Festival do Rio #09

Hoje não fui cumprimentado por ninguém entre as sessões. Estou perdendo o carisma, pelo visto.

Já os filmes foram excelentes:

42) Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolismo, Romênia, 2013). Dirigido por Corneliu Porumboiu. Com: Bogdan Dumitrache, Diana Avramut, Mihaela Sirbu, Alexandru Papadopol.

Meu saudoso mestre, ídolo e amigo Roger Ebert costumava dizer que o que importa não é “sobre o que é um filme, mas sim como o filme é sobre o que é” – uma afirmação que é colocada à prova (e comprovada) no romeno Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo, que traz uma história tola (diretor se envolve sexualmente com atriz secundária de seu filme) originando um longa ambicioso e fascinante que discute a estética e a linguagem do Cinema.

Dirigido por Corneliu Porumboiu (do ótimo À Leste de Bucareste e do fraco Polícia, Adjetivo), o filme já estabelece a lógica narrativa que irá adotar logo em seu plano inicial, que traz o diretor Paul (Dumitrache) explicando para a amante Alina (Avramut) como o Cinema estará irreconhecível daqui a 50 anos por permitir, através do digital, que tomadas imensas sejam rodadas sem corte algum, contrastando com os 11 minutos máximos permitidos pelo rolo de 35mm – um cena que, não por acaso,  dura cerca de 10 minutos ininterruptos. A partir daí, como é característico no Novo Cinema romeno, cada cena de Metabolismo é apresentada em planos únicos e longos nos quais a câmera mal se move.

Refletindo desta maneira sobre sua própria maneira de fazer Cinema, o cineasta evidencia, com o filme, o fato óbvio (mas por muitos ignorado) de que a tecnologia afeta diretamente a linguagem da Arte: quando muda um, o outro acompanha inevitavelmente. Assim, é natural que Porumboiu logo passe a discutir também a importância da mise-en-scène na construção da narrativa, fazendo-o brilhantemente através de um uso bastante sutil da metalinguagem. Em certo instante, por exemplo, Paul ensaia uma cena na qual Alina deve sair do banho, escutar uma conversa no corredor e, abalada, retornar para o quarto, o que inspira uma discussão entre os dois sobre o que seria mais natural naquelas circunstâncias – e, claro, já na cena seguinte Paul sai do banho e, entreouvindo uma conversa da companheira no telefone, senta-se na cama, reproduzindo sem perceber a marcação de cena previamente discutida.

Da mesma maneira, o protagonista parece determinado a incluir uma cena em seu filme que traga a namorada nua, o que o obriga a tentar justificar aquela nudez – e, de novo refletindo os dilemas da história, o próprio Metabolismo logo traz uma cena de sexo sugerida apenas através dos gemidos do casal enquanto permanecemos diante de uma porta fechada (o que não o impede de, momentos depois, trazer a atriz nua, obrigando o espectador a refletir sobre a necessidade de ver o corpo de Diana Avramut).

É aí que reside o fascínio do longa, diga-se de passagem: no fato de comentar suas próprias opções narrativas. Obcecado pelo realismo, por exemplo, Paul insiste em obrigar Alina a secar o cabelo por dez minutos no filme-dentro-do-filme, mas o ensaio em si traz a garota fazendo os sons do secador com a boca e simulando sua ação através de mímica, o que, na prática, traz uma ação falsa sendo usada para reproduzir o simulacro de uma ação verdadeira. Com isso, Porumboiu não apenas escancara a importância do artifício no fazer cinematográfico como, paradoxalmente, usa o excesso de realismo como artifício de seu próprio filme.

Refletindo a importância dos meios de criação da Arte, Metabolismo ainda insiste com inteligência no tema ao trazer uma breve discussão sobre como a utilização do hashi (os “pauzinhos” usados como talheres na China) moldou a culinária chinesa, já que o foco dos alimentos passa a ser o conteúdo (sabor, cheiro, estética) em vez de os instrumentos para consumi-los, resultando em pratos sofisticados e complexos.

E, neste sentido, Metabolismo é um filme para ser apreciado com hashi, não com os brutos garfo-e-faca. (5 estrelas em 5)

43) O Imigrante (The Immigrant, EUA, 2013). Dirigido por James Gray. Com: Marion Cotillard, Joaquin Phoenix, Jeremy Renner, Dagmara Dominczyk, Angela Sarafyan.

O Imigrante* é uma obra com valores de produção fabulosos que, fortalecido pelo ótimo elenco, tem uma tendência alarmante de se entregar ao melodrama, como se parecesse desesperado para provocar as lágrimas do espectador. Sim, a trajetória da protagonista é dura e triste e os demais personagens são criaturas melancólicas em um mundo hostil, mas, justamente por isso, teria sido melhor se o diretor e roteirista James Gray houvesse permitido que o espectador apreendesse aquele sofrimento em vez de ser por ele martelado.

Ambientado em 1921, quando a imigrante polonesa Ewa Cybulski (Cotillard) chega a Nova York ao lado da irmã Magda (Sarafyan), o filme acompanha a moça quando esta é ameaçada de deportação e resgatada pelo judeu Bruno Weiss (Phoenix), que suborna um guarda a fim de retirá-la da ilha Ellis. Weiss, porém, não tem intenções nobres, já que imediatamente escala Ewa em seu espetáculo burlesco em uma pequena bodega que vende bebidas ilegais. Determinada a juntar dinheiro para resgatar a irmã, que encontra-se detida na ilha por apresentar sintomas de tuberculose, a protagonista logo se entrega à prostituição enquanto Bruno, que se descobre apaixonado pela moça, se debate entre o pragmatismo e o amor. E é então que, para complicar ainda mais o quadro, entra em cena o mágico Orlando (Renner), que compete com o outro pelo afeto da bela polonesa.

Trazendo uma fotografia belíssima de Darius Khondji, que, filmando a Nova York da década de 20 em tons de sépia e pontualmente mergulhada nas sombras, parece emular o trabalho de Gordon Willis em O Poderoso Chefão Parte 2, este O Imigrante faz um trabalho de recriação de época soberbo, desde os figurinos sujos e amarrotados até os prédios certamente construídos através da computação. Porém, mais importante que isso é a habilidade de Gray de conferir calor humano àqueles personagens tão miseráveis, que jamais surgem como simples mocinhos e vilões, mas como como indivíduos multifacetados que, mesmo odiando as próprias ações, são obrigados a executá-las a fim de se manterem vivos.

Neste aspecto, a performance de Joaquin Phoenix é particularmente bem-sucedida: seu Bruno é um homem que, inicialmente apresentando-se como um amigo gentil e interessado no bem-estar de Ewa, logo revela uma faceta explosiva e raivosa. Ainda assim, em nenhum momento questionamos o amor que ele genuinamente sente pela moça, mesmo que – como aponta Orlando – ele pareça mandar mensagens opostas ao seu sentimento, já que agencia o aluguel de seu corpo a estranhos. Desta maneira, um dos aspectos mais interessantes do filme reside em nossas expectativas constantes quanto às ações e reações de Bruno, sendo uma pena que, no terceiro ato, ele acabe se entregando a um monólogo que expõe de forma verbalizada o que era muito mais instigante quando apenas sugerido através de suas atitudes. Enquanto isso, Marion Cotillard encarna Ewa como uma mulher estoica que, inicialmente ingênua e frágil, logo se torna uma criatura cínica e amarga, ao passo que Jeremy Renner, como Orlando, pouco pode fazer com o personagem a não ser vivê-lo como um homem apaixonado e, por isso mesmo, propenso a fazer tolices.

Cruzando eventualmente a fronteira rumo ao melodrama, O Imigrante logo parece criar situações trágicas apenas com o intuito de trazer sua protagonista em desespero, o que, claro, apenas deixa o espectador mais consciente da manipulação da narrativa. Por outro lado, é impossível não se encantar com a beleza das imagens criadas por Khondji, destacando-se, claro, o plano que traz um personagem sendo surrado em um túnel e aquele, absolutamente magnífico e repleto de simbolismos, que encerra a projeção.

Marcando a quarta colaboração entre Gray e Phoenix (depois de Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite e Os Amantes), O Imigrante é, também, a mais fraca delas – o que não quer dizer que o filme seja ruim. Apenas decepcionante.

* O título que o filme ganhou no Festival do Rio é obviamente incorreto, já que o artigo deveria estar no feminino. (3 estrelas em 5)

 

44) De Terça a Terça (De Martes a Martes, Argentina, 2012). Dirigido por Gustavo Triviño. Com: Alejandro Awada, Pablo Pinto, Malena Sánchez, Daniel Valenzuela.

Benítez (Awada) é um sujeito grande demais para ser tão tímido. Dedicando-se exaustivamente ao próprio corpo, o rapaz é tão forte que, ao ser contratado como segurança, o propósito de seus empregadores é justamente que ele não tenha que brigar, intimidando potenciais baderneiros apenas através de seu físico imponente. Assim, é curioso que ele seja tão inseguro, mal abrindo a boca na fábrica de roupas na qual trabalha e sendo constantemente provocado pelo chefe e por colegas da empresa. Por outro lado, pai e marido atencioso, ele sonha em abrir uma academia de ginástica, o que, no entanto, requer um investimento acima de suas condições financeiras.

E é aí que o filme escrito e dirigido por Gustavo Triviño começa a se complicar: se na primeira metade da projeção, De Terça a Terça havia se concentrado em nos apresentar ao cotidiano do personagem, a partir de então ele decide ser momento para desenvolver a trama, levando o protagonista a testemunhar um estupro e à decisão de chantagear o obviamente rico estuprador. A partir deste momento, o longa começa a perder o espectador, já que, de imediato, é impossível não nos afastarmos de Benítez ao vê-lo acompanhando o crime sem fazer nada mesmo tendo total capacidade de impedi-lo. Pior: o filme nem mesmo considera a possibilidade de que o sujeito tenha sido co-responsável por omissão, parecendo acreditar que o fato de buscar fazer justiça, no final das contas, é o bastante para provar seu caráter.

De todo modo, De Terça a Terça conta sua historinha simples de maneira eficiente, levando-nos a torcer para que o plano de Benítez dê certo (mesmo que condenemos sua atitude, ele é menos pior que o estuprador, claro). Claro que, no processo, não há muita tensão ou mesmo drama, mas ao menos o roteiro conduz a trama do ponto “A” ao inevitável e previsível ponto “B” sem se perder.

Seja como for, ver as estatísticas dos crimes de estupro na Argentina surgindo na tela, ao final da projeção, soa mais como um cinismo descarado da produção, que parece tentar ganhar uma conotação social séria que não fez por merecer, do que como algo apropriado naquele espaço. Àquela altura, porém, o público já está deixando a sala com um sorriso moderadamente satisfeito graças ao que viu. (3 estrelas em 5)

 

45) O Lobo Atrás da Porta (Idem, Brasil, 2013). Dirigido por Fernando Coimbra. Com: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Fabiula Nascimento, Juliano Cazarré, Emiliano Queiroz, Tamara Taxman, Thalita Carauta, Isabelle Ribas.

O Lobo Atrás da Porta, longa de estreia de Fernando Coimbra, é um animal estranho: em um momento, provoca o riso aberto em função do desespero de um personagem apenas, para no instante seguinte, despertar o horror no espectador quando aquele mesmo indivíduo age para resolver a questão que o perturba. Equilibrando-se com uma segurança invejável entre o drama, a comédia, o estudo de personagem e, nos dez minutos finais, pelo suspense, o filme envia o público para fora da sala com uma sensação de vergonha por ter rido quando a narrativa assim o quis.

Roteirizada pelo próprio diretor, a história tem início quando Sylvia (Nascimento) vai até a creche da filha pequena (Ribas) para buscá-la e descobre que a menina já havia sido apanhada por uma “vizinha”. Sem poder imaginar por que alguém sequestraria a garota, já que seus pais estão longe da riqueza, a desesperada mulher sugere que o marido pode ter uma amante – e logo o sujeito, Bernardo (Cortaz), confirma que manteve um caso com a jovem Rosa (Leal). A partir daí, o detetive responsável (Cazarré) interroga os três adultos, descobrindo, aos poucos, o que realmente ocorreu naquele dia.

Surpreendente por extrair humor de uma situação tão séria, o filme é beneficiado especialmente pelas atuações impecáveis de Leal, Cortaz e Nascimento: enquanto esta última denota não só a preocupação com a filha, mas também a impaciência com o marido durante os flashbacks nos quais começa a desconfiar do caso que este mantém, Milhem Cortaz consegue se desprender do tipo brutamontes/malandro que normalmente encarna ao transformar Bernardo num sujeito patético, fraco e desesperado, conseguindo simultaneamente fazer com o que o espectador ria de sua situação e compreenda a seriedade do que está ocorrendo.

Ainda assim, O Lobo Atrás da Porta pertence mesmo a Leandra Leal, que cria uma personagem cuja transformação ao longo da projeção impressiona, partindo do flerte descompromissado à obsessão absoluta, passando pela paixão contida, a frustração crescente e a raiva. Jamais perdendo de vista a trajetória emocional e psicológica de Rosa, a bela atriz impressiona particularmente numa cena em que, agredida pelo amado, se entrega às lágrimas e a um tremor nervoso que revela seu medo e sua dor diante do ocorrido. Leal sempre foi uma atriz admirável, mas aqui comprova merecer estar no topo da lista das grandes intérpretes do Cinema nacional (e percebam que nem cheguei a mencionar sua performance no terço final, que transforma a Glenn Close de Atração Fatal em Amélie Poulain sem jamais soar caricata ou artificial).

Fotografado pelo sempre competente Lula Carvalho de maneira claustrofóbica, com quadros quase sempre fechados que nos colocam colados aos rostos dos atores, o filme ainda traz uma paleta triste e sombria que se torna gradualmente mais sufocante. Além disso, a narrativa é beneficiada por planos que comunicam a atmosfera da história sem a necessidade de diálogos – e quando Bernardo surge no extremo esquerdo do quadro, olhando para fora de campo e parecendo encurralado enquanto Rosa o observa do fundo e à direita, percebemos a dinâmica entre aqueles dois indivíduos de forma inequívoca. Enquanto isso, Fernando Coimbra é hábil ao criar pequenos movimentos que, mesmo nas versões “alternativas” (melhor: incompletas) das histórias, demonstram os pequenos momentos de verdade sob a mentira – como, por exemplo, no hábito da hilária Betty de ajustar o top o tempo todo.

Da mesma maneira, é admirável como o filme sugere toda um subtexto familiar envolvendo Rosa ao trazê-la buscando uma garrafa de bebida oculta numa vasilha que guardava arroz – o que, associado ao personagem quase catatônico de Emiliano Queiroz (sempre um ator evocativo, mesmo mudo), aponta para uma família vitimada pelo alcoolismo do sujeito, o que poderia explicar, em parte, o desequilíbrio emocional da garota. Além disso, embora Rosa se revele obsessiva e perigosa, O Lobo Atrás da Porta não absolve Bernardo, que se mostra um homem egoísta ao mentir para a jovem sobre seu estado civil e envolvê-la num relacionamento sem futuro – um ato babaca que, no entanto, nem chega aos pés da atitude vil que ele toma tempos depois.

Sem fazer concessões em seu ato final, mantendo-se íntegro ao desenvolvimento inevitável de seus personagens, este é um filme marcante que apresenta Fernando Coimbra como um cineasta a ser acompanhado de perto. (5 estrelas em 5)

postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos