O Ódio de Estranhos

Já tive uma relação mais problemática com o ódio alheio. Houve uma época em que a agressividade de leitores realmente me incomodava por diversas razões, mas, aos poucos, fui percebendo o óbvio: que não podia controlar a percepção de certas pessoas ao meu respeito e que, honestamente, não tinha qualquer intenção de sequer tentar. Assim, adotei uma política simples: passei a bloquear, no Twitter e no Facebook, qualquer um que partisse para ataques pessoais. Argumentações contrárias e discordâncias são uma coisa; insultos, outra. (Ainda assim, vira e mexe alguém insiste em dizer que o bloqueei apenas por “discordar”, aparentemente achando que incluir termos como “babaquice”, “idiota” e afins serve apenas como comentário adicional.)

Hoje, a reação mais comum que experimento ao ler certas mensagens raivosas é a de curiosidade: por que alguém se submeteria à tortura constante de acompanhar os textos de alguém que odeia e que obviamente não acrescenta nada de positivo à sua vida? Houve um período, por exemplo, no qual eu acompanhava o blog de Reinaldo Azevedo com certa assiduidade – até que, certo dia, me dei conta de que aquilo simplesmente me fazia mal e parei. Agora, a menos que haja algum motivo pontual para que eu leia o que o sujeito escreveu, passo longe daquele espaço. E sou mais saudável por isso.

Escrevo este post porque ontem, em resposta ao meu texto sobre a importância de se aprender linguagem cinematográfica, um tal “Marcelo Pesseghini”* deixou duas mensagens que me chamaram a atenção pelo grau de raiva e veneno. Na primeira, me acusava de “hipocrisia” por defender a alfabetização visual e “cobrar caro” por meus cursos – especialmente (e isto me divertiu particularmente) por ser de esquerda. No processo, ainda alegou que eu poderia reduzir o valor pela metade e ainda “lucraria muito”. Além de ignorar o fato de que cobro valores diferentes para cidades diferentes, dependendo dos custos de produção, o sujeito supõe ser capaz de calcular algo que claramente desconhece, já que não faz ideia dos valores (altos, devo acrescentar) envolvidos nestas viagens: aluguel de auditório, passagens, hotel, alimentação, transporte na cidade, fabricação de canetas, impressão de guias, pastas e certificados e assim por diante. Ainda assim, mantive o mesmo valor em cada cidade por nada menos do que quatro anos, não aumentando um centavo – e só atualizei o valor ao lançar o Forma e Estilo (e, aproveito para apontar, vários alunos já chegaram a comentar que consideravam a matrícula barata em relação a outros cursos com carga horária e temas similares).

No entanto, apesar da argumentação boba do tal “Marcelo”, não julguei que sua mensagem fosse mais agressiva do que outras que já recebi.

Até que, claro, ele resolveu enviar uma segunda:

“INTOLERANTE! Esse é o seu defeito, Sr. Pablo Vilaça. Por isso vive castigado por depressão e medo. É tão materialista que não aceita um argumento que não satisfaça seu ego nojento. Arrogante você não é, apenas é egocêntrico. Adora ser amado, mas não se importa nem um pouco em amar o outro, mesmo quando ele é errado. Vc acha que brigando e sendo violento com Marco Feliciano o converterá? Sua incapacidade de construir diálogo enoja qualquer ideal igualitário. Do que adianta ser materialista se isso é algo intrínseco ao egoísmo? Vc leu muito mal Thomas Hobbes pra ser tão fã de propriedade privada. Se a sua única realidade é a fé na humanidade, porque não acredita mesmo em Rousseau, no bom selvagem? Seu empirismo e ceticismo pouco amáveis causam me amargura.

Vc não sabe oferecer amizade a ninguém. Quanta intolerancia nessa vida! Qual seria o motivo de tanto ódio? Por que querer sempre estar certo?

Por que vestiu esse papel de defensor dos pobres e dos humilhados quando vc é parte da opressão que causa isso? Sua vida de violência é tão inútil quanto a de Marco Feliciano.

Chore mesmo por atenção. Viva com tranquilidade o luto pela morte de Roger, mas não o culpe pelo seu comodismo materialista. Trabalhe duro, largue esse seu vício nojento de viver no twitter. Vc é um saco as vezes. Outras é desejável como amigo.

É sério, estou cansado de ve-lo ser tão negligente e por não saber usar essa sua racionalidade tão empírica. E não venha com esse argumento de que ninguém é obrigado a segui-lo! Por que então ter fé na humanidade se vc é extra-humano?

Menos que seu destino inexorável de morrer é o mesmo de todos nós!”

Uou. Não sei o que é mais feio na mensagem acima: chamar de “castigo” a depressão que trato desde os 15 anos de idade e sobre a qual sempre fui extremamente aberto em meus escritos por acreditar que desmistificar a doença é algo fundamental ou se a acusação de que não sei “oferecer amizade a ninguém”, posto que não me conhece ou aos meus. Não, creio que citar a morte de Roger de maneira gratuita, apenas para meter o dedo em uma ferida aberta, leva o prêmio.

Internet é algo curioso: há um bom tempo, um outro leitor costumava me atacar com frequência aqui neste espaço – independentemente do assunto abordado. Seu nome era Rodrigo Baldin e, certo dia, após uma mensagem particularmente agressiva, enviei a ele um email para perguntar exatamente qual era o problema que tinha comigo. Fiz isto por perceber, em várias de suas mensagens, uma ambiguidade subjacente: ao mesmo tempo em que me atacava, manifestava certa preocupação genuína e generosa com o bem-estar de meus filhos. Trocamos emails, ele fez meus cursos e – final feliz – hoje o considero (e à sua esposa, que conheci semana passada em São Paulo) um amigo pessoal e querido. (E por isso sinto liberdade de mencioná-lo aqui.)

Já a mensagem de Marcelo é rancorosa e repleta de amargura (como ele mesmo aponta). Então por que a copio aqui e dedico a ela um post?

Por dois motivos: em primeiro lugar, como um alerta. A vida é curta demais para que dediquemos qualquer tempo ao ódio puro – especialmente se as razões são puramente pessoais. Se ataco Marco Feliciano, é porque suas ações ferem diretamente milhões de pessoas. É uma figura pública capaz de guiar rebanhos, formar dogmas e, o mais perigoso, criar e aprovar leis se não for monitorado. Leis e dogmas que oprimem, diminuem e segregam homossexuais, mulheres, negros e outras minorias que ele supostamente deveria representar como presidente da Comissão de Direitos Humanos. Ninguém nunca leu ou lerá uma mensagem minha em um site/blog pessoal atacando indivíduos por serem quem são. Sim, posso criticar o racismo de uma Micheline Borges, linkar para o post de um sujeito que deseja a morte de médicos cubanos, mas não passarei os dias entrando em seus perfis para atacá-los. A briga é e sempre será por causas e ideologias, não por personalidades. Se critico enfaticamente a postura leniente de uma associação de blogueiros em relação ao plágio, meu problema é com o crime cometido (sim, plágio é crime) e com o fato de não terem punido o criminoso com a expulsão – o mínimo que deveriam fazer -, mas jamais com os integrantes X, Y ou Z (embora alguns deles tenham imediatamente levado a questão para o lado pessoal e me insultado em redes sociais).

Uma coisa é não se furtar de manifestar sua opinião a respeito de causas que julga importante; outra é encarar indivíduos como inimigos. Não sou “inimigo” de Reinaldo Azevedo, Marco Feliciano ou Bolsonaro; sou opositor, o que é muito, mas muito diferente.

Mas este sou eu – e realmente não consigo ver sentido em dedicar tempo ao ódio puro por indivíduos, remoendo mensagens de amargor e monitorando suas atividades virtuais a fim de atacá-los a cada oportunidade que se apresenta.

Bom, mas esta foi a primeira motivação deste post; a segunda é abrir os comentários abaixo para que aqueles que decidirem não seguir o conselho acima possam ventilar a raiva que nutrem por mim ou pelo que “represento” (seja lá o que isto for. Sensualidade infindável, espero, embora provavelmente esteja errado.). Estou certo de que logo aparecerá alguém para apontar como estou sendo hipócrita, como bloqueei fulano ou beltrano sem motivos, como isto é “censura” (não é; não sou obrigado a ler o que José ou Maria escrevem, assim como estes não são obrigados a ler o que escrevo), como sou injusto, intolerante, arrogante (ei, tenho melhorado!) ou feio (não é minha culpa).

Não prometo ler (quem estou enganando? Provavelmente lerei.), mas sua raiva ficará registrada publicamente. E você, tendo dado este importante passo terapêutico, poderá seguir adiante sabendo que finalmente me colocou no devido lugar. Não se preocupe; sou grandinho e conseguirei lidar com sua rejeição.

* Update: Claro que se tratava de um pseudônimo. Claro. Não me toquei que o sujeito havia usado o nome do garoto acusado de matar os pais há algumas semanas – e o fato de ter escolhido este nome apenas ressalta o pior sobre sua personalidade.

postado em by Pablo Villaça em Discussões