O Nômade

Amor é geografia.

Sempre soubera disso. Casais se encontram, se conhecem, se formam, se amam. Declaram-se almas gêmeas. E, no entanto, seus destinos se cruzaram não em função de uma grande artimanha do Destino, mas do simples fato de viverem na mesma cidade, de trabalharem na mesma repartição, de frequentarem o mesmo bar ou de estudarem na mesma faculdade.

Claro que a Internet de certa forma linkou amores, mas ainda assim a distância física frequentemente destrói sentimentos construídos virtualmente, secando-os antes mesmo que germinem – ou mesmo depois, o que é ainda mais trágico.

Foi assim com Rafaela. Ele a conheceu em uma viagem de trabalho e se amaram intensamente. De um momento para outro, sentia-se completo, feliz e otimista diante do futuro. No entanto, moravam em capitais diferentes e viam-se pouco. Conversavam por Skype, trocavam e-mails, SMS, fotos e suspiros saudosos. Encontravam-se quando possível: ela o visitou uma vez e ele a visitou três ou quatro. Aos poucos, porém, a distância desgastou a intimidade, a intimidade diminuta desgastou o carinho e o carinho desbotado desgastou o amor. Quando estavam juntos, brigavam com frequência; quando separados, ainda mais.

Romperam em abril. Em junho, ela já amava outro – um homem de sua cidade. A geografia trouxera-lhe alguém.

Doeu à distância e, meses depois, amou outra mulher. Que morava em outro estado. E que logo se apaixonou por alguém que residia a uma distância mais prática.

Foi a última vez que permitiu que um acaso cartográfico o separasse de alguém.

Em fevereiro do ano seguinte, conheceu Mariana. Participavam de um congresso e, durante o jantar, foram designados para a mesma mesa – uma questão de geografia minimalista, percebeu posteriormente. Conversaram durante a refeição, riram, gostaram-se. Após a última palestra da noite, foram ao bar do hotel e beberam juntos. Acordaram abraçados no dia seguinte e ele percebeu que poderia vir a amá-la profundamente.

“Gosto bem de você”, disse, beijando-a ao vê-la abrir os olhos que o lembravam da descrição que Machado fizera de Capitu.

“Também gosto de você.”, ela respondeu com um sorriso que quase o fez amá-la instantaneamente.

E foi então que ela perguntou onde ele morava.

Haviam conversado sobre isso na noite anterior, após o primeiro orgasmo. Ele sabia que ela era de Curitiba, mas conseguira desviar a discussão sem revelar sua cidade natal. Naquele instante, não soubera avaliar ao certo por que evitara a conversa, mas agora uma ideia dominava seus pensamentos: era um profissional liberal, não tinha laços que realmente o prendessem a algum lugar e poderia atender seus clientes a partir de qualquer cidade.

Ouviu-se dizendo que morava na capital do Paraná. E viu Mariana sorrir.

Era oficialmente curitibano.

Ao final do congresso, deu uma desculpa qualquer sobre visitar os pais e retornou à sua cidade natal. Em duas semanas, vendeu tudo que possuía e alugou um apartamento em Curitiba.

Amaram-se por dois anos e oito meses.

Foi um relacionamento feliz, triste, calmo e caótico. Acariciavam-se pela manhã, acusavam-se à tarde, trocavam afagos à noite e sonhavam separadamente durante a madrugada. Ele irritava-se com a religiosidade dela; ela ressentia o julgamento tácito dele. Moraram juntos por dois meses, separaram-se e tentaram novamente. Cogitaram o casamento e perceberam que seria tolice. Ao final, decidiram separar-se amigavelmente antes que passassem a se odiar.

E subitamente ele se descobriu morando numa cidade estranha.

Quatro meses depois, leu a curta frase que o levaria à fase seguinte de sua vida: “Luísa curtiu seu status.”

Amiga do conhecido de um amigo, Luísa era uma jovem de 27 anos que morava em Manaus e seguia uma página do Monty Python no Facebook. Inicialmente, era tudo que ele sabia sobre a garota – até que, depois de algumas semanas de chat, decidiram se encontrar.

“Luísa     02:45

Você nunca me disse onde morava e seu perfil não fala. Quanto mistério!

ELE   02:47

Ora, eu moro em Manaus. Onde mais?

Luísa    02:49

:O

ELE     02:50

Por que a surpresa?

Luísa     02:52

Não sei, eu esperava que… sei lá! Estou surpresa. Mas feliz!

ELE    02:53

Que bom. Que tal, então, nos encontrarmos no Chefão?”

E assim fizeram. E juntos ficaram. E se amaram. E se alegraram. E se desentenderam. E se reconciliaram. E se ofenderam. E se desgastaram. E se detestaram. E se separaram.

E quatro anos e cinco meses depois, ele era novamente um estranho em uma terra estranha.

Depois de Luísa, vieram outros amores – maiores e menores (amores e cidades). Uns facilmente esquecíveis; outros dolorosamente marcantes. Houve Bárbara em Porto Alegre, com suas explosões súbitas e inexplicáveis de ciúme; Larissa em Salvador, que por alguns dias julgou esperar seu primeiro filho; Fabiana em Piracicaba, que elogiava sua inteligência, dizia que ele lhe despertara a vontade de viver e que depois repetira tudo isso ao namorado seguinte.

Por sua vez, ele amara algumas mais, outras menos. Todas devotadamente. Não conhecia outra forma de amar.

A cada novo amor, uma nova cidade. Com o passar dos anos, seu mapa do país trazia vários alfinetes que apontavam não os nomes de municípios, mas de corações partidos. Limeira virara Laura; Maringá representava Sandra; João Pessoa era a dor que sentira por Giulianna; São Paulo era o avatar de Cristina.

Foi então que finalmente percebeu algo.

Nenhum alfinete trazia seu nome.

Amara em todas as regiões e se entregara completamente a várias mulheres. Vivera por aqueles amores por julgar que estar presente era o princípio imutável que construiria um relacionamento idealizado. Porém, falhara ao não perceber que, por serem idealizados, eram também inatingíveis. Falhariam, desmoronariam, machucariam.

Marília, Santos, Presidente Prudente, Rio de Janeiro, Americana, Belo Horizonte, Brasília, Ubá, Goiânia, Salvador…

… e?

Amor permanecia geografia. Mas era também identidade. E esta ele perdera há muito enquanto tentava amar. Percebeu, então, que dedicara-se às mulheres que adorara e se esquecera de quem as amava. Agora tinha 45 anos e era só. Sem lar, sem amores, sem filhos, sem raízes.

Respirou fundo e olhou ao seu redor. Resistiu à tentação de stalkear o tumblr de Débora (e como se sentia moderno apenas por ser capaz de compreender o significado desta frase), entrou no site da companhia aérea que costumava utilizar e selecionou sua velha cidade.

Amor sempre seria geografia, sabia. Mas decidira plantar sua bandeira e torcer pelo melhor.

postado em by Pablo Villaça em Variados