Baking Bad

Eu me contradigo?
Muito bem, então me contradigo
(Sou vasto, contenho multidões).”

Ele sorriu para si mesmo, fechou o livro e o colocou sobre o pequeno reservatório de água localizado atrás do vaso sanitário. Walt Whitman permaneceria seu poeta favorito até o fim da vida, sabia – e, de maneira tola e adolescente, sentia-se orgulhoso por dividir com ele as iniciais de seu nome: W.W..

Saiu do banheiro e respirou fundo. O império que construíra corria agora um imenso risco de ruir e deixá-lo, como no poema de Shelley (outro artista por ele admirado), em meio à “solitária areia”. Durante um longo tempo aperfeiçoara seu produto e tinha orgulho da qualidade que este atingira, superando em muito os “concorrentes” – e sempre pensava nestes entre aspas por não considerá-los dignos de serem assim chamados.

Trabalhara muito, mas agora, antecipando o fim de sua vida, percebia que seu legado morreria consigo. Tudo que construíra fora em vão: o dinheiro que acumulara se transformara em mero papel, já que não tinha com quem gastá-lo, e sentia-se só e abandonado. Sentia-se fraco – uma sensação que não experimentava há um longo tempo.

Até que decidira entrar em ação, investindo num plano arriscado e definitivo. Fora traído por cinco indivíduos que, inicialmente, julgara ter sob seu controle e agora pretendia vingar-se de maneira implacável. Para isso, atraíra-os até ali. Estava a apenas alguns momentos de dar início à ação.

Ajeitou na cabeça o chapéu de cor escura que se tornara marca registrada da persona que criara para si e abriu o pesado portão. Por alguns segundos, a luz exterior cegou-o. Esfregou os olhos, viu seus inimigos à distância e, mancando levemente, deu os primeiros passos em sua direção.

A multidão se calou ao ver Willy Wonka diante de sua imensa fábrica.

postado em by Pablo Villaça em Variados