O Rapaz da Moto

Ouviu o próprio estômago roncando e sentiu-se irritado. Já se encontrava ali há cerca de uma hora e a mulher não aparecera no horário habitual. Sentiu vontade de retirar o capacete, mas conteve-se: não era estúpido e sabia que fazê-lo seria extremamente arriscado.

Olhou para os lados e verificou que continuava sozinho na rua escura. Ajeitou-se no banco da moto e cruzou os braços.

A melodia do refrão de “Ai, Se Eu te Pego” invadiu o silêncio e ele rapidamente enfiou a mão no bolso da calça e pegou o celular.

“Oi?”

“Meu filho, onde cê tá?”

“Mãe, eu avisei a senhora que ia chegar tarde!”

“Mas já é duas da manhã!”

“Eu sei, mãe! Por isso que falei que ia chegar tarde!”

“Cê vai demorar muito ainda?”

O rapaz olhou para o fim da rua. Nada.

“Não sei, mãe. Acho que vou.”

Ouviu o silêncio apreensivo do outro lado da linha. Depois de alguns segundos, a pergunta que ele sabia que viria:

“Cê tá bebendo, menino?”

“Não, mãe! Cê sabe que eu parei!”

Pela respiração pesada, percebeu que ela estava tentando avaliar sua dicção.

“Tá bom. Lembra do que o pastor falou, meu filho: álcool é ferramenta do demônio.”

“Eu sei, mãe.”

“Tá bom, então. Quando vier, passa numa farmácia 24 horas e compra uma caixa de leite integral pro seu irmão.”

“Tá bom, mãe.”

“Deus te abençoe, meu filho. Juízo.”

“Eu tenho, mãe.”

Guardou o telefone e suspirou irritado. Mal podia esperar para sair de casa. Porém, havia decidido que só o faria quando Fabrícia aceitasse ir morar com ele – e a garota parecia hesitante.

Namoravam há seis meses. Ele tinha 19 anos; a moça, 16. Haviam se conhecido num baile funk, quando ela ainda namorava um sujeito conhecido no morro como “Chapa” – um apelido resultante de sua natureza simpática e do fato de jamais negar uma carona em sua moto bacana. Em pouco tempo, no entanto, Fabrícia rompera com o rapaz e passara a ser sua namorada – e ele jamais se sentira tão feliz.

Havia, claro, alguns tropeços. Há alguns dias, descobrira que ela mantinha várias fotos íntimas tiradas com o Chapa em seu celular, o que resultara numa das piores brigas que haviam tido. Finalmente, ela dissera que iria apagá-las, mas sem muita firmeza. Será que ainda gostava do cara?

Retirou as luvas de couro e voltou a consultar o relógio: 2h15. Porra.

“Cadê a porra da mulher?”

Fabrícia era uma jovem de temperamento forte, mas parecia gostar dele. Dizia que ele era “o grande amor da sua vida”, mas o que uma menina de 16 anos podia saber sobre o assunto? Pensou em terminar o relacionamento para testá-la: se voltasse com o tal Chapa, isto significaria que ele realmente não passara de um passatempo, de um romance esquecível.

Isto o destruiria, claro, mas ao menos saberia que jamais fora realmente importante para a garota. Por outro lado, se ela permanecesse sozinha por tempo suficiente, talvez isto significasse que…

A luz de faróis no final da quadra o trouxe de volta à realidade.

“Fica esperto, caralho.”, disse para si mesmo.

Quinhentos reais não eram uma fortuna, mas eram dinheiro. Se agisse com competência e profissionalismo, várias portas se abririam e isto certamente facilitaria seus planos de transformar Fabrícia em sua companheira.

O estômago voltou a roncar.

“Putaqueopariu.”

Três e quinze da madrugada.

Desceu da moto e posicionou-se sob uma árvore que o mantinha protegido da luz projetada pelo poste mais próximo. Bateu os pés no chão ao perceber que se encontravam dormentes.

“Porra.”

Quando Matias o abordara no bar do Bigode, dois dias atrás, fizera parecer que seria algo simples.

“Tá a fim de ganhar quinhentos facinho?”

“Sempre.”

Afastaram-se dos bêbados locais e Matias explicou do que se tratava.

“Dá conta?”

“Ô. Moleza.”

Moleza o caralho. Estava ali há três horas, já. Faminto, com frio e agora sob o escrutínio da mãe.

Tirou o celular do bolso e ligou para Fabrícia.

“Ei, princesa.”

“Ei.”

“Tá fazendo o quê?”

“Tô deitada. Minhas costas estão doendo.”

“Ah. Tava pensando em dar uma passada aí.”

“São três da manhã. Meu pai vai ficar puto se você vier agora.”

O pai. Sei. Será que ela estava com o Chapa?

“Tá fazendo o quê?”

“Já te falei. Tô deitada.”

“Ah.”

Ficaram em silêncio por alguns segundos. Finalmente, ela perguntou onde o namorado estava.

“Ah… tô num bar aqui. Só tô esperando um chegado e aí vou praí.”

“Pra cá, não. Eu te falei que meu pai não ia gostar.”

Ele tentou apurar a audição o máximo possível a fim de perceber se ouvia alguma voz inesperada do outro lado da linha.

“Cê tá sozinha?”

“Já te falei. Tô na cama.”

“Mas tá sozinha?”

Ela desligou o telefone.

Piranha.

Chegou a iniciar o gesto de atirar o celular no chão, mas conteve-se.

Fabrícia não era uma “piranha”. Era seu amor. E o tal Chapa não era seu competidor, mas apenas mais um apaixonado por aquela criatura admirável.

E se fosse bem honesto, admitiria que o outro seria um companheiro melhor para a moça do que ele. Tinha um emprego estável em um banco, era devotado (mesmo depois de rejeitado) e levaria uma vida previsível ao seu lado. Jamais despertaria na garota um sentimento de paixão enlouquecedor – algo comum a todos os grandes amores -, mas traria segurança. E ela merecia isso.

Ou esta segurança seria uma sentença em vez de um presente?

Foda-se. Ela jamais teria a oportunidade de descobrir, pois seria sua mulher.

Voltou a sentar-se na moto.

Pensou na mãe e em Fabrícia. Queria despertar orgulho nas duas mulheres e julgava ser capaz de fazê-lo. Não era um sujeito mau; carecia apenas de oportunidades. Matias podia representar um contato fundamental para que se envolvesse mais na dinâmica da comunidade, já que era braço direito de Cartolina – que ganhara esse apelido por deixar epitáfios escritos em papelão em volta do pescoço de suas vítimas.

Sua mãe pedira leite desnatado ou integral? Nunca conseguia se lembrar. O irmão mais novo tinha apenas 9 meses de idade e ele se lembrava de que, nessa idade, um dos dois tipos era o mais recomendado, mas sempre se confundia. Teria que perguntar na farmácia. Isto, claro, se encontrasse alguma aberta.

O refrão de “Ai, Se Eu Te Pego” voltou a tocar.

“Eu.”, atendeu.

“E aí, moleque?”

“Fala, Matias. A porra da mulher não apareceu ainda, véi.”

“Que porra, hein?”

“Pois é.”

“Fica ligado, então, caralho.”

“Eu tô”.

“Beleza, então. Me dá um toque depois, valeu?”

E desligou.

Sem qualquer motivo aparente, o rapaz lembrou-se do pai, morto aos 37 anos em um tiroteio com a polícia. Sabia que o maior temor da mãe era que ele terminasse da mesma maneira, mas sabia que isto não aconteceria. Primeiro, porque não pretendia fazer do tráfico um emprego (no máximo, um bico); segundo, porque não era violento como o pai, que se orgulhava de ter matado um desafeto apenas porque este o acusara de roubar num jogo de cartas.

4h10.

Voltou a descer da moto para urinar atrás da mesma árvore que o abrigara antes. Será que deveria se arriscar a correr até o trailer da avenida principal para comprar um misto?

Sabia que não.

Puta. Que. Pariu.

Quem era a tal mulher, afinal de contas? Tudo que Matias dissera era que Cartolina se encontrava numa disputa legal com ela em função de um bar. Claro que não fazia diferença, mas ainda assim era frustrante estar completamente às escuras.

Deveria ter cobrado mais.

Pensou na mãe e imaginou como ficaria feliz ao receber o dinheiro extra. Talvez se mostrasse inquieta inicialmente, questionando sua origem, mas já sabia o que dizer para tranquilizá-la: recebera a quantia do Parara, um amigo de infância que há muito não aparecia na comunidade e que lhe devia muito mais do que aquilo por ter roubado seu Playstation há três anos. Diria que esbarrara com ele no centro e que ele, arrependido, lhe dera os quinhentos reais. Ela acabaria acreditando. Porque iria querer acreditar.

Será que deveria ligar novamente para Fabríc…

Faróis.

Baixou o visor do capacete e observou o carro que se aproximava. A placa conferia.

Voltou a subir na moto enquanto a mulher passava à sua frente e virava na esquina seguinte. Sabia que em dez segundos ela iria parar em frente à garagem de casa, o que lhe daria tempo suficiente para agir enquanto o portão estivesse sendo aberto.

Ligou a moto e lentamente se aproximou da esquina.

“Puta que o pariu.”

Havia esperado ver a mulher descendo do carro para abrir o portão, mas, em vez disso, um menino de cerca de dez ou onze anos abrira a porta do passageiro e atravessara a rua para desempenhar a tarefa enquanto a motorista aguardava para entrar na garagem.

“Que se foda essa merda.”

Arrancou a moto. Segurando o guidão com a mão esquerda, enfiou a direta no casaco de couro e puxou a arma, que pareceu mais pesada do que esperava. Normalmente, usava uma .38, mas Matias lhe entregara uma Taurus .40 ao acertar o serviço com instruções precisas para que se livrasse da semiautomática assim que tudo estivesse terminado.

Havia destravado a arma?

Porra.

Parou ao lado da janela da motorista e apontou a pistola para a cabeça da mulher, que levou uma fração de segundo para perceber que havia alguém ali. Antes que ela sequer pudesse registrar surpresa ou pânico, ele apertou e segurou o gatilho.

A primeira bala partiu o vidro, que se dividiu em centenas de fragmentos que, por alguns milissegundos, pareceram congelados no tempo até cederem à gravidade e revelarem o interior do automóvel. Como em câmera lenta, o rapaz viu o projétil entrar na bochecha esquerda da mulher, abrindo um rombo e lançando gengiva, carne e dentes em sua direção. Sem deixar de pressionar o gatilho, viu a segunda bala penetrar na testa da desgraçada, partindo seu crânio como manteiga e pintando o teto do carro com massa encefálica.

Poderia jurar que vira os olhos da pobre se apagando.

Em questão de quatro ou cinco segundos, disparara outros nove tiros e vira, com certo choque, o rosto da vítima se desfazer completamente. Quase lamentara ter que se livrar da Taurus.

O interior do carro da mulher era, agora, uma mistura de sangue, ossos e tecido morto. Inclinou a cabeça para dentro do veículo menos com o objetivo de conferir se o serviço estava feito (sabia que estava) e mais por curiosidade. Caos em forma de carne desfeita.

E então ouviu os gritos do menino.

Girou a cabeça e viu o garoto atravessar a rua correndo em direção ao carro da mãe, que começara a se movimentar lentamente.

Acelerou a moto e partiu em disparada. Pelo retrovisor, viu o menino abrir a porta do carro, olhar para o corpo despedaçado da mãe e se ajoelhar no meio da rua.

Entrou na avenida, se juntou ao pouco tráfego local e tentou se lembrar da farmácia mais próxima dali.

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