Os seios de Angelina Jolie

Angelina Jolie é uma boa atriz. No entanto, quando lemos seu nome, o que nos vem à mente em primeiro lugar não são suas performances ou mesmo seu ativismo político, mas sua beleza física. Não é à toa que tantas atrizes ao longo dos anos buscaram papéis nos quais pudessem se esconder sob maquiagem pesada: ocultavam sua perfeição para que pudessem, paradoxa e finalmente, ser vistas sob esta. Somos rápidos em julgar pela aparência – e as mulheres, em particular, encontram-se frequentemente no banco dos réus: belas ou não, são avaliadas pela conformação dos ossos da face, pela pele sobre estes, pelo índice de gordura e pelas curvas. Só então – e talvez – nos preocupamos com sua essência como indivíduos.

Se isto ocorre com a secretária de nosso dentista, com a caixa do supermercado, com a advogada no fórum, com a médica no consultório e com a universitária em sala de aula, imaginem o escrutínio ao qual uma estrela internacional como Jolie é submetida – especialmente se considerarmos que seu corpo é também seu instrumento de trabalho. Para boa parte dos homens ao redor do planeta, ela não é sequer um ser humano, mas um conjunto agradável de seios, pernas e lábios. Sua personalidade é um inconveniente, não um atributo. Muitos destes machos vieram parar neste post porque o Google, enganado pelo título, respondeu suas consultas movidas a hormônio com um link equivocado.

Não que apreciar a beleza seja, por si só, algo que poderíamos classificar como “errado” – somos quem somos, afinal, e buscamos o belo por natureza. O problema surge quando esta beleza inspira o que temos de mais feio: a desumanidade.

Há pouco, Angelina Jolie anunciou, num artigo publicado no New York Times, ter se submetido a uma mastectomia dupla depois de descobrir, graças a uma avaliação genética, ter 87% de chances de desenvolver o mesmo tipo de câncer que matou sua mãe, Marcheline Bertrand, aos 56 anos de idade. Beirando os 40, Jolie decidiu que o risco era alto o bastante para justificar uma medida profilática extrema e retirou os seios. Pensou em sua saúde e em sua família, não na carreira ou na vaidade. Ser um cadáver bonito não é grande consolo.

Sua decisão, porém, imediatamente inspirou machos a saírem das cavernas em postura revoltada. No portal G1, por exemplo, os comentários – invariavelmente publicados por homens – iam do adolescente “Tomb Raider ficou sem peitos!” ao profundamente ignorante “Alguns parentes meus morreram de infarto. Agora tenho que tirar meu coração?”. Entre acusações de “falta de fé” por parte de evangélicos, Jolie também foi condenada pela “automutilação”.

Porém, foi mesmo em minha página no Facebook que li o comentário mais ilustrativo:

“Coitado do Brad Pitt.”

Por que o considerei tão simbólico? Porque, ao contrário dos demais, representa a reação imediata até mesmo de muitos homens que condenariam sem hesitar os demais comentários.

Há algum tempo, escrevi sobre minhas próprias falhas ao encarar as lutas femininas – e uma destas batalhas diz respeito justamente à tendência do universo masculino de encarar as mulheres como adorno, como peças de decoração ambulantes. Angelina Jolie é mãe de seis crianças, ativista, artista, feminista e, acima de tudo, um ser humano que naturalmente quer prolongar o máximo possível a já tão curta estadia no planeta – mas para boa parte dos homens, ela é simplesmente um brinquedo sexual com o qual fantasiar e o prêmio que Brad Pitt ganhou por ser Brad Pitt. E que agora está defeituoso, perdeu o valor, partiu-se. É um troféu amassado depois de cair da estante.

Aparentemente, 13% de chances de jamais desenvolver o câncer que já lhe custara a mãe representam uma estatística boa o bastante para justificar a manutenção de seus tão cobiçados seios. E como ela se atreve a arruinar a fantasia masculina daqueles que jamais se encontrarão sequer no mesmo edifício que a atriz – e muito menos em sua cama? Cerca de 400 mil mulheres morrem em função do câncer de mama por ano (há 50 mil casos novos por ano só no Brasil), mas, para muitos machos, estes números se traduzem não em vidas perdidas, mas apenas em 800 mil seios a menos no mundo.

Ler as reações à decisão absolutamente pessoal de Angelina Jolie é ter acesso a um mundo de chauvinismo e falta de empatia. É retornar não à década de 50, mas à Idade Média. É perceber a infinidade de homens que enxergam o corpo feminino como um objeto que possuem – mesmo que apenas para admiração à distância.

É esquecer que Angelina Jolie – ou qualquer outra mulher – é muito mais do que um par de seios.

Graças à Ciência, a atriz agora poderá respirar com mais tranquilidade por ter melhorado suas chances de acompanhar o crescimento dos filhos. Pena que não haja medida profilática (ou mesmo tratamento) para o câncer de caráter. Muitos homens se beneficiaram de algo assim.

Update: Poucos dias depois de Jolie anunciar a dupla mastectomia, sua tia morreu em função do mesmo tipo de câncer de mama que matou sua mãe.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Variados