A atração dos vilões

Em meu mais recente post sobre Breaking Bad, comentei o caráter destrutivo do protagonista da série, sua crueldade inigualável (o que ele diz para Jesse no deserto ultrapassa o limite do doentio) e o fato de que seu único legado será a dor que provocou em todos que o cercavam. Por outro lado, é claro que o considero um personagem fascinante – caso contrário, não teria assistido às cinco temporadas do projeto de Vince Gilligan e não me dedicaria a comentar e analisar cada episódio aqui no blog. A pergunta mais intrigante, no entanto, seria: eu gosto de Walt?

É aí que a confusão tem início: sem dúvida alguma, eu gosto de acompanhar sua história, admiro sua inteligência e o considero uma criatura multifacetada. Se ele fosse um indivíduo real, porém, eu jamais apertaria sua mão e certamente o consideraria uma figura abominável.

Pois Walt é abominável e suas ações são típicas de um sociopata. Como se trata de um personagem fictício, contudo, o peso de suas atitudes se torna relativo: sim, ele provocou, direta e indiretamente, as mortes de mais de uma dúzia de pessoas (isto sem nem mesmo considerarmos todos que morreram graças à droga que ele fabrica com tanto orgulho), mas como suas vítimas nunca existiram de fato, torna-se fácil relativizar seu comportamento e mesmo perdoá-lo por tudo.

E esta seria uma lógica até aceitável – mesmo simplista – caso não houvesse um fator complicador: para absolver Walt, os fãs de Breaking Bad que se veem compelidos a defendê-lo frequentemente atiram a culpa sobre outros personagens: ele foi “traído” por aqueles que amava; sempre pensou em sua família, que não parece entender isto; agia apenas em autodefesa e por aí afora. Nos comentários do post anterior, um leitor chegou a dizer que foi Skyler quem “correu para lavar o dinheiro sujo dele”. Em outras palavras: o tal leitor – homem, claro – ignorou a parte do “sujo” que ele mesmo apontou e preferiu depositar a culpa na esposa do criminoso, optando convenientemente por esquecer como Walt pressionou, ameaçou e aterrorizou Skyler (e me debrucei sobre isso ao falar do episódio S05E04). Assim, a partir do momento em que Heisenberg é elevado ao posto de “herói” enquanto seus opositores se tornam seres repreensíveis, algo muito errado está ocorrendo na análise e na percepção de certos fãs.

A culpa, claro, não é da série em si – que, como obra de Arte complexa e inteligente, faz seu trabalho ao criar um universo e personagens multidimensionais. Aliás, a percepção que a própria série e seu criador têm sobre Walter é clara: ele é um vilão, um psicopata. Não é à toa que Gilligan várias vezes descreveu a narrativa como a história da transformação de um pacato professor em Scarface – e, a menos que ele tenha assistido a uma versão diferente da que vi, esta não é uma comparação lisonjeira no que diz respeito ao caráter de seu protagonista.

No entanto, não são apenas alguns poucos fãs que enxergam Walt/Heisenberg como um verdadeiro herói incompreendido que merece nada além de admiração e pena; leia os comentários em meus posts sobre a série ou em qualquer texto sobre Breaking Bad e perceberá que esta é uma posição mais comum do que poderíamos imaginar a princípio.

O que estes fãs parecem não perceber é que estão confundindo sentimentos, identificando como admiração algo que, de fato, tem mais a ver com a atração que Walt exerce sobre o espectador.

Isto não é incomum: o próprio Scarface de Al Pacino provoca este sentimento. Ao longo do filme de Brian De Palma, vemos o sujeito matar aliados friamente, tornar-se traficante de drogas, cobiçar a irmã sexualmente e matar o melhor amigo justamente por ter ciúmes da garota – e, no entanto, quando ele grita “Say hello to my little friend!” ao final da projeção, torcemos para que derrote seus inimigos quando, talvez, deveríamos estar celebrando seu fim. Da mesma maneira, somos fascinados pelo Coringa, por Darth Vader, Freddy Krueger, Jason Voorhees, Hannibal Lecter ou mesmo pelo Diabo. Ora, coloque Adolf Hitler num bunker ao fim da Segunda Guerra, acompanhe seus últimos dias e não demorará até que uma das cenas do filme se torne um meme aparentemente imortal na Internet.

Por que isto ocorre?

Em primeiro lugar, como já mencionei, há a liberdade de acompanharmos as atitudes desprezíveis de alguém sabendo que as consequências não são reais. Se um bandido detona uma bomba em uma casa de repouso, queremos vê-lo punido; se o faz no contexto de uma obra ficcional, que pode, inclusive, garantir que inocentes não serão mortos e que apenas outros vilões serão destruídos, nos permitimos vibrar com o plano e celebramos a engenhosidade do terrorista. E mesmo que inocentes morram (ou que sejamos contra a pena de morte mesmo certos da culpa do bandido atingido pela bomba), não nos sentimos culpados por nossa reação, já que, na realidade, foi apenas um ator quem deixou de participar da série. Como Chandler Bing disse em um episódio de “Friends” ao explicar por que não chorara com a morte da mãe de Bambi: “É, eu fiquei arrasado quando pararam de desenhar a corça”.

Esta é, porém, uma explicação incompleta: há mecanismos psicológicos por trás de nossa atração por vilões – e há décadas estes encontram-se presentes em abundantes textos teóricos sobre a narrativa cinematográfica e são empregados por realizadores experientes, mesmo que de forma instintiva. Conhecê-los é entender um pouco mais sobre nós mesmos e sobre a complexidade de se contar histórias.

O mais óbvio reside na ausência de superego no aparelho psíquico dos vilões. Responsável por nossa autocensura e construído durante nossas vidas a cada “não” aprendido e convenção moral/legal/social absorvida, o superego limita nossos impulsos e desejos – e, assim, testemunhar alguém que simplesmente não parece dar a mínima para o próprio superego (caso tenha um) é algo que nos oferece a satisfação da fantasia. Afinal, certamente há algo de profundamente libertador em não se render à autocensura – mas também algo de muito egoísta e narcisista. Desta maneira, admirar (ou “admirar”) um vilão é, à sua própria maneira, como admirar a habilidade de um atleta muito talentoso ou o talento de um artista muito habilidoso.

Quando não podemos ter algo, queremos ser este algo – e vice-versa.

Esta ambiguidade entre o ser e o ter é outro mecanismo psicológico que, independentemente do nosso fascínio pela ausência do superego nos vilões, é capaz de explicar por que os admiramos. Ao longo de nossas vidas, estabelecemos identificações secundárias com pessoas que admiramos (a primária precede a formação do conceito do “Eu” e se dá na fase oral do desenvolvimento) e absorvemos características destas, já que não podemos “tê-las” na maioria das vezes (e, assumindo seus traços, suprimimos esta carência ao nos tornarmos estas pessoas). No entanto, nas narrativas ficcionais há uma diferença importante: esta identificação secundária (a primeira é com a câmera) se dá não com o personagem, mas com a situação que vive. E mais: basta que o realizador coloque um personagem em situação de fragilidade para que nos identifiquemos com sua situação e, de forma indireta, com aquele que a enfrenta.

Pensem nisso: a primeira cena de Scarface traz o (futuro) vilão completamente vulnerável. Em A Queda, Hitler não poderia estar mais fragilizado. O Coringa enfrenta o grande herói do filme, tem o rosto coberto por cicatrizes e é perseguido por bandidos e pela polícia.

Walter White tinha câncer terminal, queria deixar dinheiro para a família, enfrentou a ameaça de Krazy-8, Tuco, Gus Fringe e o perigo de ser preso.

Se Scarface gastou seus cinco minutos iniciais para levar o espectador a formar um laço de identificação secundária cinematográfica (um conceito de Metz), Breaking Bad investiu três anos. Assim, mesmo quando percebemos que Walt já não tem redenção possível e se tornou um canalha, os laços estabelecidos inicialmente nos mantêm presos ao personagem e torcendo por ele. Além disso, é fundamental que, para que isto aconteça, de tempos em tempos a série nos ofereça motivos para continuarmos acreditando em seu caráter. Lembrem-se, por exemplo, como no segundo ato de Scarface, quando estamos prestes a desistir do bandido, este se recusa a matar crianças (embora não veja problema em matar outras pessoas) e comparem isto à insistência de Walt em preservar membros de sua família. Ele pode ter envenenado uma criança, permitido que uma jovem morresse na sua frente sem tentar salvá-la e mantido Jesse preso a ele mesmo quando o rapaz tentou reconstruir sua vida, mas, poxa, ele se recusa a matar Hank e… e… e… parece amar a família.

Assim, não é absurdo que alguém goste de Walter White. Como já apontei, eu mesmo gosto do personagem – como personagem. Ainda assim, jamais me ocorreria tentar justificar suas ações e muito menos culpar suas vítimas pelo que sofreram. Somos seres pensantes e uma obra como Breaking Bad é bela justamente por permitir que analisemos nossas contradições internas e percebamos que, sim, podemos sentir fascínio por um canalha mesmo que moralmente permaneçamos íntegros e condenemos o que faz.

O problema começa quando surge a insistência de enxergá-lo como herói e de ver todas as suas ações como uma resposta razoável naquelas circunstâncias específicas – algo que muitos manifestam com a expressão “eu, no lugar dele, talvez tivesse feito a mesma coisa”.

Se este é seu caso, sugiro terapia.

postado em by Pablo Villaça em Discussões, Séries de tevê