Breaking Bad S05E13

(Better Call Spoilers.)

Espero que Michelle MacLaren, uma das melhores diretoras de Breaking Bad (se não a melhor), estreie logo no Cinema. A construção da tensão nos minutos finais deste episódio comprova não só a precisão da linguagem audiovisual da realizadora, mas também a principal virtude da série como um todo, que demonstra compreender algo que boa parte dos filmes hoje ignora: o fato de que só nos importaremos realmente com uma sequência de ação e seus resultados se nos importarmos com os personagens envolvidos. Quando todos aqueles homens sacam suas armas e as apontam na direção uns dos outros, o temor que sentimos é fruto de sabermos que os resultados serão desastrosos de uma maneira ou de outra: ou figuras que amamos serão feridas/mortas ou nosso protagonista irá preso.

Por um lado, queremos aquele confronto. Queremos experimentar a tensão, a catarse de um tiroteio intenso. Por outro, queremos que tudo… dê “certo” – seja lá o que isso signifique nestas circunstâncias.

Mas me adianto como de hábito – e só posso culpar Breaking Bad por me inspirar um entusiasmo tamanho a ponto de me fazer ignorar regras básicas de estrutura em um texto.

Reiterando a natureza bruta e perigosa de Jack e seu comparsa neonazista em um prólogo no qual dispensam máscaras ao avaliar o cristal fabricado por Todd, este “To’hajiilee” investiu alguns interessantes minutos na interação curiosa entre o rapaz e Lydia, a sucessora de Walter White e Gustavo Fring na produção da droga. Iluminando o rosto do rapaz de maneira a ressaltar sua aparência de garoto, o que contrasta com sua natureza assassina de forma a torná-lo ainda mais assustador, esta cena inicial, como de hábito, demonstrou o cuidado da série na escolha de suas cores: Jack de vermelho (perigo), contrastando com o azul impessoal de Lydia, e Todd substituindo o amarelo de sua roupa de proteção por uma camisa com os nada benevolentes preto e vermelho (e é curioso como estes tons remetem diretamente às de Jesse ao longo da série). Não à toa, a cena inclui uma referência quase metalinguística ao trazer Lydia segurando uma xícara que traz os dizeres “Estas cores” – enquanto claramente usa o interesse de Todd como arma para estimulá-lo a melhorar a qualidade do cristal.

A partir daí, este décimo-terceiro episódio volta a mergulhar seus personagens novamente nas sombras – uma estratégia visual que, mesmo recorrente ao longo da série, se tornou ainda mais marcante nesta etapa final ao refletir o estado de espírito daquelas pessoas. Assim, mesmo que constantemente enquadre Hank em ângulos baixos que o transformam em um gigante determinado a destruir o concunhado, MacLaren e o diretor de fotografia Michael Slovis (que finalmente retorna à função depois de dois ou três episódios afastado) não deixam de ressaltar a ambiguidade de suas ações ao mantê-lo semi-envolvido por sombras, já que, além de demonstrar descaso para com o futuro de Jesse, o policial não hesita em recorrer a mentiras e intimidações para conseguir provar a culpa de Walt.

Comparem, porém, as sombras sobre Hank com aquelas que envolvem Jack e percebam como Slovis cria gradações de escuridão – algo que, por si só, é fascinante o bastante para render-lhe todos os prêmios do ano por seu trabalho em Breaking Bad. Comparado a Hank, Jack é uma figura ainda mais abominável e, assim, surge como um ser ameaçador, quase demoníaco, com sua camisa vermelha e o rosto quase todo mergulhado no negro absoluto que o abraça – um símbolo de maldade reforçado pela presença de Todd ao fundo, nos quadros que trazem Walt, quando o rapaz surge apropriadamente banhado em vermelho. E é aí que Walt fará aquilo que discuti ao escrever sobre o episódio 11 e que marca a perda de seu último traço de humanidade: aperta a mão do Diabo e encomenda a morte de Jesse Pinkman.

 Não é de se espantar, portanto, que a cena a seguir o traga parado do lado de fora da casa de Andrea, mãe de Brock, enquanto um crucifixo se coloca ao lado da entrada, como barrando-o momentaneamente – um plano carregado de simbolismo e cuja sutileza apenas comprova a confiança de Breaking Bad em sua própria lógica visual. (E reparem também como um foco de luz estrategicamente apontado para o sofá ressalta as cores-chave de Jesse, amarelo e vermelho, indicando sua influência sobre a ex-namorada, mas também o roxo – morte – representado pela presença de Heinsenberg em sua vida.)

No entanto, um dos elementos mais interessantes do episódio é perceber justamente como, após ultrapassar o limite final da vilania (pedir a morte de Jesse), “Heisenberg” retorna ao modo Walter White de forma absoluta: sua tentativa de atrair Pinkman é frustrada pela interceptação de Hank, que, a partir daí, desenvolve uma estratégia que lança Walt em modo de pânico absoluto – e até seu modo de correr, trôpego e desajeitado, remete ao personagem enfraquecido que conhecemos no início da série. Pressionado por todos os lados, Walt nunca esteve tão encurralado ao longo de Breaking Bad – uma situação que MacLaren retrata repetidamente ao trazê-lo observando o mundo pelas janelas do lava-jato com persianas que formam grades, ao mostrá-lo encolhido atrás de uma rocha e ao enfocá-lo num quadro aberto que o deixa pequeno e perdido ao perceber que foi enganado por Hank. Com isso, ao fechar a sequência com um lento travelling que se aproxima do rosto cansado, tenso e (surpresa) com lágrimas do protagonista, somos capazes de ler em sua expressão, estupefatos, algo que nunca víramos em Walter White: resignação. Ele perdeu a batalha e sabe disso.

A partir daí, o episódio, que já vinha repleto de planos fortes, presenteia o espectador com uma imagem icônica atrás da outra: da submissão de Walter diante de Hank, Gomez e Jesse até a expressão incrédula de alívio de Pinkman, passando, é claro, por aquele que representa o momento-chave de toda a série: as algemas se fechando nos pulsos de Walt enquanto Hank recita seus direitos.

Se o episódio houvesse terminado aí, já teria conseguido espaço entre os melhores da série (ao lado do décimo-primeiro e de outros como aquele com o trem, com a morte de Mike e, claro, “Half-Measures” – ainda meu favorito). No entanto, o roteirista George Mastras (justamente o autor de “Dead Freight”) vai um passo adiante e constrói um confronto que, valorizado pela direção certeira de MacLaren, cria uma atmosfera de tensão insuportável – e quando vi Hank conversar com Marie pelo telefone, confesso que esperei vê-lo ser subitamente atingido por uma bala. No entanto, se isto representaria uma surpresa, Michelle MacLaren prova ter ouvido os conselhos de Hitchcock e, em vez disso, opta pelo suspense, criando um confronto que parece durar horas até que o primeiro tiro seja disparado, empregando trocas de olhares e cortes que poderiam ter saído de um western de Sergio Leone.

O que me traz de volta ao desejo de ver logo um filme dirigido por esta cineasta de talento inegável.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê