Breaking Bad S05E15

(Cof-cof! SpoileCOF-COF! Spoile…COF-COF!)

Walter White é um canalha. Um sociopata. Um homem que deixou seu orgulho destruir todos que o cercavam.

E que está pagando um preço alto por isso.

Escrito e dirigido por Peter Gould, este penúltimo episódio da série teve, como principal função, preencher a lacuna entre a fuga de Walt e o momento no qual o reencontramos como Sr. Lambert enquanto compra armamento pesado, visita sua velha e dilapidada casa e recupera a ricina há muito ali deixada. De certa maneira, é um papel ingrato depois de um episódio como “Ozymandias”, mas que trouxe momentos fortes e apresentou uma atmosfera extremamente coesa ao nos apresentar a um homem que se tornou uma casca adoentada e amargurada do poderoso e implacável Heisenberg.

Revelando que a tentativa de proteger Skyler através de um telefonema não surtiu os efeitos desejados – e nem poderia -, “Granite State” já teve início demonstrando a queda do protagonista de sua posição de força anterior, quando surge dividindo um alojamento temporário com Saul (mais um destruído por seu envolvimento com Walt, embora Goodman esteja longe de ser um inocente), que também se encontra prestes a desaparecer graças aos serviços do profissional vivido com distanciamento por Robert Forster. Dominado pela ideia de vingança, Walter busca intimidar o facilmente intimidável Saul – último de seus aliados – quando, no instante em que está prestes a soltar mais uma de suas icônicas falas como Heisenberg, é tomado por uma crise de tosse que o deixa imobilizado sobre uma cama enquanto o advogado, demonstrando até mesmo uma curiosa pena de seu antigo cliente, diz apenas que tudo “está acabado” – e até mesmo o fato de ambos estarem usando camisas brancas serve para colocá-los não só em pé de igualdade como para remeter a um simbolismo sutil acerca do ponto no qual se encontram: à espera de novas identidades.

A partir daí, a jornada de Walter White parece destinada a ter fim de maneira solitária e dolorosa em uma cabana isolada pela neve, que, contrapondo-se ao calor do Novo México que abrigou o sujeito por toda sua vida, surge como sua Sibéria particular. Walt não está mais fugindo; está pagando por seus crimes em uma prisão superfaturada. Não que isto possa redimir seus crimes, já que o velho orgulho se mantém: quando Saul, num de seus últimos conselhos, sugere que o sujeito se entregue – o que não só facilitaria a vida de sua família, permitindo até mesmo que mantivessem a casa, mas evitaria que Skyler fosse pressionada pela polícia, Walter responde apenas que não poderia fazer isso, já que pretende recuperar o dinheiro que tio Jack roubou e, no processo, vingar a morte de Hank.

A justificativa é sempre a mesma, “Faço isso por minha família!”, mas há muito isto deixou de ser verdade, passando a ser uma mera desculpa para que Walt faça o que Heisenberg exige. Assim, quando inicialmente decide ir à cidade mais próxima, ele desencava o velho e amassado chapéu e tenta remontar o próprio ícone, como se buscasse manter viva a lenda que construiu ao longo das cinco temporadas – mas falhando no último momento e desistindo do plano por não ter a menor intenção de ser preso, mesmo que isto pudesse ajudar Skyler e os filhos. Resta a ele, então, apenas “pendurar o chapéu” em mais um simbolismo sutil de Breaking Bad – e não é à toa que aquela peça de vestuário tão importante da persona por ele construída é vista finalmente sobre a cabeça empalhada de um animal.

Intercalando a decadência física e psicológica do protagonista com a nova vida de escravidão levada por Jesse, o episódio constrói tensão e dor ao retratar o esforço do rapaz para escapar, culminando numa longa sequência na qual Gould praticamente tortura o espectador com uma promessa de fuga apenas para trazer Pinkman não só recapturado como ainda testemunha sofrida da execução sumária de Andrea, num ato desnecessariamente extremo e cruel por parte do psicopata Todd.

Todd que, diga-se de passagem, conseguiu se transformar num personagem interessantíssimo graças à construção de Jesse Plemons, cujo rosto jovial e de bom moço é complementado pelos modos rígidos do ator e por pequenos detalhes como o leve sorriso orgulhoso que dá ao ouvir Jesse narrando a execução do garoto no deserto e ao absurdo de desculpar-se com Andrea antes de matá-la apenas para dar uma lição em Jesse. Além disso, sua paixonite por Lydia é manifestada de maneira incômoda, como se víssemos uma criança diante de seu primeiro amor e incapaz de compreender como deve agir. (Lydia que, claro, continua a se mostrar uma criatura patética em sua insistência para manter um disfarce ridículo em seus encontros públicos – algo que o saudoso Mike ridicularizou há tempos – e também cruel e covarde ao insistir que seus capangas eliminem qualquer ameaça à sua segurança.)

Mas  “Granite State” atinge seu impacto emocional máximo em seus momentos finais, quando Walt, fragilizado a ponto de não conseguir manter a aliança presa no dedo e tendo que pagar por companhia, praticamente se resigna de vez à ideia de morrer solitário em sua cabana e decide tentar enviar cem mil dólares para a família (imaginem a dor para seu orgulho que isto representa após acumular 80 milhões) – sendo, em troca, obrigado a ouvir a voz dura, magoada e implacável de Walt Jr. atirando todo um mundo de ressentimento em seu rosto e repetindo o mesmo desejo que, há tempos, Skyler manifestou para calar o marido: o de que o pai morra logo. É só então, ao perceber que já não tem mais a desculpa da família para mantê-lo, que o protagonista decide se entregar à polícia e encerrar sua jornada.

Até que, claro, o velho orgulha retorna a partir do instante em que ele vê seus velhos sócios da Gray Matter desmerecendo sua contribuição para a fundação da empresa e descobre, também, que seu outro legado – a metanfetamina azul – continua sendo produzida, chegando a atingir até mesmo o cobiçado mercado europeu que ele jamais alcançou.

Vendo tudo que poderia ter deixado para trás – Gray Matter e o cristal azul – renegando seu nome, Walter White se entrega de vez aos sentimentos que não só criaram como mantiveram Heisenberg vivo por tanto tempo: o orgulho, a vaidade e as mágoas. Agora sem a família para mantê-lo preso ao velho Walt, ele pode se entregar de vez à raiva e à destruição que se tornaram marcas registradas de seu alterego e encerrar sua vida punindo todos que se atreveram a atravessar seu caminho – uma mudança fundamental que o episódio aponta de maneira brilhante ao trazer os acordes que durante anos marcaram a abertura da série, quando o título Breaking Bad (numa tradução livre, “tornar-se mal”) surgia na tela, e que agora indicam o passo final da transformação de Mr. Holland em Scarface.

É possível, claro, que ele ainda venha a morrer como Walter White – e não vejo como poderia (ou mesmo desejaria) sair vivo de sua missão de vingança -, mas, para que isto ocorra, deverá abraçar o Heisenberg que não só o ressuscitou, mas também o consumiu por tanto tempo.

Não será um espetáculo agradável de testemunhar, acreditem.

postado em by Pablo Villaça
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