Meu afilhado Roney

Roney era um jovem de 27 anos cuja alegria infectava de vida todos ao seu redor – e  o fato de ser obrigado a usar o tempo verbal no passado me provoca uma dor de lamento por se tratar não de um equívoco gramatical de minha parte, mas de um colossal erro do acaso indecifrável que condena uns à morte e outros à existência.

Roney era meu primo. Mas não só. Aos 12 anos de idade, seus pais – meus tios – me concederam a missão de ser também seu padrinho, algo que fez minha versão mirim sentir-se tremendamente importante e adulta. Em um momento, eu era uma criança; em outro, tinha recebido a incumbência simbólica de cuidar de meu pequeno primo caso algo acontecesse aos seus pais (ou, ao menos, foi o que meu tio Filim e minha tia Mary me explicaram enquanto salientavam a importância do cargo que me ofereciam). Aceitei para me sentir gente grande, mas sem compreender exatamente por que alguém iria conferir a mim os cuidados de um bebê.

Ainda pirralho, Roney revelou-se impossível: enquanto os primos brincavam de polícia-e-ladrão no quintal, na garagem e na rua, ele subia no telhado ou despencava do muro. Se desaparecia por alguns momentos, prevíamos desastre ou, no mínimo, uma travessura que despertaria a fúria dos adultos e traria punições a todos. Há crianças bagunceiras por natureza; já Roney definia a palavra.

Era, porém, um pequeno cheio de respeito pelo próximo e que absorvia os valores que seus pais lhe ensinavam: ao me ver, sempre – e friso o “sempre” – me cumprimentava com um “A benção, padrinho”. Não havia ironia em suas palavras; mesmo já mais velho, quando se tornara patente que a diferença de idade entre nós dois era ridícula para que qualquer sombra de autoridade fosse possível, ele manteve o hábito. Eu era seu padrinho e fim de história. Presente ou não, maduro ou não, jovem ou velho, eu havia sido escolhido por seus pais para batizá-lo e ele me pedia a benção que o cargo magicamente me outorgara o poder de lhe conceder.

Nunca me habituei totalmente àquilo. Aos 14 anos, dizer “Deus te abençoe” era algo divertido – especialmente porque eu mesmo fora educado a pedir sempre a benção a todos os meus tios paternos e aquilo me colocava ao lado deles em termos de autoridade -, mas parte de mim sentia-se fraudulenta ao dizer as palavras.

Que, no entanto, eu não hesitava em proferir.

Mesmo anos depois, quando já havia abraçado o ateísmo, sequer sonhava em negar a contrassenha a Roney. Havia algo tão doce, infantil e vulnerável em sua voz ao dizer “A benção, padrinho” que as palavras “Deus te abençoe” saíam de minha boca sem que eu pudesse evitar – e até mesmo quando meu afilhado me enviou uma mensagem pelo Facebook com o pedido, abençoei-o virtualmente por imaginar sua expressão do outro lado.

Ele era melhor afilhado do que eu padrinho.

Era também o que as pessoas costumam chamar de “rapaz trabalhador”. Teve seus momentos pontuais de crise na adolescência – como era seu direito ter -, mas tornou-se um jovem adulto responsável. Era um filho dedicado e querido pelos irmãos que o ladeavam em idade – e, talvez por não ter tido o privilégio de ser o primogênito ou o xodó dedicado ao caçula, tinha cavado seu próprio espaço com sua personalidade vivaz.

Conheceu cedo seu amor. Aos 15 anos, apaixonou-se por Ludimila e, ao partir, era pai de um garotinho de três anos ao lado da amada. Aos 27 anos, já alcançara uma longevidade em seu relacionamento que homens muito mais velhos falham em conquistar.

Mas Roney gostava de motos. Seu perfil no Facebook trazia sua imagem em pé ao lado de uma delas e sobre a qual seu pequeno Luís Gustavo sentava-se. Na imagem, Roney surge beijando o queixinho da criança, que sorri o sorriso gostoso de um garoto feliz ao lado do pai – e não é difícil perceber ali a alegria deste por estar com dois de seus amores.

Morreu às 8 da manhã de um domingo ao atingir um ônibus que o arrastaria por alguns metros e encerraria sua história em um microssegundo.

Roney não era mais um rapaz trabalhador, um filho dedicado, um irmão querido, um marido apaixonado, um pai amoroso ou meu afilhado. Era apenas um corpo machucado que deixava um rastro de memórias felizes atrás de si. Um corpo que seu – nosso – tio João resgatou do necrotério e, como dono de funerária, vestiu, depositou cuidadosamente em um caixão e consertou para torná-lo apresentável aos pais e à esposa.

Imagino a dor de meu tio ao protagonizar este ato de intimidade derradeiro, definitivo e angustiante com o sobrinho tão querido e sofro por ele.

Se escrever é uma forma de chorar, não há caracteres suficientes para formar as lágrimas que Roney merece. Por ele, deixo meu ateísmo de lado por mais um breve segundo e, imaginando seu rosto, digo pela última vez as palavras que ele considerava tão importantes:

“Deus te abençoe, meu afilhado”.

postado em by Pablo Villaça em Variados