seu redor e empenhado em realizar algo que o faça se sentir importante – uma concessão ao ego que não o impede de pensar constantemente no próximo. Aliás, é recompensador ver um personagem que não se limita a dizer diálogos funcionais, mas que mantém conversas envolventes com figuras de todos os tipos, ouvindo o que têm a dizer e promovendo discussões que oscilam entre o trivial e o profundo, apresentando-se sempre honestas.

Surpreendentemente denso e ambicioso para um filme tão curto, Por Enquanto é um dos melhores trabalhos de um diretor já conhecido por seu inquestionável talento e por sua maturidade cada vez maior. (4 estrelas em 5)

 

4)    A Bela que Dorme (Bella addormentata, Itália, 2012). Dirigido por Marco Bellocchio. Com: Toni Servillo, Isabelle Huppert, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Maya Sansa, Pier Giorgio Bellocchio, Brenno Placido, Gianmarco Tognazzi, Carlotta Cimador.

Não sou um grande fã do cineasta italiano Marco Bellocchio e, assim, não me espanta que em seu novo filme ele tente abordar uma questão tão complexa quanto a eutanásia sem conseguir de fato dizer algo de relevante sobre o assunto, optando pelo melodrama, pela caricatura e pela pretensão em vez de explorar o tema que ele mesmo escolheu como pano de fundo para a narrativa.

Ambientado em fevereiro de 2009, quando a Itália parou para acompanhar o desfecho do caso de Eluana Englaro (uma mulher que, depois de permanecer 17 anos em coma, morreu quando seu pai solicitou autorização à justiça para desligar os aparelhos que a mantinham viva), A Bela que Dorme é, em sua superfície, uma discussão sobre a eutanásia – e, para isso, o roteiro escrito por Bellocchio, Veronica Raimo e Stefano Rulli conta três histórias paralelas relacionadas direta ou indiretamente com a situação de Eluana. No primeiro, um senador que se encontra em seu primeiro mandato (Servillo, sempre excelente) se vê forçado por seu partido a votar pela manutenção da vida da paciente, o que vai de encontro às suas crenças particulares e algo que já o fez entrar em conflito com a filha Maria (Rohrwacher), católica devota e que, durante a vigília pela vida de Englaro, se envolve com um rapaz (Riondino) que defende a eutanásia. Já a segunda trama acompanha uma célebre atriz (Huppert) que abandonou a carreira para cuidar da filha em coma, negligenciado o marido e o filho no processo. Para encerrar, conhecemos o médico Pallido (Bellocchio, filho do diretor), que salva uma estranha (Sansa) do suicídio, decidindo manter-se ao pé de sua cama enquanto ela permanece sedada.

Inicialmente adotando uma estrutura entrecortada que alterna entre as várias histórias enquanto ainda mergulha em flashbacks ocasionais, a montagem de Francesca Calvelli é hábil ao costurar a narrativa gradualmente, eventualmente colocando sentido em todas as subtramas e saltando de forma fluida entre estas. Infelizmente, mesmo que compreendamos as motivações e os conflitos de todos os personagens, estes se revelam tolos ou artificiais em sua maioria – e as passagens envolvendo o médico são particularmente ineficazes pela falta de verossimilhança da situação e da motivação vazia do sujeito (e a natureza agressiva e fria da paciente não ajudam). Da mesma maneira, o fanatismo religioso da atriz encarnada por Huppert mantem-se em uma só nota, não indo a lugar algum, o que nos deixa apenas com as sequências que giram em torno do senador de Toni Servillo, que, angustiado em função da decisão que deverá tomar e também ansioso por não conseguir falar com a filha, experimenta horas de absoluta tensão e desconforto. Além disso, as passagens relacionadas ao político contam também com o melhor personagem do longa: um psiquiatra que, atendendo os senadores, tece comentários precisos sobre a natureza da política e do fascínio pela notoriedade.

Mas, afinal, o que Marco Bellocchio quer dizer através de seus personagens? Há, como não poderia deixar de ser, uma presença constante de símbolos e interesses religiosos em todas as narrativas – e a intensidade com que Huppert obriga suas enfermeiras/freiras a rezar indica uma tentativa desesperada de se fazer ouvir por Deus mesmo que através do grito -, mas nem mesmo a influência da Igreja sobre a política vai além de um ou outro comentário sobre o que o papa tem a dizer sobre o assunto. Neste aspecto, diga-se de passagem, o comentário mais interessante é feito (mais uma vez) por Servillo, que aponta como ele, um descrente, tentou de todas as formas manter viva a esposa doente, ao passo que esta, católica fervorosa, pedia para morrer, num paradoxo aparente que aponta para a complexidade moral da questão. E não é à toa que Maria, supostamente tão dedicada à sua causa e ao seu Deus, não hesita em abandonar a vigília para encontrar o homem pelo qual se apaixonou, indicando um impulso de dar prosseguimento à vida que, ela se recusa a perceber, é negado à moça em estado vegetativo que ela egoistamente tenta manter presa aos aparelhos.

Beirando o patético em algumas escolhas narrativas inexplicáveis (como a insistência em incluir uma trilha incômoda sempre que o dr. Pallido encontra-se mergulhado em reflexões e que é interrompida subitamente quando cortamos para outro personagem), A Bela que Dorme no máximo se diverte com a contradição entre pacientes comatosas que interrompem a existência dos vivos ao seu redor e a viciada cuja sedação é condição para mantê-la viva. Mas até isso é atirado no lixo eventualmente para que Bellocchio possa retornar aos diálogos vazios que, como seu próprio filme, não dizem absolutamente nada de relevante. (2 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos