A casa de memórias

Meu nome é Mauro Girroto e sou um acumulador sentimental.

Um acumulador (ou “hoarder”, no inglês) é alguém incapaz de jogar fora o que quer que seja. Sente a compulsão da posse, de manter consigo o que deveria descartar. São pessoas cuja doença, por ter como sintoma a sujeira, frequentemente encontram o desprezo, a repugnância e o escárnio no lugar da compreensão, da compaixão e do impulso de ajuda. Entrar na casa de um acumulador é mergulhar em anos e anos de memórias em refugo.

Eu acumulo amores. Externamente, portanto, mantenho a fachada da normalidade; por dentro, porém, sou um depósito assustador de sentimentos guardados ao longo das décadas.

Curioso como nunca havia notado isso. Talvez estivesse ocupado demais amando para perceber o inchaço interno – e foi apenas ao tentar depositar mais um carinho frustrado em um recesso de dores que reparei estar repleto deles, carinhos. E delas, dores.

Examinei o que guardava, canto por canto, sonho por sonho, nome por nome. Eram – são –  muitos. E, assim como um acumulador se apavora diante da fantasia mórbida de morrer e ter seu segredo subitamente exposto ao mundo, experimentei o pânico de ver todos os meus amores jorrando da minha boca ou dos meus dedos sobre o teclado. Até que concluí que talvez não devesse me envergonhar de minha fraqueza, que me impede de descartar aquelas que amei.

Abro a porta que leva ao porão, no qual atirei sem perceber as dores mais antigas. Lá estava Gabriela, que amei aos sete anos e que pedi desajeitadamente em namoro através de um bilhetinho que trazia as opções “sim” e “não” e que ela me devolveu no dia seguinte com a segunda opção assinalada ao lado da observação “Minha mãe me disse que sou muito nova para namorar”. Chorei no banco de trás do carro de minha mãe, na volta para casa, mesmo sem entender direito o mecanismo estranho que me fazia sentir tão miserável sem alguma razão física. Trinta e um anos depois, olho do alto da escada e, lá embaixo, há o bilhete com o “x” tão cruel e minha confusão infantil diante da recusa e da impossibilidade de chamar de “namorada” uma colega de sala (pois o conceito de “beijo” ainda estava alguns anos distante).

Acendo a luz do porão e, no canto do aposento, vejo a foto apagada de uma garota que vi algumas vezes em um ônibus e cujo rosto triste me encantou profundamente. Fantasiei em abordá-la por algumas semanas até que, como era inevitável acontecer, ela desapareceu. Jamais voltei a vê-la, mas ela continua em mim, no meu porão, apagada mas viva com seus olhos ainda tristes. Eu a chamo de “Garota da Barcaça” por reconhecer nela a moça do guarda-sol branco que o senhor Bernstein de Cidadão Kane vira rapidamente em sua juventude e jamais esquecera. Minha moça não trazia um guarda-sol, mas livros no braço. E lamento jamais ter me oferecido para carregá-los. Aos 16 anos, achava ter todo o tempo do mundo e me condenei apenas a imaginar sua voz.

Há, ainda no porão, um sem-número de pequenas paixões do ensino fundamental: Alessandra, na 6ª. série; Renata, na 7ª.; Silvia, Rebecca e metade das garotas da sala na 8ª. Todas inevitavelmente fascinadas pelos rapazes do ensino médio e cegas para o garoto magrelo que as amava do fundo da sala.

Fecho a porta e vou até o quarto. Suelen, a primeira namorada, ocupa uma prateleira ao lado da janela. O primeiro relacionamento sério e a primeira traição. Foi minha por três meses; deixou cicatrizes que duram vinte e dois anos. Nas três prateleiras acima, vejo Janaína, a segunda namorada. Há caixas e caixas de histórias. Em uma, a foto de nosso primeiro e desajeitado beijo em um ponto de ônibus. Em outra, um breve vídeo do dia em que me deu um tapa no rosto por achar que eu tinha beijado uma outra garota (não tinha). Reparo em um papel embolado e, para minha surpresa, leio sem dificuldades a poesia que escrevi inspirado por seu amor e que, pateticamente, trazia versos cujas letras iniciais formavam a frase “Eu amo você, Janaína”. Rio ao recordar as rimas pobres e óbvias e sinto ternura pela versão adolescente de mim mesmo.

Abro o armário e vejo caixas e caixas que trazem o nome “Keyla”. Melhor não investigá-las.

Dou meia-volta e tropeço num pequeno pacote. Não há rótulo que identifique seu conteúdo e, curioso, investigo o que há lá dentro. Borrada e amarrotada, a foto de uma garota de aparelho nos dentes e covinhas. Como um relâmpago, memórias difusas de beijos intensos, mãos ocupadas e grama atravessam minha mente e recupero por alguns segundos a rápida paixão de uma festa em uma cidade do interior.

Sou um acumulador de amores. Não jogo fora as mulheres que me fizeram feliz, mesmo que por alguns momentos.

Volto para a sala e, espantado, tento imaginar como caixas tão grandes e tão numerosas cabem ali. “Priscila”. Claro. Ela merecia ocupar todo o espaço do mundo. Deu-me anos. Deu-me apoio. Deu-me companhia e maturidade. Deu-me, de certa forma, tudo que tenho. Não preciso investigar os caixotes para saber que há vidas ali dentro. Acaricio e beijo o papelão, sussurro “obrigado” e vou à cozinha.

E paro, assustado. Rafaela sai das gavetas, dos armários, da geladeira, do forno e da torneira. Inunda a pia e cobre meus pés. Fecho a torneira e percebo que já repeti o gesto inúmeras vezes. Inicialmente, Rafaela era apenas meia dúzia de caixas sobre a mesa; com o tempo, multiplicou-se, dominou o ambiente e começou a vazar para a sala. Como uma infecção de afeto, empurrou as mochilas que traziam Márcia, Bárbara e Dulce para a despensa. E não dava sinais de que pararia de se espalhar.

Fechei a porta sobressaltado, mas não sem notar algo intrigante que se opunha ao fenômeno protagonizado por Rafaela: sob a mesa da cozinha, uma pequena caixa de sapatos trazia um rótulo prestes a se descolar e no qual o nome “Fabrícia” podia ser lido. Como podia ser? Ao guardá-la ali pouco antes, ela ocupara alguns bons metros de espaço e agora surgia surpreendentemente frágil. Sabia que ela não sumiria, pois sou, afinal, um acumulador, mas ainda assim lamentei o encolhimento de uma memória que fora tão feliz. Mas desisti de tentar compreender o mecanismo que expandia um afeto e diminuía outro e apenas celebrei tê-los ainda comigo.

Caminhei cuidadosamente pelos demais aposentos e me certifiquei de ter ali Letícia, Cláudia, Vitória e Lúcia – em pacotes que variavam de tamanho e que exalavam perfumes envolventes e surgiam ainda quentes ao toque.

Olhei para o alto e vi a portinha do sótão. Sabia que, caso a abrisse, Giulianna cairia sobre mim e me soterraria. Estendi a mão e toquei a pequena maçaneta.

Mas a deixei em paz. Cedo demais para abri-la.

Eu sabia, porém, que ela estaria ali até o dia em que eu morresse. Ela e todos os meus amores carinhosamente acumulados.

postado em by Pablo Villaça em Variados