Festival do Rio #08

Abraços aos alunos Gabriel, Tiago e Fárlei, que gentilmente me cumprimentaram nos intervalos da programação.

E ‘bora trabalhar:

38) O Conhecido Desconhecido: A Era Donald Rumsfeld (The Unknown Known, EUA, 2013). Dirigido por Errol Morris.

Ao escrever sobre Procedimento Operacional Padrão, há cinco anos, elogiei a abordagem do cineasta Errol Morris ao avaliar o papel das câmeras e da possibilidade de registro fotográfico no escândalo das torturas em Abu Ghraib, mas lamentei o fato de que, no processo, o documentarista deixava de voltar sua lente para os verdadeiros culpados por tudo aquilo: os engenheiros da “guerra contra o terror”. Pois é justamente isso que o diretor faz agora ao realizar seu segundo filme-entrevista protagonizado por um secretário de Defesa norte-americano: se em Sob a Névoa da Guerra ele interrogava Robert McNamara, desta vez Morris se concentra em Donald Rumsfeld, que ocupou o cargo no governo de Gerald Ford e – mais relevante aqui – durante seis anos do governo de George W. Bush.

Empregando seu já tradicional recurso de colocar um prisma diante da câmera para que o entrevistado, ao olhar para Morris, encare diretamente o espectador, O Conhecido Desconhecido nos oferece um olhar direto e próximo de Rumsfeld, que surge em primeiros planos que escancaram seus frequentes (e normalmente inapropriados) sorrisos enquanto discute algumas das principais passagens de sua vida. Sujeito inteligente e articulado, ele claramente se orgulha de sua infinita capacidade de oferecer não-respostas aos questionamentos do diretor, como ao dizer que as informações que recebeu da CIA sobre as armas de destruição em massa no Iraque “não eram exatamente precisas” (um eufemismo ofensivo para “eram completamente erradas”) e ao ser indagado sobre como a Al-Qaeda conseguiu atacar os Estados Unidos num golpe “incrível em retrospecto”, quando, em vez de reconhecer suas falhas, já que relatos da Inteligência apontavam para esta possibilidade há meses, diz apenas que “em retrospecto, tudo é incrível. Foi falha de imaginação”.

Famoso por seus inúmeros memorandos (o próprio Rumsfeld estima ter escrito milhões deles), o entrevistado é levado por Morris a ler várias passagens destes textos ao longo da projeção, transformando-os no esqueleto que dá forma à narrativa. Assim, enquanto reexamina a trajetória do ex-secretário de Defesa, o filme evidencia que, embora inteligente, o sujeito frequentemente cometia erros graves de interpretação e análise dos dados – muitos deles claramente intencionais, já que serviam aos interesses imediatos do governo Bush/Cheney. Além disso, Rumsfeld não hesita em defender a integridade dos administradores da prisão em Guantánamo Bay, negando de forma inacreditável todos os abusos fartamente documentados que ocorriam ali.

Neste aspecto, vale dizer, um dos elementos mais interessantes de O Conhecido Desconhecido é a maneira implacável com que Morris confronta Rumsfeld. Em certo instante, por exemplo, o protagonista afirma que em nenhum momento o governo tentou levar o público a acreditar que Saddam Hussein estivera envolvido nos ataques de 11 de Setembro – algo que o filme imediatamente desmente ao trazer imagens de arquivo nas quais o próprio Rumsfeld surge numa entrevista coletiva fazendo exatamente isto. Não que isto pareça constranger um homem que, ao ser flagrado mentido, imediatamente incorpora a informação à sua fala sem qualquer hesitação – como no momento em que diz que “não assassinamos líderes de outros países” apenas para, no segundo seguinte, descrever como bombardearam uma fazenda na qual Hussein supostamente se encontrava antes mesmo do início da guerra no Iraque.

Trazendo grafismos que exibem definições de dicionário na tela quando Rumsfeld cita determinados vocábulos, O Conhecido Desconhecido busca salientar, assim, a importância que o político atribui às palavras – cujo poder colossal é exposto através da trágica imagem de dezenas de lápides que ilustram a quantidade de vítimas das políticas de Bush/Cheney/Rumsfeld. Por outro lado, por mais que este último defenda de forma patética suas decisões, é impossível negar sua afirmação de que mesmo suas piores políticas acabaram sendo mantidas pelo Obama que tanto as criticava antes de assumir a presidência.

Expondo por 96 minutos o rosto gigante de Donald Rumsfeld na tela, o filme comprova que, visto de perto, todo mundo é humano – mas vai além e ilustra, também, que se formos ainda mais perto, acabaremos vendo o monstro por baixo da máscara do homem. (4 estrelas em 5)

39) Alabama Monroe (The Broken Circle Breakdown, Bélgica/Holanda, 2012). Dirigido por Felix van Groeningen. Com: Johan Heldenbergh, Veerle Baetens, Nell Cattrysse.

Com apenas dois minutos de projeção, ao ver a pequena filha do casal principal de Alabama Monroe recebendo uma injeção como parte de seu tratamento contra a leucemia, eu já sabia que o filme iria doer. E doeu. Aliás, este trabalho do diretor belga Felix van Groeningen é uma daquelas obras que, por mais que eu tenha apreciado, sei que jamais voltarei a assistir (uma categoria na qual se encaixam também O Quarto do Filho e Amor) – e isto é, acreditem, um elogio.

Baseado na peça co-escrita pelo protagonista Johan Heldenbergh, o roteiro de Carl Joos e do próprio van Groeningen acompanha a trajetória do casal Didier (Heldenbergh) e Elise (Baetens). Fazendeiro, músico e apaixonado pelo bluegrass e pela cultura norte-americana, ele rapidamente se apaixona pela tatuadora Elise, que, por sua vez, não demora a se encantar pelo sujeito, tornando-se até mesmo vocalista de sua banda. Anos mais tarde, já morando juntos e pais de uma adorável garotinha de seis anos de idade, Maybelle (Cattrysse, encantadora), os dois enfrentam a doença da filha, que desestabiliza uma união até então harmoniosa.

Com uma estrutura que salta de forma fluida entre passado, presente e futuro ao longo da narrativa, demonstrando a eficiência do montador Nico Leunen, o filme emprega a falta de linearidade cronológica de maneira inteligente para aliviar pontualmente a pesada carga dramática da história ao mesmo tempo em que nos torna mais familiarizados com os personagens. Assim, logo depois de uma cena particularmente trágica, Alabama Monroe retorna ao instante no qual o casal se conheceu, oferecendo espaço para o espectador voltar a respirar e permitindo que nos aproximemos ainda mais daquelas pessoas. Além disso, as composições sensíveis de Heldenbergh e Baetens são fundamentais para a eficiência do projeto: enquanto ela compõe uma mulher que vai da alegria e da leveza à depressão profunda e ao desespero, ele transforma Didier em um gigante de coração gentil que, mesmo devastado, busca oferecer apoio à mulher que ama – até que o esforço acaba permitindo que a amargura extravase de maneira terrivelmente pública.

Amarrado por sequências musicais que trazem as apresentações da banda de Didier, Alabama Monroe usa a seleção das canções incidentais de forma sábia, oscilando entre melodias alegres e melancólicas como um reflexo não só da atmosfera da narrativa em cada ponto, mas do próprio estado de espírito dos personagens. Neste sentido, a ótima fotografia de Ruben Impens completa a experiência ao saltar de cores quentes e agradáveis a paletas frias e dessaturadas.

Representando o pior pesadelo de qualquer pai, Alabama Monroe (e talvez seja melhor só ler o restante deste texto caso já tenha visto o filme) é um retrato aterrorizante da perda e do luto. Se montar o quarto dos filhos representa um momento de esperança, alegria e expectativa, ser obrigado a desfazê-lo, empacotando os brinquedos antes amados pela criança e suas pequenas e coloridas roupas é uma tarefa cruel e inclemente – e que só é rivalizada pela dor de ver, ainda pregados na geladeira, os desenhos infantis de um pequeno artista agora morto.

Não é à toa que tão poucos casamentos sobrevivem à perda de um filho – o que confere um novo significado ao “até que a morte os separe” -, já que, de certa forma, é como se o parceiro se tornasse uma lembrança viva e constante daquela dor: ali estão os olhos da criança ou o formato do rosto ou a cor dos cabelos ou um tique facial ou…

… não. Mais fácil, de certa forma, é se obrigar a mais uma perda do que se manter torturado pela original.

E uma das grandes virtudes de Alabama Monroe é justamente sua capacidade de retratar esta dor compartilhada de forma tão intensa e real. Além disso, ao contrastar a crença de Elise ao ateísmo de Didier, o filme consegue abordar duas maneiras diversas de enxergar a morte, demonstrando que nenhuma delas oferece conforto ou alívio de fato. Sim, aqui e ali o roteiro parece se entregar à pregação sobre a crença ou à falta de, mas ao menos é honesto ao – na maior parte do tempo – tratar as duas vertentes de forma equilibrada, tropeçando apenas ao optar por um recurso cinematográfico desonesto para, de certa maneira, evidenciar que a visão religiosa/metafísica era a “correta”.

O propósito, claro, é enviar o público para fora da sala de projeção com algum grau mínimo de consolo, mas isto ocorre às custas da integridade temática do longa, o que é lamentável.

Ainda assim, Alabama Monroe, candidato da Bélgica ao Oscar 2014, é denso e impactante o bastante para superar este equívoco e deixar uma impressão indelével na mente e na (falo simbolicamente) alma do espectador. (4 estrelas em 5)

40) Our Sunhi (U ri Sunhi, Coréia do Sul, 2013). Dirigido por Hong Sang-soo. Com: Yumi Jung, Lee Sunk-yun, Kim Sang-joong, Jung Jae-young.

Depois da pancada representada por Alabama Monroe, o sul-coreano Our Sunhi foi um antídoto eficiente. Iniciando já com uma cartela amarela de créditos acompanhada por uma música alegre, o filme de Hong Sang-soo é uma comédia curiosa que parece enxergar o lado divertido de seus personagens mesmo que estes se encarem com seriedade absoluta.

Seguindo o peculiar estilo do diretor, que, em vez de uma montagem tradicional usando planos/contraplanos e planos-detalhe, prefere empregar tomadas longas que usam deselegantes zooms para salientar determinados aspectos do quadro, o longa consiste em uma série de conversas entre a personagem-título e três homens que, em maior ou menor grau, se encontram encantados por sua beleza e acabam sendo por ela manipulados.

Com uma estrutura construída a partir dos paralelos entre as conversas, que trazem os personagens em longos planos que os posicionam de perfil para a câmera enquanto bebem e discutem as virtudes e defeitos de Sunhi, o projeto se mostra irregular justamente por, na maior parte do tempo, se resumir a conversas repetitivas entre bêbados pouco articulados e entediantes. Ainda assim, à medida que vamos nos familiarizando com a estratégia narrativa do diretor e percebendo o jogo de Sunhi (que parece determinada a provar não ser a “inocente” descrita no início da projeção), o filme se torna mais divertido e interessante.

Ao final, a impressão é a de que Our Sunhi se resume a um exercício de estilo atípico que vale mais pelo experimento do que pelo resultado alcançado. (3 estrelas em 5)

41) Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? (Jigoku de Naze Warui, Japão, 2013). Dirigido por Shion Sono. Com: Jun Kunimura, Shinichi Tsutsumi, Hiroki Hasegawa, Gen Hoshino, Fumi Nikaido.

Concebido como uma declaração (não: um grito) de amor pelo Cinema, Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? é um filme que traz personagens que se descrevem como “o rei do travelling” e “a rainha da câmera de mão”, o que já é um indício não só de sua abordagem, mas de seu senso de humor juvenil, empolgado e entregue a hipérboles.

Escrito e dirigido por Shion Sono, o roteiro se divide em narrativas paralelas que se concentram num grupo de cineastas amadores, em uma guerra entre duas facções rivais da Yakuza e no romance entre um jovem tímido e a antiga estrela de um comercial de creme dental. À medida que estas histórias começam a se cruzar, Sono passa a fazer uma série de referências/homenagens a gêneros clássicos do Cinema oriental, como os filmes de artes marciais e aqueles que abordam os confrontos da Yakuza, adotando também um estilo de violência estilizada que ultrapassa a fronteira entre o grosseiro e o cômico, divertindo pelo absurdo (algo característico, claro, dos filmes de Tarantino, que não só tem muitas das mesmas influências aqui vistas como certamente adoraria este longa).

Cobrindo a tela com litros de sangue e fotografado com um grão grosso que, aliado à cores saturadas e aos zooms e freeze frames, transformam o projeto em algo que poderia ter saído diretamente dos anos 70, o cineasta às vezes parece confundir “histeria” com “energia”, pecando especialmente no segundo ato, que acaba investindo numa gritaria interminável que mais incomoda que empolga. Aos poucos, porém, a narrativa recupera o foco, resultando em pequenas metáforas óbvias, mas ainda assim válidas (como a morte do projecionista), e, principalmente, num terceiro ato que, resumindo-se a uma longa sequência de ação complexa e inacreditavelmente sangrenta, surge como algo maior que um simples clímax, alcançando a sensação de catarse absoluta.

E a partir do momento em que vemos uma jovem retalhando inimigos em um campo florido, resultando em jorros de cores do arco-íris de seus peitos destroçados, Por que Você Não Vai Brincar no Inferno? comprova o poder do Cinema de transformar até mesmo a violência em algo… sublime. (4 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos