São Paulo, 13 de junho de 2013

“Aquela noite escura teve estrelas:
as estrelas humanas,
as lâmpadas do povo.”

– “Dito no Pacaembu”, Pablo Neruda

De acordo com a Veja, “ação rigorosa da PM impediu depredação da Paulista”. Seu principal articulista, Reinaldo Azevedo, chamou manifestantes de “vagabundos“. Mais cedo, um editorial do Estado de São Paulo pedia que os PMs dessem “um basta” na ação dos “baderneiros”. Já a Superinteressante, outra publicação da Abril, atribuía a culpa da violência… à presidenta Dilma. Todos diminuíam a responsabilidade do governador Alckmin, do PSDB, e ressaltavam o silêncio do prefeito Haddad, do PT.

Mas foi a PM controlada pelo governo do estado que massacrou os manifestantes. Que, ao contrário do que inicialmente tentaram afirmar GloboNews, Foxlha, Veja, Estadão e demais cúmplices, agiam de maneira calma e pacífica mesmo diante da presença da tropa de choque. É profundamente comovente ver os cidadãos gritando “Sem violência! Sem violência” apenas para ver seus pedidos respondidos com o avanço impiedoso de uma polícia obviamente instruída a agredir, machucar e reprimir sem hesitação. Basta observar que, já nos primeiros segundos da ação policial, um criminoso de farda dispara uma bala de borracha nas costas da multidão em fuga.

Enquanto isso, a GloboNews informava que ninguém havia sido ferido e o UOL dava destaque a um pobre PM que supostamente fora obrigado a ouvir gritos de “Lincha, mata!”. Pobres tímpanos sensíveis.

A Internet, contudo, não permite mais tão facilmente a mentira da Velha Mídia. Em questão de minutos, surgia um tumblr dedicado exclusivamente a desmentir a informação de que não havia feridos. Logo, outros vídeos reveladores entregavam até mesmo a ação bandida de policiais para criar a impressão de que os manifestantes haviam promovido quebradeira:

Não é difícil imaginar o objetivo do policial que parte o vidro da própria viatura, é?

Por outro lado, não é fácil compreender o que se passa nas mentes de quatro homens fardados que não hesitam em espancar um fotógrafo desarmado:

Ou como alguém pode disparar um tiro de borracha contra um cidadão que se encontra deitado e indefeso no meio da rua:

Ou contra outros cidadãos que já se encontram com os braços erguidos:

A situação se tornou tão insustentável ao longo das horas seguintes que o apresentador Datena, em seu programa na Band, deu início a uma enquete cuja formulação visava escancaradamente influenciar a resposta dos espectadores: “Você é a favor de protesto com baderna?”.

Ora, se o qualificativo “com baderna” faz parte da pergunta, a tendência de qualquer cidadão é responder “não”. Observem que mesmo quem normalmente se mostraria favorável a manifestações teria a tendência de, levado pela estrutura maniqueísta da pergunta, a se mostrar contra a ideia.

E ainda assim, isto aconteceu:

A revolta dos espectadores diante das ações criminosas da PM foi tamanha que, “baderna” ou não, a maioria decidiu apoiar os manifestantes – e Datena, pensando na audiência, imediatamente mudou de opinião e passou a chamar a “baderna” de “show de democracia”.

E até mesmo a Veja, inundada no Twitter por protestos de internautas revoltados com a manchete citada no início deste post, alterou a chamada de “PM impede depredação da Paulista” para “PM impede tomada da Paulista”.

Pena que se esqueceram de mudar a URL da notícia.

Assim, este 13 de junho foi um dia vergonhoso para a imprensa brasileira (mais um), mas admirável pela ação dos manifestantes. Mais cedo, escrevi que as grandes mudanças na história da humanidade foram movidas pela Ciência, pela Arte e pela inquietude da juventude – e lamentei que as duas primeiras estivessem sendo cada vez mais podadas pela religião, ao passo que a terceira encontrava-se morta. Fico feliz por perceber que há exceções, mas triste ao vê-las apanhando nas ruas de São Paulo. E ainda mais arrasado ao ler tantas manifestações de apoio às ações da PM feitas por jovens – e creio nunca ter bloqueado tantas pessoas no Twitter e no Facebook como fui obrigado a fazer hoje em função das mensagens repletas de veneno reacionário e fascista que recebi. Temo por esta geração: se a juventude é a fase da rebelião e há tantos proto-fascistas em seu meio, imagino, assombrado, a quantidade de Bolsonaros que surgirão em 30 anos.

Além disso, as ações escancaradas da PM me fizeram sentir uma dor profunda ao constatar que, se estes policiais agem assim sob o escrutínio de centenas de câmeras, mal podemos conceber o que fazem rotineiramente quando se encontram anônimos e diante dos miseráveis de nosso país. Penso na humilhação, nas surras, nas feridas e nos mortos jamais registrados por câmeras de iPhone e flashes de jornalistas e percebo como nos encontramos cegos. Com nossa ignorância, somos cúmplices das mortes de um sem-número de índios, de sem-teto, sem-terra e sem-direitos ao redor do Brasil.

O que houve hoje em São Paulo é apenas uma espiadela apavorante por trás da cortina. E vai muito além de um protesto em função de 20 centavos. Acreditar nisso é mais do que alienação; é cegueira absoluta.

postado em by Pablo Villaça em Cotidiano, Discussões, Política