Despertar

Sentiu primeiro a pressão na pele.

Tudo encontrava-se escuro, mas a sensação das várias pontadas simultâneas sobre seu corpo parecia esforçar-se para despertá-lo. Em vão: perdeu novamente a consciência.

Mais uma vez as gotas o acordaram. Percebia agora, mesmo que vaga e confusamente, que água caía sobre ele. O som à sua volta parecia distante, bem como sua capacidade de compreender o que ocorria. Tentou abrir os olhos, mas as pálpebras pareciam pesar toneladas. Vislumbrou rapidamente alguma luz, mas não foi capaz de se forçar à consciência. Apagou mais uma vez.

Desta vez, concluiu de imediato que estava sob algum tipo de queda d’água. Sentiu a cabeça girar e experimentou náuseas. Entreabriu o olho direito e por alguns segundos viu os próprios joelhos projetados para o alto. Não sabia ainda onde estava, mas não era um lugar espaçoso, já que precisara dobrar as pernas para caber ali.

O ruído que tomava conta do ambiente tornava-se mais claro a cada instante: um som alto, contínuo e forte que cobria até mesmo o barulho da água batendo em sua pele e na superfície lisa sobre a qual se encontrava deitado.

Um chuveiro.

Apertou os olhos antes de tentar abri-los. Um gosto amargo materializou-se em sua boca e ele passou a língua sobre os lábios. Começou a perceber o efeito do álcool sobre seus sentidos e concluiu que ainda encontrava-se levemente bêbado. Não porque bebera pouco – o contrário: provavelmente desmaiara há horas e ainda experimentava os efeitos dos resquícios da bebida em seu sangue.

Ah, caralho. Permanecera sóbrio por 17 meses. Melina ia matá-lo.

Forçou as pálpebras e viu-se nu em uma banheira estreita. A cortina do chuveiro, branca e levemente opaca, ocupava todo o lado esquerdo de seu campo de visão, ao passo que os azulejos amarelados e sujos cobriam o direito. A água quente continuava a bater em seu peito, caindo de uma altura de cerca de dois metros, mas o ralo aberto impedia que esta se acumulasse sob seu corpo.

O ambiente parecia tomado por uma névoa leve que, de fato, era a vaporização acumulada de horas e horas de uma cascata fervente que deixara sua pele avermelhada.

Inclinou a cabeça para trás, fechou novamente os olhos e tentou se lembrar de algo. De qualquer coisa.

Nada.

Permaneceu naquela posição por alguns minutos, torcendo para que a água enxaguasse o mal-estar e o restaurasse magicamente. No entanto, anos de experiência alertavam-no para a futilidade daquela tola expectativa. Ou voltava a dormir a fim de acordar um pouco melhor em mais algumas horas ou forçava-se a sair daquele estupor, punha-se de pé e reiniciava a vida mais uma vez do zero.

Do zero. De novo. Resetando a contagem depois de 517 dias de luta constante contra o impulso de anestesiar a dor com uísque, vodka ou rum. 517 dias de esforç…

… por que cedera, afinal?

Encarou o chuveiro e tentou contar os furos na peça metálica que permitiam a passagem da água. “Concentre-se.” Contou 17 e se perdeu, mas ao menos a náusea diminuiu.

Moveu lentamente as pernas adormecidas, que formigaram sob as gotas quentes. Aproximou a mão direita do rosto e o esfregou com força. “Acorde.”

Voltou a apoiar os braços nas extremidades da banheira e ensaiou levantar-se. Sabia que não chegaria nem perto de conseguir, mas queria apenas provar para si mesmo que tinha a intenção de sair dali. Tinha. E não conseguiu.

O que acontecera na noite anterior? Por que bebera?

A palavra “dentes” piscou em sua memória. Subitamente, sentiu o corpo tenso e viu-se tomado pela angústia de alguém que desperta depois de um longo pesadelo e, mesmo sem lembrar-se do que sonhara, sabe que não havia sido com unicórnios e arco-íris.

Havia brigado com Melina? Não se lembrava. Buscou resgatar a memória mais recente que havia arquivado e sentiu apenas dor de cabeça. Viu-se entregando um bilhete para a recepcionista da empresa na qual a namorada trabalhava e mais nada. Não recordava-se nem mesmo do que havia escrito naquele papel.

Empurrou a cortina do chuveiro com a mão esquerda e descobriu-se num banheiro desconhecido. O espelho, completamente embaçado, era bem maior do que aquele que ocupava alguns centímetros do lavatório de seu próprio apartamento.

Estava num hotel.

Estava num hotel?

Estava num hotel!

Relaxou os músculos do braço, que caiu sobre seu colo e permitiu que a cortina voltasse à posição original, isolando-o do resto do aposento. Como viera parar ali? Por alguns segundos, gelou ao lembrar-se da lenda urbana sobre o sujeito que acordava sem um dos rins em um quarto de hotel, mas uma breve inspeção revelou que não havia passado por nenhuma cirurgia clandestina. Sentiu-se aliviado, mas por pouco tempo: o branco em sua mente era mais assustador que uma possível cicatriz, que ao menos explicaria como viera parar naquela banheira.

Puxou novamente a cortina e correu os olhos por todo o banheiro em busca de seu celular. Nada. Talvez estivesse no quarto, o que era motivação suficiente para que se erguesse. Respirou fundo, passou novamente a língua sobre os lábios e…

Dor. Não nos lábios, mas em algum ponto no interior da boca e com uma intensidade tal que tornava difícil precisar o local exato. Moveu a mão direita em direção ao rosto e só então percebeu que estava coberta de sangue. Claro, havia esfregado o rosto há alguns minutos.

Cautelosamente, passou a língua pelo céu da boca. Nada. Moveu-a, então, pela gengiva inferior e, embora percebesse certa sensibilidade, não notou ferimento algum. Porém, bastou erguê-la para a superior para que percebesse não só a dor, mas a presença de uma saliência estranha.

Passou a ponta dos dedos pelo local e sentiu uma dor fina e intensa. Havia algo encravado ali.

“Mas como…”

Considerou a possibilidade de deixar o-que-quer-que-fosse ali mesmo e ir a um hospital, mas o impulso de saber que corpo estranho era aquele em sua gengiva venceu e, num gesto rápido, apertou a extremidade fria e cortante do objeto e puxou.

Gritou de dor antes de conseguir voltar o olhar para o que segurava: um caco de vidro. Como ele entrara em sua boca, não fazia ideia, já que seria preciso que…

Viu-se mergulhando em uma vidraça quebrada, mas não conseguiu recuperar os detalhes da memória. Alguém o arremessara ou ele saltara em direção ao vidro?

Percebeu que era imperativo que se levantasse. Com dificuldade, apoiou-se no chão da banheira e ergueu-se. Deixou que a água quente caísse sobre suas costas por alguns minutos, mas não pensou em ensaboar-se. Queria apenas despertar ou, ao menos, clarear a mente por tempo suficiente para lembrar-se de algo. De qualquer coisa.

Fechou o chuveiro, abriu a cortina e, com dificuldade e dor, pisou no tapete encharcado ao lado da banheira. Num gesto rápido, passou a mão no espelho e abriu um pequeno espaço no qual podia se enxergar.

Sentiu um frio na barriga. O homem no reflexo tinha os olhos completamente vermelhos, a testa e as bochechas cobertas de pequenos ferimentos e os lábios tintos de sangue. Aquele não era o homem que se acostumara a enxergar nas últimas décadas, mas um veterano de guerra. Um sobrevivente. Talvez um fugitivo. Exatamente do que fugira, não saberia dizer, mas algo havia acontecido.

Com cautela, abriu a porta do banheiro e viu o vapor escapar para o quarto enquanto o ar frio do apartamento o envolvia. Esticou o pescoço e olhou para o aposento vazio. Suas roupas – ensanguentadas, era fácil perceber – estavam atiradas no chão, bem como seus sapatos. Sobre a cama, um revólver.

Sempre abominara armas.

Procurou o celular nos bolsos da calça. Nada. Uma rápida busca revelou que o aparelho não estava no quarto. Discou o número da recepção, mas ninguém atendeu. Subitamente, sentiu que precisava sair dali e descobrir o que estava acontecendo.

Com certo asco, vestiu a calça pegajosa e a camisa, que, notou, encontrava-se rasgada e com pontos que revelavam a presença de sangue seco. Será que havia feito alguma besteira? Teria machucado alguém?

Pior: teria machucado Melina?

Amarrou os sapatos e olhou ao redor. Nem sinal de sua carteira ou de suas chaves. Talvez estivessem no carro, mas como não se lembrava de onde estacionara, isto não ajudava muito.

“Talvez na garagem do hotel.”

Por alguns segundos, julgou ter ouvido um grito à distância. E só então, ao tentar aguçar a audição para avaliar o que ouvira, percebeu que tudo se encontrava silencioso demais. Além disso, continuava a pensar que sua situação tinha algo a ver com “dentes”, o que não fazia o menor sentido.

Abriu o armário e experimentou um pequeno choque ao ver várias garrafas vazias espalhadas naquele pequeno espaço. Obviamente esvaziara o frigobar do quarto, mas a quantidade de garrafas indicava que trouxera bebidas consigo ao fazer o check-in.

Será que bebera tudo sozinho?

Percebeu que a resposta era positiva. No entanto, ainda não fazia ideia do que pudera levá-lo àquilo.

Fechou o armário, respirou fundo e sentiu a cabeça doer. Precisava de respostas. Precisava sair dali. Precisava encontrar Melina e desculpar-se.

Buscou mais uma vez a carteira e constatou que não estava mesmo no quarto. Sim, devia estar no carro – onde quer que ele se encontrasse.

Olhou-se no espelho e sentiu raiva da própria fraqueza. Dezessete meses jogados no lixo. Babaca. Imbecil. Covarde.

Colocou a mão sobre a maçaneta da porta do quarto e, depois de um instante de hesitação, girou o metal e puxou-o em sua direção.

O movimento disparou os sensores de movimento do corredor do hotel e acendeu as luzes do andar. Com um susto, percebeu que três figuras encontravam-se paradas diante do elevador e de costas para o ponto no qual ele se encontrava. Por um segundo, pensou em aproximar-se daquelas pessoas, mas algo o deteve. Por que elas estavam no escuro? Por que não se moviam?

– Oi? Com licença…

Os três homens se voltaram ao mesmo tempo em sua direção.

Ele soltou o ar em um pequeno grito abafado ao ver os rostos que o encaravam. O primeiro tinha um dos olhos projetados sobre a bochecha e preso por um pedaço fino de nervo – e o olho que se encontrava no lugar surgia vidrado e sem vida. Já o segundo homem parecia fisicamente normal, mas algo em sua postura denunciava uma rigidez estranha e inquietante. Enquanto isso, a terceira criatura surgia como a mais assustadora: boa parte de seu rosto encontrava-se afundada em uma massa de ossos, músculos e sangue, ao passo que seus olhos moviam-se rapidamente nas órbitas. Porém, o que realmente perturbava era perceber que suas vísceras encontravam-se penduradas para fora do abdômen e que ele havia levado uma de suas alças intestinais até a boca, mastigando-a com o que restava da mandíbula.

“O que está acont…”

Antes que pudesse completar a frase em sua mente, os três monstros dispararam em sua direção. Assustado, ele deu um passo para trás e, tropeçando, caiu de costas no chão do apartamento.

A imagem de Melina, mordendo o rosto de sua sobrinha de cinco anos, atingiu-o com a força de um soco. Viu-se lutando com a namorada e enterrando uma faca em seu pescoço. Uma série de flashes de uma multidão em pânico trouxe a constatação angustiante de que sua tragédia não era única e pessoal, mas parte de uma epidemia. Lembrou do pânico, da desorientação experimentada e do impulso de fugir daquela realidade subitamente bizarra.

O saguão vazio do hotel. Sua imagem no espelho do elevador com os braços ocupados por garrafas. O sangue que ainda escorria da boca depois que atravessara a janela do quarto que dividia com Melina.

Percebeu que as criaturas encontravam-se praticamente no limiar da porta e considerou a possibilidade de chutá-la numa tentativa fútil de fechá-la.

E constatou que não queria mais fugir.

postado em by Pablo Villaça em Variados