Ebertfest 2013

Champaign-Urbana se tornou uma espécie de lar para a família que formei ao longo dos últimos três anos. Chegar à pequena cidade (duas, na realidade – mas a fronteira entre ambas é indiscernível) que abrigou a gênese da carreira de Roger Ebert é sentir-me em casa. Já conheço suas ruas, seus prédios, seu clima frio de abril. Já bati papo com seu prefeito, já compareci a três festas na casa do presidente da Universidade de Illinois, já fui a outras tantas na residência da velha amiga de Roger (a simpática Betsy Hendrick) e o magnífico Virginia Theater, o mais belo cinema que já visitei, já não guarda segredos, embora continue a encantar com sua tela gigantesca e sua imponente cortina vermelha.

Passei a tratar Nate Kohn, o diretor do festival, pelo primeiro nome; tornei-me fã da incansável Mary Susan Britt, que faz o evento funcionar; e já reconheço os rostos de vários espectadores que comparecem ao Ebertfest ano após ano.

Senti a alegria habitual ao reencontrar Chaz, esposa de Roger, sempre divertida e calorosa, e pude abraçar meus irmãos “correspondentes estrangeiros”: o mexicano Gerardo (e sua esposa Monica), a sino-canadense Grace Wang, o indiano Krishna Shenoi e, claro, meu brilhante e querido Omer Mozaffar (e, juntos, lamentamos a ausência de nossos colegas Michael Mirasol, Olivia Collette, Ali Arikan, Anath White, Wael Khairy, Scott Jordan Harris, Michal Oleszczyk e Seongyong Cho).

Mas, acima de tudo, estar no Ebertfest é sentir a presença de Roger.

Presente em cada centímetro do Virginia Theater (especialmente em sua ampla poltrona de couro ao fundo do cinema), Roger permanece vivo neste festival. Seu nome é citado a cada dez segundos, seus textos e livros podem ser vistos nas mãos dos espectadores, sua voz ecoa em cada debate e discussão.

Além disso, apenas no Ebertfest você tem a oportunidade de bater papo descontraidamente no almoço com uma lenda como Haskell Wexler, o diretor de fotografia duplamente Oscarizado (e primeiro profissional a usar a steadicam em um longa) e, no corredor, trocar abraços e lembranças com Michael Barker, co-presidente da Sony Classics, e comentar a beleza da cópia em 35mm de Cinzas no Paraíso que acabáramos de ver. Este é um festival como nenhum outro: não há competição, não há pressão, não há rivalidade; há apenas o amor profundo de uma imensa comunidade pelo Cinema.

E por Roger Ebert.

Estou feliz por me encontrar aqui mais uma vez – mesmo que entristecido por saber que não poderei abraçar ou conversar com Roger uma última vez.

postado em by Pablo Villaça em Premiações e eventos