Festival do Rio #10

Abraço carinhoso aos leitores Fernanda e Fábio, que foram tão gentis comigo num dos intervalos do dia.

Aproveito para explicar que os textos hoje estão mais curtos por motivos de exaustão absoluta. Mal aê.

46) Yema (Idem, Argélia, 2012). Dirigido por Djamila Sahraoui. Com: Djamila Sahraoui, Samir Yahia, Ali Zarif.

Escrito, dirigido e protagonizado por Djamila Sahraoui, Yema (“Mãe”) tem início de maneira simples e impactante ao trazer a personagem-título percorrendo um longo caminho em silêncio enquanto puxa uma esteira. Já em casa, a frágil mulher expõe o que carregava – o cadáver do filho – e passa a lavá-lo e a prepará-lo para um enterro solitário nos fundos de sua isolada casa. A partir daí, acompanhamos o cotidiano desta mulher que, constantemente vigiada por um jovem soldado do grupo fundamentalista comandando por seu outro filho, nutre verdadeira raiva pelo caçula, que considera responsável pela morte do irmão.

Dona de um rosto que traz uma profunda dignidade sob as bochechas encovadas e as rugas, Sahraoui constrói uma narrativa calcada nas ações mudas dos personagens, que, quando abrem a boca, normalmente dizem palavras raivosas e amarguradas. Adotando uma abordagem quase documental ao acompanhar a dinâmica entre a Mãe e o jovem soldado, Yema é um filme delicado e doloroso que se sustenta graças à forte presença da dupla principal e a uma montagem que conduz com segurança a passagem do tempo.

Longa repleto de símbolos – como a própria horta que acompanha o (res)surgimento de vida naquele local tão seco e poeirento, Yema é um trabalho politicamente consciente e dramaticamente eficaz. (4 estrelas em 5)

 

47) A Filha de Ninguém (Nugu-ui Ttal-do Anin Haewon, Coréia do Sul, 2013). Dirigido por Hong Sang-soo. Com: Jeong Eun-Chae, Lee Seon-gyun, Yoo Joon-sang, Ye Ji-won, Kim Ja-ok e Jane Birkin.

Novamente se entregando ao seu Cinema-alcoolismo, que traz personagens enchendo a cara enquanto discutem o amor, o futuro e trivialidades, o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo realiza, em A Filha de Ninguém, um estudo de personagem vazio sobre uma protagonista idem. Aliás, seria até arriscado afirmar que o longa realmente se propõe a ser um estudo de personagem, considerando que, ao final da projeção, nem sabemos ao certo o que era sonho ou realidade e quem, de fato, era aquela moça.

Para piorar, o estilo já normalmente contemplativo (aqui, um eufemismo para “aborrecido”) de Sang-soo, com seus planos longos que incluem zooms pontuais para ressaltar alguns detalhes, acaba se tornando um poderoso sonífero. (2 estrelas em 5)

48) Sacro GRA (Idem, Itália, 2013). Dirigido por Gianfranco Rosi.

Primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro em Veneza, Sacro GRA enfoca recortes do cotidianos de vários personagens que, em comum, têm apenas o fato de viverem nas proximidades do anel rodoviário que dá título ao filme e que, com cerca de 70 quilômetros de extensão, circunda Roma. Ao longo dos 90 minutos de projeção, o cineasta Gianfranco Rosi apresenta ao espectador figuras tão diversas quanto um botânico obcecado por palmeiras, um casal de aristocratas decadentes que vive numa mansão cafona, um pescador, um paramédico, duas strippers e a uma pequena família formada por pai e filha. Enquanto testemunhamos conversas destes indivíduos e vemos algumas reencenações claras de passagens de seus cotidianos, Rosi pinta um retrato abrangente da sociedade italiana e de suas aspirações, frustrações e dificuldades.

É, sem dúvida, um filme que traz momentos divertidos (para mim, o mais engraçado foi perceber que os aristocratas batizaram a pequena filha de Anastácia, numa aspiração de realeza tão óbvia quanto patética) e outros profundamente comoventes – como a conversa do paramédico com a mãe velhinha, que, com sinais de demência, insiste em tratá-lo como criança. Podendo apenas espiar através das janelas de um prédio (onde conhecemos simpáticos e divertidos pai e filha) ou ir ao camarim improvisado no qual strippers humildes fazem intervalos em seus tristes shows a fim de comer um rápido salgado com refrigerante, Sacro GRA é um longa humanista que ama seus personagens e trata-os com carinho. No entanto, o anel rodoviário usado como ponte da narrativa é tão grande que, como conexão temática, acaba sendo tênue demais.

Além disso, por mais que se esforce, o documentário jamais consegue se aproximar de fato daquelas pessoas, que se mantêm como tipos, não indivíduos – e é neste aspecto que um cineasta como Eduardo Coutinho costuma fazer a diferença. E, a julgar pelo prêmio concedido ao projeto, ou o Festival de Veneza estava particularmente fraco este ano ou os juízes jamais viram um filme do mestre Coutinho. (3 estrelas em 5)

 

49) Abuso de Vulnerável (Abus de Falblesse, França, 2013). Dirigido por Catherine Breillat. Com: Isabelle Huppert, Kool Sheen, Laurence Ursino.

Filme com fortes influências autobiográficas que inspirado no AVC sofrido pela diretora Catherine Breillat em 2004 e seu consequentemente envolvimento com um golpista que lhe roubou centenas de milhões de dólares, Abuso de Vulnerável é um trabalho frágil e autoindulgente que pode até ter servido como exercício terapêutico para sua realizadora, mas que, como narrativa, traz graves problemas do início ao fim.

Um deles – e isto me surpreendeu particularmente – é a terrível performance de Isabelle Huppert, que falha tanto na composição física das sequelas sofridas pela cineasta que interpreta aqui quanto em seus maneirismos e tiques vocais, incluindo a ridícula risadinha que costuma soltar por qualquer motivo. Como se não bastasse, o longa parece querer inaugurar a “pornografia do derrame”, concentrando a maior parte da projeção em cenas que se resumem a mostrar a protagonista perdendo o equilíbrio, mancando, inclinando-se para pegar algo e voltando a cair, levantando-se, experimentando dificuldades para entrar em um carro e por aí afora, como se Breillat quisesse salientar todos os problemas físicos – e ênfase no “todos” – que enfrentou após o AVC.

Sim, sua determinação ao se recuperar e voltar ao trabalho é admirável e poderia render um bom filme, mas o que vemos aqui soa quase como autopiedade somada à tentativa de entender como pode ter sido enganada por um golpista de métodos tão óbvios – e o pior: que ela sabia se tratar de um golpista. E que não conseguiu nem mesmo fazer o favor de inspirar um bom filme. (2 estrelas em 5)

50) Gravidade (Gravity, EUA, 2013). Dirigido por Alfonso Cuarón. Com: George Clooney, Sandra Bullock e a voz de Ed Harris.

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postado em by Pablo Villaça em Críticas, Premiações e eventos