Eu não temo a morte

Lidar com a morte de Roger tem sido um processo… complexo. Ao mesmo tempo em que tento me desconectar e pensar em tudo que ele deixou para trás, em seu maravilhoso legado, acabo me deparando com textos, vídeos, emails e posts produzidos por meu mestre e amigo e não consigo evitar um sentimento profundo de perda, de desperdício. Lendo os emails enviados por sua adorável Chaz nos últimos dois dias, percebo o sofrimento desta mulher magnífica e só posso imaginar como, depois de décadas de convivência diária com Roger, ela se sente agora. E quero abraçá-la. E ser por ela abraçado.

E então me lembrei de uma passagem da autobiografia de Roger, o lindo “Life Itself” (cujo capítulo 9 traduzi aqui), e decidi que traduzi-la e publicá-la aqui seria uma boa maneira de (tentar) seguir adiante. Pois, com seu talento magistral para as palavras, o mestre deixou uma despedida mais do que apropriada ao refletir sobre a própria morte (e espero ter feito jus ao texto com minha tradução):

Eu sei que ela está vindo, mas não a temo, pois acredito que não há nada do outro lado da morte para temer. Espero ser poupado o máximo possível da dor no caminho de chegada. Eu era perfeitamente feliz antes de nascer e penso na morte como sendo o mesmo estado. Sou grato pelos dons da inteligência, do amor, da capacidade de maravilhar-me e do riso. Não se pode dizer que não foi interessante. As memórias de minha vida são o que eu trouxe de volta da viagem. Não precisarei delas na eternidade mais do que precisarei daquele pequeno souvenir da Torre Eiffel que trouxe de Paris.

Não espero morrer logo. Mas poderia acontecer neste momento, enquanto escrevo. Outro dia eu conversava com Jim Toback, um amigo há 35 anos, e a conversa se voltou para nossas mortes, como sempre acontece: “Pergunte a qualquer um como se sente sobre a morte”, ele disse, “e eles te dirão que todo mundo morrerá. Pergunte então: ‘Nos próximos 30 segundos?’. Não, não, isso não. ‘E esta tarde?’ Não. O que você realmente está querendo que eles admitam é: Oh, meu Deus, eu não existo de verdade. Eu posso partir a qualquer segundo.”

Eu também posso, mas espero que não parta. Tenho planos. Ainda assim, a doença me conduziu resolutamente em direção à contemplação da morte. Isto me levou ao tema da Evolução, a mais consoladora de todas as ciências, e me vi envolvido em meu blog em discussões inesperadas sobre Deus, o pós-vida, religião, teoria da evolução, design inteligente, reencarnação, a natureza da realidade, o que veio antes do big bang, o que aguarda após o fim, a natureza da inteligência, a realidade do Eu, morte, morte, morte.

Muitos leitores me informaram que é um negócio trágico e melancólico ir em direção à morte sem alguma fé. Eu não sinto isso. A “Fé” é neutra. Tudo depende daquilo em que se acredita. Eu não tenho desejo algum de viver para sempre. O conceito me apavora. Tenho 69 anos, tive câncer, vou morrer antes da maioria das pessoas que agora leem isso. Esta é a natureza das coisas. Em meus planos para a vida após a morte, digo, novamente com Whitman:

Eu me lego à poeira para crescer da grama que amo,
Se me quiser de novo, procure-me sob suas botas.

E com Will, o irmão no Herzog de Saul Bellow, eu digo: “Procure por mim nos boletins meteorológicos”.

Criado no Catolicismo Romano, internalizei os valores sociais daquela fé e ainda mantenho muitos deles, mesmo que sua teologia não consiga mais me persuadir. Não tenho problema com o que as outras pessoas seguem; todos lidam com essas coisas à própria maneira e eu não tenho verdades para compartilhar. Tudo o que peço de uma religião é que seja tolerante com aqueles que não concordam com ela. Conheço um padre cujos olhos brilham quando diz: “Faça o trabalho de Deus à sua maneira que eu farei à maneira Dele”.

O que creio que acontecerá é que meu corpo falhará, minha mente parará de funcionar e pronto. Meus genes não seguirão adiante, pois não tive filhos. Encontro conforto na teoria dos memes de Richard Dawkins. Eles são unidades mentais: pensamentos, ideias, gestos, noções, canções, crenças, rimas, ideais, ensinamentos, ditados, frases, clichês que se movem de mente em mente assim como os genes se movem de corpo em corpo. Depois de uma vida inteira escrevendo, ensinando, falando na televisão e contando piadas demais, deixarei para trás mais memes do que muitas outras pessoas. Eles também morrerão eventualmente, mas as coisas são assim.

 O’Rourke’s tinha uma foto de Brendan Behan na parede e sob ela havia a seguinte citação, que memorizei:

 Eu respeito a bondade nos seres humanos acima de tudo – e bondade para com os animais. Não respeito a lei; tenho total irreverência por qualquer coisa conectada à sociedade, com exceção daquilo que torna as estradas mais seguras, a cerveja mais forte, a comida mais barata e os homens e mulheres idosos aquecidos no inverno e felizes no verão.

 Isto sintetiza tudo muito bem. “Bondade” cobre todas as minhas crenças políticas. Não é necessário descrevê-las. Acredito que, no final e de acordo com nossas habilidades, se tivermos feito algo para deixar os outros um pouquinho mais felizes e algo que nos deixasse um pouquinho mais felizes, isto é o melhor que poderíamos fazer. Deixar os outros menos felizes é um crime; fazer com que nós mesmos fiquemos tristes é onde todo o crime começa. Devemos tentar trazer alegria ao mundo. Isto é verdade independentemente de nossos problemas, nossa saúde, nossas circunstâncias. Devemos tentar. Nem sempre eu soube disso e sinto-me feliz por ter vivido o bastante para aprender.

 Dia desses, encontrarei o que Henry James chamou, em seu leito de morte, de “a coisa distinta”. Não estarei consciente do momento da morte. Nesta vida, já fui declarado morto uma vez. Não foi tão ruim assim. Depois que minha primeira artéria rompeu, os doutores pensaram que era meu fim. Minha esposa, Chaz, disse ter sentido que eu ainda vivia e me comunicava com ela, dizendo que ainda não havia chegado ao fim. Ela disse que nossos corações batiam em uníssono, embora meu batimento cardíaco não pudesse ser ouvido. Ela disse aos médicos que eu estava vivo, estes fizeram o que os médicos fazem, e aqui estou eu, vivo.

 Eu acredito nela? Absolutamente. Acredito nela literalmente – não simbolicamente, figurativamente ou espiritualmente. Acredito que ela estava realmente ciente do meu chamado e que sentiu meu coração bater. Acredito que ela fez isso no mundo real, físico, que descrevi – aquele que divido com meu relógio de pulso. Não vejo qualquer razão para que esta comunicação não pudesse ter acontecido. Não estou falando de telepatia, fenômenos mediúnicos ou de um milagre. O único milagre é que ela estava lá quando aconteceu, assim como esteve por muitos dias e noites longos. Estou falando sobre ela estar lá e saber de algo. Muitos de nós já não experimentamos isso? Ora, você não? É algo que ocorre em um nível inacessível a cientistas, teólogos, místicos, físicos, filósofos ou psiquiatras. É uma coisa humana.

 Um dia, eu não irei enviar chamado algum e não haverá batimento cardíaco. Estarei morto. O que acontecerá então? Do meu ponto de vista, nada. Absolutamente nada. Ainda assim, como escrevi a Monica Eng, a quem conheço desde os seis anos de idade: ‘É melhor você chorar no meu velório”. Eu me correspondo com um amigo querido, o sábio e gentil cineasta australiano Paul Cox. Nossas discussões às vezes se voltam para a morte. Em 2010, ele chegou perto de morrer antes de receber um transplante de fígado. Em 1988, ele fez um documentário chamado: “Vicent: A Vida e a Morte de Vincent van Gogh”. Paul me contou que, quando vivia em Arles, van Gogh se descrevia como “um simples adorador do Buda exterior”. Paul disse que, naquele período, Vincent escreveu:

 Olhar para as estrelas sempre me faz sonhar com a mesma simplicidade com que sonho acerca dos pontos negros que representam cidades e vilas em um mapa.

 Por que, eu me pergunto, os pontos brilhantes no céu não podem ser tão acessíveis quanto os pontos escuros no mapa da França?

 Assim como pegamos um trem para chegar a Tarascon ou Rouen, nós pegamos a morte para chegar a uma estrela. Não podemos alcançar uma estrela enquanto estamos vivos, assim como não podemos pegar o trem quando estamos mortos. Assim, me parece possível que o cólera, a tuberculose e o câncer são os meios celestiais de locomoção. Assim como barcos a vapor, ônibus e ferrovias são os meios terrestres.

 Morrer tranquilamente na velhice seria chegar lá a pé.”

 Isto é algo adorável de ler e é um alívio saber que provavelmente pegarei a locomotiva celestial. Ou, como seu pequeno cão Milou diz sempre que Tintin propõe uma jornada, “Não a pé, espero!”.”

postado em by Pablo Villaça em Variados