O estado assustador do Jornalismo

A experiência é simples: entre no UOL, um dos principais portais de notícia do país, e clique nas matérias em destaque neste momento. Provavelmente, encontrará vários erros gramaticais, estruturais, estilísticos, informações desencontradas e perceberá, também, que boa parte dos textos foi construída sem que o jornalista deixasse a redação para apurar o que estava relatando, limitando-se a repetir informações de outras agências (incluindo erros grosseiros de tradução) ou – pior – reproduzindo “colaborações dos internautas”. Isto para não citar a utilização crescente de termos como “galera” e “cornetou” em textos supostamente profissionais – e a VEJA chegou a usar esta semana a incrivelmente grosseira “bichinhas” para descrever dois personagens homossexuais de um programa de tevê.

Percebam que não estou sequer discutindo a cooptação ideológica dos jornalistas, que constantemente são levados a defender os interesses de seus patrões, mas simplesmente a qualidade dos textos que produzem, “vendidos” ou não. E, neste aspecto, a situação da profissão vem se tornando cada vez mais assustadora.

Recentemente, várias editoras e redações demitiram dezenas de profissionais alegando a necessidade de “reestruturação” e “cortes de gastos”. Editorias foram fundidas, veículos foram extintos, cargos foram acumulados. Os salários dos sobreviventes, por outro lado, se mantiveram inalterados mesmo com o aumento de funções e responsabilidades. Basta ler esta apavorante matéria da Agência Pública para constatar a tendência – e se uso a palavra “apavorante” é porque não há outra mais apropriada.

Ora, a função do jornalista, quando bem executada, é uma das mais nobres de qualquer sociedade: manter o cidadão informado sobre o que ocorre no mundo ao mesmo tempo em que busca apurar o que muitos insistem em manter oculto. Investigar, denunciar, pressionar – sempre, espera-se, com a imparcialidade de um observador justo – são atribuições de uma profissão que envia seus praticantes aos pontos mais hostis do planeta à procura de informações. No jornalismo cultural, são eles quem analisam, dissecam, destacam, promovem a vanguarda e trazem a obra para o conhecimento do público.

Utopias à parte, mesmo em condições distantes do ideal, o jornalismo é um imprescindível serviço de caráter social. Não é à toa que, nas décadas de 30 e 40, tantas produções hollywoodianas traziam repórteres como heróis de suas narrativas. (Ok, é preciso considerar também que, com a chegada do som, os estúdios foram buscar jornalistas para a elaboração dos roteiros, o que ajuda a explicar a elevação da profissão na ficção.) Ora, até mesmo em períodos mais recentes, filmes inteiros foram devotados à busca incansável pela verdade protagonizada por homens e mulheres que encaravam as redações como um segundo lar (O InformanteZodíaco, As Aventuras de TinTim, Os Homens que Não Amavam as Mulheres e as séries The NewsroomHouse of Cards, entre vários outros).

No entanto, o que se vê hoje é uma inversão de valores: o que importa não é a competência do profissional e sua dedicação ao que faz, mas apenas seu custo aparente. Ao ler a matéria linkada acima, fica claro que os principais alvos dos cortes tendem a ser justamente aqueles que deveriam ser os mais valorizados pelos patrões: os empregados experientes e premiados que assinaram matérias importantes que alteraram, em maior ou menor grau, o curso da História. Em vez disso, tornar-se valorizado em função da experiência é agora temeroso, colocando um alvo nas costas do jornalista, que logo se verá substituído por um jovem inexperiente e, consequentemente, mais barato. Que cometerá erros básicos, desperdiçará histórias importantes, falhará em apurar corretamente suas pautas e – pior – será mais facilmente manipulado pelos interesses dos patrões.

Não é à toa que, há algumas semanas, a Abril protagonizou um momento de embaraço coletivo ao levar seus funcionários a um abraço em torno do prédio da editora em função da morte de Roberto Civita – o que, claro, não salvou dezenas deles da demissão pouco depois.

Agora imaginem se os hospitais passassem a demitir seus médicos mais experientes com o objetivo de contratar apenas rapazes e moças recém-saídos da faculdade. E quem gostaria de ser representado por um escritório de advocacia cujo integrante mais velho tivesse 22 anos de idade? Vale apontar, aliás, que a ideia de descartar os veteranos é prejudicial até mesmo para os profissionais mais jovens, que, com isso, perdem a importantíssima oportunidade de interagir e aprender com os vividos colegas.

Isto para não mencionar, claro, que já iniciarão sua jornada profissional cientes de que serão descartados assim que se tornarem melhores e mais valiosos, numa lógica paradoxal e incompreensível.

Não sou jornalista. Não vivo em redações. Mas temo muito por um mundo no qual o Jornalismo se transforme numa área dominada por profissionais imaturos e despreparados – e os sinais de que isto já está ocorrendo podem ser facilmente observados através dos cliques diários em um portal como o UOL.

Preservar a qualidade do Jornalismo é cuidar do nosso futuro. Simples assim.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Série Jornalistas