O Vazio que Fere

A morte é um espaço subitamente vazio em nosso cotidiano. De um momento para outro, os itens mais prosaicos ganham contornos míticos: uma poltrona que costumava oferecer descanso às pernas de quem partiu assume a característica de um trono vacante; a pasta que carregava se torna um símbolo de sua vida; o celular agora abandonado, um catálogo de memórias, relacionamentos e compromissos para sempre adiados.

Solitário, o quarto se converte num museu, num santuário: ali a pessoa amada deitava-se todas as noites para sonhar; naquela cadeira no canto sentava-se para ler (e ainda me lembro de sua expressão concentrada diante dos versos de Drummond); no armário, as roupas colecionadas ao longo da vida carregam seu cheiro e mesmo os vincos formados pelas dimensões particulares de seu corpo.

Sobre a mesa do escritório, os fósseis de suas preocupações rotineiras: um bloco de anotações com telefones desconhecidos que devem ter lhe parecido terrivelmente importantes mesmo que por alguns segundos, contas de gastos agora misteriosos, um nome (“Fabrícia”) que pode significar qualquer coisa ou nada. Provavelmente algo.

O último livro adotado da imensa estante encontra-se no centro da escrivaninha, com um pequeno vão entre as páginas 192 e 193 indicando as últimas palavras lidas de uma narrativa que permanecerá em suspenso.

Cada aposento da casa é um pequeno memorial. A mesa de jantar revela seu assento costumeiro, que adotava por apreciar a maneira com que a luz vinda da janela se derramava à sua frente; a tevê ainda sintoniza seu canal de filmes favorito. Uma breve consulta à programação do receptor do cabo revela uma pequena lista de atrações que havia programado para gravar: sua tola série policial (“É meu guilty pleasure.”), dois filmes de John Ford e, como um estranho invasor, um reality show sobre culinária. Se nos esforçarmos, podemos visualizar seu rosto concentrado ao apertar os botões do controle remoto, que sempre lhe pareciam um pequeno desafio tecnológico, e sua satisfação ao perceber que conseguira registrar os programas.

Que agora continuariam inéditos.

O copo sujo na pia da cozinha traz a marca de seus lábios agora para sempre cerrados. As frutas compradas dias antes e escolhidas com tanto cuidado agora apodrecerão como seu corpo.

A escova de dente, ainda úmida, revela a preocupação com aquelas que serão as partes remanescentes de seu cadáver.

Sua ausência súbita grita por toda a casa.

Neste sentido, a morte não é muito diferente do fim de um amor. Lembranças de um cotidiano de sorrisos, beijos, orgasmos, experiências compartilhadas e afeto são despertadas não apenas pelas óbvias cartas e mensagens de texto, mas também pelos mais improváveis elementos: um vídeo no YouTube que traz o comediante Norm MacDonald destruindo de improviso a ex-estrela de uma série adolescente; uma canção do Wilco ou do David Bowie; o som insistente de um app de mensagens do iPhone; a foto de um tênis sujo.

Esta é a maior angústia do luto: mergulhar quem o experimenta em um estado de espírito sempre susceptível a um golpe inesperado do passado. Sentimo-nos bem, curados, até mesmo felizes – e, do nada, uma besteira qualquer dispara aquele espaço da mente especializado em nos torturar com a perda sofrida, transformando o estômago em uma bola de ferro, enviando calafrios ao longo da coluna e arrancando lágrimas de lamento pela ausência de quem a morte ou um novo amor levou.

E percebemos, então, que todo aquele espaço não se encontra de fato vazio, mas repleto de saudades.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Variados