House of Cards – Primeira Temporada

Há uma expressão em inglês cuja existência descobri há alguns dias e que descreve exatamente algo que ocorreu comigo nas últimas 24 horas: binge-watching. Trata-se, como é fácil deduzir pela tradução literal, de entregar-se a uma espécie de bebedeira ocular – no meu caso, da série House of Cards, cuja primeira temporada consumi praticamente sem interrupções. Treze episódios ou aproximadamente 11 horas de história.

Produzida pelo Netflix norte-americano (mas disponível no brasileiro), a série teve seus dois primeiros episódios dirigidos por ninguém menos do que David Fincher, que, fiel a colaboradores antigos, escalou atores como Robin Wright, Kate Mara e Mahershala Ali como coadjuvantes de seu também parceiro (em Se7en) Kevin Spacey. Adaptada de um livro que também originou uma produção britânica, House of Cards gira em torno do congressista Francis Underwood, que, depois de ajudar na eleição do presidente democrata Garrett Walker, está certo de que será nomeado para o posto de Secretário de Estado. Quando isto não acontece, ele dá início a um longo e elaborado plano que o levará a ocupar um cargo ainda mais ambicioso, mesmo que para isto precise destruir postos de trabalho e vidas no processo.

Vivido por Spacey com o cinismo e a frieza que se tornaram marcas registradas do ator ao longo dos anos (e também com uma notável segurança acerca da própria inteligência), Underwood é o tipo de personagem que o Cinema norte-americano adorava abraçar entre os finais das décadas de 60 e 70, mas que se tornaram cada vez mais raros a partir dos escapistas anos 80: um protagonista que ultrapassa a definição de anti-herói e flerta com a pura vilania.

E como é bom torcer para um vilão do calibre de Francis Underwood, que parece estar sempre dois ou três passos à frente de seus adversários – e nos raros momentos em que ele tropeça, é igualmente satisfatório vê-lo arquitetando saídas de urgência.

Ambientada nos bastidores do poder em Washington, House of Cards salta das salas imponentes do congresso e da Casa Branca para as noites escuras e becos da cidade com fluidez – e, ao longo dos 13 episódios, passamos quase a mesma quantidade de tempo nos dois ambientes. Além disso, as alianças sempre móveis formadas entre os personagens deixam o espectador sempre inseguro sobre o que acontecerá no episódio seguinte: aqui, o problemático congressista Peter Russo (Corey Stoll, que vive o arco dramático mais intenso da temporada) surge como um sujeito incapacitado pelas drogas e pelo álcool apenas para, dois ou três episódios depois, mostrar-se decidido a recolocar a vida nos eixos. O que, claro, pode desmoronar no minuto seguinte apesar ou por causa de sua aliança com Underwood.

Enquanto isso, Robin Wright, como a esposa do protagonista, compõe uma mulher multifacetada que traz características de uma autêntica Lady Macbeth associadas a outras infinitamente mais nobres que lhe conferem uma inesperada vulnerabilidade à medida que a trama se desenvolve. Da mesma maneira, Kate Mara percorre uma trajetória convincente de repórter inexperiente e faminta à posição de jornalista competente e cínica.

Há, claro, momentos pontuais nos quais a série parece apenas tentar preencher os 49 minutos habituais de cada episódio – e aquele que se passa num fim de semana no qual Francis será homenageado é particularmente frágil -, mas, de modo geral, House of Cards mantém a trama sempre em movimento e cada vez mais complexa. Além disso, a estrutura narrativa, que permite a quebra constante da quarta parede para que Underwood explique sua visão de mundo para o espectador, acaba funcionando melhor do que o esperado (especialmente quando, em certo instante, ele sugere estar conversando com “a plateia errada”).

Não sei se haverá ou não uma segunda temporada, já que a primeira consegue se resolver bem mesmo deixando caminhos óbvios para o prosseguimento da história, mas eu adoraria poder continuar a acompanhar as implacáveis estratégias de Frank Underwood, este canalha admirável.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê