Breaking Bad S05E14

(Não há piadinhas no início deste post, pois… seria desrespeitoso. Curioso e absurdo, eu sei, mas realmente sinto isso. Bom… spoilers.)

E no pedestal estão estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, Rei dos Reis;
Vejam minhas obras, poderosos, e desesperem!”
 Nada mais resta. Em volta, só a decadência
Dessa colossal destruição, crua e sem limites
Apenas solitária areia por toda parte.
– P.B. Shelley

Nada resta a Walter White a não ser o ódio, o desejo de vingança e a solidão. Como no soneto de Shelley que dá título a este episódio, Ozymandias, o impulso de entrar para o “ramo do Império” experimentado por Heisenberg resultou na perda absoluta de tudo que seu pacato alter-ego mais amava – e, ao final deste mais recente e incrivelmente doloroso episódio de Breaking Bad, as vidas de todos que cercavam Walt estão irremediavelmente destruídas: Hank e Gomez estão apodrecendo em uma cova rasa no meio do deserto, Jesse é um amontoado de pele e órgãos massacrados, Marie tornou-se viúva, Skyler se resume a um punhado de dores e arrependimentos, Walt Jr. viu todo o seu mundo desmoronar e até mesmo a pequena Holly soluça pela mãe enquanto encontra-se nos braços do pai sociopata.

Depois de 5 anos, Vince Gilligan deixou claro que criou uma série que contava a história do colapso de uma família graças ao orgulho, ao ego descontrolado e aos ressentimentos de um homem intelectualmente brilhante, mas moralmente quebrado.

Dirigido por Rian Johnson (A Ponta de um CrimeLooper e os episódios “Fly” e “Fifty-One”) e escrito por Moira Walley-Beckett, “Ozymandias” já tem início subvertendo todas as expectativas de um público ansioso para conhecer o desfecho do tiroteio iniciado no episódio passado – e, seguindo a lógica fantástica da série, abre a narrativa com um plano-detalhe de uma jarra com água começando a ferver, num simbolismo óbvio (mas ainda assim divertido) do ponto dramático no qual o projeto se encontra. A partir daí, somos surpreendidos por algo relativamente raro em Breaking Bad: um extenso flashback que nos leva para o início da série, quando um Walt ainda inseguro liga para a esposa a fim de desculpar-se pelo atraso para chegar em casa – e é realmente tocante, considerando tudo o que sabemos ter ocorrido posteriormente, ver Jesse brincando despreocupadamente ao fundo enquanto um Walt ainda capaz de sorrir discute o nome da filha com Skyler, que encontra-se numa casa ainda intocada pelas sombras que a dominariam eventualmente.

E é então que Walt conta sua primeira mentira – a primeira de inúmeras -, dando início à cadeia de acontecimentos que resultaria na tragédia concretizada neste episódio. Assim, quando Johnson traz Walt, Jesse e o trailer desaparecendo como fantasmas, percebemos a beleza daquele plano, que traz a representação literal da destruição de tudo aquilo pela mentira que acabara de ser contada.

Da mesma maneira, a bela construção do roteiro de Walley-Beckett pode ser observada através de duas pistas importantes plantadas nesta sequência inicial: a presença das facas na cozinha dos White e a discussão sobre Holly – dois elementos essenciais no desfecho do episódio.

A partir daí, porém, “Ozymandias” se entrega à escuridão criada por Heisenberg – e a intensidade dos acontecimentos é tamanha que os créditos só são vistos na tela após 20 minutos de exibição, já que em nenhum momento antes disso o surgimento dos nomes poderia ocorrer sem atrapalhar a atmosfera da narrativa. Deixando clara a impotência de Hank diante dos adversários e colocando o espectador em sua situação através de uma câmera inteligentemente situada no mesmo nível do personagem (o que torna seus algozes ainda maiores e mais ameaçadores), a despedida do personagem de Dean Norris da série foi dramática como merecia ser: depois de ver seu parceiro Gomez morto, Hank tenta inutilmente alcançar sua arma e, a partir daí, vira uma vítima à espera da execução enquanto Walt tenta desesperadamente salvar sua vida. Sempre acreditando ser capaz de resolver qualquer problema através de seu intelecto, Walt implora, oferece suborno (outro erro grave que lhe custa caro) e finalmente, entre lágrimas, pede que Hank o ajude a salvá-lo – o que resulta numa fala comovente e repleta de dignidade que, além disso, denota a bravura de seu concunhado (e que Norris recita de maneira fantástica, incluindo uma pausa dramática que a torna ainda mais impactante):

Você é o cara mais inteligente que já conheci… e estúpido demais para entender… (pausa)… que ele já decidiu (me matar) dez minutos atrás.

Esta foi a última frase que Hank Schrader completou em sua vida. A seguinte foi interrompida por um tiro na cabeça.

Ah, Hank.

Apropriadamente enterrado na vala que Walt cavara para esconder seu dinheiro (mais um simbolismo inevitável), Hank finalmente leva o concunhado a entender, através de sua morte, a dimensão de seus atos – e Rian Johnson faz duas belas referências cinematográficas nos momentos seguintes: primeiro, ao usar o contrazoom de Hitchcock para salientar o impacto daquela morte sobre o protagonista e, em seguida, ao manter o choro deste num silêncio sufocante por alguns segundos (ecos de Michael Corleone ao final de O Poderoso Chefão 3, quando também perdeu alguém da família em função de sua vida de crimes). O descontrole emocional de Walter, diga-se de passagem, é perfeito ao despertar no espectador um profundo incômodo, já que, até então, estávamos habituados a vê-lo sempre no comando da situação ou racionalizando possíveis saídas.

A genialidade de Breaking Bad, contudo, reside na confiança dos roteiristas na trajetória psicológica do protagonista. Assim, se momentaneamente sentimos a dor de Walt, logo somos lembrados de estar diante de um sociopata, de um homem cujos parâmetros morais já se perderam há muito – e o que Walter faz a seguir é, provavelmente, o ato mais cruel de toda a série: e não me refiro ao fato de entregar Jesse aos matadores e exigir sua execução, mas sim à sua frieza abominável ao revelar para o jovem que testemunhou e permitiu a morte de Jane por overdose. Sim, ele é o protagonista, nosso anti-herói e é natural que, de certa maneira, “torçamos” por ele – mas se sua responsabilidade pela morte de Hank já não fosse o bastante para constatarmos a dimensão de sua canalhice, esta sua derradeira atitude diante do rapaz que manipulou ao longo de cinco temporadas é algo impossível de ignorar. Heisenberg não é “cool” ou uma figura digna de admiração, mas um sujeito moralmente pervertido, um psicopata egoísta e implacável. Um vilão tridimensional e capaz de sentimentos nobres pontuais, mas ainda assim um vilão – e se no episódio passado já o víramos firmar um pacto com o Diabo, desta vez a representação simbólica de sua maldade surge através de um plano divertido que o coloca sob os chifres de um animal morto.

Esta sequência, aliás, é um exemplo interessante do senso de humor atípico da série: depois de retratar a morte de um de seus personagens mais importantes e queridos, “Ozymandias” traz Walt rolando seu último barril de dinheiro solitariamente no deserto (quase invisível no plano abaixo, tamanha sua pequenez) enquanto ouvimos os versos de “Times are Getting Hard, Boys” – e, no caminho, ele passa por algo que parece ser os restos da calça que ele perdeu no episódio piloto:

Times are getting hard, boys
Money’s getting scarce
If things don’t get no better, boys
Gonna leave this place
Take my true love by the hand
Lead her thru the town
Saying good-bye to everyone
Good-bye to everyone

E ainda nem chegamos à metade do episódio.

Já discuti inúmeras vezes, ao analisar a estética de Breaking Bad, a beleza de suas composições e a atenção que os diretores da série dedicam ao uso preciso das cores. Em “Ozymandias”, isto pode ser observado, por exemplo, na conversa entre Marie e Skyler, quando uma flor roxa (morte) se coloca entre as duas enquanto a primeira, ainda sem saber que se tornou viúva há algumas horas, busca se impor sobre a irmã, orgulhando-se de sua “superioridade” moral e exigindo que Skyler complete o trabalho de Walt ao destruir o último inocente que resta naquele universo: Walt Jr. É comovente, aliás, ver o garoto tentando aplicar sua lógica simples aos fatos, buscando negá-los – e exatamente por sabermos a admiração que o garoto sente pelo pai é que os minutos seguintes se tornam tão dolorosos ao trazê-lo testemunhando um confronto físico pesadíssimo entre Walt e Skyler que finalmente o obriga a tomar uma decisão, protegendo a mãe contra aquele com o qual se preocupava há poucos dias. Aqui mais uma vez somos presenteados com um plano memorável no qual as mãos entrelaçadas do casal White disputam o controle sobre uma faca ensanguentada que, colocando-se diante de Walt Jr., representa a violência que o cercava há tanto tempo sem que ele sequer desconfiasse.

Em pouco menos de dois anos, Walter White foi de pai e marido amoroso ao papel de terror de sua própria família (algo que Johnson ressalta através do posicionamento da câmera, que transforma o protagonista em um gigante ameaçador e seus familiares em criaturas vulneráveis e pequenas). Aliás, seu choque ao perceber que agora perdeu irremediavelmente aquilo que foi a causa inicial de seu mergulho no crime (causa que foi gradualmente substituída por seu orgulho e ego) é um momento particularmente doloroso da série: se no episódio passado víramos Walt ser algemado por Hank, desta vez os resultados de suas ações são ainda piores, levando-o a um ato desesperado e irracional (algo raro no personagem) de tentar agarrar-se a um último resquício de sua unidade familiar – a pequena Holly. A partir daí, o que temos é o retrato de uma família despedaçada e do mais puro abuso doméstico, quando uma Skyler desesperada vê o marido sequestrar a filha e, com a roupa ainda exibindo manchas de sangue, ajoelha impotente no meio da rua, expondo para o mundo de uma vez por todas a realidade brutal de violência, dor e crueldade que antes mantinha oculta atrás das portas de seu lar aparentemente feliz.

E, do ponto de vista dramático, é fabuloso constatar como Breaking Bad ainda alcança peso ao levar o espectador a sentir um drama tão comum em tantos lares, levando-nos a perceber como os atos de abuso podem começar de forma quase imperceptível até culminarem numa explosão de violência capaz de surpreender até mesmo os próprios envolvidos. A incapacidade de Skyler de responder por que deixou que as coisas chegassem àquele ponto, aliás, reflete algo tristemente comum em inúmeros lares – e o simples fato de a série nos conduzir a esta reflexão é sinal de sua força narrativa.

 Ao final de “Ozymandias”, tudo que resta a  Walter White são algumas bolsas com roupas e um barril de dinheiro. Sim, ele faz algo relativamente nobre (se é que podemos usar esta palavra ao falarmos de Walt) ao ligar para casa e assumir a culpa por tudo que fez, inocentando Skyler mesmo que isso lhe custe dizer que matou Hank (é claro que ele sabia que a polícia estava ouvindo), mas é um ato pequeno demais e que vem tarde demais.

Dois anos antes, seus familiares sentiram dor ao descobrir que Walter tinha câncer possivelmente terminal. Graças às suas atitudes desde então, hoje aquelas mesmas pessoas certamente desejam que ele houvesse morrido logo, devorado pela doença. O legado de Walt é apenas dor.

postado em by Pablo Villaça em Séries de tevê