Arrested Development e a Linguagem Audiovisual nos Tempos da Internet

(O texto abaixo não traz spoilers importantes da quarta temporada de Arrested Development.)

Em meu curso de Forma e Estilo Cinematográficos, discuto como a variação na mídia acaba levando a um ajuste da linguagem das obras. Durante a década de 70, por exemplo, a proliferação de multiplexes nos Estados Unidos levou a uma diminuição inevitável no tamanho das telas, o que, por sua vez, obrigou os cineastas a investirem menos em planos gerais, mais abertos, e a apostarem em quadros mais fechados – o que, consequentemente, levou a uma maior rapidez na montagem, posto que planos mais abertos exigem mais tempo de tela. Assim, quando avaliamos a duração média dos planos no Cinema, esta sofre uma queda brusca a partir da década de 70 (a linguagem televisiva também colaborou para isto).

Este é apenas um dos inúmeros exemplos que podem ser encontrados ao longo da História da 7a. Arte (a chegada do som e a mudança do frames de 1.33:1 para 1.17:1 seria outra, bem como a popularização do VHS a partir da década de 80 e a necessidade dos diretores de se protegerem contra o Pan&Scan, mas creio que já entenderam o que quero dizer) – e o fato de tantas pessoas passarem a consumir o audiovisual através da Internet certamente representa o mais recente.

Em primeiro lugar, há o fato de que muitos agora assistem a filmes e séries em tablets e celulares, o que, claro, eventualmente começará a obrigar os realizadores a repensarem mais uma vez a lógica visual de seus trabalhos, mas o mais importante a se considerar é que esta é uma forma de consumir Arte que inevitavelmente leva a uma fragmentação da experiência. Vendo um filme ou série no computador, por exemplo, o espectador constantemente se vê compelido a pausar a narrativa para conferir emails, verificar algum status no Facebook ou twittar uma impressão momentânea – e embora isto arruíne a imersão na experiência, é também algo que não podemos ignorar. Com isso, alguns roteiristas passaram a desenvolver experiências narrativas multiplataforma: você assiste a um episódio de sua série na TV enquanto, no iPad, um complemento da projeção pode ser exibido em sincronia, oferecendo informações de bastidores ou pontos de vista diferentes sobre a história.

Ou podemos ter algo como a quarta temporada de Arrested Development, que não apenas foi viabilizada pelo investimento do Netflix, mas que resolveu abraçar completamente esta forma de exibição, incluindo-a de maneira direta e indireta em sua própria narrativa.

Para começo de conversa, o criador da série, Mitchell Hurwitz, sempre investiu na metalinguagem como um componente fundamental de suas histórias: nas três temporadas originais, por exemplo, o narrador Ron Howard se irritava quando alguém usava o personagem Opie (que ele viveu em The Andy Griffith Show) como um insulto e tampouco continha o desprezo pelo narrador-concorrente utilizado em uma versão da história dos Bluth dirigida por (vejam só) Carl Weathers. Da mesma maneira, num episódio no qual Tobias (David Cross) comentava sobre os cuidadosos detalhes de uma produção para a tevê, um armário da cozinha era aberto para revelar apenas um pacote – e, em outro instante, a própria câmera se escondia quando um juiz ordenava que os repórteres deixassem seu tribunal. No entanto, nesta quarta temporada, Hurwitz abraçou de vez o próprio processo de contar a história daqueles personagens.

E é isto que nos traz ao início deste post: o que o criador de Arrested Development fez na quarta temporada só se revelou possível graças ao fato de tê-la produzido para consumo online.

Adotando uma estrutura de quebra-cabeças diferente daquela vista nas temporadas originais, Hurwitz desta vez compõe uma história que, ao longo de 15 episódios, é contada a partir do ponto de vista de cada integrante da família Bluth, levando até mesmo a apresentações personalizadas nos créditos iniciais. Sim, Michael (Jason Bateman) ainda é o protagonista, mas apenas em função de nosso costume com sua posição na hierarquia da série, já que há alguns episódios nos quais o sujeito pouco aparece. Assim, em vez de nos oferecer uma figura única com a qual pudéssemos nos identificar, a temporada salta de Bluth em Bluth, praticamente adotando as personalidades de cada uma daquelas pessoas ao trazê-las para o centro temporário da narrativa: e se o episódio de GOB é mergulhado em esquemas tolos de vingança, aquele estrelado por Buster se transforma quase numa versão cômica de Psicose, ao passo que o de Lindsay se apresenta como um mergulho quase surreal em um universo que serve de cruzamento entre o ativismo social equivocado e a visão alienada de uma mulher incapaz de enxergar o mundo além do próprio umbigo. Já George-Michael surge numa pequena paródia de A Rede Social, enquanto seu pai atravessa a temporada buscando transformar a história dos Bluth em um filme a ser dirigido por ninguém menos que Ron Howard, que então ganha a tarefa de narrar suas próprias ações como se estivesse falando de uma terceira pessoa.

“Não vejo isso como um filme”, chega a apontar Maeby (Alia Shawket), completando a seguir: “Talvez uma série de tevê”.

Uma série que se reconhece como uma produção audiovisual e que – mais importante – encontra-se ciente do fato de ser uma continuação tardia de um esforço previamente cancelado. Desta forma, quando cenas das temporadas originais são exibidas, Hurwitz cobre a tela com uma marca d’água que sugere que aqueles flashbacks foram capturados ilegalmente através de um software cuja licença sequer foi comprada pelos produtores, numa das piadas recorrentes mais divertidas da quarta temporada. Além disso, é interessante perceber como a própria interface do Netflix é absorvida pela narrativa, sendo mais aparente na linha do tempo que percorre a série sempre que voltamos na cronologia da história ou no momento em que uma sessão de sexo entre dois personagens é exibida em fast-forward. (Já em outro instante, o narrador esclarece uma dúvida através do voice over para evitar que o espectador “volte demais e acabe indo parar no episódio de Maeby”.)

Permitindo que descubramos aos poucos o que realmente aconteceu em cenas vistas vários episódios antes (a identidade da pessoa que se encontra com GOB no piloto só é revelada no décimo-primeiro capítulo, “A New Attitude” – cujo título, por sinal, acaba complementando uma observação feita de passagem por P-Hound no primeiro episódio ao ouvir Michael citar a revista Altitude), Arrested Devolopment constrói uma narrativa complexa que pode ser descoberta gradualmente pelo espectador ou mesmo numa sequência intensa de binge-watching (algo que o Netflix também ajudou a popularizar com a série “House of Cards”).

O mais curioso, porém, é constatar a liberdade que uma produção para a Internet oferece aos realizadores: se sitcoms normalmente ficam presas à duração de 22 minutos por episódio, aqui Mitchell Hurwitz teve a opção de montar cada episódio de acordo com aquilo que julgou necessário, variando de 28 a 38 minutos (e dez minutos são uma eternidade, acreditem). O resultado é que algumas piadas, por exemplo, podem ser desenvolvidas com a calma de um realizador que sabe que a repetição irá torná-las mais eficazes – e o momento em que Lucille (Jessica Walter) obriga Buster (Tony Hale) a inspirar a fumaça de seu cigarro é doloroso e hilário justamente por ocupar um longo tempo.

Ciente de que a facilidade de saltar de um episódio a outro na plataforma do Netflix permitirá ao espectador a avaliação instantânea da tapeçaria de sua narrativa, Arrested Development ainda encanta ao investir em detalhes que muitas vezes só chamarão a atenção quando vistos pela segunda vez – e é interessante, por exemplo, perceber como Michael, ao usar a esteira do aeroporto em Phoenix, passa por um mural que revela alguns dos principais momentos das três temporadas originais, encerrando num “Bem-vindo a Phoenix” que deveria servir como continuação lógica de sua jornada, já que o personagem vivia insistindo em seu sonho de se mudar para a cidade.

Talvez menos consistentemente divertida que as anteriores, esta quarta temporada ainda assim é suficientemente engraçada para justificar a própria existência – e, como experiência audiovisual, certamente representa mais um passo evolutivo importante na linguagem das produções em um universo que vem colocando o poder de montador cada vez mais nas mãos de sua plateia.

E, como apaixonado por esta Arte, não posso deixar de achar fascinante a oportunidade de observar este fenômeno em tempo real.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Discussões, Séries de tevê