A Chave

Ouviu os três bipes do micro-ondas e levantou-se da cadeira de plástico que compunha o conjunto com a mesa de sua minúscula e escura cozinha. Sentindo-se exausto depois de praticamente três noites em claro, abriu a porta do aparelho e retirou o copo de café requentado que, esperava, o manteria desperto por mais algum tempo. Não podia dormir. Não ainda. Sabia que estavam esperando por isso.

Levou o copo à boca, mas interrompeu o gesto ao perceber algo curioso dentro do micro-ondas. Quase não vira aquilo antes de fechar a porta como fizera tantas vezes, mas, por coincidência, ao erguer a cabeça para beber o café, um golpe de sorte fizera com que seu campo de visão se alterasse no ângulo exato para perceber um reflexo sob o prato de vidro giratório. Largou o café sobre a pia e, com as mãos trêmulas, forçou o prato para cima e o desencaixou da base.

Ergueu-o contra a luz e notou o que pareciam ser duas manchas retangulares na parte inferior do vidro. Restos de cola de algum tipo de fita adesiva.

Voltou a atenção para o vão circular antes ocupado pelo prato. Uma abertura estreita permitia que visse a escuridão do interior do aparelho. Possivelmente teria que desmontá-lo para se certificar de que…

Desligou o micro-ondas da tomada e tirou o iPhone do bolso. Acionou a lanterna do telefone e apontou a luz na direção do reflexo que vira antes. O brilho novamente. Tinha certeza agora.

Sentindo um desconforto intenso no estômago, buscou uma chave-de-fenda no quarto que usava como oficina e, depois de certificar-se novamente de que havia desligado a tomada, enfiou a ponta da ferramenta na abertura do eletrodoméstico. Segurando o iPhone com a mão esquerda e movendo a chave-de-fenda com a direita, dedicou-se por vários minutos tensos à tarefa de desencavar o que quer que fosse que havia provocado aquele reflexo. Poderia não ser nada, evidentemente, mas não acreditava nesta possibilidade.

Ouviu um pequeno estalo, como se algo houvesse se soltado lá dentro, e então viu duas pontas soltas e desencapadas de algum tipo de fio apontando em sua direção.

“Filhos da puta!”

Vomitou na pia.

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A COLA RESTANTE NO PRATO E OS FIOS SOLTOS não deixavam dúvida: eles haviam instalado algum tipo de equipamento em seu micro-ondas. Esta constatação já seria normalmente ruim o bastante, mas o fato de a tal coisa não se encontrar mais lá indicava algo pior: eles haviam invadido sua casa ao menos duas vezes.

“Idiota, idiota, idiota!”

Ele se tornara relapso com o tempo. Acomodara-se. Ficara distraído e descuidado. Passara a depender tanto da rotina de segurança que estabelecera ao longo dos anos que se entregara a esta como se no piloto automático e jamais a modificara. Quando sentia-se mais inseguro do que o habitual, descartava os telefones e comprava novos, formatava o HD do notebook e pronto. Houve uma época em que se permitia uma paranoia maior, chegando a mudar de apartamento cinco vezes em um só ano, mas acabara se convencendo de que se tratava de exagero. Certamente não era tão importante a ponto de ser monitorado tão de perto.

Sim, os terríveis segredos que carregava na mente eram valiosíssimos e tinha convicção de que ao menos os governos de três países pagariam fortunas incalculáveis para possuí-los, mas não era o único a guardá-los e, além disso, havia a vantagem de que apenas duas ou três pessoas sabiam exatamente a natureza destas informações. De modo geral, os serviços de inteligência e alguns indivíduos do alto escalão das forças armadas tinham consciência de que ele detinha a chave para algo – mas só. Que algo era este e qual a natureza desta chave eram apenas especulações.

“Ah, se soubessem. Eu estaria morto. Ou preso em algum lugar remoto, com a boca selada por alguma máscara medieval e com os braços amarrados à parede.”

Mas não sabiam. E por esta razão ele subestimara o grau de interesse que mantinham em sua existência.

Não cometeria este erro novamente.

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CAIU EXAUSTO NA ALMOFADA QUE FICAVA NO CANTO DE SEU QUARTO. Passara as sete últimas horas revistando cada centímetro do apartamento em busca de escutas, câmeras e detectores de temperatura (sabia que, nos últimos anos, a CIA passara a usar esta tecnologia para mensurar a ansiedade das pessoas que vigiava, ocasionalmente submetendo-as a fontes de estresse específicas com o objetivo de “calibrar” o aparelho e, assim, tornar seus técnicos capazes de antecipar quaisquer ações importantes que os alvos viessem a tomar. Sabia também que o Serviço Federal de Segurança da Federação Russa, que sucedera a KGB, contava com tecnologia similar, bem como o MI-6.)

Não encontrara nada, porém.

Sim, detectara, em três ou quatro lugares, vestígios estranhos compatíveis com equipamentos de espionagem recém-removidos, mas não podia ter certeza.

Sua experiência, contudo, gritava para que saísse dali o mais cedo possível. Se eles se deram ao trabalho de vigiá-lo, é porque estavam cada vez mais preocupados; quanto ao fato de terem desativado a vigilância, enxergava duas possibilidades: haviam decidido que ele não representava ameaça iminente e que o que sabia não era tão importante quanto julgavam ou – e apostava nesta alternativa – estavam se preparando para uma ação mais drástica.

Percebeu que seria capturado em questão de dias ou mesmo horas.

Sua primeira reação foi fugir. Agitado e ofegante, enfiou o notebook, os três tablets e seus cadernos (cerca de uma dúzia deles, com anotações de capa a contracapa) em uma mala, agarrou algumas peças de roupas e atirou-as sobre o colchão (nunca comprara uma cama) e voltou à “oficina” para pegar uma bolsa.

E foi neste instante que percebeu o erro colossal que estava prestes a cometer.

Pela primeira vez talvez em meses, ele estava em vantagem. Sabia que havia sido monitorado e que, ao menos momentaneamente, estava livre de vigilância (confiava na busca cuidadosa que fizera). O mais importante, porém, é que seus adversários continuavam a acreditar que ele se mantinha cego.

Ele podia acabar de vez com aquilo. Podia derrotá-los. Podia, vejam só, conseguir o que já julgava impossível há anos: vencer.

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TINHA 20 ANOS DE IDADE QUANDO A CHAVE LHE FORA CONFIADA.

Estava no fim de uma semana de licença de sua base e voltara para sua cidade natal a fim de passar algumas poucas horas com o pai, um sargento reformado que o educara usando socos como demonstração de interesse por seu caráter. A mãe, morta por uma combinação de álcool, drogas e ressentimentos, pouco dissera em vida além de um ocasional “Você é uma desgraça” e um ainda mais raro “Me dá um beijo”. Não via a irmã há 12 anos, desde que esta se casara com um caminhoneiro que conhecera no restaurante de beira de estrada no qual trabalhava como garçonete e se mudara para outro estado. Sabia que tinha dois sobrinhos, mas jamais os conhecera.

Mesmo considerando “família” um conceito abstrato, no entanto, sentia-se na obrigação de ver o pai rapidamente antes de retornar à base. Ao chegar à pequena cidade, porém, decidiu que precisava beber algo antes de bater na porta de casa.

Estava no terceiro uísque quando viu o Homem Alto de Chapéu. Aliás, notara o sujeito justamente por estranhar que estivesse usando chapéu dentro do bar e à noite. Mas não voltaria a pensar naquilo caso subitamente não tivesse ouvido uma frase curiosa:

“Sem o chapéu, eu chamaria ainda mais atenção.”

Envergonhado por perceber que deixara o estranho notar seu julgamento silencioso, virou-se para dizer algo e oferecer uma desculpa.

O Homem encarava-o, sorrindo. Da extremidade oposta do bar.

Confuso, olhou em torno de si e percebeu que ninguém mais parecia ter ouvido aquilo. Aliás, se a frase não houvesse sido dita com tamanha clareza, ele acreditaria ter se confundido, mas… não, ouvira aquilo. Tinha certeza.

“Sim, você ouviu. Ou talvez ‘ouviu’ não seja o verbo mais apropriado.”

Que porra era aquela?!

“Não é necessário praguejar, James.”

Como ele sabe meu…

“Não é só o que eu sei.”

Neste instante, uma enxurrada de imagens cruzou sua mente. Embora durassem alguns milissegundos, ele conseguia absorver a essência de cada uma daquelas passagens e percebeu que estava testemunhando momentos de sua própria vida – muitos dos quais nem mesmo se lembrava. Sabia, por exemplo, que seu avô morrera algumas semanas depois de seu nascimento, mas agora via claramente sua versão bebê nos braços enrugados e magros do velho que fora pai de seu pai.

Cambaleou e precisou se segurar no balcão para não cair.

“Já chega por hoje, né, campeão?”, disse o barman.

“Desculpe-me por isso. Não pretendia atordoá-lo.”, soprou a voz em sua cabeça.

Quem… é você? O que quer comigo?

Antes mesmo que acabasse de formular as perguntas, a resposta materializou-se completa, complexa e inacreditável em seu cérebro.

Ele agora detinha a Chave. E um dia seria chamado para revelá-la e, com isso, salvar ou destruir o mundo. Tudo dependeria do contexto.

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A PRINCÍPIO, TENTARA MANTER UMA APARÊNCIA DE NORMALIDADE. Retornara à base e permanecera um bom soldado. Cumpria suas obrigações, era disciplinado e admirado por seus superiores. Por algum tempo, chegou a cogitar ter sido escolhido pelo Homem Alto de Chapéu justamente por fazer parte de uma organização militar e acreditara que, para cumprir o papel que lhe era destinado, deveria subir na hierarquia até atingir uma posição que lhe permitisse usar o que sabia da maneira mais eficaz possível. Quando a Chave fosse apresentada ao mundo, haveria pânico e confusão até que todos percebessem o significado maior e o planeta se reajustasse dentro do novo contexto – e, assim, seu posto de comando facilitaria o processo.

Por outro lado, como podia manter aquele segredo sem sucumbir ao peso de conhecer o Plano por trás de incidentes tão distantes quanto o 11 de Setembro, a morte de um pequeno agricultor no interior do Brasil e a descoberta do bóson de Higgs? A resposta: não podia. Devia, claro, mas não conseguia.

E, assim, começou a beber mais do que o habitual. E, embriagado, cometia dois erros com frequência: envolvia-se em brigas e gritava o que deveria manter em segredo. Não expunha a Chave, mas dizia possuí-la. E então esfacelava o rosto de quem ria de sua revelação.

Ao ser preso pela segunda vez por agressão, teve sua fiança paga por um tenente que, visivelmente irritado, o conduziu de volta à base para ser disciplinado. Ainda bêbado, porém, resmungara durante todo o trajeto sobre a importância do que sabia e, com o passar dos minutos, percebeu o oficial alterar sua reação de impaciência e incredulidade para atenção e curiosidade.

Nas semanas seguintes, foi abordado pelo superior em inúmeras ocasiões, sendo chamado à sua sala ao menos uma vez por dia. Inicialmente, recusou-se a falar sobre o assunto, tentando culpar a bebida pelas “bobagens” que dissera, mas eventualmente decidiu compartilhar alguns detalhes – não tudo, claro, mas apenas o suficiente para atiçar a curiosidade crescente do outro.

“Você acredita mesmo nisso, James? Acha mesmo que o tal Homem Alto disse a verdade?”

“Não tenho dúvida alguma, senhor.”

“Isso… Tudo o que disse… é… incrível. E assustador.”

“Eu sei, senhor.”

“Você nunca contou nada disso pra ninguém?”

“Fora nos momentos de bebedeira, quando ninguém poderia acreditar, não, senhor.”

“Ótimo. Mantenha assim. E pare de beber.”

“O que devemos fazer, senhor?”

O tenente balançou a cabeça.

“Eu não sei. Eu preciso de alguns dias para pensar. E aí veremos o que fazer.”

O rapaz voltou para seu alojamento com uma imensa sensação de alívio. Finalmente compartilhara aquele peso com alguém.

Esta sensação transformou-se em preocupação, porém, à medida que os dias foram passando sem que voltasse a ver o oficial. Até que, cerca de uma semana depois daquela importante conversa, foi chamado, ao lado de todo o batalhão, para se apresentar no pátio central da base. Enquanto todos se entreolhavam curiosos, o sargento Díaz se posicionou diante do grupo e, em tom seco, anunciou:

“É com pesar que comunico a morte precoce do tenente Washington em um acidente de carro. Um minuto de silêncio em sua honra.”

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CERCA DE UM MÊS DEPOIS, fora desligado do batalhão após se envolver em uma briga com aquele mesmo sargento. Em sua defesa, havia explicado que Díaz vinha pressionando-o acerca das conversas que mantivera com o tenente Washington, querendo saber o teor das discussões entre os dois homens, mas quando o outro negou ter sequer conhecimento dos encontros entre o soldado e o oficial, a situação se tornou insustentável.

Conseguira receber um desligamento honroso, que lhe permitiria manter alguns benefícios, mas agora estava completamente sozinho no mundo. Seu pai morrera há alguns meses e ele decidira que não podia arriscar a vida da irmã e dos sobrinhos.

Desde então, passara a viver sob o temor constante de que o tenente houvesse compartilhado seu segredo com alguém antes de morrer e que – ainda mais assustador – esta tivesse sido a verdadeira causa de seu “acidente”.

Tentou se convencer de que tudo fora uma trágica coincidência, mas foi então que começou a notar estar sendo seguido. Inicialmente, ao perceber o mesmo rosto em três ocasiões distintas, forçou-se a atribuir a presença do sujeito a um acaso, mas finalmente foi obrigado a concluir que estava mesmo sendo vigiado. Mudou de apartamento várias vezes, trocou os telefones, adotou uma rotina rígida e, depois de um longo tempo, relaxou e acreditou ter sido deixado em paz.

Havia se iludido, sabia agora. Alguém plantara algum tipo de monitoramento em seu micro-ondas e em outros pontos de seu apartamento. E como deixara, como um tolo inconsequente, que aquela vigilância permanecesse ativa por sabe-se-lá-quanto-tempo, eles agora poderiam estar muito perto de obter a Chave.

O que seria desastroso.

Lembrou-se da perseguição sofrida por homens como Assange, Manning e Snowden e sentiu mais uma vez um enjoo intenso: se os três haviam se tornado tão temidos/odiados por possuírem segredos tão prosaicos, o que seria reservado a ele, que detinha algo infinitamente maior?

Não, não, não. Precisava agir primeiro. Eliminar a ameaça. Proteger a Chave.

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DESPERTOU ÀS SEIS DA MANHÃ, TOMOU UM LONGO BANHO QUENTE, tomou um café leve e, carregando uma grande bolsa, saiu de casa. Ao chegar à rua, olhou para os lados e não viu nada de preocupante. Caminhou até o ponto de ônibus mais próximo e, por alguns segundos, teve a impressão de ver algo se mover na periferia de seu campo de visão. Quando girou a cabeça, porém, tudo permanecia deserto.

Embarcou no coletivo e, 45 minutos depois, encontrava-se diante dos portões de sua antiga base. Ergueu sua velha identificação e o cabo sonolento acenou com a cabeça, indicando que seguisse em frente.

O soldado James Jakob agachou-se atrás de uma lixeira assim que virou a esquina do primeiro prédio da base. Rapidamente, abriu a bolsa e tirou uma espingarda calibre 36 e duas caixas de munição, carregando a arma com dois cartuchos e enfiando os restantes no bolso do casaco. Agarrou a pistola automática calibre 45, conferiu o pente e guardou-a na parte de trás da calça.

“Você não precisa fazer isso.”

Assustado ao ouvir a voz do Homem Alto de Chapéu, o sujeito girou na direção oposta e, desequilibrando-se, caiu sentado sobre a bolsa que antes trazia suas armas. Não viu ninguém e, então, percebeu, num consolo tardio, que seu misterioso amigo jamais deixara de acompanhá-lo. Não se surpreendeu.

“Você sabe que preciso.”, respondeu baixinho, embora soubesse que o outro podia ler sua mente.

“Seu heroísmo é apreciado, saiba disso.”

“Não estou sendo heroico. Estou apenas cumprindo meu dever.”

“Então você deveria começar pelo sargento Díaz. Ele é o principal perigo nesse momento.”

“Sim.”

“Ele está na cafeteria.”

“Eu sei.”

Respirou fundo.

“Antes de… ir em frente… eu preciso saber algo.”

“A resposta é ‘outubro de 2017’. Começará em Les Baux-de-Provence.”, respondeu o Homem Alto de Chapéu.

“Apropriado.”

“Não é? Também achamos que sim.”

“Eu estarei vivo para ver?”

Sua mente permaneceu em silêncio.

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AS 72 HORAS SEGUINTES VIRAM SEU NOME TORNAR-SE CONHECIDO em todo o país. Os canais noticiosos mantinham discussões praticamente ininterruptas sobre suas ações e motivações. Seus passos na base foram recriados milimetricamente, desde que se agachara atrás da lixeira até o instante em que entrara na cafeteria e disparara um tiro de espingarda que transformara a cabeça do sargento Díaz em uma grotesca massa de carne e sangue. A partir daí, os relatos se tornavam mais confusos: alguns afirmavam que o ex-soldado passara a disparar a esmo, como se quisesse apenas ferir e matar o maior número possível de pessoas, ao passo que outros garantiam que ele escolhera cada alvo cuidadosamente, preservando a munição e percorrendo os corredores do prédio com deliberada frieza.

O que se sabia de fato era que ele matara 12 pessoas no espaço de quinze minutos até ser finalmente atingido por cerca de duas dúzias de balas de vários calibres ao tentar sair do edifício.

Não demorou até que atribuíssem parte da responsabilidade por seus atos a “games violentos” encontrados em seu apartamento. Além disso, sua ficha médica foi amplamente divulgada pela mídia, incluindo seus relatos sobre “ouvir vozes”. Anotações em um diário descoberto em sua bolsa revelavam sua ansiedade ao descobrir estar sendo “monitorado pelo micro-ondas” e suas passagens pela polícia em função de brigas e bebedeiras ajudaram a compor o quadro de um homem instável, perigoso e solitário.

Nem uma única palavra foi dita sobre a Chave.

postado em by Pablo Villaça em Variados