Festival do Rio #01

1) Um Time Show de Bola (Metegol, Argentina, 2013). Dirigido por Juan José Campanella. Com as vozes de David Masajnik, Lucía Maciel, Diego Ramos, Juan José Campanella, Pablo Rago, Fabián Gianola, Horacio Fontova, Coco Sily.

Leia a crítica completa no site. (2 estrelas em 5)

2) Night Moves (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Kelly Reichardt. Com: Jesse Einseberg, Dakota Fanning, Peter Sarsgaard, Alia Shawkat, Clara Mamet.

Kelly Reichardt é uma diretora cuja abordagem direta e minimalista já rendeu ao menos dois grandes trabalhos: Wendy e Lucy e O Atalho. Distintos em seus temas, mas beneficiados por uma linguagem contemplativa que permitia que realmente conhecêssemos seus personagens, estes dois longas dividem traços claros com Night Moves, novo trabalho da cineasta – especialmente no cuidado com que a dinâmica entre o trio principal é retratada. Desta vez, porém, Reichardt, mais uma vez trabalhando com um roteiro de Jonathan Raymond, perde-se ao parecer não se decidir que história pretende contar, alterando o foco da narrativa a partir da segunda metade da projeção sem conseguir alcançar resultados tão admiráveis quanto na primeira.

Hábil ao nos apresentar aqueles personagens sem depender de diálogos longos e expositivos, Night Moves revela o suficiente sobre o jovem ativista ambiental Josh (Eisenberg) apenas ao observar sua expressão séria e concentrada, sua relutância em falar mais do que o necessário e, especialmente, a delicadeza que demonstra ao lidar com a Natureza – tanto ao depositar um ninho em um galho quanto ao se debruçar sobre uma corça atropelada. Nestes momentos, percebemos que, se fica inquieto diante da nudez feminina ao visitar o spa no qual trabalha sua amiga Dena (Fanning), Josh se mostra infinitamente mais à vontade ao caminhar sozinho pelo bosque próximo de sua casa, levando-nos a indagar se parte de seu interesse ecológico não se deve ao fato de que plantas e animais não o obrigam a conversar.

Concentrando-se nos preparativos para uma ação terrorista feitos por Josh, Dena e Harmon (Sarsgaard, cada vez mais especialista em viver tipos que inspiram desconfiança), a metade inicial do filme inspira tensão e interesse sem que, para isso, Reichardt precise se entregar a convenções de um thriller – e, ao contrário disso, a diretora (também responsável pela montagem) mantém um ritmo estudado que jamais se rende aos cortes frenéticos que poderíamos associar ao gênero. Da mesma maneira, em nenhum instante o filme é dominado por uma trilha que evoca o suspense, optando, na maior parte do tempo, por sons diegéticos que ressaltam justamente a calma do ambiente que o trio de ativistas tanto aprecia. Além disso, a própria relação entre os personagens é construída com paciência – e quando Josh ouve os outros dois transando, comunica toda uma carga de conflitos e sentimentos apenas ao se afastar em silêncio após uma breve hesitação.

Jesse Eisenberg, diga-se de passagem, cria aqui um tipo radicalmente diferente daquele visto em filmes como A Rede Social e Truque de Mestre, surgindo como um homem sempre tenso e calado cuja postura rígida só é levemente abandonada em um breve momento de celebração interna. Enquanto isso, Dakota Fanning vive Dena com um idealismo que soa por vezes imaturo e como fruto de uma revolta quase adolescente, o que não diminui o valor de sua dedicação à causa que defende mesmo que isto se manifeste de maneira extrema e irresponsável. E se Peter Sarsgaard leva o espectador a desconfiar de seu personagem – particularmente de sua competência -, isto é equilibrado por sua confiança crescente à medida que se aproximam da concretização do plano.

Aliás, uma das virtudes de Night Moves é a de evitar qualquer tipo de pregação: quando vemos uma cineasta (Clara Mamet, filha de David) apresentando seu documentário-manifesto, por exemplo, a discussão que se segue com os espectadores de seu filme levanta algumas das questões mais pertinentes quanto a este tipo de filme-protesto – como, por exemplo, o tom apocalíptico que normalmente empregam e que pode servir, num efeito contrário ao esperado, para desanimar o público ao ponto da inação. Assim, em vez de pregar, o roteiro apenas estabelece que aquela causa é importante para os personagens – e, do ponto de vista dramático, é o que basta.

Por outro lado, ainda que seja admirável que o longa busque retratar também as consequências da ação dos personagens, é lamentável que Night Moves pareça perder seu foco narrativo ao tentar cumprir este papel, quando se confunde entre estudo de personagem e suspense, falhando em ambos os papéis.

Seja como for, Kelly Reichardt continua a se apresentar como uma diretora cujo tropeço surge não como fruto de incompetência, mas de um experimento consciente, mesmo que não de todo bem sucedido. (3 estrelas em 5)

3) Obsessão (The Paperboy, EUA, 2012). Dirigido por Lee Daniels. Com: Zac Efron, Matthew McConaughey, Nicole Kidman, John Cusack, David Oyelowo, Scott Glenn, Ned Bellamy, Macy Gray.

Obsessão é um filme que só não naufraga em função das boas atuações centrais. Caso contasse com um elenco menos competente, este trabalho de Lee Daniels (Preciosa) se transformaria num imenso embaraço, já que, além de não conseguir se decidir acerca de um tema central, o roteiro peca em sua estrutura e ao eleger o menos interessante de seus personagens para o papel de protagonista.

Escrito por Daniels e Peter Dexter a partir do livro deste último, o longa tem início com um entrevistador (cujo propósito e identidade jamais descobrimos) que busca conversar com Anita (Gray), que anos antes trabalhara como doméstica na casa da família Jansen, sendo mencionada na dedicatória de um livro escrito por Jack (Efron), seu mais jovem membro. A partir daí, retornamos à década de 60, quando, numa pequena cidade da Flórida, o assassinato de um xerife resulta na condenação à pena de morte de um certo Hillary Van Wetter (Cusack). Jurando inocência, ele passa a trocar cartas com Charlotte (Kidman), que se torna sua noiva e acaba atraindo a atenção do experiente repórter Ward (McConaughey), irmão mais velho de Jack. Enquanto investiga o caso com o auxílio do colega Yardley (Oyelowo), Ward volta a se aproximar do irmão caçula, que, por sua vez, se apaixona por Charlotte.

Povoado por uma galeria de indivíduos quebrados e solitários, Obsessão é hábil ao sugerir a tristeza subjacente em cada personagem: com o rosto marcado por cicatrizes cujas origens podem indicar uma vida interna tumultuada, Ward é vivido por Matthew McConaughey como um homem determinado a corrigir as injustiças que encontra em seu caminho – uma postura que, de certa forma, é reflexo de sua própria incapacidade de abraçar sua verdadeira natureza. Nicole Kidman, por sua vez, não hesita em encarnar Charlotte como uma criatura vulgar que há muito aprendeu a usar o sexo como arma, ao passo que John Cusack surge aqui interpretando com competência um tipo raro em sua carreira: um homem violento e profundamente repugnante. Assim, comparado a estes três intrigantes personagens, o Jack de Zac Efron se estabelece como um jovem desinteressante, o que não é culpa do ator, que faz o melhor que pode com uma figura insípida. Enquanto isso, Macy Gray e David Oyelowo representam indivíduos que encontram maneiras diametralmente opostas para lidar com o preconceito racial do qual são vítimas frequentes em uma década na qual a sociedade norte-americana ainda engatinhava na luta contra a segregação: enquanto a primeira se mostra resignada sem, contudo, jamais perder a dignidade, o segundo adota modos arrogantes (e mesmo um sotaque britânico) para facilitar sua aceitação por um mundo que ainda enxergava negros profissionalmente bem-sucedidos quase como aberrações.

Mas a questão é: se Obsessão tem interesse em se apresentar como uma narrativa sobre racismo, por que demora tanto a introduzir a questão – e, quando o faz, insiste em mantê-la na periferia da trama principal, que prefere acompanhar as investigações de Ward e a paixão de Jack por Charlotte? Da mesma maneira, embora fique patente que o filme busca estabelecer um paralelo entre o preconceito racial e aquele contra homossexuais, esta comparação é apresentada de forma súbita, desajeitada e frágil por apelar para extremos de comportamento (tanto por parte da vítima, que de repente deixa a cautela habitual de lado em função da bebida, quanto por parte de seus algozes e amigos). Além disso, como esta subtrama demora a ganhar peso, acaba dando a impressão de um mero desvio na trama, o que é lamentável. Como se não bastasse, o roteiro jamais se preocupa em explicar por que Anita ganha tamanho foco ao surgir como narradora – uma narração que, por sinal, surge problemática ao trazer vários eventos que a narradora não testemunhou e outros que, embora tenham sido acompanhados por ela, são ignorados sem maiores explicações.

Um sintoma claro desta multiplicidade de interesses por parte do diretor Lee Daniel pode ser observado em sua dificuldade para encontrar um tom para a narrativa: em certo instante, o cineasta parece buscar criar suspense, abandonando-o em seguida para investir numa cena que beira o surreal ao trazer um encontro erótico absurdo entre Charlotte e Hillary – que, por sua vez, empalidece diante do instante inexplicável no qual o filme para a fim de acompanhar um incidente supostamente cômico (com conotações eróticas) que resulta… bom, você vai reconhecer o incidente em questão ao vê-lo na tela, não se preocupe.

Fotografado com eficiência por Roberto Schaefer, que sugere o clima sufocante e desconfortavelmente úmido da Flórida, Obsessão traz também uma série de recursos estilísticos típicos do final da década de 60 e início da de 70, como telas divididas, zooms bruscos e fusões que flertam com a cafonice, o que confere à narrativa um certo charme insuspeito. Por outro lado, ao incluir uma série de fades durante uma cena de sexo, Daniels carrega a mão ao buscar criar uma expectativa artificial e apelativa sobre o que permitirá (ou não) que vejamos, o que remente a um sexploitation dos mais baratos.

Mas é mesmo ao parecer apoiar – mesmo que acidentalmente – a pena de morte que Obsessão cruza a fronteira do vulgar e se torna moralmente repreensível, ignorando sem perceber a causa que o personagem de McConaughey (o mais íntegro de todos) buscava defender com tamanho empenho, traindo não só o sujeito, mas tudo que o próprio filme vinha construindo até então. (3 estrelas em 5)

4) Blackfish – Fúria Animal (Blackfish, EUA, 2013). Dirigido por Gabriela Cowperthwaite.

Assim como seu primo de alma The Cove, este Blackfish é um documentário que envia o espectador para fora do cinema com uma sensação de intensa revolta ao retratar de maneira implacável a pavorosa realidade por trás de empresas que vendem espetáculos aquáticos protagonizados por golfinhos, orcas e outros animais que, mantidos em condições de extrema crueldade, se transformam em verdadeiras bombas-relógio em função do imenso estresse sob o qual passam suas tristes existências.

Partindo de um trágico incidente recente que resultou na morte de uma treinadora do SeaWorld, a experiente Dawn Brancheau, o longa de Gabriela Cowperthwaite busca demonstrar como o desastre foi um resultado lógico e quase inevitável não só da negligência dos diretores do evento, mas também da própria cultura por trás deste tipo de espetáculo. Para isso, a cineasta traz entrevistas incriminadoras com diversos ex-treinadores de baleias orca e pesquisadores especializados neste tipo de animal, empregando uma irretocável pesquisa para comprovar suas declarações através de imagens e dados chocantes.

É terrível, por exemplo, descobrir como os caçadores de orca buscam os filhotes mais jovens para diminuir os custos de transporte – uma prática descrita por um deles como “a pior coisa que já fiz na vida” – e constatar, também, como isto se torna ainda mais grave em função da natureza dos animais, acostumados a viver em grupos fixos e a manter os filhotes ao seu lado por bastante tempo. (E quando o SeaWorld separa outra baleia de sua cria por julgar que esta “atrapalha o espetáculo”, vários ex-treinadores relatam os prolongados gritos de tristeza e desespero da mãe, o que ganha contornos de pesadelo quando uma neurocientista revela que análises com aparelho de tomografia indicam um desenvolvimento acentuado das regiões do cérebro das orcas relacionados a sentimentos e percepções.)

A partir daí, o filme não precisa se esforçar muito para defender sua tese principal, bastando relatar a história da baleia Tilikum, responsável pela morte de Brancheau, para que percebamos como a atitude do animal foi uma resposta até demorada às décadas de maus-tratos pelas quais passou. Capturado em 1981 e mantido num cativeiro minúsculo que mal lhe permitia movimentar-se durante a noite, Tilikum provocaria, uma década depois, a morte de uma treinadora no SeaLand – e se isto já seria um indício do descaso desta indústria, o caso se torna verdadeiramente criminoso quando descobrimos que o SeaWorld, ao comprar a orca do antigo concorrente, ocultou de seus funcionários o histórico do espécime.

O que se segue é uma apresentação organizada e revoltante das estratégias da corporação para minimizar quaisquer incidentes (e são muitos), quando a culpa por qualquer imprevisto passa a ser depositada nas costas dos treinadores ao mesmo tempo em que as práticas desumanas da empresa são minimizadas através da desinformação sistemática do público. Em certo momento da projeção, por exemplo, Cowperthwaite usa câmeras ocultas para mostrar funcionários do SeaWorld dizendo para seus visitantes que a vida média de uma orça é de 35 anos e que estas vivem mais tempo em cativeiro do que no mar – quando, na realidade, elas vivem basicamente o mesmo que um ser humano, morrendo muito mais cedo quando presas (além de nunca atacarem quando em seu ambiente natural).

Com isso, torna-se impossível assistir a Blackfish sem que experimentemos um tremendo embaraço por termos, em algum momento, visitado algum show como o SeaWorld ou admirado o balé aquático protagonizado por orcas em cativeiro, já que o filme expõe nossa cegueira para o fato de que o que julgávamos como um show era basicamente uma cruel, imperdoável e longa tortura. (5 estrelas em 5)

5) Nós Somos os Melhores! (Vi är bäst!, Suécia, 2013). Dirigido por Lukas Moodysson. Com: Mira Barkhammar, Mira Grosin, Liv LeMoyne.

Bobo (Barkhammar) e Klara (Grosin) são duas pré-adolescentes suecas que, em 1982, se recusam a acreditar que o punk esteja “morto”. Cortando sozinhas seus cabelos com o objetivo de manifestar o espírito rebelde de suas bandas favoritas, as garotas finalmente dão o passo seguinte quando decidem formar um grupo musical que lhes permita expressar o ódio que sentem pela Educação Física – um manifesto que, acreditam, é político ao condenar o fascismo da escola. A partir daí, o cineasta Lukas Moodysson, adaptando os quadrinhos de sua esposa Coco, acompanha as meninas enquanto se aproximam da solitária Hedvig (LeMoyne), que, violonista talentosa, pode ensiná-las alguns princípios musicais.

Retratando com delicadeza o cotidiano das três personagens, Moodysson não tenta transformá-las em vítimas ou heroínas diante da oposição do mundo: de modo geral, as famílias das garotas se mostram compreensivas e, o mais importante, a segurança que Bobo, Klara e Hedving sentem com relação ao próprio visual e ao punk acaba impedindo que cedam às tentativas de bullying por parte dos colegas. Em vez disso, o diretor simplesmente observa as mudanças experimentadas pelo trio à medida que descobrem interesses em comum ou pontos de discordância e começam a enxergar os meninos de outra maneira.

Expressivas e carismáticas, as jovens Barkhammar, Grosin e LeMoney estabelecem uma dinâmica verossímil em cena ao mesmo tempo em que criam personagens com personalidades próprias: enquanto Bobo sente-se fisicamente inadequada, Klara demonstra uma agressividade que oculta apenas sua vontade de criar seu próprio espaço, ao passo que Hedvig acaba experimentando a transformação mais extrema do grupo, saltando de uma religiosa reprimida e tímida a uma moça de personalidade forte e capaz de pensar por si mesma.

No entanto, a maior virtude de Nós Somos os Melhores! reside em seu esforço de jamais permitir que as meninas soem desproporcionalmente amadurecidas: sim, elas experimentam mudanças importantes, mas não se transformam naquelas crianças absurdamente precoces de Hollywood. Em certo instante, por exemplo, um pequeno corte na mão leva Bobo a chorar apavorada, enquanto, mais tarde, o trio decide pedir esmolas para comprar uma guitarra apenas para gastar o que arrecadaram com guloseimas.

Assim, quando chegamos ao fim da projeção, somos capazes de perceber o amadurecimento das meninas, mas ainda enxergamos nestas as quase crianças que conhecêramos duas horas antes – e, assim, vibramos não em função de uma vitória implausível e clichê, mas por termos acompanhado três criaturas adoráveis (na maior parte do tempo, pelo menos) em alguns momentos que, mesmo prosaicos, se mostraram fundamentais em suas ainda breves existências. (4 estrela em 5)

6) Nebraska (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Alexander Payne. Com: Will Forte, Bruce Dern, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Angela McEwan.

O cineasta Alexander Payne é um perito em contar histórias de homens de meia-idade deslocados e incompletes que, na maior parte das vezes, acabam partindo em algum tipo de jornada externa que reflita a interna que já vivem: foi assim com Eleição, Sideways, As Confissões de Schmidt, Os Descendentes e, agora, com este belo Nebraska  – o primeiro longa de sua carreira cujo roteiro não traz também sua assinatura.

Escrito pelo estreante Bob Nelson, o filme acompanha o triste David (Forte), que, recentemente abandonado pela namorada e trabalhando como vendedor de aparelhos eletrônicos, tem se preocupado com a saúde mental do pai, Woody (Dern), desde que este recebeu uma propaganda de revistas pelo correio que usava um possível prêmio de um milhão de dólares como atrativo para assinar as publicações. Sem saber que aquilo se tratava de um mero esquema de marketing, o velho Woody decide viajar para Nebraska a fim de receber o dinheiro – e depois de tentar convencê-lo a desistir, David resolve levar o pai como forma de acalmá-lo. No processo, acabam visitando a cidade na qual seus pais se conheceram e os parentes que lá se encontram.

Fotografado em um preto-e-branco pouco inspirado, mas que serve para ressaltar a atmosfera entristecida da narrativa, Nebraska é um filme cuja melancolia é construída não só pela falta de cores, mas também pelos modos sem vida de seus personagens e pela bela trilha de Mark Orton. Assim, quando aos poucos vamos percebendo todos os ressentimentos existentes na relação entre David e o pai, bem como as mágoas guardadas por seu irmão Ross (Odenkirk) e pela mãe Kate (Squibb), constatamos os esforços necessários para que o protagonista leve a viagem adiante depois de uma vida de abandonos e alcoolismo experimentada pelo senhor que agora acredita ter se tornado um milionário.

A própria motivação que inspira Woody a insistir no prêmio, aliás, é algo que se torna clara gradualmente, já que inicialmente ele declara querer apenas uma caminhonete nova e um compressor de ar – e, portanto, quando aos poucos vamos conhecendo melhor o sujeito e também sua esposa de décadas, nossas percepções vão se ajustando de forma curiosa e reveladora. Assim, se a princípio enxergamos Woody apenas como um homem cruel e relapso, eventualmente somos capazes de identificar sua generosidade, ao passo que sua esposa, que percebíamos apenas como uma vítima dos humores do marido, expõe suas próprias falhas que nos levam a entender, em parte, o tipo de relação que o casal mantinha entre si e com os filhos. Não que um ou outro se revele uma má pessoa; Nebraska é sensível demais para pintar o mundo de forma unidimensional. Em vez disso, o filme nos oferece personagens complexos que se mostram capazes de atos mesquinhos e também admiráveis dependendo do momento e das circunstâncias.

O mais surpreendente no longa, porém, é seu senso de humor – e Payne obviamente se diverte bastante na apresentação de toda a família Grant, cujos modos introspectivos são capazes de gerar instantes hilários. Além disso, a personalidade forte e ácida de Kate, vivida de forma inspiradíssima por June Squibb (que merece ser lembrada na temporada de premiações), extrai graça de sua insistência em emitir juízo de valor sobre todas as pessoas de seu passado. Neste aspecto, a decisão do cineasta de escalar comediantes como Will Forte e Bob Odenkirk revela-se acertadíssima, já que estes se mostram igualmente confortáveis nas cenas densas e leves ao longo da projeção.

Forte, em particular, surpreende como um protagonista cuja natureza pode ser resumida pelo fato de ter recebido o nome de um bebê morto aos dois anos de idade: fraco e derrotado, David é um homem facilmente esquecível que parece viver no piloto automático – e é preciso dar créditos ao ator por conseguir evocar, ao mesmo tempo, o orgulho que sente do irmão mais velho e a pontada de inveja que experimenta ao confirmar para os parentes que Ross é bem-sucedido profissionalmente. O mais comovente, contudo, é perceber como David se revela um filho melhor do que Woody foi como pai, demonstrando uma generosidade tocante para com um homem que, percebemos, não fez muito por merecê-la.

Ainda assim, se a aproximação dos dois homens convence e comove, isto se deve não só à dinâmica dos atores que os vivem, mas à maneira com que o veterano Bruce Dern constrói Woody, expondo um remorso subjacente mesmo nos momentos mais brutos do sujeito. Woody Grant pode não ter sido um bom pai de família, mas, ao seu próprio modo, pagou e penitenciou-se por isso – e quando David pergunta se ele tinha determinado sonho na juventude, sua resposta “Não me lembro” é trágica por expor que não apenas estes sonhos não importam como se transformaram, na falta de sua concretização, em puro lamento. (4 estrelas em 5)

7) Eu Sou Divine (I Am Divine, EUA, 2013). Dirigido por Jeffrey Schwarz.

Harris Glenn Milstead era um sujeito obeso de olhos claros que cresceu como um rapaz tímido que, vítima de bullying constante na escola, preferia permanecer ao lado da mãe em vez de aproveitar os momentos de folga. Que ele tenha se transformado na drag queen Divine, musa inconteste do Cinema de John Waters, é um mistério que este documentário de Jeffrey Schwarz consegue explicar com bastante eficiência mesmo se revelando estruturalmente convencional demais para o personagem que homenageia.

Interessante ao trazer imagens de arquivo, fotos e depoimentos de praticamente todas as figuras fundamentais na história de Divine (“uma obra de arte ambulante”, como descreve alguém), o filme ainda peca pelas animações constrangedoras que amarram as pontas da narrativa, iniciando com uma cegonha roxa que deposita Glenn na chaminé de casa, deixando um rastro de purpurina, até a colagem ridícula que o transforma em um anjo nos segundos finais.

É uma sorte, porém, que entre estas duas pontas Divine possa nos divertir e impressionar com sua vivacidade e coragem artística. Pena que estas tenham surgido de seu sofrimento na juventude e não tenham sido devidamente recompensadas na velhice que ela não conseguiu atingir. (3 estrelas em 5)

8) Nossa Querida Freda (Good Ol’ Freda, EUA, 2013). Dirigido por Ryan White.

Há tantos livros, documentários, artigos e livros sobre os Beatles que parece impossível, a esta altura, descobrirmos alguma informação realmente nova sobre a história da banda. Assim, é preciso dar créditos a este documentário por nos apresentar a um elemento pouquíssimo conhecido da trajetória dos quatro rapazes de Liverpool: a colaboração importante de Freda Kelly, que, aos 17 anos, tornou-se secretária da empresa formada por Brian Epstein para cuidar da carreira do grupo.

Simpática e discreta (seu “não” ao ser indagada sobre se teria se envolvido com algum dos Beatles é precedido por um pausa suficiente para que imaginemos um “sim”), Freda não se tornou milionária ou famosa mesmo tendo participado da história dos Beatles por mais tempo que o próprio Ringo Starr, já que foi contratada quando Pete Best ainda era o baterista. Oferecendo uma visão mais intimista do cotidiano dos rapazes e de suas famílias, ela se torna uma narradora carismática e adorável, carregando o filme sem dificuldade.

É uma pena, portanto, que ao final das contas Nossa Querida Freda não tenha muita coisa de novo a oferecer além da personagem e que, além disso, peque por não trazer depoimentos dos dois membros remanescentes dos Beatles (Starr manda uma mensagem durante os créditos finais, mas só). Ainda assim, para fãs da banda, qualquer coisa sobre o grupo acaba sendo um presente, memorável ou não. (3 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos