Festival do Rio #07

Abraço ao aluno Luca, que me cumprimentou na saída de uma das sessões do dia, e um beijo especial à jovem leitora Ully, que me deixou comovido com seu carinho antes da sessão de Only Lovers Left Alive.

Mas vamos aos filmes:

33) Joe (Idem, EUA, 2013). Dirigido por David Gordon Green. Com: Nicolas Cage, Tye Sheridan, Gary Poulter, Erin Elizabeth Reed.

Filme profundamente triste e povoado por personagens sem qualquer esperança no futuro, Joe é ancorado não só por uma direção sólida de David Gordon Green, que vem tentando se distanciar de seus tropeços cômicos em Sua Alteza? e O Babá(ca), mas também pela melhor atuação de Nicolas Cage desde Vício Frenético.

Escrito por Gary Hawkins a partir de um livro de Larry Brown, o longa se passa em uma pequena comunidade do Texas na qual vive Joe Ransom (Cage), que emprega trabalhadores locais na tarefa de envenenar árvores para que, já mortas, possam ser cortadas por fazendeiros da região sem que isto seja considerado crime. Certo dia, o sujeito conhece o jovem Gary (Sheridan), que se mudou para a cidade com a família depois que o pai alcoólatra, Wade (Poulter), foi mais uma vez escorraçado de onde moravam em função de suas ações. Aos poucos, Joe e Gary vão se tornando próximos, mas a amizade é complicada pelo temperamento explosivo do primeiro e pelos problemas do segundo com o pai.

Mostrando-se surpreendentemente contido pela primeira vez em muitos anos (mesmo exibindo um ou outro “cageísmo” pontual), Nicolas Cage oferece aqui uma das melhores performances de sua carreira: seu Joe é um homem simpático com os conterrâneos e adorado por quase todos, mas que obviamente enfrenta sérios problemas de personalidade. Estourado, alcoólatra e claramente depressivo e autodestrutivo, o sujeito já bebe uma dose de uísque ao acordar e parece estar lutando o tempo inteiro para controlar seus impulsos de agressividade. Ainda assim, ele demonstra uma preocupação genuína para com a garota que lhe pede abrigo e, especialmente, para com o adolescente que claramente tem sido uma vítima desde o nascimento. Trata-se de uma composição delicada, complexa e repleta de carisma que Cage acerta do início ao fim – e se o ator não for indicado a prêmios importantes, isto se deverá, infelizmente, à má fama adquirida nos últimos anos.

Enquanto isso, o jovem Tye Sheridan continua a construir a carreira mais meteórica dos últimos anos: depois de atuar nos excelentes A Árvore da Vida e Amor Bandido, o garoto volta a demonstrar imenso talento como Gary, que se mostra simultaneamente vulnerável e determinado. Em um instante, o menino se mostra revoltado com as atitudes do pai para, no momento seguinte, surgir brincando com o velho bêbado, evidenciando sentimentos conturbados que contrapõem sua lealdade familiar às dores trazidas pelo outro ao longo dos anos. Ainda assim, a grande revelação de Joe é mesmo o estreante Gary Poulter, que transforma Wade em um sujeito horripilante. Sempre bêbado, o velho é um homem de caráter violento e impulsivo, degradando a si mesmo e à família sem hesitar desde que isto possa lhe render uma dose a mais de álcool – e é realmente trágico que Poulter, um morador de rua, tenha morrido de forma trágica apenas meses depois desta sua estreia (e se considerarmos o desgaste de seu rosto, que parece muito mais velho que o de um homem de 53 anos, podemos constatar que há muito de sua vida na composição do personagem).

Hábil ao retratar o cotidiano daquela comunidade e empregando, como é seu hábito, rostos comuns em quase pontas, David Gordon Green adota uma abordagem simples e direta na maior parte da narrativa, evitando movimentos de câmera ou composições que chamem a atenção para si mesmos – o que não o impede, em certos momentos, de fazer opções corajosas como ao trazer um rápido plano no qual Gary empurra a câmera para longe de si, evidenciando sua raiva contida e o desejo compreensível de evitar o escrutínio por parte do espectador. Além disso, a rima visual criada entre o primeiro e o último plano do longa, que adotam quadros similares e, com isso, expõem claramente a evolução do personagem que aparece em ambos os momentos, demonstra inteligência e sensibilidade por parte do cineasta.

Sem medo de enviar o público para fora da sala de exibição tomado pela mesma angústia que corrói seus personagens, Green cria, em Joe, seu melhor trabalho. Que ele continue neste caminho. (4 estrelas em 5)

34) Clear History (Idem, EUA, 2013). Dirigido por Greg Mottola. Com: Larry David, Jon Hamm, Kate Hudson, Danny McBride, Amy Ryan, J.B. Smoove, Michael Keaton, Philip Baker Hall, Bill Hader, Liev Schreiber, Eva Mendes.

Quem assistiu a Curb Your Enthusiasm ou a qualquer episódio de Seinfeld, os dois projetos mais famosos de Larry David, saberá o que esperar de Clear History, que o comediante co-escreveu ao lado de Alec Berg, David Mandel e Jeff Schaffer, todos antigos companheiros daquelas empreitadas: um humor autodepreciativo e repleto de neuroses que, na maior parte do tempo, parece surgir se concentrar nas reclamações do protagonista acerca de todas as pequenas e grandes imperfeições do mundo e das pessoas que tornam sua existência tão difícil.

Quando o longa tem início, David surge como o executivo de marketing Nathan, que, investidor de uma empresa que se encontra prestes a lançar um novo carro elétrico, não consegue aceitar a ideia de que o veículo seja batizado de “Howard” e acaba perdendo suas ações – que, pouco depois, valeriam um bilhão de dólares. Transformando em sinônimo de fracasso, ele se muda para uma ilha e assume uma nova identidade até que, dez anos mais tarde, seu antigo sócio (Hamm) compra uma casa no local. Desejando se vingar, Nathan se une ao enlouquecido Joe Stumpo (Michael Keaton, irreconhecível) com o objetivo de explodir a construção.

Esta trama, porém, é só uma desculpa que serve como base para cenas e mais cenas nas quais David se dedica a falar sobre anões, sobre sua resistência a dividir a cama com uma mulher (não para sexo, mas apenas para dormir) e, claro, sobre a falta de higiene de um restaurante que deposita os talheres diretamente sobre a mesa. Soando improvisados na maior parte do tempo, estes diálogos são moderadamente divertidos, mesmo que muitas vezes se arrastem mais do que deveriam e fujam completamente do propósito principal da trama – embora, sejamos honestos, seja exatamente isso que qualquer um esperaria de um veículo de Larry David.

Isto, porém, gera algumas incongruências na narrativa: em certo momento, Nathan é apresentado como um dos cidadãos mais queridos daquela pequena comunidade, mas, ao longo da projeção, tudo o que ele faz é irritar os conterrâneos e reclamar de tudo e de todos – o que, claro, torna implausível que, depois de dez anos, ele seja visto com tanto carinho. Além disso, a insistência da trilha óbvia de Ludovic Bource para salientar as passagens engraçadinhas do filme acaba se tornando irritante (além de ser completamente desnecessária).

Beneficiado por um elenco composto por nomes de peso (o que demonstra o poder de Larry David), Clear History é uma comédia irregular que, dirigida de forma burocrática por Greg Mottola (do excepcional Superbad), parece funcionar mais quando opta por uma abordagem mais sutil – como, por exemplo, nos dois momentos em que gags visuais ocorrem ao fundo enquanto outros personagens surgem em primeiro plano sem perceber o que ocorreu.

Mas como um veículo para explorar a persona de seu protagonista, o filme exerce bem sua função. (3 estrelas em 5)

35) Real (Riaru: Kanzen naru kubinagaryû no hi, Japão, 2013). Dirigido por Kiyoshi Kurosawa. Com: Takeru Satô, Haruka Ayase.

Koichi e Atsumi (Satô e Ayase) são um jovem casal que, demonstrando felicidade pela vida que levam, logo são destruídos por uma tragédia: em coma há um bom tempo depois de tentar suicídio, a moça não demonstra sinais de recuperação, o que leva os médicos a uma medida desesperada, estabelecendo uma ligação com seu inconsciente através de uma tecnologia inovadora que permite que seu marido entre em sua mente e tente incentivá-la a despertar.

Dirigido e co-escrito por Kiyoshi Kurosawa, do belo Sonata de Tóquio, este Real parte de uma premissa interessante que, infelizmente, logo é demolida por um roteiro estúpido, efeitos visuais medíocres e uma direção entediante e pouco imaginativa. Sem demonstrar embaraço por tentar introduzir conceitos como “zumbis filosóficos” e preso a dois atores que se mostram constrangedoramente ruins, o longa surge como uma mistura de Linha Mortal, A Origem, Jurassic Park (pois é) e um roteiro de M. Night Shyamalan, embora suas reviravoltas, além de estúpidas como aquelas de A Vila, Sinais e companhia, sejam tão absolutamente previsíveis.

Até agora, este é o pior filme que vi no Festival do Rio – e espero muito que esta posição seja mantida. Caso contrário, temo por minha sanidade. (1 estrela em 5)

 

36) Os Belos Dias (Les beaux jours, França, 2013). Dirigido por Marion Vernoux. Com: Fanny Ardant, Patrick Chesnais, Laurent Lafitte.

Aos 64 anos de idade, a musa francesa Fanny Ardant permanece belíssima e jovial – e, assim, não deixa de soar estranho vê-la, em Os Belos Dias, interpretar uma dentista aposentada que ganha como presente das filhas um vale para frequentar um clube que oferece cursos e atividades para indivíduos da terceira idade. Infelizmente, se este estranhamento poderia resultar em um filme curioso ao explorar os limites e ansiedades que todos atravessaremos (mesmo aqueles que se parecem com Ardant), esta possibilidade logo é abandonada em prol de uma história tola que parece não compreender sequer a verdadeira natureza das ações de sua protagonista.

Baseado em um livro de Fanny Chesnel e adaptado pela autora ao lado da diretora Marion Vernoux, Os Belos Dias faz parte da recente onda de longas estrelados por personagens idosos que tentam reencontrar, no ato final da vida, algumas das mesmas paixões que os incendiaram na juventude – e é lamentável que, na maior parte, estas produções tenham se mostrado tão decepcionantes (vide O Exótico Hotel Marigold e E Se Vivêssemos Todos Juntos?). No caso desta produção francesa, o problema gira em torno de sua hesitação em abraçar a idade da personagem de Ardant: se por um lado ela tem 60 anos, por outro é uma mulher ativa e saudável que só se aposenta por ter se envolvido em um incidente no trabalho disparado pelo luto que experimentava em função da morte da melhor amiga. Assim, o filme quer se beneficiar da sensualidade de sua estrela enquanto tenta fingir que esta é uma “senhora”, resultando numa imagem conflitante que enfraquece a narrativa.

Mas não é só: desenvolvendo a história a partir do envolvimento entre Caroline (Ardant) e o professor de informática do clube (Lafitte), bem mais jovem que ela, Os Belos Dias inicialmente acerta ao mostrar a mulher insegura quanto aos próprios atrativos físicos, insistindo sempre em manter a luz apagada durante o sexo (por mais que seja difícil acreditar que uma mulher como aquela se envergonharia de sua forma física), mas eventualmente os papéis se invertem e é Julien quem parece temer o julgamento da outra. Para piorar, o roteiro jamais se decide quanto à maneira com que pretende tratar aquele romance, ora enxergando-o como algo belo, ora como um mero problema.

No entanto, o maior equívoco do projeto é sua cegueira diante do egoísmo de Caroline, cujas ações claramente machucam o marido, vivido com simpatia e energia por Patrick Chesnais – o que não a impede de, mesmo ciente disto, tomar atitudes que aos poucos levam o espectador a abandonar a celebração por sua ressuscitada paixão pela vida e a condenar o sofrimento que impõe ao companheiro de tantas décadas.

Não que Fanny Ardant pudesse fazer qualquer coisa a respeito, já que o problema se encontra no roteiro (e, na medida do possível, ela se mostra contagiante em sua alegria), mas é uma pena que um filme com potencial para se transformar num bom estudo de personagem tropece justamente por não conhecê-lo.

Divertido e envolvente especialmente em sua primeira metade, Os Bons Dias não é um fracasso, mas é certamente o desperdício de uma boa oportunidade. (3 estrelas em 5)

 

37) Only Lovers Left Alive (Idem, EUA/Inglaterra, 2013). Dirigido por Jim Jarmusch. Com: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska, John Hurt, Anton Yelchin, Jeffrey Wright, Slimane Dazi.

Os vampiros criados por Jim Jarmusch neste seu novo Only Lovers Left Alive são clássicos: só saem à noite, esperam um convite antes de entrarem na casa de alguém e podem ser mortos caso tenham o coração atravessado por madeira. Porém, ao contrário de boa parte de seus colegas vistos em outras obras de ficção, as criaturas aqui nada têm de animalescas ou violentas, se apresentando, em vez disso, como seres gentis e civilizados que, com uma postura secular, apreciam a Arte e a Ciência. Este, aliás, é o ponto-chave do longa de Jarmusch: o que esperar de seres que viveram por séculos e séculos a não ser algum grau de evolução?

Apaixonados ainda que vivendo em pontos distantes do planeta, Adam (Hiddleston) e Eve (Swinton) levam existências cercadas por música, livros e toda manifestação de expressão cultural. Amiga de Christopher Marlowe (Hurt), o poeta elisabetano que alguns insistem em apontar como o autor verdadeiro das obras de Shakespeare (tese que o filme advoga), Eve se preocupa com o amado, que, solitário, introspectivo e depressivo, compõe músicas apenas para consumo próprio, permitindo apenas vez por outra que algum mortal assuma os créditos por suas composições (Schubert entre eles). Viajando para Detroit a fim de ajudá-lo a superar sua mais recente crise existencial, ela teme que sua problemática irmã Ava (Wasikowska) se junte a eles – o que logo acontece, resultando em contratempos graves para o casal.

Interpretado por Tom Hiddleston como um sujeito farto de se decepcionar com o mundo ao seu redor, Adam demonstra seu amor pelo passado através de suas posses – e o ótimo design de produção imagina seu lar como um amontoado de vinis, móveis, telefones e televisões antigos. Admirador dos grandes cientistas de nossa História, Adam se mostra irritado com os destinos frustrantes de Aristóteles, Copérnico, Galileu e Tesla, demonstrando pouquíssima esperança em nossa capacidade de abraçar e explorar os avanços oferecidos pelo Conhecimento: “Eles ainda reclamam de Darwin. Ainda!”, protesta o sujeito, em determinado instante. Não é à toa que em sua casa há o que parece um pequeno altar dedicado a nomes que vão de Buster Keaton a Einstein, passando por Mark Twain e Edgar Allan Poe, como se ele tentasse se lembrar sempre de que, ao longo dos milênios, nomes inspiradores cruzaram o planeta.

Este esforço, porém, é dificultado pela presença de Ava, que a cada vez mais competente Mia Wasikowska encarna com impulsividade e arrogância. Tratada por Jim Jarmusch como um símbolo claro da decadência cultural das últimas décadas (aquela dedicada à dublagem, aos textos curtíssimos da Internet, à cultura da celebridade e ao eu-eu-eu das redes sociais), Ava é uma jovem que demonstra desprezo pelo conhecimento e pela sofisticação intelectual de seus parentes, não demorando a acusa-los de “esnobismo” – e eu não ficaria espantado caso ela também houvesse empregado a ofensa favorita dos medíocres: “pseudo-intelectuais”.

Batizando os mortais de “zumbis” e exibindo um claro desapontamento com os rumos que estes tomam, Adam e Eve se apresentam como dois lados da mesma moeda, o que se reflete em seus visuais: enquanto ele se veste sempre de preto (combinando com seus cabelos), ela adota roupas claras (de novo: seguindo os cabelos) – e o fato de cada um carregar um pingente que remete ao amado (ele traz um branco; ela, um preto), associado ao momento em que os vemos dobrados um sobre o outro, sugere uma imagem próxima do Taijitu, símbolo que representa o conceito taoísta do yin-yang.

Interessante também ao trazer os personagens usando nomes de personagens célebres da ficção sempre que são obrigados a assumir uma identidade falsa (Stephen Dedalus, Daisy Buchanan, Dr. Fausto), Only Lovers Left Alive ressalta sua visão secular ao empregar Adão e Eva justamente como os nomes que, oficialmente adotados pelo casal principal, são obviamente identidades que assumiram com o tempo.

Romântico em seu conceito de que apenas o compartilhamento de Arte e conhecimento poderiam ajudar seus vampiros a sobreviver através dos séculos, Only Lovers Left Alive é, ao mesmo tempo, um belo “filme de vampiro” e uma declaração de amor profunda – e desesperançosa – à imaginação e ao espírito criativo humanos. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos