Mostra de São Paulo 2012 – Dia 02

Abraços à aluna (e colega de profissão) Cecília Barroso, ao querido Anderson Galdino (também aluno) e ao Alexandre, que me entrevistou há muitos anos sobre o mestre Eduardo Coutinho – e obrigado por virem me cumprimentar durante a Mostra, pois é sempre bom bater papo nos intervalos do evento.

Mas ao trabalho.

5)    Parviz (Idem, Irã, 2012). Dirigido por Majid Barzegar. Com: Levon Haftvan.

Confira um breve comentário em vídeo sobre o filme clicando aqui. (4 estrelas em 5)

6)    Dente por Dente (Diente por diente, México, 2011). Dirigido por Miguel Bonilla. Com: Poncho Borbolla, Fernando Becerril, Vanessa Ciangherottti, Dario Ripoll, Ximena Ayala.

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7)    Quando Vi Você (When I Saw You, Palestina, 2012). Dirigido por Annemarie Jacir. Com: Mahmoud Asfa, Ruba Blal, Saleh Bakri, Ali Elayan.

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8)    Kátia (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Karla Holanda.

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9)    Super Nada (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Rubens Rewald. Com: Marat Descartes, Clarissa Kiste e Jair Rodrigues.

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10)    Reality (Idem, Itália, 2012). Dirigido por Matteo Garrone. Com: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone, Nello Iorio, Raffaele Ferrante, Nunzia Schiano, Rosaria D’Urso, Giuseppina Cervizzi.

Quatro anos depois de ganhar renome graças ao seu ótimo Gomorra, o cineasta italiano Matteo Garrone retorna ao Cinema com este igualmente envolvente Reality – que, completamente diferente de seu trabalho anterior em tema, abordagem e tom, discute com eficiência a natureza superficial dos conceitos de “celebridade” e “fama” a partir de uma história divertida que, aos poucos, revela uma surpreendente melancolia subjacente.

Escrito a oito mãos pelo diretor ao lado de Ugo Chiti, Maurizio Braucci e Massimo Gaudioso (todos co-autores de Gomorra), o roteiro acompanha o vendedor de peixes  Luciano (Arena), que, pai de família e marido dedicado, dá pequenos golpes para complementar a renda de casa. Considerado pelos parentes como uma espécie de palhaço da família, ele acaba conhecendo em uma festa o ex-BBI (Big Brother Itália?) Enzo (Ferrante), que, famoso graças à sua participação na versão italiana do programa, participa de eventos nos quais insiste em repetir seu bordão “Never give up!” (em inglês, mesmo). Cedendo à insistência da filha para fazer um teste para a próxima edição do Big Brother, Luciano acaba se convencendo de que está sendo observado pelos organizadores do programa em seu cotidiano, entregando-se a uma paranoia absurda enquanto encena uma versão de si mesmo para conquistar os tais produtores imaginários.

Primo temático de O Rei da Comédia, já que as ilusões e ambições de Luciano remetem bastante às do Rupert Pumpkin de Robert De Niro naquela obra de Scorsese, Reality faz a primeira de suas várias observações críticas a partir das aparições pontuais de Enzo, que parece viver numa constante tour autopromocional embalada por sua frase genérica e tola e por uma persona festeira absurda, pintando sua vida de celebridade como algo que traz baladas e superficialidade como substitutas de felicidade e substância. Sujeito medíocre e sem talento, Enzo é, assim, a encarnação de toda uma cultura de fama que transforma em ídolos figuras como Paris Hilton, Narcisa Tamborindeguy e Honey Boo Boo (pesquisem no YouTube; é deprimente demais para explicar aqui), que inexplicavelmente dominam capas de revista e ganham horas e horas de exposição na televisão embora nada tenham a oferecer de concreto à sociedade além de um espetáculo particular de egocentrismo e alienação.

Assim, não é à toa que Enzo contraste tanto com o protagonista, que trabalha de sol a sol e construiu uma vida perfeitamente feliz mesmo enfrentando todas as dificuldades do cotidiano de uma família humilde – e Garrone e seu designer de produção Paolo Bonfini ressaltam esta alegria através dos ambientes coloridos e agradáveis que compõem a vizinhança e as residências de Luciano e seus parentes. (Neste sentido, aliás, a escalação do elenco, com seus tipos físicos marcantes, remetem também a um universo quase felliniano, o que se mostra bastante apropriado diante da temática do longa.) Porém, o elemento fundamental da narrativa, justamente por destacar a trajetória destrutiva da busca pela fama, é mesmo a atuação magistral de Aniello Arena, que transforma Luciano em um homem sempre alegre e carinhoso que, aos poucos, perde de vista as prioridades que realmente o faziam feliz – e é digno de nota que o ator seja, na realidade, um ex-matador da Máfia que se encontra cumprindo pena de prisão perpétua há 20 anos, já que isto não poderia contrastar mais com a natureza calorosa do personagem (Garrone conseguiu permissão para que Arena deixasse a prisão durante o dia para rodar o filme).

Tecnicamente ambicioso, Reality ainda impressiona pelos vários planos-sequência memoráveis criados pelo diretor e por seu diretor de fotografia Marco Onorato, começando já com aquele que abre o filme e que, de uma visão aérea de Nápoles, passa a acompanhar de perto uma carruagem que anacronicamente percorre as ruas da cidade – uma lógica visual que amarrará a narrativa com o plano final, criando uma rima temática admirável. Além disso, Garrone é hábil ao sugerir a natureza paranoica de Luciano através de uma profundidade de campo pequena em vários instantes, quando elementos fora de foco parecem observar o sujeito à distância, e pela utilização de quadros que sugerem o próprio posicionamento das câmeras de um reality show.

Construindo ainda uma relação metafórica entre religião e fama através dos eventos retratados no terceiro ato, que parecem sugerir (acertadamente) que a celebridade é uma obsessão quase religiosa nos dias de hoje, quando, além disso, elevamos ao posto de semi-deusas criaturas como Neymar e (oh, Deus) Michel Teló, Reality é uma obra inteligente, engraçada e profundamente relevante. (4 estrelas em 5)

 

11)    A Memória que me Contam (Idem, Brasil, 2012). Dirigido por Lúcia Murat. Com: Ireve Ravache, Simone Spoladore, Clarisse Abujamra, Hamilton Vaz Pereira, Miguel Thiré, Patrick Sampaio, Naruna Kaplan de Macedo, Otávio Augusto, Franco Nero, Zécarlos Machado, Fernando Bezerra, Babu Santana.

Embora a Comissão da Verdade seja uma boa (mas ainda frágil) iniciativa, é inexplicável que o Brasil, quase 30 anos depois do fim da ditadura, ainda não tenha feito um esforço real para apurar os crimes cometidos pelos militares durante aquele período pavoroso de nossa história recente, punindo-os exemplarmente. Ao contrário do que alguns oficiais covardes já na reserva insistem em dizer, não se trata de “revanchismo” (mesmo porque a “revanche” já foi conquistada nas urnas), mas de justiça e de cicatrização de feridas que insistem em sangrar. Não é à toa que tantos jovens no Brasil mostram um viés perigosamente reacionário, apontando a luta revolucionária como “terrorismo” (termo usado, vejam só, pela Ditadura), já que, ao contrário do que ocorreu em países-irmãos como Chile e Argentina, que dividiram aquelas barbaridades conosco, os militares brasileiros que assassinaram centenas de jovens friamente (muitos deles já presos) jamais foram expostos e punidos, o que cria uma atmosfera de inocência (ou apenas de “danos colaterais da guerra”) injusta e perigosa. Isto para não mencionarmos a importância do processo para a cicatrização emocional e psicológica de toda uma geração – algo que a cineasta Lúcia Murat trata com sensibilidade ímpar neste seu belíssimo A Memória que me Contam.

Escrito por Murat ao lado de Tatiana Salem Levy, o longa é uma homenagem aberta à ex-guerrilheira Vera Sílvia Magalhães, que aqui ganha o nome de Ana e move a narrativa ao entrar em coma em função de uma série de problemas de saúde. Levada a rememorar a juventude revolucionária ao lado da amiga, a cineasta vivida por Irene Ravache passa a manter conversas imaginárias com a versão jovem de Ana (Spoladore) enquanto, ao lado de vários ex-companheiros, visita o hospital no qual a adoentada mulher se encontra. Enquanto isso, o filho da protagonista, o artista plástico Duda (Thiré), prepara uma nova instalação e volta a se encontrar com Chloe (Macedo), uma amiga de infância que também teve em Ana a figura de uma tia excêntrica, problemática, mas sempre divertida.

Claramente funcionando também como um exercício terapêutico para Murat, A Memória que me Contam representa uma narrativa quase metalinguística em sua abordagem das lembranças da(s) cineasta(s) (a real e a imaginária): em certo momento, por exemplo, ao trazer Irene Ravache comparando uma foto de Simone Spoladore à de sua personagem na juventude, a diretora parece representar a própria busca por uma atriz que pudesse encarnar a amiga Vera no longa, como se procurasse um avatar da versão jovem da companheira que, por sua vez, lhe permitisse um reencontro e um abraço terapêutico – mesmo que este abraço, por sua vez, fosse dado por sua própria versão cinematográfica vivida por Ravache. Da mesma maneira, é fascinante observar como Spoladore, graças aos figurinos e à fotografia de Guillermo Nieto, surge sempre em um tom sépia, como se fosse uma polaroide ambulante que representasse, com sua própria figura, a nostalgia de um tempo de luta que, mesmo dolorido, trazia sonhos libertários e utópicos que indicavam uma ingenuidade há muito perdida.

Marcada pelas barbaridades sofridas na ditadura (algo que, com dor – mas orgulho -, vejo em minha própria família, que inclui torturados pelo regime), Ana é, ao seu próprio modo, uma figura tão marcada quanto o Frei Tito homenageado pelo excepcional Batismo de Sangue de Helvécio Ratton: alguém que perdeu nos porões da Ditadura a capacidade de enxergar o mundo com inocência ou, no mínimo, sem ansiedade – e, assim, é perfeito que Murat só exiba a versão jovem de Ana, deixando sua carcaça desiludida e envelhecida fora de campo e apropriadamente na UTI, transformando a figura bela e jovial de Spoladore num fantasma que representa, assim, todos os mortos (física ou psicologicamente) da ditadura.

Trazendo um elenco que não conta com um único elo frágil e no qual se destacam a excelente Ravache, a evocativa Spoladore e os jovens Miguel Thiré e Naruna Kaplan de Macedo, A Memória que me Contam só soa a ficção absurda quando traz jornalistas cobrando do Ministro da Justiça um posicionamento rápido sobre a abertura dos arquivos da ditadura – já que, na realidade, o único momento no qual a velha mídia se interessou de fato pelo assunto foi ao buscar elementos no passado de nossa atual presidenta que pudessem prejudicá-la durante sua campanha (basta lembrarmos da ficha falsa publicada pelo maior jornal do país, a Foxlha de São Paulo). Além disso, do ponto de vista técnico o longa fascina também pelo seu magnífico desenho de som, que muitas vezes traz sussurros do passado (“Somos revolucionários!”) ecoando nos atos presentes, e pela montagem fluida que ilustra a interação da jovem Ana com seus companheiros agora envelhecidos de maneira brilhante.

Homenagem não só à Vera Sílvia, mas a todos que enfrentaram a ditadura e foram por ela destruídos, A Memória que me Contam é uma pequena obra-prima que toca não só por seus méritos artísticos, mas também políticos. “Eu estou sobrevivendo a mim mesma”, diz Ana em certo momento, reconhecendo sua dificuldade em permanecer viva e funcional após as barbaridades sofridas. Pois este filme representa um bem-vindo abraço de conforto a todos que dividem com ela este sentimento. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Críticas, Premiações e eventos