O Cinema é uma Árvore de Natal

O Cinema é uma das formas de expressão artística menos respeitadas como tal. Ir ao cinema é um passatempo trivial; uma forma de esperar enquanto alguém faz compras no shopping ou, no máximo, uma distração projetada numa tela enquanto amigos conversam sobre outras coisas, enviam mensagens de texto e riem das próprias piadas. Claro que nem todos enxergam os filmes desta forma, mas, considerando que em todas as últimas dez vezes em que fui ao cinema enfrentei espectadores como estes, há indícios de que hoje sejam a maioria. Não é à toa que a dublagem tornou-se padrão: de que importa o fato de um grupo de artistas ter passado vários meses pensando cada segundo da mixagem de um longa se este trabalho será refeito em questão de horas por um técnico normalmente sobrecarregado de trabalho? Que diferença fará a composição de um ator que passou um tempo infindável pesquisando, construindo e ensaiando cada variação vocal de seu personagem – um esforço que, novamente, será completamente substituído em algumas horas por um dublador que, naquela mesma semana, viverá dúzias de outros personagens em mais uma penca de trabalhos?

Este desrespeito à Sétima Arte não é novo, claro: já em 1908, a fundação da Sociedade do Filme de Arte, em Paris, tinha como propósito principal trazer algum peso artístico aos filmes de um e dois rolos, denunciando o esforço dos realizadores da época em alcançar algum tipo de respaldo criativo. Se pudessem saltar algumas décadas no tempo, perceberiam a futilidade do exercício – ao menos, como tentativa de estabelecer o Cinema como equivalente da Arquitetura, da Escultura, da Pintura, da Dança, da Música e da Poesia – as seis “primeiras” Artes que, enumeradas por Hegel, seriam seguidas pela Sétima graças ao manifesto do italiano Ricciotto Canudo (na realidade, inicialmente ele descrevera o Cinema como a sexta, acrescentando posteriormente a dança como a sexta precursora do audiovisual – mas divago).

Pois amar o Cinema é respeitá-lo como forma de expressão artística, como uma linguagem com alfabeto e regras gramaticais próprios – e não compreendo como alguém que se diz “cinéfilo” pode declarar amor à Arte ao mesmo tempo em que afirma que esta é apenas entretenimento. Aliás, não consigo compreender nem mesmo como podem criar categorias como “filme de Arte” e “entretenimento”, como se houvesse um juízo de valor capaz de colocar um acima do outro em função apenas de seu objetivo inicial. Ora, Shakespeare queria entreter, o que não o tornou menos inesquecível; o blues nasceu de raízes populares; os formalistas russos queriam atingir o maior público possível (afinal, seus filmes eram ferramentas da Revolução) e isto não os impediu de estabelecer os princípios da montagem. Posso abominar Rob Schneider e Adam Sandler, mas jamais diria que o que fazem não é “Arte”. Não são obras que admiro, mas são criações artísticas ainda assim – e é para isto que serve o juízo crítico: para avaliar, a partir de critérios (artísticos, de linguagem, forma, estilo e históricos), uma obra específica. Que não deixa de ser “obra” apenas por ser avaliada negativamente.

Há algum tempo, cometi o erro cardeal de tentar discutir o conceito de crítica com alguém que julgava despreparado para se dizer um profissional do meio – e só percebi o equívoco que cometera ao ouvi-lo perguntar, durante a discussão, o que era “teoria cinematográfica” (ou algo similar; não me lembro das palavras exatas). Naquele momento, percebi que estava tentando argumentar sobre Um Conto de Duas Cidades com alguém que achava a alfabetização algo desnecessário para apreciar Dickens, mas já era tarde demais e havia perdido um bom tempo de minha vida martelando um prego sem cabeça (o que só resulta em cansaço e não serve para construir algo sólido).

Não que o espectador médio (aquele que vai ao cinema para ver apenas os megalançamentos da semana e que imediatamente cochila ao se deparar com um filme em preto-e-branco) precise estudar linguagem para apreciar o que assiste – mas, garanto, até mesmo estes se beneficiariam enormemente caso compreendessem um pouquinho a lógica da gramática cinematográfica. O fato é que a maioria do público presta atenção em basicamente duas coisas ao ver um filme: nos atores e na história. No entanto, estes dois elementos estão longe de ser os únicos responsáveis pelas reações que experimentamos diante da telona. Se choramos, rimos, sentimos tensão, nos identificamos com os personagens (sempre indiretamente através da situação que vivem) e refletimos sobre o mundo e em quem somos como indivíduos enquanto assistimos a um filme (curta, média ou longa-metragem), isto se deve a um conjunto de fatores que, como sistemas interdependentes, constroem cuidadosamente nosso envolvimento: do design de produção à fotografia, passando pela montagem, pelo som, pelos efeitos visuais, pelos figurinos e por todos os aspectos (micro e macroscópicos) da criação cinematográfica. A densidade do grão é escolhida com um objetivo em mente e a razão de aspecto é pensada como elemento narrativo – e se até os pontos que constroem a imagem e os limites da tela são definidos a dedo pelos realizadores, é porque fazem diferença no impacto que provocam.

Em um belíssimo artigo publicado há cerca de duas semanas, o cineasta Martin Scorsese discutiu brevemente a evolução da linguagem audiovisual e a importância de sermos capazes de distinguir entre o que vemos no Cinema e a enxurrada de estímulos audiovisuais que nos atingem a cada segundo em monitores nos ônibus e metrôs, em comerciais de tevê e vídeos de gatos no YouTube. Escreveu Scorsese:

“Estamos frente a frente com imagens o tempo todo, de uma maneira que jamais ocorrera antes. E por isso acredito precisarmos estimular a alfabetização visual em nossas escolas. Os jovens precisam entender que nem todas as imagens existem para serem consumidas como fast food e então esquecidas; precisamos educá-los para que entendam a diferença entre imagens em movimento que estimulam sua humanidade e sua inteligência e imagens que estão apenas querendo vender algo a eles.”

O que ele propõe não é absurdo e muito menos supérfluo: quem compreende a gramática do audiovisual torna-se imediatamente mais crítico em relação a tudo que vê,  incluindo a cachoeira de imagens que, cuidadosamente montadas pelo telejornalismo, sugerem realidades muitas vezes absurdamente diferentes do que de fato ocorre no mundo – e basta uma compreensão parcial do potencial inigualável da linguagem específica do Cinema para que percebamos com maior clareza manipulações que na maioria das vezes são absorvidas sem qualquer discernimento crítico por parte de um público que parece presumir que se uma câmera registrou algo, então este algo deve ter ocorrido daquela maneira. (E caso conhecessem o conceito de montagem produtiva dos formalistas russos, por exemplo, saberiam que até ideias podem ser plantadas sutilmente na mente do público através da mera justaposição de imagens específicas.)

Ler imagens é, portanto, não apenas um capricho, mas uma necessidade. Como o próprio Scorsese aponta em seu artigo, houve uma época em que até a alfabetização literária era considerada um risco por muitos – incluindo Sócrates, que temia que o ato de ler e escrever pudesse substituir o saber real pela aparência de conhecimento.

No entanto, mesmo que considerássemos apenas o propósito “cinéfilo” de tal alfabetização visual, isto já representaria um ganho de conhecimento enorme que, no mínimo, proporcionaria experiências mais envolventes e completas. Ao ser capaz de “ler” a escrita dos realizadores, o amante do Cinema consegue se divertir simultaneamente com o fazer do filme e com seus resultados práticos; pode, por exemplo, chorar diante de uma cena emocionante e também apreciar a maneira com que esta construiu cuidadosamente aquela reação. (Ou chorar ao mesmo tempo em que percebe o maniqueísmo artificial ao qual foi submetido.)

Cito de novo Scorsese:

 “(As reações que um filme provoca) têm a ver com o jogo de luzes e sombras, com a dinâmica emocional e psicológica entre os personagens, com a atmosfera do tempo costurada na ação – com todas as escolhas feitas atrás da câmera que resultaram na experiência imediata do filme vivida pelos espectadores (…). Estes são os aspectos de um filme que se revelam de passagem, as coisas que fazem o filme criar vida para o espectador. E a experiência se torna ainda mais rica quando você explora estes elementos com maior proximidade.”

Uma das reações que costumo ouvir de meus alunos – e que é minha favorita – é a vontade que manifestam de poder rever todos os filmes que conheceram antes do curso, como se sentissem frustração por ter desperdiçado o potencial que estes continham. E é esta sensação – a de que cada filme contém milhares de presentes escondidos e que estão à disposição de qualquer um que fizer algum esforço – é o que define o verdadeiro amor pelo Cinema. E não consigo compreender como alguém poderia não querer descobrir e abrir estes presentes.

postado em by Pablo Villaça em Cinema, Curso, Discussões