Promessas

LUÍSA ERA UMA MÃE ADORÁVEL. Aos 55 anos, vivia pelos dois filhos, Márcio e Camila, desde que decidira abandonar a profissão de administradora de empresas para se dedicar a uma atividade que julgava infinitamente mais nobre: acompanhar de perto o crescimento de seus pequenos. Durante os últimos 25 anos, desde que Márcio nascera, ela estabelecera uma rotina centrada nos filhos, estudando, brincando, passeando e estimulando a imaginação das crianças. Às vezes, claro, imaginava como sua trajetória teria sido caso jamais houvesse engravidado, mas bastava lembrar do rosto de seus amores para saber que não seria feliz de outra maneira. Não daquela forma. Cada vitória dos filhos era sua própria: formado em Medicina há cerca de um ano, Márcio dava provas diárias de seu imenso coração ao trabalhar como voluntário em comunidades carentes da cidade – e, embora ele jamais houvesse lhe contado isso, ela sabia que em ao menos três ou quatro ocasiões, o rapaz usara seus contatos profissionais para ajudar indivíduos sem recursos que precisavam desesperadamente de algum tratamento. Enquanto isso, Camila, que preferira seguir a carreira do pai, via-se prestes a formar-se em Direito e, insegura, questionava-se sobre o acerto da escolha. A angústia, porém, não a impedia de se manter uma jovem doce e carinhosa com a família e os amigos. E seja lá o que decidisse, sabia que poderia contar com o apoio da mãe. Luísa estava feliz. Construíra uma boa vida.

EDUARDO ABRIU OS OLHOS, ainda sentindo-se grogue. Imediatamente, experimentou uma forte dor no abdômen que lhe tirou o fôlego por alguns segundos. Vendo o mundo embaçado diante de si, ergueu o braço direito com dificuldade e buscou os óculos no criado-mudo – e só então percebeu que não estava em seu quarto. Piscou, confuso, e girou a cabeça para o lado. Em uma poltrona no canto do aposento, seu irmão dormia desajeitadamente. Agora se lembrava de onde estava: no hospital. A dor que sentia era resultado da remoção de seu rim esquerdo. Pensou no sobrinho adolescente e sentiu uma pontada maior – desta vez, de preocupação. Como ele estaria? Apresentando insuficiência renal desde a infância, Geraldo havia sido praticamente um filho da hemodiálise até que, há alguns anos, seu pai (o irmão de Eduardo que agora dormia na poltrona) doara um dos rins ao garoto. A cirurgia tivera relativo sucesso e Geraldo fora capaz de levar uma vida normal pela primeira vez em seus 13 anos. Pintor promissor, passara a frequentar uma escola de arte cujos professores viam no garoto possibilidades infinitas. Mas o rim doado começara a falhar e o rapaz se tornara ainda mais fragilizado do que antes. Um novo transplante fora aventado e, depois de muitas discussões médicas, concluíra-se que a tentativa valeria a pena. Sem qualquer hesitação, Eduardo se oferecera como doador – e, secando os olhos do irmão agradecido, dissera apenas: “Se eu não ganhar um quadro depois disso, vou ficar com muita raiva!”. Olhou para o homem dobrado na poltrona e sorriu: sabia que o irmão, como qualquer pai, queria estar com o filho naquele momento – e o fato de estar ali, deitado em seu quarto de hospital, significava a dimensão de sua gratidão. Ou talvez (e o estômago de Eduardo congelou ao pensar nisso) algo de errado ocorrera durante a cirurgia de Geraldo. Moveu-se com dificuldade e o som acordou o outro. Olharam-se por alguns segundos intermináveis e, finalmente, viu o irmão abrir um largo sorriso.

JORDANO OLHOU AO REDOR e estudou os rostos das 14 pessoas que, com ele, compunham o círculo no meio da sala. Oito meses de tratamento, conversas e discussões culminavam naquela última reunião. Sentia-se amedrontado e inseguro. Por cinco intermináveis anos, entregara-se às drogas com a voracidade de um homem faminto diante do primeiro prato de comida em dias: experimentava e viciava-se em tudo. Perdeu dentes, ganhou rugas precoces, afastou a mulher que amava e espantou a própria família. No ponto mais baixo, cometeu pequenos roubos e tentou prostituir-se. Sabia que não chegaria aos 30 anos de idade. Mas chegou. E então, certa noite, enquanto injetava uma mistura barata e perigosa de heroína e codeína no braço (que chamava, rindo, de “coquetel suicida”), se deu conta de que não queria morrer – mas que, ao mesmo tempo, sentia pavor de sobreviver. O que poderia fazer agora, aos 32 anos? Não se lembrava de nada que aprendera na faculdade, jamais trabalhara mais do que alguns meses no mesmo lugar, não tinha amigos e sua saúde encontrava-se num tal estado que chamá-la de “saúde” era, por si só, uma piada de mau gosto. Como um sinal dos céus, neste momento teve um ataque cardíaco. Acordou no hospital, cinco dias depois, diante de uma ruiva cujo sorriso compensava a falta de beleza. Jordana era seu nome – e, depois de brincar com a coincidência, ela o olhou com expressão séria e perguntou apenas: “E aí? Você quer fazer alguma coisa da sua vida ou prefere o caixão?”. Com sua ajuda, o rapaz encontrara vaga numa clínica. E agora, oitos meses depois, olhava para frente com esperança pela primeira vez em muitos, muitos anos.

LUCIANA ENCAROU O COMPUTADOR e sentiu o coração disparar. Estava perto. Muito perto. Há meses dedicava-se àquela linha de pesquisa específica e agora parecia prestes a ver seus esforços recompensados. Os últimos testes trouxeram resultados infinitamente melhores do que ela havia esperado mesmo em seus momentos de maior otimismo: a droga, que inicialmente parecia levar a mais um beco sem saída, funcionando no máximo como paliativo, como um adiamento da reprodução desenfreada das células, estava conseguindo não apenas impedir o avanço da doença como, associada a um componente desenvolvido por pesquisadores canadenses, também dava mostras de ser capaz de levá-la a regredir. Aos 39 anos, Luciana percebeu que poderia se tornar a pessoa que livraria a humanidade do câncer.

SÉRGIO NÃO GOSTAVA DE SER CHAMADO DE “ATIVISTA”, mas não conseguia evitar que as pessoas se referissem a ele desta maneira. A seu ver, o que fazia era apenas lógico: via-se numa posição capaz de trazer alguma diferença para a sociedade, algum avanço, e virar as costas seria uma tremenda covardia. Não era ativismo, era apenas reconhecer a própria responsabilidade. Ele se dera conta de que era homossexual muito cedo: aos 7 anos, percebera o coração batendo aceleradamente ao ver um coleguinha de sala chegar à sua festa de aniversário e constatara que o amava. Ainda assim, acostumado a ouvir o pai fazer piadas grosseiras sobre “veados” e até mesmo a suportar suas provocações sobre seu apego excessivo à mãe (“Quer vestir uma sainha, também? Passar um batonzinho?”), tinha consciência de que aquela paixão era algo profundamente errado. Apenas aos 15 anos, ao sofrer por mais um amor não perseguido, concluiu que ou abraçava quem era ou cortava os pulsos. Cortou os pulsos. Não morreu, claro, mas isto obrigou seus pais a perceberem que a felicidade do único filho dependia de um simples ato de aceitação. Sabia que especialmente o pai havia sofrido terrivelmente – e a persistência do homem em compreender o filho (por mais que aquilo fosse de encontro a uma vida de cultura machista e preconceituosa) levou o garoto a desenvolver uma nova e inesperada afeição pelo velho. Tornou-se professor e amava o que fazia. Apaixonou-se, namorou, dividiu a cama e a vida com Alex por dez anos. Com surpresa, viu o companheiro e o pai desenvolverem uma forte amizade. E então Alex foi espancado até a morte por um grupo de rapazes que o viram comprar uma revista gay em uma banca na rua. A perda do amado lançou Sérgio em uma profunda crise de depressão da qual foi resgatado, mais uma vez para seu choque, pelo pai. Impulsionado por este, fundou uma ONG e passou a militar pelos direitos homossexuais e contra a intolerância. E hoje era o mais importante ativista da causa no país. Embora detestasse ser chamado assim.

ANALU BEIJOU HIEROÍSES e, com os olhos ainda cerrados, ouviu o padre dizer que agora eram “marido e mulher”. Imaginou os dias seguintes em Porto Seguro, visualizou o apartamento que com tanta dificuldade haviam montado, pensou nos filhos que teriam e abriu os olhos para ver dezenas de parentes e amigos celebrando sua felicidade.

FLÁVIA ABRIU A PASTA E FOLHEOU OS DOCUMENTOS. Inacreditável. Quatrocentos e trinta milhões de reais desviados do governo do estado em menos de dois anos e ninguém abrira a boca. Alguns indícios de que algo muito errado estava acontecendo podiam ser percebidos claramente por qualquer um que estivesse prestando atenção, mas os jornais permaneciam mudos – talvez por medo da irmã do governador, conhecida por pedir a cabeça de repórteres sem qualquer hesitação, mas também porque as empresas sabiam que dependiam da verba publicitária do governo para que pudessem fechar as contas ao final de cada mês. Ainda assim, a garota de apenas 27 anos decidira fazer algo a respeito. Sabia que a verba desviada deveria ter sido usada para alimentar os jovens estudantes da rede pública e, em parte, na compra de materiais escolares – e considerava inaceitável que, em vez disso, estivessem agora forrando as contas bancárias de uma dúzia de indivíduos em bancos no exterior. Ao longo de catorze meses, Flávia sondara discretamente seus contatos próximos à administração até que, finalmente, encontrara alguém disposto a ajudá-la. Ao lado de sua agora cúmplice, uma senhora de meia-idade que ocupava um cargo de confiança criado por um secretário de Estado, a jornalista rastreou o dinheiro em sua trajetória confusa ao longo de ao menos quatro instituições bancárias e duas empresas-fantasma. Precisou se educar com relação aos meandros da burocracia, mas, com a dedicação que marcava sua personalidade desde a infância, aprendeu a ler aqueles documentos. E agora sabia ter, em mãos, material suficiente para escrever uma série de artigos que não poderiam ser ignorados nem mesmo por seus comprometidos superiores. Abriu o processador de textos e começou a digitar furiosamente.

MADRUGADA DE 27 DE JANEIRO DE 2013. Luísa, Eduardo, Jordano, Luciana, Sérgio, Analu, Hieroíses e Flávia, jovens oscilando entre os 18 e os 24 anos, saíram de suas casas em uma noite fria na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Animados, antecipavam uma noite de risadas, paqueras, dança e alegria.

Morreram asfixiados no chão de uma boate tomada por um incêndio.

postado em by Pablo Villaça em Variados