Lost at Sea: The Jon Ronson Mysteries

Jon Ronson é um jornalista britânico que se especializa em investigar histórias de tom absurdo envolvendo pessoas comuns e histórias relativamente comuns envolvendo pessoas absurdas – entre as primeiras, há o caso do vencedor do “Show do Milhão” britânico que acabou sendo julgado por trapacear (o que acabou inspirando Quem Quer Ser um Milionário?) e da cidadezinha no Alaska que busca manter o clima natalino por todo o ano; já entre as segundas, há as crianças “Indigo”, supostamente dotadas de poderes sobrenaturais, e ninguém menos do que Stanley Kubrick, cujos arquivos Ronson teve a oportunidade de investigar após a morte do cineasta.

Assim, neste Lost at Sea, uma antologia de seus artigos publicados em vários veículos, diversos relatos como estes divertem e impressionam graças ao tom bem humorado e auto depreciativo utilizado pelo autor, que percorre o mundo exibindo um ótimo faro para narrativas potencialmente fascinantes. Em um artigo, por exemplo, ele pode se encontrar numa cidadezinha sueca a fim de conversar com o sujeito que tentou alcançar a fissão nuclear em sua cozinha e, no momento seguinte, surge a bordo de um cruzeiro com o único propósito de conseguir uma entrevista difícil com uma médium que alega ser capaz de revelar o paradeiro de crianças desaparecidas, trazendo imenso sofrimento aos pais com suas “visões” incorretas.

No meio do caminho, Ronson frequentemente provoca o riso ao se colocar como personagem neurótico de seus relatos – o que não o impede, claro, de extrair confissões impressionantes de seus protagonistas, já que, ao mergulhar por semanas ou meses em cada história, acaba criando um vínculo profundo com aquelas pessoas. Assim, mesmo que sintamos arrepios ao ler a seguinte passagem dita por um homem condenado por pedofilia, não podemos deixar de admirar a habilidade do jornalista de levá-lo a se abrir com tanta franqueza (a tradução é minha):

“Chris Denning perguntou se eu queria saber qual era a pior coisa com relação a sentir-se atraído por menores de idade.

“Infelizmente,” ele disse, “eles crescem. Desaparecem. A pessoa pela qual você se sentia atraído some. Deixa de existir. Você nunca poderá ter uma relação duradoura com eles. É muito triste.”

Aliás, se há algo curioso que poderia ser visto como um problema na abordagem de Jonson, este reside em sua natureza excessivamente compassiva: é frequente que, ao final de suas matérias, ele revele ter se apegado aos seus entrevistados – mesmo quando estes são picaretas que se passam por médiuns, pedófilos condenados ou multibilionários que ressentem o fato de serem vistos como privilegiados que deveriam pagar mais impostos. Em alguns destes artigos, surge, inclusive, a impressão de que o autor poderia ter sido mais cáustico em suas conclusões caso não tivesse se deixado envolver pelos personagens.

Isto, porém, não torna suas histórias menos interessantes, envolventes ou divertidas.

Observação: a edição em paperback do livro traz um artigo adicional que não se encontra no ebook, mas que pode ser comprado separadamente por apenas 3 dólares (comprei ambos): The Amazing Adventures of Phoenix Jones – And the Less Amazing Adventures of Some Other Real-Life Superheroes. Único artigo a trazer fotos (fantásticas) acompanhando o texto, é também uma das mais engraçadas, expondo a dedicação e o apego de Jonson aos indivíduos que descobre para suas histórias e envolvendo passagens hilárias como aquela que narra a tentativa de Phoenix Jones de usar uma arma que dispara uma rede de pesca e que, em sua estreia, acabou prendendo o próprio herói, que teve que ser resgatado pela polícia.

Lost at Sea: The Jon Ronson Mysteries, Jon Ronson
Riverhead, 2012
416 páginas

The Amazing Adventures of Phoenix Jones – And the Less Amazing Adventures of Some Other Real-Life Superheroes
Riverhead, 2011
53 páginas

postado em by Pablo Villaça em Livros